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sexta-feira, julho 1, 2022
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A importância do gesso agrícola no condicionamento do solo

Autores

Wedisson Oliveira Santos
Professor de Adubos e Adubação, Fertilidade e Química do Solo – Instituto de Ciências Agrárias (ICIAG), Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
wedisson.santos@ufu.br
José Geraldo Mageste da Silva
Professor de Gênese e Fertilidade do Solo, e Aptidão Agroflorestal – ICIAG/UFU
jgmageste2@gmail.com
Carolina Santos Benjamin
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia – Universidade Federal de Viçosa (UFV)
carolinabenjamin_1@hotmail.com

Crédito Shutterstock

É condição comum em solos agricultados de regiões tropicais úmidas, que sofrem aplicações regulares de corretivos na camada arável (geralmente 0-20 cm), haver baixa atividade e saturação de Al3+, devido à correção do pH para valores superiores a 5,5, e também elevada disponibilidade de Ca e Mg.

Não obstante, o efeito da calagem se limita à camada de incorporação do corretivo no solo e pouca profundidade abaixo dela. Assim, o uso de gesso é essencial para o condicionamento químico das camadas subsuperficiais do solo, onde há geralmente elevadas saturações por Al3+ (m > 30%) e pobreza em nutrientes, incluindo o Ca, que é importante para a produção de raízes.

Assim, a melhoria química da subsuperficie do solo pela gessagem, principalmente devido a mitigar o efeito tóxico do Al3+ e aumento da disponibilidade de Ca, possibilita maior crescimento radicular em profundidade, implicando em maior possibilidade de absorção de água e nutrientes pelas plantas.

O gesso agrícola no condicionamento do solo

Como o efeito da calagem é mais restrito às camadas superficiais do solo, em camadas subsuperficiais de solos mais intemperizados (latossolos e argissolos), é comum haver elevada saturação por Al3+, uma espécie iônica tóxica para as plantas, e pobreza em nutrientes.

A presença de sulfato na composição do gesso (CaSO4 2.H2O) possibilita que após a sua dissolução no solo este ânion, que sofre certa repulsão eletrostática pelas cargas negativas dos coloides do solo, possa ser mobilizado pelo fluxo de água ao longo do perfil.

Com isso, interações interiônicas, de elevada energia, que o sulfato (SO42-) estabelece com cátions na solução do solo, possibilitam que o sulfato carreie (em solução) ao longo do perfil cátions como Ca2+, Mg2+ e K+. Assim, o enriquecimento da região subsuperficial do solo com SO42+ e cátions acompanhantes devido à gessagem, sendo mais expressivo para o Ca2+, promove redução da atividade do Al3+ devido à elevação da força iônica da solução do solo.

Mas, também promove modificações na espécie química de Al. Inicialmente, o Ca2+ desloca parte do Al3+ do complexo sortivo para a solução do solo, que contendo SO42- possibilita a formação da espécie AlSO4+, que não é considerada fitotóxica (Solo-Al3+ + Ca2+ + SO42-  ð  Solo-Ca2+ +   AlSO4+). Portanto, agora a subsuperfície rica em Ca2+ e SO42- e com menor atividade de Al3+ favorece o pleno crescimento radicular das plantas.

Benefícios

Percebe-se claramente que a gessagem é benéfica no condicionamento químico da subsuperfície do solo, possibilitando maior crescimento do sistema radicular em profundidade e, com isso, maior acesso das plantas à água e nutrientes no solo.

Adicionalmente, como o gesso é fonte de enxofre, pode ser recomendado objetivando apenas o suprimento destes nutrientes para os cultivos. Vitti (2007) recomenda cerca de 500 kg/ha de gesso para o suprimento de S para uma sequência de até três ciclos de culturas anuais.

A necessidade de fertilizar com S tem aumentado nos últimos anos devido ao uso de fertilizantes NPK concentrados, não mais contendo o S como nutriente acompanhante; ao menor uso de pesticidas ricos em S e à maior exportação deste nutriente pelas culturas (Alvarez V., 2007), em crescente aumento de produtividade e índices de colheita.

A presença de elevada saturação por Al3+ na subsuperfície do solo, associada à baixa fertilidade em Ca2+ (Ca < 0,4 cmolc dm-3) é condição comum em muitos solos, muito intemperizados, que não possuem expressivo aporte de resíduos orgânicos.

Nestas condições, a gessagem possui elevado potencial de resposta, tanto para culturas perenes como anuais. Por outro lado, quando a subsuperficie do solo não é limitante quimicamente ao crescimento radicular ou em cultivos irrigados (oleícolas) com plantas de sistema radicular raso, há expectativa de resposta nula à gessagem.

Manejo

É condição primária para recomendação de gessagem que na camada subsuperficial do solo (20 – 40 cm; 20 – 50 cm; 20 – 60 cm, etc.) exista saturação por Al3+ no complexo sortivo (m) igual/superior a 30%; acidez trocável (Al3+) igual/superior a 0,5 cmolc dm3; ou o teor disponível de Ca ser inferior a 0,4 cmolc dm-3.

Portanto, se pelo menos uma destas premissas for atendida, a gessagem pode ser recomendada. Para tanto, deve-se utilizar aproximações de recomendações disponíveis nos diferentes manuais de adubação e calagem para as diferentes regiões brasileiras.

Alvarez V. et al., (1999) propõe, na 5ª aproximação, para o Estado de MG, estimar a necessidade de gessagem (NG) com base no teor de argila ou de fósforo remanescente da camada subsuperficial do solo, ou a partir da necessidade de calagem (0,25NC) da camada superficial.

A gessagem pode ser realizada em qualquer época do ano, devendo-se preferir a aplicação em períodos mais secos para preservar a estrutura do solo do tráfego de máquinas em solo úmido. A aplicação pode ser realizada juntamente com o calcário ou separadamente.

A incorporação do gesso no solo acelera o efeito da gessagem na subsuperficie. Entretanto, não havendo possibilidade de incorporação, como em cultivos perenes ou em sistemas de plantio direto, ainda assim haverá condicionamento da subsuperfície, porém, podendo demandar mais tempo.

Como agregar à técnica

A análise química periódica do solo deve contemplar também camadas subsuperficiais para verificar a necessidade de gessagem e/ou a disponibilidade de S. Reforça-se que doses de gesso devem ser obtidas a partir de modelos oficiais de recomendação.

O uso de superdoses de gesso, sem nenhum precedente científico, tem sido reportado em alguns locais no Brasil. Enfatiza-se que o uso desta prática pode causar desequilíbrios de Ca/Mg, Ca/K, Mg/K para as plantas, além de promover a lixiviação de K+ e Mg2+ para camadas mais profundas do solo.

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