Boas práticas agrícolas

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Manejo de resistência de insetos

Isabella Rubio CabralGraduanda em Ciências Biológicas – UNESP/Botucatu rubioisabella05@gmail.com

Maria Clezia dos Santosmariaclezia.stos@gmail.com

Sabrina Ongarattosabrina.ongaratto@hotmail.com

Rodrigo Donizeti Fariardfaria13@gmail.com

Doutorandos em Proteção de Plantas – UNESP/Botucatu

Matheus Gerage Sacilottomgsacilotto@gmail.com

Mestrando em Proteção de Plantas – UNESP/Botucatu

Máquina agrícola – Foto: Jacto

Com o avanço das áreas de cultivo, aumentou também a preocupação com a incidência de artrópodes-praga nas lavouras. A agricultura modernizou-se, mas ainda existem grandes desafios. A evolução da resistência de pragas agrícolas a inseticidas e plantas Bt dificulta o manejo, encarado pelos agricultores como um grande obstáculo.

Não há uma única solução para o problema de resistência de insetos, mas um conjunto de táticas e boas práticas agrícolas que, quando aplicadas simultaneamente, visam retardar a seleção de populações resistentes.

O uso irrestrito do mesmo inseticida, com a falta de rotação de ingredientes ativos ou o cultivo de áreas contínuas de plantas Bt, produzidas por tipos semelhantes de tecnologia, resultam em grande pressão de seleção, comprometendo a eficácia no controle da praga-alvo.

Algumas consequências da resistência de insetos incluem aplicações mais frequentes, pulverização com doses acima da recomendada na bula do inseticida e intensa troca de inseticidas. Além de onerar a produção, a utilização incorreta de produtos fitossanitários e manejo inadequado de plantações Bt afeta diretamente a rentabilidade do produtor e compromete o Manejo Integrado de Pragas.

Prejuízos

No Brasil, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a perda anual decorrente do ataque de insetos-praga nas lavouras atinge o patamar de US$ 17,7 bilhões, representando cerca de aproximadamente 25 milhões de toneladas de produtos agrícolas.

Diante da redução da eficiência de inseticidas e variedades Bt no controle de pragas decorrente da evolução da resistência, prejuízos severos podem ser constatados. Na prática, falhas de controle podem passar a ser observadas no campo, levando o produtor a tomar medidas como o aumento da dose do produto e/ou o aumento no número de pulverizações.

A seleção de insetos resistentes aos principais princípios ativos disponíveis no mercado tem gerado grandes desafios para empresas que pesquisam e desenvolvem esses produtos, e para o produtor rural, que fica impossibilitado de realizar um manejo eficiente.

O MRI é a melhor opção para se empregar em culturas cultivadas, pois o sistema engloba estratégias que visam o efeito duradouro dos produtos, e por sua vez acarretam maior eficiência no controle de insetos-praga.

Exemplos de manejo de resistência

Tratamento de sementes com inseticidas: no caso de culturas anuais (ex: milho, soja, feijão, algodão, sorgo), em sua maioria é realizado o tratamento de sementes industrial (TSI). As sementes tratadas com inseticida podem não oferecer controle de pragas durante o tempo da primeira janela (30 dias).

Caso seja necessário a aplicação adicional de inseticida foliar dentro da janela, é recomendável que o inseticida foliar seja aplicado em até 25 dias após a semeadura e pertencer a um grupo de diferente modo de ação que o inseticida em tratamento de sementes. Inseticidas com o mesmo modo ação que o inseticida em tratamento de sementes não deverão ser usados por pelo menos 30 dias após o término da primeira janela.

Evitar inseticidas que já apresentam problemas de resistência: contratar uma consultoria especializada na identificação de populações de insetos-praga resistentes aos principais princípios ativos na região em que se encontra a propriedade e seguir as orientações de quais princípios ativos podem ser usados no controle de populações resistentes.

Gerenciar restos de cultura pós-colheita e plantas voluntárias: realizar o controle de campo durante a dessecação pré-plantio com um herbicida e, se forem observados insetos nos resíduos da plantação, o uso de inseticidas aplicados via foliar é recomendado para controle.

Fazer rotação de culturas: o monocultivo pode favorecer surtos de populações de insetos-praga e esses organismos acarretam prejuízos econômicos, além de contribuir para a seleção de indivíduos resistentes. Recomenda-se a semeadura de culturas paralelas ou subsequentes seja um tipo de cultura diferente.

Áreas de refúgio no plantio de culturas Bt: as áreas de refúgio têm como objetivo favorecer o desenvolvimento de insetos suscetíveis à proteína Bte. Se os mesmos cruzarem com insetos resistentes a essa proteína, o resultado desse cruzamento irá originar indivíduos heterozigotos (que possuem alelos de resistência e alelos de suscetibilidade à proteína Bt).

Os indivíduos heterozigotos são suscetíveis à proteína Bt, que por sua vez auxiliam na preservação da eficiência dessas proteínas no controle de insetos-praga, que contribui para manter o inseto em nível de equilíbrio.

Importância de boas práticas agrícolas

Para garantir a eficiência das estratégias de manejo é importante que o produtor adote boas práticas agrícolas no manejo da resistência de insetos. Desta forma, o produtor pode alcançar uma maior eficiência no controle de pragas, retardar ou minimizar a evolução da resistência dos insetos, aumentar a vida útil dos inseticidas e da proteína expressa em cultivares Bt.

Além disso, boas práticas reduzem perdas na lavoura e otimizam de uso de defensivos agrícolas. Dentre as boas práticas agrícolas que o produtor deve adotar em sua propriedade, destaca-se:

– Dessecar a área antes do plantio;

– Utilizar sementes certificadas;

– Realizar o tratamento de sementes com inseticidas;

– Utilizar área de refúgio.

Entretanto, se o produtor adotar, safra após safra, o mesmo método de controle, sem o manejo correto, isso acarretará no aumento de insetos resistentes e o produtor poderá perder a lavoura por conta do ataque de insetos. Por este motivo, é essencial que os produtores adotem as recomendações das boas práticas agrícolas.

Recomendações

A proposta de utilização de áreas de refúgio estruturado para produtores que fazem uso de sementes com tecnologia Bt visa otimizar a sua efetividade, a instalação de populações de insetos resistentes e o aumento da produtividade, baseada nas seguintes recomendações:

1. Adoção de 10% (milho) e/ou 20% (soja, algodão e cana) de área de refúgio estruturado;

2. A cultivar da área de refúgio deve ter tempo de desenvolvimento e maturação similar à Bt e estar a menos de 800 metros de distância da área com cultivo.

3. Manejar as áreas de refúgio como toda a lavoura, e minimizar o uso de inseticidas foliares nestas áreas para não causar a mortalidade de insetos suscetíveis;

4. Buscar utilizar inseticidas que apresentam modo de ação distintos.

Sendo assim, ao implantar áreas de refúgio, insetos resistentes irão cruzar com insetos não resistentes, resultando em uma prole de indivíduos suscetíveis à tecnologia Bt. Além disso, a adoção do refúgio garante a maior sustentabilidade da tecnologia, trazendo benefícios a médio e longo prazos ao produtor.

Pesquisas

Em áreas de plantio usando a tecnologia Bt, em que não foram implantadas áreas de refúgio, houve perdas significativas na produção, devido ao ataque de insetos resistentes.

Estudos mostram que cerca de 40% das áreas cultivadas do Brasil são de plantas Bt (milho, soja e algodão). Mesmo com o custo da aquisição de sementes Bt, os produtores observam que a produtividade é maior quando comparada às sementes convencionais e que os benefícios, dados pela redução de custos de aplicações de inseticidas, superam o custo de sua adoção.

No entanto, faz-se necessário o uso correto e adequado da tecnologia para o manejo de insetos resistentes.  

Erros mais frequentes e como evitá-los

Para o manejo da resistência de insetos a inseticidas e plantas Bt, há necessidade de um planejamento correto no sistema de produção de cultivos em cada região. O objetivo é estabelecer períodos com ausência de plantas hospedeiras das pragas-chave, para assim reduzir o tamanho populacional e a pressão de seleção dos insetos resistentes.

Outro ponto importante é manter o controle das espécies na entressafra e na cultura anterior, pois as práticas adotadas nesses períodos podem influenciar na cultura atual.


Práticas agrícolas que devem ser seguidas:

– Somente aplique inseticidas na cultura se a população da praga atingir o nível de dano econômico (NDE). Nesse ponto, reforçamos a importância da correta identificação e amostragem das espécies presentes, além do monitoramento de pragas;

– Utilize janelas de pulverização de inseticidas, adotando-se a rotação de produtos com diferentes modos de ação.  No entanto, se for necessário aplicar o mesmo produto mais de uma vez, deve ser respeitado o seu efeito residual, para diminuir a possibilidade de o efeito atingir mais de uma geração da praga;

– O produtor deve usar as doses recomendadas no rótulo ou bula de cada produto, evitar misturas em tanques e, sempre que possível, priorizar o uso de inseticidas seletivos para a preservação de inimigos naturais que irão contribuir para o controle das espécies presentes na área;

– Seguir as orientações para a semeadura e manejo da área de refúgio, principalmente levando em consideração: o tamanho (20% para algodão e soja e 10% para a cultura do milho); plantar o refúgio com variedade de ciclo similar à cultura Bt; garantir que a distância máxima entre planta Bt e não-Bt não seja superior a 800 metros; seguir as recomendações dos fornecedores de sementes sobre os limites de pulverização foliar nas áreas Bt e refúgio.