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Clones selecionados proporcionam produtividade média acima de 2 mil quilos

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Clones – Crédito: Miriam Lins

Trabalho de mais de 20 anos de melhoramento genético realizado por pesquisadores da Embrapa Cerrados (DF) resultou na seleção de 14 clones de seringueira adaptados ao Centro-Oeste do Brasil e com produtividade média acima de dois mil quilos anuais por hectare de borracha seca – cerca de 26% superior à média dos mais plantados na região.

Além da elevada produtividade, que permitirá o aumento da produção nacional e a redução da dependência das importações, os novos materiais fornecem um produto de boa qualidade e vão prover maior diversidade genética aos seringais, importante estratégia para reduzir os riscos de ataques de pragas e doenças.

Desafio

“O desafio para quem planta espécies perenes como a seringueira é a diversidade genética. Com esses resultados, oferecemos uma lista maior de clones para o produtor”, detalha o pesquisador Ailton Pereira, acrescentando que o melhoramento genético é a melhor maneira de aumentar a produtividade e a receita sem alterar os custos.

Os clones PB 312, PB 291, RRIM 713, PB 355, OS 22, PC 119, PB 324, PB 350, RRIM 938, PB 311, PC 140, PB 314, RRIM 901 e RRIM 937, oriundos da Malásia, foram registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para cultivo nas regiões do centro-oeste onde foram testados, especialmente em áreas com período seco bem definido, chamadas de áreas de escape ao “mal-das-folhas”, de acordo com o zoneamento climático da heveicultura no Brasil.

A seringueira e o “mal-das-folhas”

Originária da Amazônia, a seringueira é a espécie nativa brasileira mais cultivada no mundo, ocupando mais de 14 milhões de hectares. Ela é a principal fonte de látex e borracha do planeta.

No Brasil, São Paulo é o maior estado produtor com 249,3 mil toneladas, seguido por Minas Gerais (28 mil toneladas) e Goiás (25,9 mil toneladas) em 2020, de acordo com o IBGE.

O látex é extraído pela sangria das árvores e contém em média 35% de borracha natural, usada na fabricação de pneus e de diversos produtos como luvas cirúrgicas, calçados e autopeças. A produção nacional – 376 mil toneladas de látex coagulado em 163 mil hectares em 2020, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – foi insuficiente para atender ao consumo de 500 mil toneladas estimado pelo International Rubber Study Group. O restante é importado de países como Indonésia, Tailândia, Vietnã e Malásia.

Diversificação aliada à produtividade

A pesquisa avaliou os 85 clones mais promissores do Banco Ativo de Germoplasma (BAG) da Embrapa Cerrados, sendo 63 de origem asiática, 11 africanos e 11 nacionais. Os experimentos foram realizados em três áreas de produtores – em Goianésia (GO), Barro Alto (GO) e Pontes e Lacerda (MT) – e nos campos experimentais da Embrapa Cerrados, em Planaltina (DF).

Além da parceria com os produtores, a pesquisa teve a colaboração da Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater Goiás), por meio da pesquisadora Elainy Pereira, que participou da condução e da avaliação dos experimentos.

Os clones também foram testados em São Paulo pelo Instituto Agronômico (IAC) de Campinas e no Paraná pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).

Plantados entre 1997 e 2009, os materiais foram avaliados quanto ao crescimento das plantas, à produção e à qualidade da borracha, e à incidência de doenças foliares e no painel de sangria. Também foram realizadas análises laboratoriais das propriedades e da qualidade da borracha.

Foram selecionados 14 clones adaptados às condições de solo e clima do Centro-Oeste e com alta produtividade – acima de dois mil kg/ha/ano de borracha seca, sendo que alguns alcançaram mais de três mil kg/ha/ano. Na média geral, apresentaram produtividade cerca de 26% maior que a média dos clones cultivados na região.

Segundo Ailton Pereira, o registro do grande número de clones se deve à necessidade de diversificação clonal, uma vez que a heveicultura no Centro-Oeste se baseia em apenas quatro clones, o que deixa os seringais vulneráveis a eventuais novas pragas e doenças.

“A ‘vacina’ de quem trabalha com culturas perenes é a diversificação do material genético. Não dá para trocar uma variedade de seringueira de um ano para outro, como acontece com o milho, a soja e o feijão”, compara, lembrando que devem ser considerados a interação entre os genótipos dos materiais e o ambiente, bem como o fato de que, uma vez registrados no Mapa, os clones ficam liberados para plantio e testes.

“Esses clones permitirão a diversificação clonal dos novos seringais que serão plantados na região, e isso é muito importante para garantir a competitividade e a sustentabilidade da heveicultura na região”, acrescenta o pesquisador Josefino Fialho, integrante da equipe que selecionou os materiais.

Além de produtivos, clones produzem borracha de qualidade

Na etapa final do ciclo de melhoramento genético da seringueira, a qualidade da borracha produzida pelos clones selecionados foi avaliada em laboratório. A pesquisadora Maria Alice Martins, da Embrapa Instrumentação (SP), foi responsável pelas análises das propriedades físico-químicas, térmicas, estruturais e tecnológicas.

“Os resultados obtidos no Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio são comparados com as normas nacionais e internacionais, em conjunto com os resultados agronômicos já produzidos. A partir daí, são selecionados os clones não apenas com alta produção, mas também que tenham borracha de boa qualidade para registro no Mapa e recomendados para plantio”, explica.

Os clones selecionados pela Embrapa produzem borracha natural considerada de boa qualidade, tecnicamente especificada como TSR – classe 10 de cor marrom, de acordo com a norma ABNT NBR ISO 2000.

Desempenho igual ou superior ao clone mais plantado

Nos experimentos em Goianésia, Pontes e Lacerda e no Distrito Federal, os clones selecionados foram comparados aos seis clones mais plantados no Brasil (RRIM 600, PR 255, GT 1, PB 217 e PB 235 e Fx 3864), utilizados como testemunhas para comparar com as médias de produtividade de borracha seca (em t/ha/ano).

Na média dos três locais (2,4 t/ha/ano), os novos clones produziram 26% mais que os materiais mais plantados, que obtiveram média de 1,9 t/ha/ano. Alguns clones superaram a produtividade do RRIM 600, o mais cultivado no Brasil. “Se excluirmos da média geral os clones que tiveram desempenho um pouco inferior (à média), a diferença sobe para mais de 30%”, explica Pereira, acrescentando que os materiais selecionados obtiveram desempenho semelhante ou superior ao do RRIM 600 na avaliação feita pelo IAC em São Paulo.

O pesquisador salienta, no entanto, que os novos clones são indicados para plantio inicial em pequena escala. Ele explica que não foram avaliados sistemas de sangria e de manejo. “Adotamos um sistema único de sangria para todos os clones. Sabemos que alguns respondem mais, ou menos, à estimulação. Por isso, é preciso plantar primeiro em pequena escala para conhecer melhor e ajustar a condução do seringal e a sangria para extrair o máximo do clone, sem ter o problema do secamento de painel”, recomenda.

O plantio em pequena escala também serve para avaliação real da resistência das plantas a ventos fortes. “Só depois de aprovado em pequena escala pelo produtor é que entra a recomendação para o plantio de larga escala”, completa.

Perspectiva de alcançar a maior produtividade mundial

A Fazenda Tamoio, do Grupo Morais Ferrari, tem 800 hectares plantados com seringueiras em produção, principalmente do clone RRIM 600. Em 2001, foi instalado o experimento da Embrapa, com o plantio de 73 clones. “O resultado foi surpreendente. Selecionamos seis clones que tiveram uma excelente adaptação ao ambiente, principalmente ao clima e ao solo da região. Com certeza, teremos novos clones para a implantação de novas áreas”, comenta o engenheiro agrônomo José Fernando Benesi.

A partir do resultado da pesquisa, o grupo já adquiriu uma nova área para a implantação de mais 800 hectares de seringueira, que será formada com os novos clones. “Isso deve gerar um aumento na produtividade em 30% e, certamente, passaremos dos três mil kg/ha/ano de borracha seca, que é a maior produtividade do mundo”, aposta Benesi.

Na Fazenda Porteiras, da OL Látex, do Grupo Otávio Lage, em Barro Alto (GO), o experimento foi implantado em 2009 e a sangria foi realizada a partir de 2016. O gerente Alexandre Pimentel observa que alguns dos clones têm se mostrado superiores ao RRIM 600, tanto em crescimento como em produtividade.

“Estamos no quinto ano de produção e alguns clones vêm despontando, com produtividades 15 a 20% acima do RRIM 600, que é o nosso padrão de mercado”, observa. Ele conta que a implantação do experimento foi fundamental para a escolha de clones plantados em outra fazenda da OL Látex.

“Implantamos 547 mil árvores, 12% com os oito melhores clones selecionados nos experimentos, não só aqui na Fazenda Porteiras como da Fazenda Tamoio, do Grupo Morais Ferrari, totalizando cerca de 130 ha. Esperamos uma produtividade acima da média que temos obtido nos nossos outros seringais”, relata Pimentel.

Segundo José Fernando Benesi, que também é vice-presidente da Associação dos Produtores de Borracha de Goiás, a heveicultura está se tornando uma boa opção para os produtores do Estado.

Mudas já estão em produção

As hastes de plantas básicas para enxertia dos novos clones começaram a ser ofertadas pela Embrapa a produtores de mudas inscritos no Registro Nacional de Sementes e Mudas (Renasem) no fim de 2020. As ofertas públicas serão realizadas anualmente até 2023. “Daí para frente, os viveiristas é que vão atender à demanda dos heveicultores”, diz Josefino Fialho. As primeiras mudas enxertadas devem estar prontas para venda a partir de 2022.

Atento à demanda dos produtores por clones mais produtivos, José Carlos da Silva, sócio do Viveiro JLN, em Santa Rita do Novo Destino (GO), adquiriu hastes dos 14 clones disponibilizados na primeira oferta pública. A expectativa é aumentar a venda de mudas. “À medida em que for havendo divulgação, acredito que vamos ter muita procura e expandir o mercado desses novos clones”, aposta.

Já Agnaldo Gomes da Cunha, proprietário do Viveiro AG Agro e consultor em Goianésia (GO), acompanhou os experimentos com os clones desde o início. Ele, que retirou hastes de dez dos novos clones, destaca que os materiais se adaptaram muito bem às regiões testadas, com excelente desenvolvimento, vigor, precocidade, potencial produtivo e qualidade, devendo conferir ganhos de rentabilidade aos produtores.

O viveirista e consultor acredita que os novos materiais chegam em bom momento. “Diante da recuperação dos preços da borracha em função do câmbio do dólar, temos a perspectiva de que o mercado de mudas, de projetos de plantio e de assistência técnica voltará a se aquecer.

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