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Capim-amargoso é a erva problemática no milho

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Laís Sousa Resendesialresende@gmail.com

Jéssica Cursino Presotojessica.cursino_02@hotmail.com

Jeisiane de Fátima Andradejeisiane.eng.agronomica@gmail.com

Engenheira agrônoma, mestre e doutoranda em Fitotecnia – Escola Superior “Luiz de Queiroz” (ESALQ/USP)

Acácio Gonçalves NettoEngenheiro agrônomo, mestre e doutor em Fitotecnia – ESALQ/USPacaciogn@agronomo.eng.br

Capim-amargoso – Crédito: Mauro Rizzardi

A espécie de planta daninha Digitaria insularis (L.), conhecida como capim-amargoso, é uma planta perene, que pode atingir até 1,50 m de altura, formando touceiras a partir de curtos rizomas, sendo que sua reprodução ocorre por rizomas e abundantes sementes.

Além da alta capacidade de reprodução, o capim-amargoso possui sementes pequenas que se dispersam facilmente pelo vento e germinam durante todo o ano. Assim, o grande potencial infestante desta espécie é, em parte, devido à grande capacidade de produção e dispersão de sementes, além do longo período de florescimento.

O capim-amargoso é uma planta com facilidade para rebrota e perenização, e ainda consegue explorar abundantemente os recursos do meio nos solos brasileiros, visto que é uma gramínea de ciclo metabólico C4 e com um sistema radicular abundante. Essa espécie é nativa de regiões tropicais e subtropicais da América, onde é frequentemente encontrada em pastagens, cafezais, pomares, beiras de estradas e terrenos baldios.

Resistência de capim-amargoso no Brasil

Dentre as técnicas utilizadas na agricultura para o manejo de plantas daninhas, o controle químico, por meio de herbicidas, constitui-se no método mais eficaz e economicamente viável, principalmente nas grandes áreas de cultivo. No entanto, a sua utilização indiscriminada tem proporcionado evolução rápida nos casos de resistência, como é o caso do capim-amargoso.

As plantas daninhas resistentes têm evoluído mundialmente devido à pressão de seleção causada pelo uso repetitivo de herbicidas com o mesmo mecanismo de ação, em uma mesma área agrícola, ano após ano.

É importante destacar que a resistência ocorre de forma natural no ambiente, uma vez que a variabilidade genética nestas plantas é muito alta e o herbicida, portanto, funciona apenas como um agente selecionador desses biótipos na área, que terão um ambiente favorável para se desenvolver e gerar descendentes que carregam a mesma herança genética, caso o manejo não seja alternado.

O primeiro caso relatado sobre um biótipo de capim-amargoso resistente ocorreu no Paraguai, no ano de 2005 com resistência ao glifosato, sendo que no Brasil o primeiro caso somente foi relatado em 2008 para o mesmo herbicida.

Recentemente, foram relatados biótipos com resistência aos inibidores da ACCase no Brasil para os herbicidas fenoxaprop e haloxyfop, já no Paraguai também foi relatada resistência múltipla aos inibidores da ACCase para os herbicidas clethodim e haloxyfop.

Todos os casos de resistência de plantas daninhas a herbicidas no mundo estão documentados no International Survey of Herbicide Resistant Weeds, e podem ser consultados no site: www.weedscience.org.

Causas

A resistência pode estar envolvida com diferentes mecanismos da planta, que de forma geral impedirão ou diminuirão a quantidade de herbicida que chega no sítio de ação dentro da planta. Esses mecanismos podem estar relacionados com insensibilidade enzimática, super expressão enzimática ou ainda com a capacidade de metabolização da molécula, absorção e/ou translocação diferencial.

Contudo, a resistência do capim-amargoso pode ser confundida com a maior tolerância a herbicidas pela planta após sua perenização na área (formação de rizoma), uma vez que o controle químico não é eficaz quando a planta está entouceirada e com rizomas formados, já que tais rizomas são ricos em amido, podendo atuar como uma barreira para translocação do herbicida, além de ser uma fonte de reserva, o que possibilita uma rápida rebrota das plantas.

O melhor período para controle desta planta daninha é até os 35 dias após a emergência, quando os rizomas ainda não foram formados.

Prejuízos à produtividade e custos

O grau de interferência de uma planta daninha no sistema produtivo pode ser definido como a redução percentual da produção econômica em decorrência da alelopatia ou pela competição por água, luz, nutrientes e espaço, em maior ou menor grau, dependendo de fatores como as espécies presentes na área, a densidade de ocorrência destas espécies, o grau de agressividade e o período de convivência das mesmas com a cultura.

No caso da resistência, além de todos esses fatores relacionados à matocompetição, ocorre o aumento nos custos de produção e a perda de tecnologia na área, uma vez que aquele herbicida, como por exemplo o glifosato, não é capaz de controlar a planta, necessitando da adoção de uma outra molécula para realizar o manejo.

Pesquisas revelam que as perdas de produtividade da soja podem variar de 21%, com uma planta de capim-amargoso por metro quadrado, a 59%, com populações de oito plantas por metro quadrado.

Já um estudo realizado pela Embrapa nas principais regiões produtoras do País avaliou que os custos de produção em lavouras de soja infestadas com capim-amargoso podem subir, em média, 165%, principalmente pelo aumento de gastos com herbicidas e pela perda de produtividade da soja.

Nas situações de infestações mistas de espécies daninhas resistentes ao glifosato, como buva e capim-amargoso, por exemplo, o custo de controle pode apresentar um aumento médio de 222% no custo de produção.

Desta forma, é muito importante implementar práticas que visem prevenir ou retardar o estabelecimento da resistência, sendo recomendado qualquer prática que vise a rotação de mecanismos de ação, evitando o uso repetitivo de uma mesma molécula por anos consecutivos.

Controle químico no milho

O capim-amargoso é uma monocotiledônea, pertencente à família das Poaceae, logo é uma planta morfologicamente similar com o milho, o que dificulta o controle dessa planta daninha na área de cultivo de milho, pois restringe o uso de diversas moléculas herbicidas. Ainda, ressalta-se que essa é uma planta capaz de formar touceiras e rizomas com o avançar do estádio fenológico que dificultam a ação dos herbicidas.

Logo, alternativas de controle, como uso de herbicidas pré-emergentes combinados com herbicidas com ação em pós-emergência inicial, são excelentes ferramentas para o controle eficaz dessa planta daninha, além de reduzir custos para a próxima safra e a dispersão da espécie. 


Fique de olho!

É de extrema importância acompanhar o estágio fenológico dessa planta, caso haja escape da aplicação realizada em pré-emergência, para que o herbicida seja pulverizado no máximo quando a planta de capim-amargoso possuir até dois perfilhos. Caso contrário, não será possível realizar controle efetivo em toda a área infestada.

Antes de iniciar o controle, é interessante realizar o levantamento do histórico da área a fim de verificar se há relato de resistência a moléculas herbicidas. Caso essa situação já tenha acontecido, faz-se necessário usar herbicida diferente daquele em que foi relatada a resistência.


Opções

Em áreas de milho infestadas com capim-amargoso, para aplicação em pré-emergência e/ou pós-emergência inicial, podemos destacar as seguintes moléculas: amônio glufosinato, atrazina, glifosato, isoxaflutole, imazapic + imazapyr, mesotrione, nicosulfuron, s-metolachlor.

Além disso, devemos também considerar a tecnologia sobre o milho que possibilita o controle do capim-amargoso, como o glifosato para sementes RR e o amônio glufosinato no caso do uso da tecnologia LL. De acordo a literatura, esses são os herbicidas que proporcionam melhor percentual de controle sobre o capim-amargoso, desde que no estágio fenológico recomendado.    

Tabela 1. Herbicidas recomendados para controle de Digitaria insularis (capim-amargoso) na cultura de milho e suas respectivas épocas de aplicação. Piracicaba (SP), 2021.

Ingrediente ativo Mecanismo de ação Momento da aplicação
Amônio glufosinato* Inibidor da glutamina sintetase Pós-emergência
Atrazina Inibidor do fotossistema II Pré e Pós-emergência inicial
Glifosato** Inibidor da EPSPs Pós-emergência
Isoxaflutole1 Inibidor da biossíntese de carotenos Pré-emergência
Imazapic + Imazapyr Inibidores da ALS Pós-emergência inicial
Mesotrione Inibidor da biossíntese de carotenos Pré-emergência
Nicosulfuron2 Inibidor da ALS Pós-emergência inicial
s-metolachlor Inibidor da síntese ácidos graxos de cadeia longa Pré-emergência

*Desde que o milho seja tolerante ao amônio glufosinato. **Uso para milho tolerante ao glifosato. ¹Necessário uso de safener. ²Alguns híbridos podem ser sensíveis a essa molécula, para isso consultar empresa.


Ponto a ponto

Adicionalmente, vale relembrar que alguns outros fatores devem ser considerados para alcançar um controle satisfatório do capim-amargoso na cultura de milho, como:

1. Usar água de pulverização límpida;

2. Evitar fazer associações de moléculas não recomendadas em bula;

3. Respeitar as condições de pulverização ideal como:

• Temperatura mínima de 10°C, a ideal de 20 – 30ºC, máxima de 35°C;

• Umidade relativa do ar mínima de 60%, ideal de 70 a 90%, máxima de 95%;

• Velocidade do vento ideal de 2,0 a 7,0 km/h e nunca superior a 10 km/h.

• Realizar a pulverização nos horários mais amenos do dia (manhã e tardezinha);

4. Manter equipamento de pulverização em ótimo estado de funcionamento, como pontas, filtros e barras limpas.

5. Manter a velocidade do trator e pressão de trabalho do pulverizador constantes.


Estratégias

A fim de otimizar o processo para controle eficaz das plantas daninhas como o capim-amargoso, faz-se necessário realizar manejo integrado de plantas daninhas (MIPD), o qual baseia-se na associação de métodos de controle que desfavorecem a sobrevivência e multiplicação de plantas daninhas.

Para exemplificar, podemos destacar o controle mecânico no caso de plantas entouceiradas nas áreas de cultivo. Pode-se realizar a capina manual ou tratorizada em áreas infestadas por capim-amargoso, a fim de elevar o percentual de controle sobre as plantas, e ainda evitar a pressão de seleção de herbicidas.

Outra prática se refere ao uso de palha, principalmente na entressafra, com o objetivo de suprimir as plantas daninhas devido ao impedimento físico, a redução das oscilações de temperatura e a qualidade da luz incidente no solo.

Algumas culturas de cobertura, como trigo, aveia e braquiária podem ser utilizadas ou até mesmo o consórcio de cultivos, como milho + braquiária. É importante não deixar as áreas em pousio na entressafra, pois nesse período há a multiplicação de muitas espécies, enriquecendo o banco de sementes e a pressão de infestação. 

A rotação de culturas é outra estratégia que proporciona diversificação do ambiente, o que inclui a rotação de ingredientes ativos utilizados. A modificação das condições em que a espécie irá crescer e se desenvolver pode contribuir para a redução da interferência da planta daninha sobre a cultura e prevenir a seleção de biótipos resistentes na área.

As práticas citadas, quando associadas ao controle químico, possibilitam redução de custos e propiciam áreas limpas para o estabelecimento da cultura do milho. De modo geral, o capim-amargoso é uma espécie de difícil controle, entretanto, com a agricultura inteligente e boas estratégias de controle é possível minimizar os prejuízos causados por essa planta e reduzir perdas na produtividade.

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