Análise foliar: Ferramenta para o diagnóstico do estágio nutricional da cana

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Autor

Renato Passos Brandão
Gerente do Deptº Agronômico – Grupo Vittia

Experimentos realizados na Inglaterra de longa duração com culturas produtoras de grãos comprovaram que a adubação balanceada é responsável por 40% da produção agrícola. Baseado nos resultados obtidos na Inglaterra, surge um questionamento: Quais são os nutrientes e as respectivas doses que devem ser aplicadas no solo e via foliar para maximizar o potencial produtivo da cana, mantendo a sustentabilidade do sistema de produção agrícola?

O manejo nutricional da cana pode ser resumido em quatro técnicas: análise química do solo, histórico do manejo nutricional, diagnose visual e diagnose foliar ou análise foliar.

Análise química do solo

A avaliação da fertilidade do solo por meio da análise química do solo é a etapa inicial e o mais importante dos programas nutricionais em cana. É considerada por muitos pesquisadores agrícolas como uma das práticas culturais mais importantes para a produção agrícola e a sustentabilidade dos sistemas de produção agrícola.

A análise química do solo indica os teores de nutrientes no solo e demais parâmetros que afetam o desenvolvimento da cana – matéria orgânica (MOS), pH, saturação por bases (V), teor de alumínio trocável, a saturação por alumínio (m) e capacidade de troca catiônica (CTC).

As informações da análise química do solo e do histórico do manejo nutricional da cana são essenciais para a determinação dos nutrientes e o estabelecimento das quantidades de corretivos agrícolas e fertilizantes a serem aplicados em cana.

Entretanto, em muitas situações, por mais bem realizada que seja a amostragem do solo e por mais completo que seja o histórico do manejo nutricional, podem ocorrer deficiências ou excessos de um ou mais nutrientes na cana.

Com o intuito de verificar se o manejo nutricional surtiu os efeitos desejados – teores dos nutrientes na faixa adequada da cana – é importante utilizar mais duas técnicas: diagnose visual e diagnose foliar.

Diagnose foliar

É uma técnica baseada no fato de as plantas com deficiência acentuada ou toxicidade de um nutriente, normalmente, apresentarem sintomas definidos e característicos dos distúrbios nutricionais causados por deficiência ou toxicidade (Figura 1).

Foto 1. Deficiência de boro em cana.

Fonte: IPNI Brasil.

Segundo Malavolta (1980), a manifestação externa da deficiência ou toxicidade de um nutriente é o último passo de uma sequência de eventos metabólitos que ocorrem nas plantas. Entretanto, a diagnose visual tem limitações: exige profissionais treinamentos para a distinção dos sintomas visuais e com o surgimento dos sintomas de deficiência ou toxicidade, a produtividade da cana já foi comprometida.

O que é análise foliar?

O termo “análise foliar” refere-se à análise química das folhas da cana. Segundo o Instituto da Potassa & Fosfato (1998), a análise química do solo e a análise foliar devem caminhar lado a lado. Uma técnica não substitui a outra.

É uma técnica utilizada para a avaliação do estágio nutricional da cana. Consiste na amostragem de determinadas folhas da cana e a análise dos teores dos nutrientes. Posteriormente, comparar os teores dos nutrientes na folha de cana com uma folha padrão.

Objetivos

A avaliação do estado nutricional da cana via análise foliar é uma ferramenta importante para elucidar problemas nutricionais que muitas vezes não podem ser esclarecidos pela análise química do solo e/ou diagnose visual.

A análise foliar auxilia na avaliação do estado nutricional identificando “fome oculta” e probabilidade de resposta às adubações, verificação do equilíbrio nutricional, confirmação de deficiências nutricionais ou toxidez de nutrientes; acompanhamento, avaliação e auxílio no ajuste do programa de adubações.

Fundamentos

Existe uma relação bem definida entre o crescimento, a produção da cana e o teor dos nutrientes nos tecidos vegetais. Essa relação caracteriza-se por uma curva em que se distinguem cinco regiões (Figura 2).

Relação entre o crescimento ou a produção e os teores de nutrientes em tecidos vegetais. Fonte: Comissão de Fertilidade do Solo do Estado de Minas Gerais, 1999.

A utilização da análise foliar na avaliação do estado nutricional das plantas baseia-se na premissa da existência de uma estreita correlação entre o suprimento de nutrientes pelo solo e seus teores nas folhas, o que, por sua vez, estará associado com as produções agrícolas (Figura 3) (Fageria et al., 2009; Raij, 2011).

Relação esquemática entre o teor de um nutriente no solo e seu teor nas folhas. Fonte: Mengel e Kirkby (1987) citado por Raij (2011).

Assim como na análise química dos solos, uma das fases mais críticas da análise foliar é a amostragem das folhas da cana.

Amostragem das folhas da cana

A diagnose foliar exige uma rigorosa amostragem das folhas da cana, seguindo procedimentos pré-estabelecidos.  A composição da cana varia com a idade, parte amostrada, condição da planta, a variedade, as condições edafoclimáticas, dentre outros.

O maior potencial de erro da análise foliar é a amostragem das folhas da cana. Poucas folhas de cana devem representar o estágio nutricional de um talhão.

Inicialmente, separar a cana em talhões uniformes quanto ao tipo de solo – arenoso ou argiloso, vermelho ou amarelado –, manejo nutricional, variedade, produtividade, sistema de colheita e o número de cortes. Na definição dos canaviais homogêneos, levar em consideração também a utilização de vinhaça e outros subprodutos da produção de açúcar e etanol.

Amostrar as folhas recém-maduras da cana. São folhas que apresentam maior estabilidade em relação a fatores que afetam os teores dos nutrientes e ao mesmo tempo devem ser sensíveis o suficiente para refletir variações no teor decorrente de diferenças de suprimento.

Os solos são heterogêneos, ocorrendo reações químicas complexas, intensificadas pelas calagens, gessagens e adubações. Portanto, a heterogeneidade química do solo reflete também na composição da cana, aumentando o erro da amostragem.

Normalmente, quanto maior é o número de folhas de cana amostradas, menor será o erro da amostragem. Amostrar pelo menos 30 folhas de cana. Com a finalidade de padronizar a amostragem das folhas de cana, seguir a orientação abaixo:

Época: período de maior absorção e crescimento da cana – estação das chuvas – novembro a janeiro;

Folha: coletar a folha +1 (corresponde à 3ª folha a partir do ápice onde a bainha é visível). Utilizar somente parte mediana da folha, desprezando a nervura central e os extremos da folha – ponta e a bainha.

Cuidados após amostragem das folhas de cana

Após a coleta, as folhas devem ser imediatamente encaminhadas ao laboratório de sua confiança, preferencialmente verdes, para facilitar a lavagem. Caso não seja possível o envio imediato das folhas verdes ao laboratório, o material deve ser lavado e seco a 65ºC sempre que possível, ou ao sol, pois a secagem ao ar é insuficiente para evitar a decomposição enzimática do material.

A lavagem pode ser realizada com solução de detergente a 0,1% (1 mL/L), seguida de enxague em água limpa. Evitar a utilização de saco plástico para o envio das folhas da cana para o laboratório. Utilizar saco de papel poroso para facilitar a troca gasosa.

Interpretação dos resultados da análise foliar

Um dos critérios mais utilizados no Brasil para a interpretação da análise foliar de cana baseia-se nas chamadas faixas de suficientes dos nutrientes (Tabela 1).

Tabela 1. Faixa adequada de nutrientes nas folhas da cana.

N P K Ca Mg K
– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – g/kg – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –
18-25 1,5-3,0 10-16 2,0-8,0 1,0-3,0 1,5-3,0
 
B Cu Fe Mn Mo Zn
– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – mg/kg – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –
10-30 6-15 40-250 25-250 0,15-0,30 15-50

Fonte: Raij et al. (1996).

Análise química do solo vs. análise foliar

É usual imaginarmos que há uma estreita correlação entre os teores de nutrientes no solo e a quantidade absorvida pela cana. Entretanto, em muitas situações não ocorre essa correlação.

A absorção dos nutrientes é afetada por um ou mais fatores de solo e a própria influência da planta na rizosfera. Plantas que absorvem grande quantidade de N-amídico (N-NO3) aumentam o pH da rizosfera, reduzindo a absorção dos micronutrientes catiônicos. Ocorre a formação de hidróxidos metálicos – baixa solubilidade em água.

Em solos alcalinos com alto teor de fósforo, o teor deste nutriente nas folhas da cana pode ficar abaixo da faixa adequada. Ocorre a fixação do fósforo pelo cálcio, formando sais com baixa solubilidade em água, inibindo a sua absorção. Em solos com camadas compactadas, as raízes da cana também têm difícil absorção do fósforo.

Em solos com alto teor de potássio, ocorre redução na disponibilidade de magnésio à cana, induzindo deficiência deste nutriente – inibição competitiva.

Cuidados na amostragem:

• Realizar os procedimentos antes e após a amostragem das folhas da cana para evitar a sua contaminação;

• Coletar sempre a folha recomendada pela pesquisa;

• Evitar a amostragem de folhas em canaviais sob déficit hídrico. Ocorre redução momentânea na absorção de nutrientes, mascarando a real capacidade do solo em fornecê-los à cana.

Considerações gerais

A adubação equilibrada é responsável por até 40% do aumento de produtividade das culturas. A análise química do solo é insubstituível para a avaliação da fertilidade do solo e de possíveis problemas, tais como baixos teores de nutrientes, solos muito ácidos ou muito alcalinos, altos teores de elementos tóxicos e salinidade.

A análise foliar pode e deve ser utilizada pelos produtores para o monitoramento do estado nutricional da cana e a realização de possíveis ajustes no manejo nutricional. Entretanto, há a necessidade de seguir as etapas da análise ou diagnose foliar para maximizar os benefícios desta técnica: amostragem das folhas da cana e cuidados após amostragem das folhas de cana.

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