26.6 C
Uberlândia
sexta-feira, junho 14, 2024
- Publicidade -spot_img
InícioArtigosGrãosAlerta - Resistência das plantas aos fungos

Alerta – Resistência das plantas aos fungos

Claudia Vieira Godoy

Pesquisadora Embrapa Soja “Fitopatologista

claudia.godoy@embrapa.br

 

Créditos Thamyres Lima
Créditos Thamyres Lima

A resistência nada mais é que um processo natural de seleção. Toda vez que se usa muito um determinado fungicida são selecionados isolados de fungos menos sensíveis à aplicação de determinado agroquímico.

Se a seleção de isolados resistentes/menos sensíveis é acelerada pelo excesso de aplicações, para atrasar esse processo deve-se limitar o número de aplicações do mesmo produto. Isso pode ser feito por meio da rotação de modos de ação, evitando aplicar o mesmo ingrediente ativo (fungicida) de forma sequencial.

Estratégias

Uma das estratégias que vem se tentando na cultura da soja para ferrugem é o fechamento da janela de semeadura para limitar o número de aplicações na safra. O aumento do número de aplicações para ferrugem aumenta à medida que se atrasa o plantio, em razão do aumento de inóculo do fungo, que se multiplica nas primeiras semeaduras.

Nas semeaduras tardias, a doença se inicia cada vez mais cedo, aumentando a necessidade de aplicações com intervalos menores. O fungo que incide nessas semeaduras vem de áreas que receberam fungicidas e, desta forma, já foram selecionados.

No entanto, só quatroEstados adotaram essa medida (MT, GO, PR e TO). Como o fungo se espalha com o vento, essa estratégia só funcionará se adotada por todos os Estados e também por países vizinhos, principalmente o Paraguai. É uma medida que desagrada muito aos produtores, mas é uma tentativa de atrasar o processo de seleção.

Quando não tivermos fungicidas com alta eficiência, todas as regiões sofrerão e não somente essas áreas com soja tardia, que representam menos de 1% da soja nacional.

Claudia Vieira Godoy, fitopatologista e pesquisadora da Embrapa Soja - Créditos Thamyres Lima
Claudia Vieira Godoy, fitopatologista e pesquisadora da Embrapa Soja – Créditos Thamyres Lima

Outras opções

Outra estratégia é a utilização de fungicidas em misturas, e jamais ingredientes ativos isolados. A mistura é uma estratégia antirresistência se os dois ingredientes ativos presentes na mistura tiverem eficiência.

Várias misturas formuladas para ferrugem apresentam somente um dos componentes com eficiência, estando expostas à resistência como se fosse o fungicida isolado. A associação a fungicidas multissítios, como mancozebe, clorotalonil e fungicidas à base de cobre, pode ajudar nas estratégias antirresistência.

Esses fungicidas antigos possuem baixo risco de resistência por agirem em vários pontos do fungo, no entanto, possuem a desvantagem de não penetrarem na planta e serem lavados com chuva, sendo facilmente degradados, apresentando menor residual.

Na cultura da soja, embora a ferrugem seja a principal doença que define o controle, isso não é realidade em toda área de soja do Brasil. Com a adoção do vazio sanitário (intervalo de 60 a 90 dias sem soja no campo na entressafra) há uma redução do inóculo do fungo da ferrugem, Phakosporapachyrhizi, que só sobrevive em plantas vivas.

As primeiras semeaduras escapam da doença e normalmente só apresentam ferrugem no final do ciclo. As situações de doenças que temos nas diferentes regiões produtoras de soja do Brasil são bem diferenciadas, mas o que se observa é uma generalização nas recomendações, como se todas as semeaduras e regiões tivessem problema com ferrugem.

Realidade

A resistência é realidade não só na cultura da soja, como em diversas culturas no mundo. O processo de resistência se intensificou a partir da década de 1970, com o lançamento de fungicidas sítio-específicos, isto é, que agem em pontos específicos dos patógenos, como respiração, formação de membranas, divisão celular, etc.

Na soja, os fungicidas sítio-específicos registrados para o controle da ferrugem possuem três modos de ação principais. Os inibidores da desmetilação (IDM, triazóis) que atuam inibindo a biossíntese de ergosterol, a formação de membrana celular, e os fungicidas que agem na respiração, como os inibidores da quinona externa (IQe, estrobilurinas) e os fungicidas inibidores da succinatodesidrogenase (ISDH, carboxamidas), registrados a partir da safra 2013/14.

A menor sensibilidade do fungo da ferrugem a fungicidas triazóis e estrobilurinas já foi confirmada para o fungo no Brasil em 2006 e 2013, respectivamente. No início de 2017, foi relatada a presença de uma mutação no fungo P. pachyrhizi que confere menos sensibilidade à carboxamida, ainda restrita à região sul do País.

A situação só não é pior porque, embora as resistências dentro dos modos de ação apresentem tendência de serem cruzadas, isto é, quando há resistência a um ingrediente ativo todos os demais com o mesmo modo de ação são afetados, não temos visto uma resistência cruzada completa na cultura da soja.

Ou seja, embora o fungo seja resistente a estrobilurinas, por exemplo, nem todas estrobilurinas registradas para controle de ferrugem foram afetadas da mesma forma. Por isso a eficiência dos fungicidas é reduzida de forma diferente, mesmo eles tendo o mesmo modo de ação.

 

Essa matéria completa você encontra na edição de Agosto 2017 da revista Campo & Negócios Grãos. Adquira já a sua para leitura integral.

 

ARTIGOS RELACIONADOS

Adubos verdes controlam nematoides

  Fabio Lúcio Martins Neto Técnico em Desenvolvimento Rural da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) e doutorando em Fitotecnia da Universidade Federal de Viçosa (UFV) fabio.martinsneto@ebda.ba.gov.br Tatiana...

Pesquisador da TMG, Romeu Kiihl, é eleito Personagem Soja Brasil

Também conhecido como “Pai da soja“, o melhorista participou do desenvolvimento de mais de 150 cultivares    O diretor científico e melhorista de germoplasma da Tropical...

IMA fiscalizará vazio sanitário da soja a partir de 1º de julho

Com foco na prevenção e controle da ferrugem asiática da soja, doença causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi , o vazio sanitário dessa cultura será...

Período de verão exige variedades de alface tolerantes às doenças

  Jean de Oliveira Souza Engenheiro agrônomo, pós-doutorando em Agronomia-Melhoramento Vegetal no Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal da Paraíba (CCA/UFPB) jsoliveira1@hotmail.com Atualmente, existe, no mercado, um...

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!