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Alta tecnologia exige híbrido de milho resistente ao acamamento

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Autores

Israel Alexandre Pereira Filho
israel.pereira@embrapa.br
Emerson Borghi
emerson.borghi@embrapa.br
Pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo

Os altos rendimentos de milho obtidos recentemente devem-se ao uso de alta tecnologia, que envolve uma série de fatores. Dentre esses, está o uso de cultivares modernas de alto nível de produtividade, aliado a várias características da planta, como a resistência a acamamento e quebramento de colmo. Perdas decorrentes de acamamento e quebramento do colmo são bastante variáveis a cada safra. Estudos correlacionando as características com a produtividade de grãos estimam que essas perdas variam entre 5% e 20% a cada ano.

O tombamento ocorre, principalmente, no final do ciclo da cultura, quando alguns fatores, como o colmo e as raízes, parecem não ser capazes de sustentar o peso da espiga. São inúmeros os fatores que podem influenciar num maior índice de acamamento ou quebramento do colmo, mas a translocação de assimilados para a espiga é provavelmente a causa principal do enfraquecimento do colmo e das raízes. Deve-se levar em consideração também aspectos do manejo do cultivo, como espaçamento entrelinhas e densidade de semeadura inadequados para a cultivar escolhida, conforme o objetivo desejado.

Os efeitos dessas duas características sobre o rendimento de grãos dependem principalmente do genótipo, da severidade de ocorrência, bem como da fase de desenvolvimento da cultura em que eles se manifestam.

A Tabela 1 evidencia as perdas no rendimento de grãos em função do ângulo de inclinação e estádios de desenvolvimento da planta de milho, mostrando que a ocorrência do acamamento das plantas próxima à fase de pendoamento (V17-R1) é mais prejudicial quando comparada ao acamamento ocorrido no início do desenvolvimento vegetativo, quando as plantas ainda podem se recuperar, ou seja, voltar a uma posição de quase normalidade, evitando assim perdas no momento da colheita. 

Tabela 1. Produtividades médias obtidas em função do ângulo de inclinação do colmo (acamamento) e dos estádios de desenvolvimento da planta de milho

Estádios de Desenvolvimento Primeiro Ano Ângulo de Inclinação Produtividade em kg.ha-1 Estádios de Desenvolvimento Segundo Ano Ângulo de Inclinação Produtividade em kg.ha-1
Testemunha 90 12.480(100%) Testemunha 90 11.760(100%)
V 10 85 12.000 (96%)(*) V11 – V12 73 11.340 (97%)
V13 – V14 61 11.400 (91%) V15 50 10.560 (90%)
V17 – R1 36 5.688 (76%) VT 22 10.020 (86%)

Fonte: Adaptado de Carter & Hudelson (1988).

(*) Percentagem em relação à testemunha.

Acamamento

O acamamento pode ser definido como um estado permanente de modificação da posição do colmo em relação à posição original, o que resulta em plantas recurvadas e até mesmo no quebramento de colmos. O primeiro e o segundo entrenós da porção basal do colmo com maior comprimento, mostraram correlação positiva com a predisposição ao quebramento, em comparação a genótipos com entrenós basais de menor comprimento.

O acamamento é determinado pelo percentual de plantas acamadas, com o colmo formando ângulo maior que 20º com a vertical, enquanto que o quebramento é determinado pelo percentual de plantas com o colmo quebrado abaixo da inserção da primeira espiga ou da espiga principal, por ocasião da colheita.

O acamamento e o quebramento são fenômenos complexos, e sua expressão depende de fatores genéticos, inter-relacionados com fatores do clima, do solo, das práticas culturais adotadas e de danos causados por pragas e doenças e deficiências nutricionais, como falta de potássio principal, componente dos tecidos celulares. Entre os principais agentes que promovem acamamento e quebramento, destacam-se o vento e a chuva. 

O acamamento muitas vezes causa a ruptura dos tecidos, o que interrompe a vascularização do colmo e impede a recuperação da planta, afeta a estrutura anatômica essencial para o transporte de água e nutrientes, e quanto mais cedo se manifestar no ciclo de vida da planta, menor serão o rendimento e a qualidade dos grãos.

O colmo do milho, além de suportar as folhas e partes florais, serve também como órgão de reserva de fotoassimilados. Após a floração, o fluxo de fotoassimilados é direcionado prioritariamente para o enchimento de grãos. Quando o processo fotossintético não produz fotoassimilados em quantidade suficiente para a manutenção dos tecidos, uma maior demanda exercida pelos grãos (drenagem) por esses produtos leva os tecidos da raiz e da base do colmo ao enfraquecimento, causando assim o acamamento ou o quebramento da haste.

Causas

Várias são as causas que podem acarretar o acamamento e quebramento de plantas e sua relação com a redução do potencial produtivo, como o sistema radicular pouco desenvolvido em função de profundidade de plantio; solo com excessiva umidade no momento da semeadura, e na fase de estabelecimento do sistema radicular; solo compactado; pragas e doenças de solo e de colmo; híbridos ou variedades de diferentes genótipos e/ou ciclos; época, densidade de semeadura e espaçamento entrelinha; e ainda condições climáticas extremas, como vendaval e chuvas fortes durante muito tempo.

A semeadura realizada em situações de alta umidade do solo pode provocar espelhamento e compactação das paredes laterais do sulco de plantio, levando a uma dificuldade de desenvolvimento radicular lateral, induzindo as raízes a se desenvolverem apenas no sentido do comprimento do sulco de plantio.

A semeadura nunca deve ser realizada muito superficialmente, ou seja, com profundidade de semeadura menor que 2,5 cm, uma vez que induzirá a formação das raízes nodais acima da superfície ou logo abaixo dela.

O plantio muito superficial pode afetar a velocidade de emergência, tornando-a muito lenta e irregular por causa da variação da umidade e do processo de aderência com o solo, o que vai impedir que muitas sementes não completem o processo de germinação, podendo haver redução significante na produtividade em decorrência da menor densidade de plantas na colheita.

Pragas

Dentre as pragas de solo que podem danificar o sistema radicular do milho estão a larva-alfinete, os corós, nematoides e uma série de outras não menos importantes, como lagarta-elasmo e brocas do colmo. Deve ser lembrado que somente a ocorrência de uma praga não significa que haverá acamamento da planta, pois a “condição climática” deverá estar associada a eventos que contribuam para o dano mecânico, por exemplo, os fortes ventos e/ou tempestades por longos espaços de tempo. 

As principais doenças relacionadas ao acamamento são decorrentes de patógenos que se hospedam no caule da planta, em especial Gibberella zeae e Diplodia spp. Entre os fatores que podem levar ao acamamento, cita-se como principal a temperatura no interior do dossel (lavoura) entre 23ºC e 28°C, proporcionando maior crescimento dos micélios.

Já temperaturas entre 28 e 33°C propiciam maior porcentagem de germinação dos conídios de S. maydis, e entre 26 e 29°C, de S. macrospora. A Gibberella é o principal inóculo responsável pela infecção constituída dos ascósporos liberados de peritécios presentes nos restos culturais, que podem ser transportados pelo vento.

A Diplodia spp. causa podridões nos primeiros entrenós das plantas, onde se observa a presença de picnídios. Plantas podem ser infectadas por Macrophomina, que se desenvolve a partir do sistema radicular. Posteriormente, pode-se verificar a destruição dos tecidos internos, restando apenas os vasos lenhosos, em que podem ser visualizados esclerócios, que conferem coloração acinzentada no interior dos colmos, possibilitando a infecção de outros complexos de doenças oportunas, levando de vez ao acamamento via sistema radicular.

Genética

Os híbridos ou variedades de diferentes genótipos e/ou ciclos podem influenciar no fator acamamento e/ou quebramento da planta. A maioria dos híbridos atuais já possui o caráter “stay green”, que retarda a senescência, mantendo a coloração verde das plantas mesmo após o enchimento dos grãos, conferindo às plantas maior resistência ao estresse hídrico, aumento da tolerância a pragas e doenças, redução do acamamento e quebramento de plantas, tolerância ao maior adensamento, bem como proporcionando, direta ou indiretamente, aumento da produtividade. 

Os tipos de raízes presentes na planta de milho influenciam nos problemas do colmo (acamamento) e da própria raiz. Assim, as raízes primárias e seminais são responsáveis pelo suprimento de água e nutrientes na fase inicial, as modais e laterais, responsáveis pelo maior suprimento da planta ao longo da sua vida; e raízes de suporte, com as adventícias ou também chamadas de âncora, que surgem acima da superfície do solo, contribuem para a sustentação e diminuição dos riscos de acamamento da planta, e ainda podem absorver alguns nutrientes.

A decisão

Na escolha da cultivar ou do híbrido de milho, o produtor deve ficar atento com relação a estas características (acamamento e quebramento), pois existe no mercado de milho um grande número de cultivares com resistência a elas, principalmente as que apresentam o caráter “stay green”.

A relação entre densidade de semeadura, espaçamento entrelinhas e o acamamento está correlacionada com a cultivar de milho, uma vez que é recomendada uma densidade de semeadura e espaçamento entrelinhas adequada para cada cultivar, segundo a utilização: grão, silagem, milho verde, milho verde doce, milho pipoca e mini milho, ou ainda para cultivo de verão ou safrinha.

Uma vez não seguida a recomendação da densidade de semeadura, especificada para a cultivar, pode ocorrer o acamamento ou quebramento. O estande de plantas e suscetibilidade dos híbridos ao acamamento tem correlação positiva. Normalmente, em condições ótimas de cultivo algumas cultivares podem sofrer acamamento por causas diversas, tais como alta fertilidade do solo, incidência de doenças de colmo, excesso de água (tanto via irrigação como por altas precipitações próximas da maturidade fisiológica), entre outras.

Outros fatores, como adubação, também podem influenciar no índice de acamamento e quebramento das plantas. As altas adubações, principalmente em solos com alta fertilidade, podem ocasionar maior desenvolvimento vegetativo e, com isso, maior suscetibilidade ao acamamento. Em solos com deficiência de potássio pode ocorrer acamamento pelo sistema radicular em função de ele ser constituinte da turgescência das células dos tecidos das raízes das gramíneas.

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Cuidados

Milho cultivado com alto nível de tecnologia exige do produtor alguns cuidados para minimizar os processos de acamamento e quebramento das plantas, como:

º A escolha do híbrido mais adequado para cada região e para a finalidade de utilização, levando em consideração algumas características, como a resistência ao acamamento e ao quebramento.

º Controle de pragas e doenças, que indiretamente podem levar a planta ao acamamento em função das lesões causadas pelos insetos ou pelas doenças.

º No manejo e nos tratos culturais, deve-se observar sempre as densidades de semeaduras e espaçamentos entrelinhas indicadas pela empresa de semente, bem com a profundidade de semeadura.

º Controle adequado de água de irrigação, evitando o excesso de umidade do solo que pode causar problemas no desenvolvimento das raízes, deixando-as superficiais, o que pode induzir ao acamamento pela ação de ventos e chuvas fortes.

º Deve-se fazer adubação em função da análise do solo para não haver excesso do fertilizante, o que pode provocar um desenvolvimento vegetativo excessivo da planta, tornando-a suscetível ao processo do acamamento bem como do quebramento.

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