Broca-do-fruto – Praga-chave do abacate exige cuidados redobrados

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Autores

Diarly Sebastião dos Reis
Engenheiro agrônomo e mestre em Agronomia/Produção Vegetal
diarly.reis@gmail.com
Diego Tolentino de Lima
Engenheiro agrônomo e doutor em Fitotecnia/Entomologia
diegotolentino10@hotmail.com
Lucas Gonçalves Machado
Engenheiro agrônomo, mestre em Agronomia e responsável técnico do Grupo Tsuge
lucasmachado@tsuge.com.br Bruno Novaes Menezes Martins
Engenheiro agrônomo, doutor em Agronomia/Horticultura – UNESP
brunonovaes17@hotmail.com
Veridiana Zocoler de Mendonça
Engenheira agrônoma, doutora em Agronomia/Energia na Agricultura
Letícia Galhardo Jorge
Bióloga e mestranda em Botânica – IBB/UNESP

O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de frutas. Dentre as frutas que merecem destaque no mercado nacional encontra-se o abacate com grande potencialidade de crescimento, pois se adapta a várias regiões com diferentes tipos de clima e solo.

Essa fruta subtropical apresenta valor nutritivo atrativo, com apreciáveis qualidades nutricionais, sendo rica em lipídios insaturados, vitaminas e fibras, que favorecem o aumento de seu consumo. Apesar de suas apreciáveis características alimentícias, industriais e comerciais, nos últimos anos a produção também enfrenta problemas fitossanitários como a broca-do-fruto Stenoma catenifer Walsingham (Lepidoptera: Elachistidae), considerada praga-chave na cultura do abacateiro.

A broca-do-fruto do abacateiro

A broca-do-fruto, S. catenifer, é nativa da região Neotropical, relatada na Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, México, Panamá, Peru e Venezuela. No Brasil, sua ocorrência foi relatada nas principais regiões produtoras do Espírito Santo, Paraná, São Paulo e Minas Gerais.

As fêmeas ovipositam os ovos isoladamente em ramos verdes e próximos ao pedúnculo do fruto de abacate, os quais podem ser atacados em qualquer estágio de seu desenvolvimento. Durante sua vida, uma fêmea pode produzir cerca de 200 ovos, sendo que a fase embrionária dura de cinco a seis dias. A pupação também pode ocorrer dentro das sementes ou dos frutos caídos sob a copa. A duração da fase de pupa varia de 14 a 15 dias.

Sintomas e prejuízos

As perdas econômicas são causadas pelas larvas (comumente chamadas de lagartas) nos frutos, que depreciam o fruto externa e internamente, além de promover a queda prematura destes. Além dos frutos, as larvas de S. catenifer podem broquear ramos jovens, e em altas infestações podem broquear o caule de plantas jovens de abacateiro, levando à sua morte.

Assim, até mesmo lavouras que não estão em produção podem ter altas densidades da broca-do-fruto do abacate.

As fêmeas fazem a postura dos ovos e, após a eclosão, as lagartas de primeiro instar perfuram a casca e se alimentam inicialmente da polpa, podendo atingir nos últimos instares a semente, causando sérios danos aos frutos, e na maioria das vezes provocando a sua queda.

O maior número de orifícios e penetração das larvas ocorrem na parte basal do fruto. Em anos de altas infestações é comum encontrar várias lagartas por fruto. O orifício de penetração pode favorecer a entrada de microrganismos que aceleram o processo de deterioração do fruto.

O sinal do ataque da broca na lavoura é facilmente identificado pelo aparecimento de manchas brancas, devido à exsudação de substâncias que se solidificam em contato com o ar. Além disso, nos frutos observa-se depósito de excrementos e restos alimentares, próximo do orifício de penetração da lagarta.

Na condição de ataque intenso, causa depreciação dos frutos (frutos inaptos à comercialização e consumo); lavouras antieconômicas; perda do investimento aplicado, já que esta cultura exige altos investimentos e elevação do preço no varejo, devido à queda da oferta do produto.

As perdas de produtividade podem chegar a 90% da produção. Além disso, a ocorrência da praga é motivo de imposição de barreiras fitossanitárias à exportação brasileira, sobretudo do avocado Hass para importantes centros consumidores.

Monitoramento

Estudos têm sido realizados para estabelecer práticas de manejo adequado para o controle desta praga, principalmente por meio do controle químico. Dentro da filosofia do Manejo Integrado de Pragas (MIP), a determinação do momento correto para realização do controle químico é indicada pelo monitoramento das densidades populacionais das pragas.

O sucesso do monitoramento depende de uma amostragem significativa e representativa. O número de frutos danificados e/ou estimativa do número de lagartas é interessante do ponto de vista de acompanhamento do crescimento populacional da praga em uma determinada lavoura, visto que o controle da lagarta em si é difícil por causa do comportamento desse inseto, que possui fases de vida distintas, estando a lagarta muitas vezes protegida da aplicação de inseticidas dentro do fruto.

Existe uma relação positiva e significativa entre o número de furos de S. catenifer nos frutos, por planta, e o número de frutos broqueados por S. catenifer por planta. Dessa forma, a porcentagem de frutos broqueados por planta e número de furos nos frutos por planta são similares como uma alternativa para se estimar a densidade populacional de S. catenifer em abacateiro. Pensando na praticidade operacional, a melhor opção seria utilizar a porcentagem de frutos broqueados por planta.

A melhor unidade amostral, ou seja, o local da planta para se fazer o monitoramento em lavouras menos adensadas (entre 62 e 73 plantas ha-1) são os frutos do lado poente do sol e no extrato mediano da copa da planta. Para lavoras mais adensadas (156 plantas ha-1) é o ápice da copa da planta o melhor local para se monitorar os frutos, independente da face nascente ou poente em relação ao sol.

A densidade de plantio influencia a arquitetura do abacateiro, o que provavelmente afeta a distribuição de frutos e a determinação do local de amostragem.

O monitoramento de pragas pode ser feito ainda por meio da captura de insetos em armadilhas com feromônios. Assim, é possível determinar a ausência, presença ou flutuação populacional de determinada espécie de praga na área monitorada, o que auxilia o produtor na tomada de decisão sobre o manejo adequado da praga.

Desafios

O manejo desta praga no abacateiro é complexo devido à pouca existência de informações sobre a praga e a cultura. Em se tratando do controle preventivo, muitos aspectos importantes devem ser considerados e é fundamental o conhecimento da biologia da praga, e adoção de práticas integradas, com manejos culturais, mecânicos e biológicos.

Dentre os aspectos de comportamento da praga, citam-se estudos que mostram que a mariposa de S. catenifer tem um maior trânsito no pomar e realiza maior oviposição durante o período de lua cheia, o que é uma informação fundamental para que técnicos e produtores sejam mais assertivos com o controle da praga.

Outro aspecto da biologia de S. catenifer é o estágio quiescente, quando pupa. Como dito anteriormente, quando prestes a empupar, se a lagarta estiver em algum órgão na planta (fruto ou ramos), ela sai destas estruturas, e desce por um fio de seda até o solo.

Assim, se as condições ambientais não forem favoráveis, o inseto permanece por algum tempo na fase de pupa, esperando o momento ideal de emergência. Isto pode dificultar o seu controle, por atrapalhar a previsão do momento exato da presença de adultos nos pomares.

Já o fato de empupar dentro do fruto faz com que o inseto fique protegido das intempéries climáticas e do ataque de inimigos naturais. Estes fatos ressaltam a importância do monitoramento, sobretudo, com o uso de armadilhas a base de feromônios para captura de adultos, pois desse modo o produtor pode constatar a praga no ambiente e controla-la antes de acontecer a injúria e penetração nos órgãos da planta.

Principais formas para controle

Para o controle de qualquer inseto que esteja causando prejuízo, é recomendável que se utilize sempre o manejo integrado de pragas. O MIP é mais crucial ainda em pragas complexas, como S. catenifer.

Uma das principais formas de controle é o uso de inseticidas, entretanto, este é prejudicado pela falta de produtos registrados para a praga em questão e deve ser utilizado somente com a constatação da presença do inseto no cultivo. O desconhecimento de aspectos biológicos de S. catenifer, o fato de a lagarta ficar protegida no interior dos ramos ou frutos, bem como a ausência de monitoramento, podem contribuir para o uso indiscriminado de produtos químicos, falhas de controle e, consequentemente, grandes perdas de produção.

Biológicos

Outro tipo de controle que está sendo empregado fortemente em diversas culturas, entre elas o abacate, e que vem trazendo ótimos resultados, é o controle biológico com parasitoides. No abacateiro destaca-se o controle biológico natural realizado por Apanteles sp. Este inseto é comumente encontrado parasitando lagartas de S. catenifer em campo.

Parasitoides dos gêneros Dolichogenidea, Hypomicrogaster, Chelonus, Hymenochaonia, Eudeleboea e Pristomerus, também podem ser encontrados. A taxa de parasitismo pode chegar a 30%.  Já os gêneros Trichogramma e Trichogrammatoidea destacam-se no parasitismo de ovos da broca-do-fruto do abacateiro com taxas de até 40%.

O produtor deve sempre utilizar medidas que preservem a infestação de inimigos naturais em seus pomares. Estas incluem o uso de produtos seletivos e a integração de métodos de controle, que não só o químico.

Para parasitoides larvais, uma técnica interessante é a coleta de frutos atacados pela broca-do-fruto, e sua colocação em tambores dentro das lavouras. A seguir, na “boca” dos tambores deve ser colocada uma tela de malha bem fina, que não permita a passagem dos adultos da broca, mas sim a passagem dos adultos dos parasitoides. Com isso, os parasitoides podem completar seu ciclo e sair para a lavoura, podendo parasitar outras lagartas.

As mariposas de S. catenifer ficam presas no interior do tambor, impedindo que elas se acasalem e ovipositem no abacateiro. Essa medida é uma combinação dos controles biológico e cultural.

Os parasitoides de ovos destacam-se também no uso do controle biológico aplicado. Este se baseia na criação massal dos parasitoides em laboratório e sua consequente liberação no campo para o controle da praga. É importante ressaltar que o inimigo natural deve ser utilizado quando a população da praga for maior ou igual ao nível de controle e as populações dos inimigos naturais estiverem abaixo do nível de não ação.

Para o abacate, esta determinação ainda não é possível, pois estudos neste sentido são incipientes. Sendo assim, a liberação massal realizada pelo menos uma vez ao mês tem sido uma estratégia eficiente no controle da praga.

Há, no mercado, diversas empresas que comercializam ovos de Trichogramma pretiosum, que embora não seja o mais específico para esta praga, está tendo uma boa taxa de parasitismo e controle sobre S. catenifer. Outra opção é a criação massal deste inseto em biofábricas instaladas nas dependências da propriedade rural.

Assim, é possível que o produtor colete a espécie que ocorre naturalmente em sua propriedade, que bem aclimatada com o ambiente pode alcançar níveis maiores de parasitismo.

Detalhes que fazem a diferença

Estudos incipientes demostram que as liberações devem ser realizadas nos terços medianos e superiores da planta, pois, aliado à maior taxa de parasitismo, são os locais em que se concentram o ataque da praga. Em relação ao método de liberação, este pode ser feito por meio de ovos de pragas parasitados por Trichogramma. Assim o parasitoide emerge, ao invés da praga em que foi criado.

A densidade ideal de liberação deve ser melhor estudada, ajustada e calibrada. Esta depende do método de liberação a ser empregado, do local onde os ovos serão colocados e da densidade populacional da praga. Liberações de 175.000 a 530.000 indivíduos de parasitoides por hectare têm sido utilizadas, entretanto, observa-se em campo que liberações maiores de 300.000 insetos sejam mais adequadas ao manejo.

Pesquisas

Ainda sobre o controle biológico, têm se iniciado estudos sobre o uso de fungos entomopatogênicos para controle de S. catenifer. A ideia é que quando aplicados no solo, estes microrganismos possam infectar as pupas, impedindo a emergência dos adultos. O fato das lavouras de abacate geralmente terem grande quantidade de serapilheira e matéria orgânica sob suas copas pode ser um ponto facilitador no uso destes produtos.

Outro tipo de controle que pode ser adotado é o cultural. Este inclui a destruição dos frutos atacados por S. catenifer, manejo das podas e controle do espaçamento e densidade de plantas.

A primeira medida visa que lagartas que ainda estão se alimentando da polpa ou da semente do abacateiro fiquem sem alimento ou sejam destruídas, diminuindo assim sua densidade populacional. O ideal é que os frutos broqueados sejam coletados quando ainda estão na planta, pois uma vez caídos há alguns dias, podem ter suas lagartas migradas para o solo, local principal de pupação.

A segunda visa que o abacateiro tenha uma arquitetura que facilite a penetração das pulverizações no interior da planta (podas de abertura do centro da copa) e que não tenha altura superior a cinco metros, o que limita os produtos aplicados de chegarem ao alvo pelos métodos atuais de atomização.

Em relação à terceira, lavouras com menor espaçamento entre plantas e com maior densidade de plantio têm menos ataque da broca-do-fruto. Este fato ainda não está totalmente esclarecido, mas tem relação com o microclima deste na lavoura e a arquitetura que a planta de abacate assume nestas situações.

Alternativas

O consórcio com lichia (Litchi chinensis) também reduz as infestações de S. catenifer. O uso de variedades menos suscetíveis ao ataque da praga é outra boa medida para o manejo da broca-do-fruto do abacateiro. Sabe-se que existem diferenças de ataque de S. catenifer sobre as variedades de abacate cultivadas no Brasil. A variedade Margarida é a mais cultivada e também a mais atacada pela broca.


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Ações conjuntas

Algumas regiões do México são livres do ataque de S. catenifer. Isto só foi possível devido às ações conjuntas de todos elos da cadeia produtiva do abacate neste local. Medidas conjuntas entre os produtores de abacate de diferentes regiões devem ser adotadas para que a intensidade de ataque diminua, pois a mariposa desta praga se dispersa por longas distâncias.

A cultura do abacateiro, pela sua importância nutricional, social e rentabilidade, deve ser mais valorizada e estudada. Dessa maneira, o Brasil pode avançar nas técnicas produtivas desta cultura, se consolidando cada vez mais como um dos principais produtores, consumidores e exportadores desta fruta.