Alerta para antracnose em seringueira

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Autores

Ana Carolina Firmino
Doutora e professora – UNESP/Campus de Dracena
ana.firmino@unesp.br
Gabriel Leonardi Antonio
Engenheiro agrônomo e mestre em agronomia
gabriel-leonardi@bol.com.br
Gustavo Celin
Graduando em Engenharia Agronômica e iniciação cientifica – UNESP/Campus Dracena
gcelin@hotmail.com

Crédito Miriam Lins

O Brasil é um grande produtor e consumidor de borracha natural. Considerando apenas o Estado de São Paulo, nos últimos cinco anos a área cultivada com seringueira teve um incremento superior a 20 mil hectares, o que corresponde à criação de quase seis mil novos empregos.

Entretanto, alguns fatores são limitantes ao aumento na produtividade da cultura no Brasil, entre os quais estão os problemas fitossanitários, a exemplo dos ocasionados pela antracnose.

A temida antracnose

A antracnose é uma doença causada por fungos do gênero Colletotrichum, considerado economicamente um dos mais importantes gêneros de fitopatógenos no mundo, devido aos elevados danos causados em plantas de diferentes espécies em regiões tropicais, subtropicais e temperadas.

Sabe-se que as espécies de fungos causadores da antracnose já relatados no Brasil pertencem à espécie Colletotrichum gloeosporioides e Colletotrichum acutatum. Existem estudos que apontam a presença de mais espécies Colletotrichum, além dessas associadas a esta doença, o que pode dificultar o seu controle, visto que existe sensibilidade diferenciada (entre espécies) a fungicidas.

Este fungo pode se reproduzir de maneira sexuada e assexuada, sendo esta última a mais comum de se observar no campo e a responsável pela disseminação do patógeno.

A fase assexuada é facilmente encontrada em lesões dos diversos órgãos da planta atacada. Nesta fase é possível a observação de acérvulos, que são estruturas responsáveis pela produção dos conídios do fungo que infectarão a planta.

Essa estrutura pode ser visualizada facilmente com uma lupa de bolso, podendo auxiliar na identificação da doença no campo. Em condições de clima úmido, os acérvulos exsudam uma massa rósea ou salmão, que pode ser vista a olho nu. Essa massa tem como função a proteção do fungo, e é facilmente dissolvida em água, o que facilita a disseminação do fungo pela chuva.

Prejuízos

Diferentes tecidos da seringueira são afetados pela antracnose. Nos pecíolos podem-se observar lesões escuras, necróticas e deprimidas. Em condições de ataque severo, ocorre desfolhamento, morte da gema apical e seca descendente dos ramos.

No painel de sangria os sintomas se caracterizam pela presença de lesões secas e deprimidas, com forma elíptica, localizadas acima do corte de sangria, podendo coalescer e danificar grande parte do painel. Em plantas mais velhas, com mais de cinco anos, a antracnose no painel não representa um problema grave, já que estas possuem um porte mais vigoroso e sua casca regenera mais rapidamente.

Nas folhas, os primeiros sintomas se manifestam nas brotações novas, causando lesões arredondadas de coloração marrom-avermelhada. Com o tempo estas lesões se juntam e causam a queda das folhas. Em ataques intensos há o desfolhamento da planta.

O fato de o fungo atacar as folhas e causar a desfolha prematura antes do período de senescência normal compromete a capacidade fotossintética da planta, o que leva a uma diminuição da produção de látex, já que a síntese deste produto pela planta é o resultado de uma sucessão de eventos bioquímicos, que estão relacionados à produção e ao transporte de fotoassimilados. A seringueira pode ter seu rendimento de látex comprometido em até 30% em situações de desfolha intensa antes da época de senescência.

Disseminação e condições para o desenvolvimento da doença

Os conídios produzidos nas massas rosáceas a partir dos acérvulos, formados principalmente nas folhas velhas ou outros órgãos mortos, são responsáveis por infecções tanto no campo quanto no viveiro. Os conídios são disseminados principalmente por meio de respingos de chuva, irrigação e pelo vento.

Nos estudos conduzidos pela equipe da UNESP de Dracena, financiado pela FAPESP, conseguiu-se comprovar que em condições de umidade relativa do ar superior a 90% durante no mínimo de quatro horas por dia em temperaturas entre 20 e 35ºC, o fungo já consegue penetrar em folhas de seringueira, podendo, desta maneira, causar doença.

Segundo os resultados adquiridos pela equipe de pesquisadores da UNESP de Dracena, este fungo em seringueira é capaz de explorar uma faixa de temperatura extensa, assim, ele pode se desenvolver em qualquer época do ano e período do dia, pois são raros e curtos os períodos onde as temperaturas ambiente ficam abaixo de 15ºC ou acima de 40ºC nos locais onde se localizam os plantios comerciais desta cultura.

Deste modo, o que pode colaborar para o manejo desta doença no campo é o monitoramento da pluviosidade, pois, como foi observado, o aumento do período de molhamento das folhas influenciou diretamente no desenvolvimento do fungo. No caso de viveiros e jardins clonais, o manejo da doença está ligado à forma correta de irrigação, evitando excesso de água principalmente nas folhas.

Como controlar a doença

A aplicação de fungicidas, principalmente em viveiros e jardins clonais, é o que vem sendo recomendado. No banco de informações sobre os produtos agroquímicos e afins registrados no Ministério da Agricultura (Agrofit) é possível ver que os produtos do grupo das estrobilurinas e triazóis são a base para controle desta doença em seringueira.

Estes produtos têm como característica serem sistêmicos nas plantas, e quando usados com frequência e sem associação com outros métodos de controle, podem levar à seleção de populações de fungos resistentes aos seus princípios ativos.

Vale ressaltar neste ponto, pesquisas desenvolvidas pela equipe da UNESP de Dracena em parceria com os pesquisadores da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) encontraram fungos responsáveis pela antracnose resistentes às doses de fungicidas recomendadas para controle da antracnose na cultura da seringueira.

Isso demonstra a importância da adoção de métodos complementares para manejo desta doença e do uso racional dos fungicidas, com pulverizações baseadas no monitoramento da doença no campo associado ao clima favorável ao desenvolvimento do fungo.

Dicas importantes

Como dito anteriormente, em viveiros e jardins clonais, tem-se que evitar o excesso de irrigação, principalmente nas folhas, para evitar o desenvolvimento e disseminação do patógeno.

Podas sanitárias em campo, viveiros e jardins clonais, com retirada de galhos e folhas com sintomas podem ser realizadas, pois além de diminuir a fonte de inóculo, não permitem a formação microclima favorável à ocorrência da doença. A adubação equilibrada e o bom preparo do solo antes do plantio podem contribuir para o controle da doença, já que plantas estressadas nutricionalmente são mais suscetíveis ao ataque de patógenos.

Por sua vez, os trabalhos visando à seleção de clones resistentes à antracnose no Estado de São Paulo estão sendo desenvolvidos por pesquisadores UNESP de Dracena em parceria com os pesquisadores da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA). Com base nestes estudos, sabe-se que os clones GT1, PB 235 e RRIM 600, que há alguns anos não sofriam desfolha significativa com a doença, estão entre os grupos de clones suscetíveis e que atualmente são afetados severamente pela antracnose.

Observou-se, nestes estudos, que existe uma interação do clone usado com a origem do fungo, o que significa que um clone de seringueira que se mostrou resistente à antracnose na região de Marília, por exemplo, pode não ser resistente na região de Votuporanga. Isso ocorre devido à variabilidade genética da população do fungo.

Alguns clones, pertencentes principalmente à série IAC 500, já foram identificados com níveis de resistência à antracnose e estão sendo mais bem estudados quanto a esta característica.