Análises de solo e folha: O caminho para o cultivo de beterraba

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Autores

Júlio César Ribeiro
Engenheiro agrônomo, doutor em Agronomia/Ciência do Solo – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) jcragronomo@gmail.com
Cyndi dos Santos Ferreira
Graduanda em Agronomia – UFRRJ cyndiferreira@hotmail.com
Fotos: Shutterstock

Análises de solo e folhas são fundamentais para o acompanhamento do desenvolvimento e manutenção da beterraba, pois tendo o conhecimento da qualidade do solo e da planta é possível estimar o desenvolvimento da cultura à quantidade de nutrientes e corretivos a serem empregados, de forma a atingir o máximo de produtividade sem desperdícios de insumos.

Para isso, é essencial conhecer os teores de nutrientes no tecido vegetal, assim como os teores disponíveis de nutrientes no solo, que poderão ser extraídos pelas plantas, sem que ocorram aplicações excessivas, que possam causar problemas nutricionais na cultura, afetando, consequentemente, a qualidade do produto, ou ainda, causando contaminação do solo e da água.

Detalhes que fazem a diferença

A coleta de amostras de solo deve ser realizada de forma correta, de modo que representem as características químicas de cada área. Para isso, a área a ser amostrada deve ser dividida em glebas homogêneas.

Na divisão destas glebas, algumas características devem ser observadas, como o tipo de cobertura vegetal, mudanças na forma de relevo e drenagem do solo, diferença nas características do solo, destacando-se a cor e textura, o histórico de uso da área, principalmente no que se refere ao uso de corretivos e adubos, além da finalidade agrícola da gleba.

A partir da divisão das glebas, devem ser coletadas de 10 a 20 amostras simples por hectare numa profundidade de 0 – 20 cm, para formar uma amostra composta. Para que se tenha a máxima representatividade da área, os pontos de coleta devem ser estabelecidos por meio do caminhamento aleatório ou em zigue-zague pela gleba. Após coletadas, as amostras de solo deverão ser identificadas de acordo com as glebas e enviadas a laboratório idôneo para realização das análises químicas.

Contudo, para uma maior segurança em relação a uma produção de qualidade, vale destacar a diagnose foliar, que pode ser realizada de forma visual, a qual consiste em se comparar visualmente o aspecto de plantas com sintomas de deficiência nutricional, às plantas nutricionalmente sadias; ou por meio de uma análise química laboratorial, que determina os teores de macro e micronutrientes no tecido vegetal, correspondendo a uma análise mais precisa.

Para realizar a análise foliar laboratorial, é necessário que amostras de folhas (soma do pecíolo mais o limbo foliar) recém-maduras centrais, sejam coletadas da lavoura de forma representativa durante o desenvolvimento das plantas, no período de 40 a 60 dias após plantio.

Esta análise é essencial na avaliação do estado nutricional das plantas, pois apesar de possivelmente as plantas apresentarem bom aspecto visual, a deficiência de algum nutriente detectada pela análise química em laboratório pode afetar o desenvolvimento da cultura, não permitindo que as plantas expressem seu máximo potencial produtivo.

Orientações

A beterraba é uma espécie olerícola de grande importância, sendo as raízes o produto comercial de maior destaque. Em decorrência disso, é essencial a escolha da área de produção, visto que o desenvolvimento ideal da planta ocorre em solos de textura arenosa, dado que solos muito argilosos tendem a proporcionar maior ocorrência de raízes deformadas.

Esta cultura é altamente exigente em relação à acidez do solo, sendo a faixa ideal de pH em torno de 6,0. Portanto, a prática de correção do solo com calagem (uso de calcário) deve ser realizada, se necessário, eliminando o alumínio tóxico, e melhorando a disponibilidade dos nutrientes no solo.

A correção do solo deve ser realizada preferencialmente 60 dias antes do plantio, sendo a quantidade de calcário a ser aplicada relacionada à qualidade do produto e a necessidade conforme o resultado da análise de solo.  

Equilíbrio é essencial

A adubação equilibrada é fundamental para o desenvolvimento adequado da cultura, possibilitando produtividades satisfatórias. Dentre os nutrientes mais exigidos, pode-se destacar o nitrogênio, elemento relacionado à expansão foliar e acúmulo de massa de folhas e raízes.

A adubação nitrogenada no cultivo da beterraba deve ser realizada durante o plantio, e em cobertura. Para adubação em cobertura, é recomendável a aplicação do adubo de forma parcelada, sendo a primeira dose aplicada após o plantio das mudas, e a segunda dose 30 dias depois. Caso seja observado algum sintoma visual de deficiência de nitrogênio, pode-se ainda, aplicar mais uma dose do nutriente.

De acordo com os resultados da análise de solo, se necessário à aplicação de fósforo, esta deve ser realizada toda durante o plantio das mudas, enquanto para o potássio, as doses devem ser parceladas, e realizadas juntamente com a aplicação do nitrogênio.

Produtividade

A beterraba pode ser produzida durante o ano todo em regiões com clima mais ameno, devendo-se evitar épocas mais quentes e chuvosas. Melhores produtividades, geralmente são verificadas em épocas com temperaturas abaixo de 20°C e boa luminosidade, além de solos férteis, ricos em matéria orgânica, com boa drenagem e disponibilidade de água durante todo seu ciclo.

O plantio pode ser realizado através de sementes diretamente no campo ou por mudas com 5 a 6 folhas, tendo a duração do ciclo de cultivo entre 60 e 70 dias, dependendo da cultivar utilizada. Após a implantação da cultura, alguns cuidados devem ser atendidos, como manutenção da umidade por meio de irrigação, controle de pragas e doenças, e controle de plantas invasoras, visto que a convivência com a beterraba pode resultar em redução da produtividade de até 80% se presentes durante todo o ciclo da cultura.

Com destaque e grande relevância no cenário mundial, a beterraba é atualmente uma das principais olerícolas cultivadas, sendo a análise foliar um importante parâmetro de avaliação nutricional das plantas, visando garantir seu pleno desenvolvimento e boa produção.

No Brasil, estima-se que a área plantada de beterraba seja de aproximadamente 100.000 hectares, sendo cultivada principalmente nas regiões sudeste e sul, com uma produtividade esperada de 30 a 40 toneladas por hectare.

Para uma melhor produtividade, outro aspecto a considerar, além das práticas citadas anteriormente, destaca-se o espaçamento ideal de plantio, podendo variar de 20 a 30 cm entre linhas e 5,0 a 10 cm entre plantas. Altas densidades de cultivo podem gerar competição por água e nutrientes, causando problemas no desenvolvimento das plantas e consequentemente na qualidade da produção.

Erros

Os erros mais frequentes durante a produção de beterraba podem dar início na coleta das amostras de solo e folhas. No que se refere à coleta das amostras de folhas, os erros geralmente estão associados ao alcance da representatividade das plantas, devendo a coleta ser realizada de forma aleatória na área cultivada.

Com relação aos erros mais frequentes quanto à coleta de amostras de solo, estão associados ao alcance da representatividade da área, não atingindo um número suficiente de pontos coletados, e a distribuição dos pontos em toda área, sendo fundamental a divisão das glebas de forma representativa.

Aliado a isso, é fundamental que o produtor limpe a superfície do solo nos pontos escolhidos para coleta, não utilizando, ainda, recipientes sujos para misturar e acondicionar as amostras, evitando, assim, possíveis contaminações que possam levar a interpretações equivocadas.

Vale atentar a identificação do recipiente onde as amostras serão armazenadas, sendo importante apresentar algumas informações necessárias, como local coletado, propriedade, produtor e cidade, para assim, evitar problemas de identificação das amostras.

Sem errar

Erros como a escolha da cultivar e a época de plantio são ocorrentes, devendo-se optar por cultivares adaptadas às condições climáticas locais. No entanto, épocas do ano com temperaturas e pluviosidade elevadas podem proporcionar desenvolvimento insatisfatório da cultura, além de uma maior incidência de pragas e doenças.

A escolha do espaçamento a ser adotado também é um fator importante, em virtude de um espaçamento maior, influenciar no aumento de plantas invasoras, que consequentemente competem por água e nutrientes com a cultura da beterraba. Contudo, o espaçamento muito adensado pode gerar uma superpopulação de plantas, prejudicando o desenvolvimento das raízes, indicando-se, de forma geral, espaçamentos entre 5,0 a 10 cm entre plantas e de 20 a 30 cm entre linhas, como já mencionado anteriormente.

Como citado a pouco, o controle de plantas invasoras também é um erro frequente, sendo indispensável seu controle principalmente entre 15 e 35 dias após o plantio das mudas de beterraba. O excesso de água no solo também pode afetar o desenvolvimento das plantas e formação das raízes, devendo a irrigação ser realizada com parcimônia.

Investimento x retorno

O cultivo de beterraba pode ser favorecido pelo conhecimento prévio das condições de fertilidade do solo e teores de nutrientes nas plantas. O investimento em análises de solo e folhas proporciona não só uma melhoria na produtividade, assim como um menor impacto ambiental, visto que possibilita a utilização racional dos insumos.

Considerada uma prática simples, barata e de grande importância, essas análises representam o primeiro passo para o sucesso no cultivo de beterraba. A partir do resultado de análises de solo e folhas, o produtor pode realizar a aplicação de corretivos e fertilizantes nas quantidades necessárias e no momento adequado, o que, associado ao controle de plantas invasoras, pragas e doenças, possibilitam aumento da produtividade e retornos financeiros satisfatórios.