40% da soja comercializada recebe o tratamento industrial de sementes

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Autores

Thaís Vitória dos Santos
thaisvitoria104@gmail.com
Denilze Santos Soares
denilzesoares@gmail.com
Luana Keslley Nascimento Casais
luana.casais@gmail.com 
Fabiana das Chagas Gomes Silva
fabianachagasfa@gmail.com
Graduandas em Agronomia – Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA)
Luciana da Silva Borges
Doutora e professora – UFRA e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Horticultura da Amazônia (HORTIZON) e Núcleo de pesquisa em agroecologia (NEA)
luciana.borges@ufra.edu.br

Crédito: Saulo Fantini

Tão importante quanto conduzir um sistema que proporcione altas produtividades, especialmente na parte do manuseio das sementes, é corrigir alguns erros que são cometidos nessa etapa tão crucial. Um dos principais é a compra de sementes não certificadas, ou piratas, um grande problema para o comércio legal de sementes e, claro, para o produtor rural.

Outro fator que é importante analisar é que não vai adiantar você dedicar todo um cuidado na compra das sementes e pecar justamente na hora que ela irá ser introduzida no solo, ou seja, erros na hora de manejar essa semente. Os produtores também cometem grandes erros quando tentam fazer na própria propriedade o tratamento dessas sementes, com erros de dosagem, de deposição, de profundidade e de acondicionamento, que são os equívocos que mais ocorrem.

Esses erros afetam a distribuição longitudinal das plantas, o tempo de descida da semente no solo, a germinação e a emergência da semente (quando não semeada na profundidade adequada) e a disponibilidade de água e ar para seu desenvolvimento, quando mal cobertas ou cobertas em solos compactados.

Mas, tais erros podem ser evitados com compra de sementes de qualidade e atenção em todas as fases do plantio. Um manejo adequado é crucial para a obtenção de uma boa lavoura.

Manejo

A função dos fungicidas de contato é proteger a semente contra fungos do solo, e a dos fungicidas sistêmicos é controlar fitopatógenos presentes nas sementes. Assim, é importante que os fungicidas estejam em contato direto com a semente. Existe o tratamento de sementes, feito na própria propriedade, e aquele tratamento feito de forma industrial.

O tratamento de sementes com fungicidas, inseticidas, micronutrientes e inoculantes pode ser feito nesta sequência com máquinas específicas para tal, desde que estas disponham de tanques separados para os produtos, uma vez que não foi, ainda, regulamentada a mistura de agrotóxicos em tanque (Instrução Normativa 46/2002, de 24 de julho de 2002, que revoga a Portaria SDA Nº 67 de 30 de maio de 1995). Em pequenas propriedades, o tratamento das sementes pode, também, ser realizado com tambor giratório ou betoneira.

Dentre as diversas vantagens que essas máquinas apresentam, em relação ao tratamento convencional (tambor), destacam-se:

l Menor risco de intoxicação do operador, uma vez que os fungicidas são utilizados via líquida;

l Melhor cobertura e aderência dos fungicidas, dos micronutrientes e do inoculante às sementes;

l Rendimento de 60 a 70 sacos por hora;

l Maior facilidade operacional, já que o equipamento pode ser levado ao campo, por possuir engate para a tomada de força do trator.

Vantagens para a soja

Em muitas empresas, o tratamento industrial de sementes (TIS) já faz parte das etapas do beneficiamento das sementes, sendo realizado com a utilização de equipamentos especiais e altamente sofisticados, os quais combinam a aplicação de fungicidas, inseticidas, micronutrientes, nematicidas, entre outros.

Este tipo de tratamento vem ganhando espaço no mercado de sementes de soja. No Brasil, cerca de 40% das sementes são tratadas neste sistema. Boa parte das empresas que comercializam sementes, realizam o tratamento no pré-ensaque, antes do armazenamento ou no momento da entrega das sementes ao produtor.

Este tratamento, realizado na UBS, apresenta uma série de vantagens em relação ao tratamento convencional (tambor ou betoneira), como:

Ü Precisão no volume de calda utilizado para o tratamento das sementes;

Ü Melhor cobertura da semente com o produto químico;

Ü Menor risco de intoxicação dos operadores e

Ü Maior rendimento por hora (existem no mercado máquinas para tratamento industrial com capacidade para tratar até 30 toneladas de sementes por hora).

Dicas importantes

O manejo vai do tratamento até a semeadura, sendo que o tratamento deve ser feito, preferencialmente, em tratadores de sementes, na unidade de beneficiamento. Durante a operação de tratamento, o fungicida sempre deverá ser aplicado em primeiro lugar, para garantir boa cobertura e a sua aderência às sementes.

Isto também vale para a adição de grafite nas sementes de soja (prática bastante usual entre os produtores, que objetiva proporcionar melhor fluxo das sementes na semeadora), o qual deverá ser incorporado às sementes após a aplicação dos fungicidas.

Entretanto, no caso da utilização de micronutrientes, a aplicação com fungicidas poderá ser feita de forma conjunta, antes da inoculação. Deve-se tomar cuidado para que o volume final da calda (fungicida + micronutriente + inoculante) não ultrapasse 300 ml de solução para 50 kg de sementes, pois o excesso de líquido pode causar danos às sementes, soltando o tegumento e prejudicando a germinação.

Trabalhos recentes realizados em laboratório, casa de vegetação e campo demonstraram a viabilidade de utilizar volume de calda para o tratamento de sementes, antes da semeadura, de até 1.080 ml/100 kg de sementes, sem efeitos negativos ao desempenho fisiológico para lotes de alto vigor.

Custo

Em qualquer processo produtivo, um dos pontos mais importantes que o produtor considera é o aspecto financeiro. De maneira geral, é lógico e compreensível que o agricultor pense dessa maneira, pois a sua atividade visa ao lucro. Partindo desse ponto de vista, torna-se fundamental que o agricultor saiba quanto ele vai gastar na adoção de uma determinada prática agrícola na sua propriedade.

Levando-se em conta todos os gastos necessários para a produção da lavoura, o tratamento de sementes de soja é uma das práticas de menor custo quando comparada com as demais, representando apenas 1,53% (semente transgênica RR1) e 1,45% (semente BT+ RR), conforme mostra na tabela 1.

Tabela 1. Custo do tratamento de sementes de soja/ha.

Componente do custo Valor (%) – soja RR Valor (%) soja Bt+RR
Semente 4,98 12,53
Inoculante 0,10 0,10
Tratamento de sementes (TS)(1) 1,53 1,45
Demais práticas 60,52 54,98
Custos fixos 32,87 30,94
Custo total 100,00 100,00
Custo total 100,00 100,00
Custo de semeadura(2) 10,74 17,97

(1) Fungicida + inseticida.

(2) Semente, inoculante, TS (fungicida + inseticida), transporte interno e custo da operação de semeadura.

Fonte: Richetti (2015).

Cuidados

Nem sempre a semeadura é realizada em condições ideais, o que resulta em sérios problemas de emergência – caso o tratamento de sementes não seja realizado – havendo, muitas vezes, a necessidade da ressemeadura, o que acarreta enormes prejuízos ao produtor.

A ressemeadura, usando sementes de soja transgênicas RR1, acarretará um prejuízo ao produtor de R$ 263,17/ha, o que representa 10,74% a mais no custo de produção. Considerando o uso de sementes BT+RR, este prejuízo é ainda maior (R$ 466,17, ou 17,97% a mais no custo de produção).

Isso demonstra a importância dessa tecnologia, a qual proporciona inegáveis vantagens para o agricultor e para a economia do País. Assim, pode-se considerar que o tratamento de sementes com fungicidas é um “seguro barato” que o agricultor faz no início da implantação de sua lavoura.

Investimento x retorno

Pesquisa realizada pelo analista e pesquisador da Embrapa, Alceu Richetti, em parceria com Augusto Goulart, demonstra que na safra 2018/19 o tratamento de sementes com fungicida e inseticida representou apenas 1,48% do gasto, em relação ao custo total de produção de um hectare de lavoura de soja, que foi de cerca R$ 3 mil, ou seja, um desembolso de cerca de R$ 46,53 por hectare de lavoura de soja.

Levando em consideração o benefício que o tratamento de sementes traz para a lavoura, o investimento é diminuto, sendo o retorno altíssimo, principalmente o retorno financeiro para os produtores e a qualidade da planta.