A força do Agro em tempos de pandemia

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Crédito: Shutterstock

Em tempos de Covid-19, o desafio é crescente. Com o aumento de novos casos no mundo e no Brasil, observam-se desdobramentos diretos na produção de alimentos, com impactos na cadeia do agronegócio e na distribuição de alimentos, principalmente durante o pico de contaminações no País – previsto para os meses de abril a junho

Neste momento de incerteza, o campo nos brinda com notícias animadoras. A Conab trouxe em seu boletim de março uma expectativa de produção 251,9 milhões de toneladas de grãos, crescimento de 4,1% em comparação à safra passada, quase 9,9 milhões de toneladas incrementais.

Já para área cultivada, espera-se um crescimento de 2,4%, chegando a 64,78 milhões de hectares. Segundo Marcos Fava Neves, professor da USP e da EAESP/FGV, especialista em planejamento estratégico do agronegócio, a soja deve bater recorde de produção devido às boas condições climáticas, chegando a 124,2 milhões de toneladas com incremento de 2,6% da área.

“A área com algodão deve crescer 3,3%, enquanto que milho segunda safra aumenta 2,1%. A primeira safra de milho registrou incremento de 3,2% na área e deverá produzir 25,6 milhões de toneladas. Aparentemente, a chuva vem caindo na segunda safra de milho, que é absolutamente importante neste momento, avalia o especialista.

Ainda de acordo com a análise, na carona desses bons preços em reais e da produção citada pela CONAB, o MAPA aponta para um valor bruto da produção de 2020 estimado em R$ 683 bilhões (8,2% acima do valor de 2019). De fevereiro a março, a estimativa subiu praticamente R$ 9,1 bilhões. “Deve subir ainda mais com esse novo patamar do real (desvalorizado). Nas lavouras esperam-se R$ 448,4 bilhões gerados (9% a mais), sendo que na soja deveremos ter R$ 160,2 bilhões (16% a mais). Milho também cresceu 15%, chegando a R$ 74 bilhões. Nas cadeias da pecuária, o valor está em R$ 234,8 bilhões, sendo R$ 1,3 bilhão menor que a última projeção, mas ainda assim quase 7% maior que o ano passado. Imaginemos o Brasil doente e ainda sem a geração desse caixa, dessa renda, como estaria a situação”, ressalta Neves.

Os cinco fatos do agro para acompanhar agora são:

• Os impactos do Covid-19 na economia mundial, nas nossas exportações do agronegócio e nos preços das commodities;

• Os graves impactos do Covid-19 na economia brasileira e o andamento dos problemas, das operações logísticas, a governança política e a gestão da crise instalada;

• O comportamento do clima na segunda safra de milho, não podemos ter problema na oferta;

• China e Ásia: seguir as notícias dos impactos da peste suína africana na produção da Ásia nos preços e quantidades de carnes importadas do Brasil. Assunto ficou meio esquecido com a crise do Covid-19, mas segue presente;

• Expectativas da safra a ser plantada nos EUA e os destinos do milho que não será usado para etanol.

Do lado de cá

O mercado do agronegócio é uma atividade essencial para o País (e mundo). “Todos dependem do fornecimento de alimento e nós, como fabricantes de insumos, não podemos parar. Todos os participantes dessa cadeia produtiva possuem papéis igualmente importantes para a entrega do alimento na mesa da população. A pior coisa que pode acontecer (além das perdas de poder aquisitivo e de vidas) nesse momento, é a população das cidades imaginar a falta de alimentos à mesa”, argumenta Wladimir Chaga, presidente da Brandt do Brasil.

Ainda para ele, após a pandemia, algumas práticas como atendimentos pontuais, poderão ser realizadas de forma remota com maior eficiência, assim também como outras práticas tradicionais como a visita a campo, treinamentos técnicos, palestras e eventos serão realizados como de costume, de forma presencial.

“A produção e o fornecimento de alimentos são de extrema importância, em especial nesses tempos de incertezas. Uma das características de quem vive o agro é ser resiliente. Compartilhamos este sentimento que nos dá ânimo para continuar trabalhando e investindo, pois o agro é essencial e não pode parar. Nós da BASF seguimos comprometidos em atender com qualidade, preservando a saúde e segurança dos nossos colaboradores, parceiros e clientes, para assim continuarmos contribuindo com o legado da agricultura brasileira. Este não é um desafio que alguém superará sozinho, e estamos prontos para cooperar e ajudar”, compartilha Eduardo Novaes, diretor de Marketing da BASF.

Eduardo Santos, gerente sênior da diretoria centro da BASF, informa que, diante do avanço do novo coronavírus e com objetivo de assegurar a saúde de cada parceiro, cliente e funcionário, a empresa adotou algumas medidas de prevenção. As visitas presenciais tornaram-se virtuais e toda assessoria prestada foi direcionada para comunicação online. “Também, estamos realizando semanalmente reuniões estratégicas com objetivo de identificar outras oportunidades de se comunicar e de estar presentes, mesmo distantes. Apesar do momento de adversidade, continuamos focados em entender e atender o agricultor para ajudá-lo na construção do legado do seu negócio”.

Segundo levantamento realizado pela consultoria Cogo – Inteligência em Agronegócio para o Canal Rural, divulgado no dia 30 de março, o Covid-19 pode beneficiar algumas culturas e impactar negativamente outras.

A estimativa é de que a cadeia dos grãos não sofra tanto com a crise, visto que os estoques estão elevados e a colheita mundial foi acima do esperado, não havendo possibilidade de falta de alimentos. O desafio que se configura para o setor é a logística para escoamento da produção, a distribuição às plantas industriais e a exportação.

O macrossetor do agribusiness movimenta cerca de U$$ 20 trilhões no mercado global, incluindo toda a cadeia produtiva do “antes, dentro e pós-porteira” das fazendas. E, com os preços altos das commodities e do dólar, são ótimas as perspectivas para o Brasil. Representando 25% do PIB brasileiro, apesar do cenário instalado pela pandemia, o horizonte é positivo, com a manutenção da produção e mais vantagens para exportadores do que para aqueles que comercializam no mercado interno. A opinião é do professor da FECAP e especialista na área José Luiz Tejon Megido.

Segundo ele, o campo não para, mas o setor assistirá em 2020 a uma diminuição dos negócios no “pós-porteira” das fazendas. “Estamos colhendo a maior safra de grãos da história. Somos os maiores produtores do mundo de laranja e inicia agora a colheita do café. Temos também a cana-de-açúcar. O campo, ‘o antes da porteira’, seguirá firme em sua produção”.

Para o especialista, o ponto positivo que faz o Brasil sair na frente é o fato de sermos autossuficientes em muitas cadeias produtivas e fornecedores de produtos que já estão com preços elevados internacionalmente, como soja, milho, proteína animal, café, açúcar, papel e celulose e citrus.

Tejon vê ainda potencial de expansão considerável em muitas outras vertentes do setor. “Somos o terceiro maior produtor mundial de frutas e exportamos apenas cerca de 3% do que produzimos. Ou seja, com foco, planejamento e plano de negócios, temos no agronegócio a grande oportunidade de reiniciar o País, alavancando nossa economia nos próximos três anos com fundamentos sólidos e realistas”, prevê o professor.

Ele acredita ainda que é possível dobrar o agronegócio brasileiro de tamanho, visando receitas de U$$ 1 trilhão de dólares nos próximos cinco anos. “É possível e temos inteligência e condições de fazer. Esta crise pode ser o chacoalhão que nos levará a isso. E neste cenário, o cooperativismo terá papel fundamental em todo o País e nas relações da intercooperação no mundo todo”, comenta.

Luta acirrada

Para o especialista, a batalha do produtor agro de mercado interno é contra a guerra de desinformações e bloqueio de fluxos e estradas pelas cidades do Brasil. “O agronegócio é essencial, devendo manter todos os fornecedores atuando. Da mesma forma as cooperativas, que reúnem mais de um milhão de famílias produtoras e respondem por cerca da metade de toda a produção agropecuária”, opina Tejon.

Outro ponto a ser destacado é que a queda do preço do petróleo afeta a velocidade da adoção dos biocombustíveis, o que pode prejudicar produtos como o biodiesel e o etanol brasileiros. No entanto, o professor visualiza crescimento do cooperativismo e investimentos apoiando o empreendedorismo de produtores rurais, principalmente nos países em desenvolvimento e mais pobres.

“Vamos ver um fortalecimento da ciência e tecnologia, do antes da porteira, com suporte e apoio aos micros e pequenos produtores mundiais. A retomada do pós-porteira deve ocorrer em 2021”, opina.

Cenário para as indústrias

O agro é fundamental nesse momento de crise. A importância do produtor rural é de zelar para que não falte alimento à mesa da população brasileira. “Como parte essencial da cadeia de produção agrícola, o objetivo do Sindiveg é garantir a continuidade da operação das nossas indústrias para proteger a agricultura de forma responsável, apoiando o produtor rural no fornecimento de alimento saudável à população brasileira”, diz o presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), Júlio Borges Garcia.

As indústrias preveem aumento de custos de matérias-primas, principalmente as importadas que vem, basicamente, da China. Como já mencionamos, a variação cambial é o fator do momento e que trará reflexos diretamente no preço dos produtos. Há, entretanto, relatos de problemas logísticos no desembaraço de mercadorias no porto, por isso estamos atentos e monitorando os gargalos com nossos associados. “De certo, podemos dizer que haverá impacto na rentabilidade dos negócios assumidos anteriormente e que os produtos mais afetados serão aqueles de uso imediato, nas culturas de milho, algodão e HF”, pontua.

Alívio temporário

O governo promete fazer a sua parte, com programas de alívio temporário à perda de renda de setores vulneráveis da população, suporte ao pequeno e médio empresário, expansão generalizada de crédito e redução de juros. “Será suficiente? Os programas de estímulo lastreados no “Orçamento de Guerra” terão que passar por ajustes ao longo do processo, calibrando as doses das diversas políticas”, argumenta José Milton dos Santos Pestana Barbosa, sócio e líder de operações da BlueTrade.

Quanto aos produtos agrícolas de consumo interno, continua o especialista, infelizmente correm o risco de redução de preços, o que é bom para o consumidor, pela baixa inflação, mas prejudica o produtor, afetando o plantio da próxima safra. “Num momento de tumulto, o sério problema logístico e de armazenagem agravam a situação. A presença forte do Ministério da Agricultura será necessária, afinal, o agronegócio representa um quinto do PIB do Brasil”, esclarece.

Um reforço urgente tem que ser pensado para a agricultura familiar. São muitos pequenos agricultores gerando um baixo valor agregado, e sem reserva de capital. Suas culturas são pouco intensivas em tecnologia e com baixo acesso aos canais de distribuição. A crise atinge diretamente o setor de hortifrutigranjeiros, talvez o mais prejudicado e a merecer a maior atenção das autoridades no agro.

Campos de cana

Outro ramo do agronegócio que preocupa é o sucroenergético: a crise não é apenas severa, aconteceu de forma muito rápida, como nunca antes. Juntou-se à queda generalizada do PIB das principais economias, uma guerra de preços protagonizada pela Rússia e Arábia saudita, reduzindo o preço do barril de petróleo em mais de 60% num primeiro instante.

“Obviamente, havendo repasse ao preço da gasolina, inviabiliza o etanol como sucedâneo, infelizmente, num momento no qual se previa uma grande safra. Algumas unidades podem enfrentar escassez de caixa no momento crítico de início da safra, período em que se concentram os maiores desembolsos, sem contar o fato de que algumas usinas têm exposição cambial e endividamento em dólar”, diz José Milton.

A paralisia econômica levou à uma redução no movimento dos postos de combustível de mais de 50%, num primeiro momento. E o mercado internacional do açúcar não está ajudando, com elevado nível de estoques globais, e o Brasil vivendo um momento de elevada produção. O preço internacional do açúcar não se sustentou. Ainda bem que muitos produtores se beneficiaram da venda antecipada da maior parte da sua produção açucareira.

Voltando ao etanol, o especialista avalia que, apesar de antipática, talvez a saída seja não repassar toda a queda de preço da gasolina ao consumidor, garantindo a paridade, para não corrermos o risco de desestruturar o estratégico setor sucroalcooleiro ao levar as unidades a comercializarem abaixo do custo de produção.

“Para toda a nossa economia, a questão principal é a duração da paralisia da atividade econômica e, consequentemente, quando começará a retomada do crescimento. Ainda não temos elementos para afirmar que a saída da crise em que vivemos será em um dia definido. Se conseguirmos equacionar rapidamente o problema de saúde pública, em alguns meses veremos este momento no retrovisor. É o cenário desejado, crise em V”, enfatiza.

Reflexos no Brasil

Com a paralisação de indústrias chinesas e indianas, o Brasil pode sofrer problemas de acesso a insumos, visto que temos dependências de produtos químicos e fertilizantes para as lavouras.

Por outro lado, como o Covid-19 nasceu em um mercado de alimentos com condições sanitárias ruins, o Brasil sai na frente por possuir rigorosos controles sanitários. Se provarmos isso ao mundo, o País pode aumentar o acesso à nossa produção.

“Da mesma forma, poderemos vender tecnologia, pois somos o único país no planeta que domina o conhecimento da produção de alimentos no cinturão tropical do globo. São grandes as oportunidades. O agroexportador tem ótimas perspectivas e precisa manter a cadeia estruturada funcionando, com os caminhoneiros trabalhando e os portos funcionando”, opina José Luiz Tejon.

Em síntese, a liderança é o insumo mais vital para minimizar o tamanho da crise no agronegócio. “Conforme estudos internacionais, o setor é o que sofrerá os menores impactos comparados a todos os demais setores econômicos e industriais no mundo”, pontua.

Para Marcos Fava Neves, O fato é que a crise do coronavírus nos mostrará um mundo diferente, podendo trazer maior solidariedade global e integração entre sociedades, algo meio esquecido. “Momento de calcular mais os riscos, ter mais flexibilidade e adaptação, mais cuidado com o que foi chamado nestes dias de infotoxicação, ou seja, o excesso de informações falsas, alarmistas, desencontradas, que só prejudicaram as pessoas. Um novo aprendizado virá e novas pessoas vão se sobressair, e no geral sairemos desta com um aumento da nossa capacidade analítica. Simplicidade será a bola da vez”.


Coronavírus x Segurança alimentarComo fica o Brasil?

Amanda Carvalho PenidoEngenheira agrônoma, mestra e doutoranda em Agronomia/Fitotecnia (UFLA) apenidoufla@gmail.com

Laís Sousa ResendeEngenheira agrônoma, mestra e doutoranda em Fitotecnia (ESALQ/USP) sialresende@gmail.com

O Brasil é considerado o terceiro maior produtor de alimentos, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), sendo, portanto, boa parte de todo o alimento mundial produzido no País. Por isso, é importante ressaltar a segurança alimentar mundial, que garante que os alimentos cheguem ao consumidor com qualidade e que não irão fazer mal à saúde. Portanto, em meio à pandemia, a produção de alimentos se torna fator crucial, seja na distribuição interna ou mesmo na exportação e importação de produtos no mundo.

Nota conjunta da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Organização Mundial do Comércio (OMC) e Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que o mundo depende do comércio internacional para garantir a segurança alimentar e os meios de subsistência.

Além disso, alega que todos os países devem ser cautelosos nas medidas para conter o avanço da pandemia, com o objetivo de minimizar os possíveis impactos no suprimento de alimentos e garantir a segurança alimentar global. Os diretores gerais das organizações afirmam ainda que os governos devem garantir que as medidas comerciais não afetem a cadeia produtiva de alimentos, pois essas interrupções. seja de circulação de trabalhadores do setor agrícola ou atraso nas fronteiras de comercialização de alimentos, podem levar à perda de produtos perecíveis e aumento do desperdício de alimentos.

Impactos

Segundo a FAO, as medidas de restrição a comercialização de alimentos podem estar relacionadas também a “preocupações injustificadas sobre segurança alimentar”, disse em nota. A organização ressalta que, embora o impacto na cadeia de suprimentos de alimentos seja mínimo até o momento, foram relatadas dificuldades em termos de logística. Para a FAO, os alimentos devem atravessar fronteiras sem restrições, atendendo a padrões de segurança alimentar previamente existentes.

Contudo, também é fundamental que todas as pessoas envolvidas na cadeia de produção de alimentos estejam protegidas para evitar a disseminação da doença no setor e assim manter a cadeia produtiva de alimentos ativa. Segundo a nota da FAO, “os consumidores, principalmente os mais vulneráveis, devem continuar a ter acesso aos alimentos nas comunidades sob rígidos requisitos de segurança”.

Principais commodities agrícolas

Das pequenas às grandes culturas, o agronegócio foca em garantir o abastecimento alimentar para a população. Segue abaixo a análise descritiva individual de cada produto:

ð Café: mesmo com a queda de preços de algumas commodities, o preço do café está mais elevado devido à alta demanda e expectativas de que a oferta possa diminuir. Nesse momento, a planta está na fase de enchimento de grãos e entrando na maturação, logo, a colheita deverá ocorrer em aproximadamente um mês em algumas regiões. A preocupação do setor cafeeiro é que a quarentena se prolongue e possa interferir na mão de obra e logística.

As medidas restritivas, como o fechamento dos limites entre municípios, poderão dificultar o transporte coletivo, pois a mão de obra cafeeira é temporária e necessita do deslocamento entre cidades.

Em relação ao consumo, de acordo com Ricardo de Souza Silveira, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), não há previsão de queda, mas mudanças no hábito dos consumidores que deixaram de consumir a bebida fora do lar, levando ao aumento do consumo doméstico.

Segundo dados da Companhia Nacional do Abastecimento (CONAB), a safra 2020 prevê, em quase todas as regiões produtoras de café do País, a influência (sobretudo no café arábica) da bienalidade positiva, estimando assim produção maior que aquela obtida em 2019, devendo alcançar entre 57,2 milhões e 62,02 milhões de sacas beneficiadas.

ð Soja e milho: alguns produtos agrícolas seguem registrando bom ritmo de negociação e alta de preços, a exemplo da soja e milho. Em relação à soja, a alta demanda interna e externa, além do dólar elevado, impulsiona os preços da commodity. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA), a limitação da movimentação dos portos por meio do governo argentino favorece as vendas brasileiras de soja e derivados.

Para o milho, os preços se mantêm em alta e a oferta segue restrita no Brasil. Com o término da safra de verão os produtores preferem negociar a soja ao invés do milho. Além disso, há expectativas de que o preço continue em alta de acordo com os baixos estoques e a baixa oferta do milho de primeira safra.

ð Arroz e feijão: apesar do período de colheita, quando os preços tradicionalmente caem devido à maior demanda, para o arroz o cenário é oposto. Segundo o CEPEA, a alta está atrelada ao maior consumo, forçando o varejo a se abastecer do atacado e, por sua vez, dos engenhos beneficiadores.

Em relação ao feijão, segundo a CONAB, a tendência é de que os preços se mantenham relativamente estáveis e em bons patamares aos produtores até meados de abril, quando começa a diminuir a produção da primeira safra e a entrada no mercado da produção da segunda safra.

A produção está bem ajustada com a demanda, permitindo que os produtores tenham boa rentabilidade. Segundo o Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (IBRAFE), o feijão, além de ser um produto versátil e acessível para todos, tem crescente tendência de aumento do consumo de proteínas vegetais, o que faz com que a demanda esteja em alta.

ð Cana-de-açúcar: a cana-de-açúcar possui relevante participação no setor de biocombustíveis, devido ao grande potencial na produção de etanol e seus respectivos subprodutos. Por isso, o setor de açúcar e etanol está mais atrelado ao mercado do petróleo, que vem sofrendo queda de preços por causa das incertezas trazidas pela pandemia e pelo conflito entre Arábia Saudita e Rússia em relação a ajustes da produção do petróleo.

De acordo com dados da CONAB, a safra 2019/20 foi estimada com 642 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, sendo 3,6% superior à safra anterior. Ainda, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o primeiro bimestre caracterizou-se por crescimento de vendas de 2,3% de etanol, entretanto, essas vendas caíram a partir da primeira quinzena de março devido à queda do preço do petróleo. Apesar disso, a situação ainda é razoável, pois o câmbio tem ajudado a manter o preço.

ð Algodão: influenciada por grandes investimentos feitos no setor e pela expansão de área cultivada, especialmente em Mato Grosso, a produção estimada para esta temporada é considerada a maior dentro da série histórica, em 2,85 milhões de toneladas de algodão em pluma, segundo dados da CONAB.

Com a valorização do dólar, a pluma nacional ganhou competitividade no mercado internacional. De setembro de 2019 a janeiro de 2020, os preços internacionais se recuperaram diante da aproximação entre os Estados Unidos e China, do bom volume exportado pelos Estados Unidos e da valorização do petróleo, mas voltaram a recuar diante da crise do coronavírus.

Para o diretor-executivo da Associação Mineira dos Produtores de Algodão (Amipa), Lício Augusto Pena de Sairre, a cotonicultura vem sofrendo com a baixa de preços, especialmente na Bolsa de NY, onde a pluma está cotada na casa dos 50 cents de dólar/libra peso, o que historicamente é baixo. “A queda do barril do petróleo influencia no preço das fibras sintéticas e pressiona para baixo a cotação do algodão. No mercado interno, as indústrias têxteis estão paradas devido ao COVID 19 com os pedidos represados nas confecções e lojas, impactando o fluxo normal dos negócios com algodão e diminuindo ainda mais a liquidez. Por outro lado, a Amipa estrategicamente focou nas últimas safras o mercado externo, onde o produtor associado tem parte da atual safra 19/20 já travada em contratos de exportação, principalmente para a Ásia. Estes contratos garantem uma segurança de preço para o produtor neste momento de incertezas causadas pela crise”, diz.

Segundo a CONAB, apenas no mês de fevereiro, o contrato de maior liquidez da Bolsa de Futuros de Nova Iorque acumulou perda de 10%. O algodão foi a commodity mais afetada pela pandemia, apesar de não estar ligado à segurança alimentar, pois o principal mercado consumidor de pluma é a Ásia, no foco da doença. A região, principalmente da China, sofre com a queda na produção industrial e possíveis problemas logísticos.

ð Hortifrúti: de acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a demanda por frutas e hortaliças em redes de supermercado e sacolões cresceu de 20 a 30% nos primeiros dias após o aumento de casos de coronavírus no País. No entanto, tem tido uma queda recente na demanda por estes produtos, devido ao menor fluxo de funcionamento de bares e restaurantes.

Essa redução na demanda dos produtos teve um reflexo no preço de produtos, como o tomate, que teve queda de 37% em uma semana. De acordo com o boletim da CNA, o cenário aponta para uma estabilização no preço das frutas e hortaliças, devido ao movimento sazonal decorrente da safra e entressafra dos produtos.

Além disso, com os principais centros de abastecimento em funcionamento normal, Estados e municípios retomaram as feiras livres, seguindo as recomendações do Ministério da Saúde. O funcionamento das feiras livres irá contribuir para a economia dos negócios de pequenos e médios produtores de frutas e hortaliças, principalmente daqueles que dependem da feira para a comercialização de seus produtos.

Na exportação de frutas, o momento é de redução drástica no volume exportado via aérea, visto que a maioria das exportações eram feitas nos porões de voos de passageiros, que atualmente estão praticamente cancelados em todo o mundo. Os principais países importadores desses produtos são EUA, União Europeia e Emirados Árabes, que estão com fronteiras restritas no momento.

O que dizem os produtores

Frederico Quirino é produtor rural, integrante do Grupo Planeje, com fazendas nos municípios de Paracatu, Unaí e Dom Bosco, todas no interior mineiro, totalizando 1.500 ha irrigados onde se cultiva soja, milho (semente e grão) e feijão. Ele relata que até o momento suas atividades não foram afetadas, pois o início da pandemia coincidiu com a fase final da colheita de soja e o início do plantio de milho e feijão. Em função da alta do dólar já tínhamos comprado os insumos da safra de inverno, o que nos permitiu não ser impactados”, justifica.

Para quem não se antecipou e deixou para comprar os insumos de última hora, esses sim enfrentaram alguns poucos atrasos no recebimento de seus produtos, principalmente adubos, ocasionando alguns dias de atrasos no plantio.

Cristiane Steinmetz é produtora na Fazenda Boa Vista, em Mineiros (GO), também ainda está imune aos efeitos econômicos do coronavírus, graças à produção que não parou. “Vir à cidade às vezes nos faz perceber o estrago que essa pandemia fez ao comércio em geral, e somos agraciados por fazer parte de um segmento econômico que continua a todo vapor. Este é um momento de reflexão, mas também de adaptação. Nossa safrinha de milho está plantada, seguimos nosso manejo com as orientações adequadas de higiene, distanciamento social e conscientização dos funcionários”.

O que a produtora aponta de diferente neste período é a lentidão na comercialização dos grãos, o que é compreensível pela situação dos portos de escoamento. “Vamos olhar o lado positivo de tudo, e encarar de frente o que estiver por vir”.

Impactos na economia

A crescente propagação do coronavírus entre os países levou muitos governos a tomarem medidas para conter a pandemia. São medidas prioritárias impostas devido a atual situação sanitária e que deixam pouca margem para outras opções, já que a saúde é a principal preocupação neste momento. Diante do complexo cenário, os impactos causados na economia do Brasil ainda são estimativas que devem ser analisadas com cautela.

De certo, o nível de produção, as despesas das famílias, o investimento das empresas e o comércio internacional estão sendo afetados, porém, esses efeitos tendem a ser temporários e economistas relatam a reversão dessa situação com a contenção da pandemia.

Segundo análises da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE), haverá queda no crescimento econômico global devido ao aumento da precaução, aos esforços de contenção e ao aumento dos custos financeiros da população, que consequentemente reduz a capacidade de gastar. Além disso, a desvalorização da taxa de câmbio em relação ao dólar americano poderá afetar os países que dependem da importação.

Em diversos países onde as fronteiras estão fechadas, como por exemplo na Itália, existe a tendência de redução da exportação e comercialização de produtos agrícolas e como consequência, os exportadores de produtos no Brasil perdem parte do seu escoamento, como no caso de produtores de limão e laranja que são produtos com alta exportação para os países da Europa.

De acordo com a OCDE, o surto de coronavírus está afetando a economia de diversos países. Na China, devido a quarentenas e restrições para conter o vírus, houve atrasos e cortes em diversas atividades do setor industrial. Além disso, a ocorrência do surto em outros países que também adotaram as medidas de contenção e fechamento de fronteiras traz impactos significativos na economia mundial.

Em comparação com epidemias ocorridas no passado, observa-se que atualmente a economia global está mais interconectada e, além disso, a China representa hoje uma das economias de maior importância na produção global, no comércio e nas commodities.

Segundo a OCDE, este fato afeta a economia de outros países e mesmo que o pico da doença seja de curta duração e ocorra recuperação gradual da demanda e da produção nos próximos meses, os impactos no crescimento global em 2020 serão inevitáveis.

Evidentemente, essa recuperação e o crescimento do PIB dependerá de muitos fatores, como a eficácia das medidas políticas para apoiar os trabalhadores e as empresas, a procura de bens e serviços nos diversos setores da economia e a duração da pandemia do coronavírus. 

Impactos

Nesse sentido, é importante ressaltar que os reais impactos gerados na economia brasileira com a ocorrência da pandemia são análises precoces e amplas no momento. É necessário um maior volume de dados econômicos do País e do mundo para estimativas assertivas.

Como prevenir o Coronavírus no meio Agro

O meio agrícola é ponto de aglomeração de pessoas, o que o torna importante como centro de disseminação do vírus. Para que isso não aconteça, todos devem tomar as medidas de prevenção conforme as orientações dos serviços de saúde.

Para evitar a transmissão, é recomendado lavar as mãos frequentemente ao menos por 20 segundos e, em casos de ausência de água e sabão na área, deve-se usar o álcool em gel 70%. Os trabalhadores também não devem compartilhar objetos de uso pessoal, como talheres, copos e garrafas, além de proteger a boca e o nariz ao tossir ou espirrar. Manter a distância de pelo menos 1,5 m também é recomendado. Em casos de transporte coletivo, o veículo deverá permanecer com as janelas abertas e ser desinfetado antes e depois de cada viagem.

A aglomeração de pessoas nas horas de trabalho ou nas horas de descanso deve ser evitada, assim como a redução de tráfego interno ou externo que seja desnecessário. Para os trabalhadores que apresentam sintomas da doença ou estiveram em contato com possíveis pessoas infectadas, é orientado a quarentena (14 dias) para a segurança de todos.

Em dias de pagamento, o ideal é que seja feito de maneira escalonada ao longo da semana ou do dia, evitando filas e aglomerações. A higienização das máquinas e equipamentos deve ser realizada com frequência e quando houver a troca de operadores.

Em tempos de isolamento, algumas ferramentas têm sido essenciais para a manutenção das atividades econômicas no meio agrícola. Algumas cooperativas e empresas estão incentivando o atendimento a seus clientes em canais alternativos, como aplicativos e centrais de vendas, onde o produtor faz as operações sem sair de casa e com maior segurança.

Como o País e o agronegócio podem superar essa crise

Estamos vivendo um cenário de incertezas, fomentado por um vírus que ameaça o mundo todo. A pandemia do coronavírus certamente deixará grandes lições. No período de quarentena, estamos aprendendo a valorizar as relações humanas, o trabalho e o tempo. Após o tornado viral, a mudança de perspectiva é certa no que diz respeito ao comportamento da higiene, valorização da ciência e dos profissionais da saúde.

Em relação ao mercado, os estabelecimentos que não vendem itens de necessidade primária estão se adaptando aos tempos de quarentena. Com a mudança brusca, o desafio é não perder a conexão com o cliente. Para isso, as entregas domiciliares e o meio digital estão sendo intensificadas.

A magnitude da pandemia traz complexidades nas previsões econômicas. Certamente, o governo precisará tomar medidas para alavancar o setor da saúde pública e a economia do País. A pandemia do coronavírus trouxe fraquezas evidentes ao sistema de saúde brasileiro, desde a limitação do número de unidades intensivas até a incapacidade do fornecimento de máscaras suficientes a todos.

Para além da resposta imediata do setor de saúde, faz-se necessário medidas assertivas e em grande escala para a retomada rápida e vigorosa da economia. A cooperação e união internacional são fundamentais para assegurar que estas iniciativas produzam os melhores resultados, tranquilizem os mercados e apoiem os países mais vulneráveis.

A disciplina individual e coletiva, solidariedade e medidas governamentais eficientes podem ser a saída para esse momento desafiador, além de ser uma grande oportunidade para se criar soluções inovadoras, que possam contribuir para o desenvolvimento do País.

– O macrossetor do agribusiness movimenta cerca de U$$ 20 trilhões no mercado global, incluindo toda a cadeia produtiva do “antes, dentro e pós-porteira” das fazendas

– O agronegócio represe 25% do PIB brasileiro

– O Brasil pode sofrer problemas de acesso a insumos, visto que temos dependências de produtos químicos e fertilizantes para as lavouras

– O Brasil é o único país no planeta que domina o conhecimento da produção de alimentos no cinturão tropical do globo

– O agroexportador tem ótimas perspectivas e precisa manter a cadeia estruturada

– O setor do agronegócio é o que sofrerá os menores impactos comparados a todos os demais setores econômicos e industriais no mundo