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terça-feira, julho 5, 2022
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Alternativas eficientes contra a resistência de insetos

Autores

Elisamara Caldeira do Nascimento
Doutora em Agronomia e professora da Sesitec – MT
Talita de Santana Matos
Doutora em Agronomia
Rafael Campagnol
Professor de Olericultura da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT)
Glaucio da Cruz Genuncio
Professor de Fruticultura – UFMT
glauciogenuncio@gmail.com

Com a expansão das áreas de colheita de cana sem queima (cana crua), a cigarrinha das raízes (Mahanarva fimbriolata) se mantinha como uma praga que tinha pouca importância econômica, porém, atualmente vem causando sérios danos, tornando-se um problema de relevância para a cultura.

No sistema de colheita adotado nos dias de hoje, o acúmulo de palha contribui para manter a umidade do solo, o que favorece o aumento da população desse inseto. Por outro lado, a queima contribui com a destruição de parte dos ovos depositados no solo e na palhada, porém, tem um aspecto negativo em termos de ecologia e conservação do solo.

As cigarrinhas das raízes, além da cana-de-açúcar, são frequentemente encontradas em diversos capins, pastagens e gramas. Os adultos vivem cerca de 15 a 20 dias e uma fêmea põe entre 50 e 60 ovos. Os ovos, no período seco, ficam em diapausa, com emergência das ninfas somente no início do período úmido.

Em condições de temperatura e umidade elevadas, as ninfas emergem dos ovos cerca de 15 a 20 dias após a postura e dirigem-se às raízes, de onde sugam grande volume de seiva. A praga passa por cinco ecdises, processo que referencia a mudança do exoesqueleto nos animais que apresentam este modo de crescimento num período de 30 a 45 dias, e estão sempre envolvidas por uma espuma densa, bastante característica, cuja função principal é proteger as ninfas da dissecação.

Condições propícias

Em condições de umidade e temperatura elevadas, o ciclo evolutivo completo é de 45 a 60 dias. O nome vulgar, cigarrinha das raízes, está, portanto, relacionado ao local de alimentação e desenvolvimento das ninfas, que são as raízes.

Os fatores climáticos têm grande influência na população destes insetos. As ninfas não eclodem no período mais seco e frio do ano, pois necessitam de calor e umidade (setembro a abril), favorecendo significativamente o desenvolvimento da cigarrinha.

Sintomas e danos

Os danos causados à cultura são principalmente pelas formas jovens da cigarrinha das raízes, que extraem grande quantidade de água e nutrientes das raízes. As ninfas, ao sugarem as radicelas, injetam secreção salivar, que é tóxica para a planta, causando necrose nos tecidos foliares e radiculares.

Os sintomas nas plantas são colmos menores, mais finos e com entrenós mais curtos. Sob infestações severas, os colmos apresentam-se desnutridos e desidratados, secando do topo para a base. As folhas se tornam inicialmente amareladas e posteriormente secas, podendo levar a planta à morte. O canavial fica completamente seco, com aspecto queimado.

Estes sintomas podem ser notados mesmos nas épocas das chuvas, embora sejam mais evidentes no período seco subsequente. As quedas na produtividade podem chegar a 40-50%, em culturas colhidas em final de safra. Em culturas colhidas em começo de safra, as perdas são menores, ao redor de 8 a 10%.

Manejo

O manejo de áreas com problemas de cigarrinha, para ser bem-sucedido, deverá englobar todas as ferramentas disponíveis, pois, para cada situação, uma delas se mostrará mais adequada. Dificilmente uma única ferramenta de manejo será eficiente em todas as condições de cultivo. Sendo assim, recomenda-se o manejo integrado de pragas (MIP) para seu controle.

O MIP se baseia no conhecimento do comportamento e biologia dos insetos-praga, dos insetos que atuam como inimigos naturais e da lavoura que está sendo cultivada. Todas as técnicas empregadas no MIP são validadas por pesquisas e experiências de campo desenvolvidas por agências de extensão e universidades.

Para o controle da cigarrinha

† Uso de variedades resistentes: apesar de ser uma técnica muito eficiente para outras pragas, é uma ferramenta de difícil utilização para este caso, já que quase a totalidade das variedades cultivadas comercialmente é atacada pela praga.

† Levantamentos populacionais: o levantamento é realizado para identificar onde, quando e como fazer o manejo da cigarrinha, a fim de minimizar os prejuízos. Os levantamentos devem ser iniciados com cerca de 15 a 20 dias após as primeiras chuvas da primavera, quando as primeiras ninfas são observadas em campo.

Devem ser amostrados dois pontos por hectare, sendo cada ponto constituído por 02 m de sulco. Em cada ponto devem-se contar os adultos nas folhas e cartuchos das plantas e, em seguida, afastar com cuidado a palha entre os colmos, dispondo-a na entrelinha, a fim de que os pontos de espuma possam ser visualizados.

Depois disso, contam-se as ninfas e adultos nas raízes. A ocorrência de inimigos naturais, especialmente da mosca Salpingogaster nigra e de ninfas e adultos de cigarrinha mortos pela ação de fungos também deve ser anotada. O registro dos dados observados deve ser feito em ficha apropriada ou no caderno de campo.

† Nível de controle e de dano econômico: muito se discute sobre a densidade populacional de cigarrinha-das-raízes, acima da qual se deve entrar com medidas de controle, sejam elas químicas ou biológicas. Esse valor, chamado em entomologia de nível de controle (NC), é sempre inferior ao nível de dano econômico (NDE) que, por definição, é a densidade populacional da praga que favorece um prejuízo econômico à cultura, semelhante ao custo de adoção de uma medida de controle.

Por outro lado, vários estudos mostram que determinada variedade sofre maiores danos quanto mais tarde se dá sua colheita. Portanto, o NDE é menor para colheitas de final de safra do que de início.

† Controle biológico: atualmente o controle adotado é com a aplicação do fungo Metarhizium anisopliae.

† Controle químico: uso de inseticidas apropriados associados à retirada ou afastamento da palha na linha. Esse manejo na cultura contribui para reduzir as populações da praga, por manter as linhas de cana mais secas, devido à maior incidência dos raios solares sobre ela.

† Antecipação de colheita em áreas severamente atacadas: a antecipação da colheita reduz as perdas de provocadas pela praga, embora não seja uma medida de controle da cigarrinha.

Cigarrinha biologicamente tratada

O controle biológico consiste no emprego de um organismo (predador, parasita ou patógeno) que ataca outro que esteja causando danos econômicos às lavouras. Trata-se de uma estratégia muito utilizada em sistemas agroecológicos, assim como na agricultura convencional que se vale do Manejo Integrado de Pragas (MIP).

No Brasil, embora o uso do controle biológico não seja uma prática generalizada entre os agricultores, há avanços significativos em alguns cultivos, devido aos esforços de órgãos estaduais de pesquisa e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Um exemplo de sucesso é o controle da lagarta da soja (Anticarsia gemmatallis), por meio do Baculovirus anticarsia.

Para alcançar bons resultados, todo programa de controle biológico deve começar com o reconhecimento dos inimigos naturais da “praga-chave da cultura” (principal organismo que causa danos econômicos às lavouras).

Uma vez identificada a espécie e o comportamento do organismo em questão, o principal desafio dos centros de pesquisa diz respeito à reprodução desse inimigo natural em grandes quantidades e com custos reduzidos. Outras estratégias consistem no desenvolvimento, dentro da propriedade, de práticas culturais (consórcio e rotação de culturas, uso de plantas como “quebra-vento”, cultivos em faixas, entre outros) que aumentem a diversidade de espécies e a estabilidade ecológica do sistema, dificultando a reprodução do organismo com potencial para trazer dano econômico.

Embora o controle biológico traga respostas positivas na redução ou abandono do uso de agroquímicos e na melhoria de renda dos agricultores, analisando o conjunto de experiências realizadas mundialmente verifica-se que os resultados ainda estão concentrados em apenas alguns cultivos e, principalmente, no controle de insetos. Isso quer dizer que ainda existe muito que se desenvolver nas áreas de controle de pragas e doenças.

Tendência

Nos últimos anos, felizmente, o número de produtos comerciais para controle biológico vem aumentando. Produtos comerciais à base desses organismos são chamados defensivos biológicos e possuem características sustentáveis, tais como baixa toxicidade, segurança de manuseio, baixo impacto ambiental, baixa pressão de seleção de populações resistentes.

Ação e reação

Os fungos, as bactérias e os nematoides entomopatogênicos atuam como inseticidas biológicos, parasitando diferentes estruturas morfológicas de insetos e ácaros, causando-lhes doença e morte.

Os fungos antagonistas e as bactérias antagonistas atuam como inibidores biológicos, ocupando o espaço e/ou liberando substâncias que inibem o crescimento de fungos, bactérias e nematoides indesejáveis no solo.

Por outro lado, alguns produtores fazem uso de parasitoides, definidos como organismos que se desenvolvem dentro ou sobre outras espécies, não as deixando chegar à fase adulta de reprodução. Os parasitoides podem subdividir-se em endoparasitoides (desenvolvem-se dentro de outros organismos) ou ectoparasitoides (desenvolvem-se na parte externa de outros organismos).

Normalmente, os parasitoides são vespas ou moscas que, de acordo com a espécie, estão aptos a parasitar diferentes fases do desenvolvimento das pragas, podendo ser: parasitoides exclusivos de ovos, de larvas, pupas ou adultos.

Predadores são insetos ou ácaros que se alimentam de outros insetos e ácaros, consumindo várias presas para poder completar seu ciclo. Normalmente são generalistas, alimentando-se diariamente de ovos ou fases jovens de pragas.

Novidades

Recentemente, foi registrado no Brasil um novo inseticida microbiológico que tem como principal alvo a cigarrinha-das-raízes. De acordo com a fabricante, ele é “ideal para o Manejo Integrado de Pragas (MIP), preserva os inimigos naturais das pragas e não é tóxico ao meio ambiente, à saúde humana e aos animais”.

Outro ponto importante é a fácil associação com outros métodos de controle, como o uso de Cotesia flavipes, Trichogramma galloi e defensivos químicos.

O produto possui como ingrediente ativo os conídios do fungo Metarhizium anisopliae, sendo indicado para o manejo de resistência de insetos-praga a defensivos convencionais. O produto é da linhagem ESALQ E9, e possui em sua composição pó molhável (WP) de Metarril.

Na descrição do produto, a fabricante destaca ainda que o novo inseticida microbiológico apresenta ótimas características de solubilidade e suspensibilidade, o que prova sua excelente dispersão em água e condições de aplicações em campo.

O mecanismo se dá por parasitismo, em que os conídios do fungo germinam na superfície do inseto-praga, penetrando em seu tegumento e colonizando-o internamente. Assim, a liberação de toxinas no interior do inseto reduz a sua mobilidade até a morte. Posteriormente, os insetos colonizados pelo fungo se tornam imóveis e cobertos por uma camada de conídios, visível a olho nu em tons verdes. Todo o processo ocorre em até 12 dias após a aplicação, dependendo das condições climáticas.

Dicas importantes

A escolha do produto com a base de agentes biológicos de controle é apenas um dos itens a ser observado durante o processo produtivo. Vários outros fatores devem ser observados e utilizados de forma integrada para que o manejo e controle das pragas e doenças sejam eficazes.

A adoção do MIP deve ser criteriosa, já que produz uma série de informações úteis vindas do campo que precisam ser guardadas e organizadas da melhor maneira possível a fim de abastecer o produtor com informações em tempo real para que este possa tomar decisões mais rápidas e com maior segurança.

Com a necessidade de se aumentar a produtividade e cortar custos, produtores ao redor do mundo estão confiando na tecnologia da informação para produzir mais usando menos insumos.

Deste modo, ferramentas tecnológicas capazes de georreferenciar as primeiras ocorrências de insetos-pragas na lavoura, mensurar as densidades das infestações com maior precisão, além de gerenciar tarefas e organizar as informações vindas do campo, permitirão ao produtor maior poder de decisão.

Abastecido com informações mais precisas sobre o que acontece em tempo real na fazenda, os produtores terão o controle de suas aplicações e custos com defensivos agrícolas de forma mais rápida e acessível.

Resultados comprovados

Para a soja, os benefícios da tecnologia já foram demonstrados em áreas experimentais mantidas pela parceria Embrapa Soja (PR) e Instituto Emater-PR. As duas instituições instalaram, na safra 2013/14, cerca de 50 unidades de referência em propriedades do Norte e do Oeste do Paraná para avaliar a eficiência do MIP.

Nessas áreas, com tamanhos entre quatro e 270 hectares, as pulverizações foram reduzidas de cinco (média do estado) para 2,6 aplicações. Estes resultados mostram que é possível diminuir o uso de agroquímicos no controle de pragas, o que propicia melhorias na renda do produtor e minimiza o impacto ao ambiente.

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