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Agrofloresta: fazenda em Minas Gerais mostra como fazer

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A Fazenda Mangalô consegue agregar valor comercializando seus produtos diretamente para o consumidor final (Foto: João Marcelo Diniz)

No interior de Minas Gerais, na pequena cidade de Abaeté, está a Fazenda Mangalô, que acredita em uma relação harmoniosa entre cidade e campo, onde a agrofloresta seja desenvolvida a favor da conservação e da restauração de agroecossistemas. Entendendo a dinâmica e os processos da natureza, a fazenda não usa fertilizantes químicos ou qualquer tipo de agrotóxicos para produzir espécies florestais, frutas, hortaliças, ovos, leite ou carne.

A Fazenda Mangalô, por si só, conta a história de uma propriedade rural familiar que contabiliza hoje a quarta geração de produtores atuando no setor agropecuário. Conhecida como a antiga Fazenda Córrego Fundo, fundada pelo saudoso Dr. Canuto, em Abaeté (MG), há mais de 100 anos, por volta de 1890, foi a época em que a primeira sede da fazenda foi construída.

Aos poucos, a família foi estruturando as benfeitorias e produzindo em pequena escala, apenas para consumo, carne e alguns derivados de leite, como manteiga e queijo. A partir dos anos 1940 houve uma grande intervenção de desmatamento e destocagem para plantio de algodão em grande parte da fazenda, que somava em torno de 800 hectares.

Anos depois, foram formados os pastos para a criação de gado da raça Gir. Em meados de 1970 entraram com o cruzamento da raça holandesa e o rebanho foi se tornando mestiço girolando.

A partir da década de 80, com o desmembramento da Fazenda Córrego Fundo entre os cinco filhos do Dr. Canuto, foi-se intensificando a atividade pecuária. Parte da área original ficou sob responsabilidade do neto, Dr. Caetano Lopes, que escolheu focar na produção de carne com a raça Nelore consorciada com plantio de eucalipto, enquanto outro neto e seu cunhado, os engenheiros agrônomos Henrique Saldanha e Antônio do Carmo Fróes, focaram na produção de leite em outra área, nomeada Fazenda Mangalô, em referência a uma antiga tribo indígena que levava esse nome e habitava a região antigamente.

Como funcionava

 O sistema de produção convencional foi a realidade durante muitos anos – criação extensiva ou a pasto, tendo como complemento da nutrição animal a silagem de milho e sorgo, que é plantado na fazenda anualmente.

Assim como a maioria dos fazendeiros da região, os produtores são associados da cooperativa do município, que representa a principal fonte de escoamento da produção leiteira.

Foto: João Marcelo Diniz

A Agrofloresta

Após mais de 30 anos produzindo no sistema convencional, a família decidiu testar novas tecnologias e sistemas de produção inovadores. Em 2013, com a chegada do bisneto recém-formado em Engenharia Ambiental, João Marcelo Diniz, foi estruturado um viveiro florestal para comercialização de mudas e fomento de reflorestamentos para fins ambientais e produtivos, com foco em madeiras nobres nativas e exóticas.

A partir dali, começaram os trabalhos de integração das árvores nos ambientes produtivos. Em 2015, após conhecer o trabalho do pesquisador e agricultor suíço no Brasil, Ernst Götsch, e sua experiência com a agricultura sintrópica, João Marcelo começou a se especializar no assunto.

Fez diversos cursos pelo Brasil para conhecer melhor a técnica de produção rural que dispensa o uso de qualquer tipo de insumo industrial. Também teve a experiência de três anos trabalhando no Sítio Semente, em Brasília (DF), reconhecida escola dos Sistemas Agroflorestais, onde montou um viveiro de mudas de hortaliças orgânicas e desenvolveu um trabalho útil para a demanda da região no DF, que é um importante centro consumidor e produtor de hortaliças orgânicas.

 Quando voltou para Minas Gerais, em 2018, João Marcelo decidiu diversificar a produção da Fazenda Mangalô, aplicando os princípios básicos da agricultura sintrópica. Assim, incorporou o uso múltiplo da propriedade, que ficou menos dependente do leite e vulnerável às variações de preço de um único produto.

A paisagem das pastagens e monocultivos foi rapidamente transformada em agroecossistemas arborizados e biodiversos.

Nova paisagem

Hoje a Fazenda Mangalô produz frutas, hortaliças, grãos e leite em escala comercial, além de ovos, carne suína e queijo para consumo. Entre os principais cultivos presentes nas agroflorestas, destacam-se: banana, mamão, limão, manga, abacate, abóbora, mandioca, tomate, couve, milho e feijão.

São três hectares de agroflorestas Foto: João Marcelo Diniz

Há, também, outras culturas sendo implantadas em caráter experimental, como café, castanha de baru e as madeiras nobres, entre elas: mogno africano, cedro indiano, ipê roxo, aroeira, angico, jenipapo, entre outras.

A arboricultura forrageira é outra frente que representa um diferencial na fazenda. Espécies como gliricídia, moringa, leucena e acácia mangium estão presentes no sistema e fazem parte da alimentação animal.

Elas são podadas na época certa e os brotos triturados e ensilados juntamente com o milho e o capiaçu, conferindo maior riqueza nutricional e aumentando consideravelmente o volume da silagem. “Dessa forma, é possível reduzir os custos, uma vez que são culturas perenes e não têm custo anual com plantio”, justifica João Marcelo.

Cada um no seu quadrado

A área dedicada a esse sistema integrado ainda é pequena, segundo João Marcelo, porém, bastante biodiversa e produtiva. “São três hectares de agroflorestas. As linhas de árvores (frutíferas e forrageiras) dividem os renques em 10 piquetes rotacionados que permitem um manejo do capim-mombaça por altura de entrada e de saída dos animais. Os piquetes são intercalados com as entrelinhas de lavoura, que também seguem um manejo de rotação de culturas e também são divididas por linhas de árvores. O ambiente é dinâmico, e a cada época do ano a paisagem se torna diferente, de acordo com os ciclos de cada cultura”, pontua.

 Para o empresário, é perfeitamente possível conciliar a alta produtividade rural com a conservação ambiental. “Mais que isso – existe um sistema de produção regenerativo. Não basta mais ser apenas ‘sustentável’. A degradação precisar cursar um caminho inverso, pois alcançou um estágio crítico de exploração e escassez dos recursos naturais no Brasil. É preciso restaurar os níveis de fertilidade natural dos solos. Virar a chave e plantar sistemas que aceleram os processos ecológicos de criação e acumulação de matéria orgânica, promovendo a abundância de recursos naturais, ao invés de consumi-los. O solo fértil e a água limpa são elementos básicos para a sobrevivência populacional, e seria uma irresponsabilidade continuar insistindo em sistemas convencionais ultrapassados, inimigos da floresta e altamente dependente dos insumos industriais”, considera.

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A receita

O manejo do sistema agroflorestal é feito basicamente com podas, cobertura de solo e alta biodiversidade nos consórcios. Todas as plantas do sistema são periodicamente podadas, desde o capim, passando pelos arbustos, até as árvores mais altas.

A biomassa é picotada e organizada no pé das plantas. Assim, há uma reciclagem dos nutrientes e a água presente nas folhas e troncos abastecem as plantas constantemente, uma verdadeira adubação e irrigação natural.

As podas promovem a rebrota e o rejuvenescimento dos indivíduos e do coletivo como um todo, e ainda permite a entrada de luz com qualidade. “Nem sol pleno, nem sombra demais. Nem muito quente, nem muito frio. O solo coberto não encharca e nem racha de sequidão. Tudo em equilíbrio ecológico. Assim, não aparecem pragas ou doenças incontroláveis que causam os prejuízos ou necessidade de apelar para os agrotóxicos. Quando aparece algum problema, ele não é tão impactante e acaba desaparecendo naturalmente com o manejo sendo bem feito no dia-a-dia”, garante João Marcelo.

Ganha-ganha

Mesmo sem a certificação orgânica, a Fazenda Mangalô consegue agregar valor comercializando seus produtos diretamente para o consumidor final. Existe um sistema tecnológico de delivery em que o cliente faz o pedido pela internet e recebe em casa.

“Assim, é possível eliminar o custo com os atravessadores, e o produto chega com mais qualidade na casa dos consumidores. É possível ter um rendimento de 30 a 100% superior em relação à comercialização convencional em centrais de abastecimento”, calcula o empresário.

 Ele ressalta a confiança dos consumidores. Quem conhece o produtor, sabe dos valores e propósitos da iniciativa, não é um cliente que exige certificação. E indica para os amigos e familiares porque sabe do valor real daquele alimento. “A saúde dos produtos é refletida no sabor e não tem quem não perceba a diferença entre uma fruta ou hortaliça orgânica e uma convencional”, compara João Marcelo.

A outra ponta

Thiago Lima Diniz trabalha com a comercialização de alimentos agroecológicos e orgânicos. “Por dois anos fiz parte do time Fazenda Mangalô. Devido a questões mercadológicas, a Mangalô decidiu concentrar as suas forças na produção de alimentos, deixando a comercialização por conta de terceiros. Nós, da Serra d´Água, atualmente comercializamos os produtos deles, como frutas, legumes e verduras agroecológicas, produzidas sem a utilização de agrotóxicos ou adubos químicos. Temos também algumas carnes, geleias, antepastos, queijos, cafés e diversos produtos de origem apícola, além de feijão, fubá, etc.”.

Para Thiago, os produtos originados da agrofloresta são melhores, por serem mais saudáveis e saborosos. “Sou suspeito para falar, mas realmente a qualidade dos alimentos cultivados em sistemas agroflorestais, sem a utilização de agrotóxicos, é superior. Eu tenho um filho e, de fato, me preocupo com os caminhos que a humanidade tem tomado. Me preocupo com o mundo que meu filho vai viver, né? Isso dá mais sentido ainda pro meu trabalho…faz sentido levar esse tipo de alimento para as pessoas, de coração”, considera.

Tendência do sistema agroflorestal

A tendência dos sistemas agroflorestais é crescer e se tornar viável para mais produtores, tanto técnica quanto financeiramente. Já existe tecnologia disponível para plantar sistemas agroflorestais em larga escala, basta que ela seja acessível aos produtores, haja incentivo, e o conhecimento chegar ao campo para quem produz poder usufruir.

O outro lado da cadeia também precisa se conscientizar. E os consumidores estão cada vez mais preocupados e exigentes em termos de alimentação saudável.

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Projetos

Além de ser um projeto produtivo, a Fazenda Mangalô pretende ser um projeto de educação ambiental e consultoria em agricultura regenerativa. A necessidade de divulgar essa visão traz a responsabilidade de treinar e capacitar cada vez mais agentes multiplicadores, por isso a estratégia de promover cursos é uma alternativa que tem se mostrado eficiente e atraído produtores de diversas regiões do País.

 Atualmente, a fazenda é uma unidade demonstrativa do Projeto Rural Sustentável – Cerrado, iniciativa que promove dias-de-campo para divulgar e incentivar as boas práticas agrícolas e as tecnologias de baixa emissão de carbono.

 O projeto é financiado por Cooperação Técnica aprovada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com recursos oriundos do Financiamento Internacional do Clima do Governo do Reino Unido, tendo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) como beneficiário institucional.

O Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS) é o responsável pela execução e administração do projeto e a Associação Rede ILPF, por meio da Embrapa, é a responsável pela coordenação científica e apoio técnico.

Obstáculos

Para João Marcelo, a principal dificuldade para iniciar o projeto foi a falta de mão de obra especializada e de recursos ou incentivos para a agricultura familiar. “Tudo foi feito por meio de investimentos particulares e, por isso, a evolução do empreendimento foi lenta e exigiu muita paciência. São necessárias políticas públicas que tenham o real interesse em alavancar a autonomia, independência e soberania dos pequenos produtores para que uma mudança mais significativa e em maior escala ocorra”, considera.

Outra dificuldade recorrente é a ausência do cooperativismo regional no âmbito da produção orgânica. Não existe um grupo de produtores articulados e empenhados em batalhar pelas melhorias e reivindicações desse nicho no setor agropecuário. Quem pretende adentrar nesse mercado em Minas Gerais, João Marcelo alerta que será exigida muita organização, e planejamento para obter sucesso no negócio.

Diferentemente dos monocultivos convencionais, os sistemas agroflorestais biodiversos não seguem uma receita, ou um pacote tecnológico pré-estabelecido. É preciso ter compreensão do ambiente que o produtor está inserido e fazer uma avaliação do mercado existente na região para escolher as espécies que vão compor os consórcios.

É preciso investir em capacitação da equipe para contar com mão de obra especializada no manejo agroflorestal, e manter as podas em dia. O importante é seguir os princípios básicos: biodiversidade, cobertura de solo e a sucessão natural de espécies em sua devida estratificação e espaçamento.

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