Cobertura com capim braquiária aumenta a produção de soja e milho?

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Autores

Felipe Rogerio Nedilha
Médico veterinário e mestrando em Produção Vegetal – Unicentro
Laís Cristina Bonato Malmann Nedilha
Engenheira agrônoma e doutoranda em Produção Vegetal – Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Janaina Marek
Engenheira agrônoma e doutora em Produção Vegetal
janainamarek@gmail.com
Crédito: Amarildo Francisquini

O capim braquiária (Urochloa ruziziensis) é uma gramínea tropical típica do continente Africano, de porte médio/alto (cerca de 1,20 m), com folhas pilosas grandes de coloração verde claro e possui raízes profundas. É uma gramínea perene, e antigamente era considerada uma planta invasora, mas hoje é uma forte aliada para os agricultores que utilizam o sistema de plantio direto (SPD).

O SPD é uma alternativa que contribui para a sustentabilidade de sistemas agrícolas intensivos, mantendo o solo coberto por restos culturais e/ou plantas vivas o ano todo, diminuindo efeitos da erosão e acrescentando matéria orgânica, contribuindo com resultados de altas produções de maneira sustentável.

Benefícios

A utilização do SPD tem possibilitado a manutenção dos estoques de carbono no solo, e, consequentemente, melhorado os atributos químicos, físicos e biológicos do solo. Esse sistema baseia-se na rotação de culturas, não revolvimento do solo e o uso de plantas de cobertura.

A utilização de plantas de cobertura previne a degradação do solo pela maior agregação das partículas, proteção da superfície do solo ao impacto direto das chuvas e pela palhada produzida. Além disso, possui capacidade de reciclar nutrientes para as plantas que serão cultivadas em sucessão, ou seja, as plantas de cobertura auxiliam para a redução de custos de produção, principalmente fertilizantes minerais.

A escolha do capim braquiária para cultura de cobertura baseia-se em suas características, tais como:

ð Alta produção de palhada;

ð Melhora a qualidade física do solo: suas raízes profundas ajudam a diminuir a compactação, aumentam a infiltração e a retenção de água no solo;

ð Melhora a qualidade química do solo: pela grande produção de palhada e de raízes que contribuem com a matéria orgânica do solo, e aumenta a disponibilidade de fósforo (P) para plantas em sucessão;

ð Qualidade da forragem, que contribui para a ciclagem de nutrientes no solo;

ð Tolerância às adversidades climáticas e escassez hídrica, com excelente adaptação à maioria das regiões brasileiras;

ð Menor formação de touceiras, associado à fácil dessecação com herbicidas não seletivos;

ð Palhada remanescente suficiente para o controle de plantas daninhas;

ð Excelente cobertura do solo com baixa taxa de decomposição, sendo que 70 dias após a dessecação pode-se ter em torno de 3500 kg/ha de palha;

ð Facilidade no manejo para o plantio da cultura da soja;

ð Capacidade de diminuir a compactação do solo, devido ao seu grande desenvolvimento de raízes.

Como implantar a técnica

Para a implantação e condução eficiente do SPD, é fundamental que a quantidade mínima de palhada não seja inferior a 3,0 a 4,0 t/ha de massa seca. Nesse sistema é indicado a utilização de forragens que produzam, em média 6,0 t/ha/ano ou mais de massa seca.

Para o produtor que deseja adotar a prática, é recomendado que a sobressemeadura da braquiária na soja seja realizada inicialmente a partir do estágio R5 (fase de enchimento de grãos) com quantidade de sementes de 3,0 – 8,0 kg/ha. A sobressemeadura de braquiária após o estágio R5 da soja não afeta a produtividade da cultura, pois neste estágio, em que está ocorrendo o enchimento de grãos, a braquiária estará germinando e não utilizará nutrientes do solo, permitindo que todos os recursos sejam utilizados pela cultura da soja.

Outro fator determinante é que a sobressemeadura nos estágios antes de R5 apresentam baixa taxa de germinação da braquiária, devido à baixa luminosidade. A braquiária consorciada com o cultivo de milho-safrinha visando a produção de grão e de palha no SPD também é uma alternativa que garante maior produtividade da soja e do milho em sucessão.

Contra daninhas

Essa técnica de cultivo favorece o baixo desenvolvimento de plantas daninhas, reduzindo a aplicação de produtos químicos, além de proporcionar cobertura do solo na entressafra controlando a invasão das ervas daninhas, uma vez que a utilização de milho RR na safrinha pode acarretar maiores custos com o controle de plantas daninhas no ciclo de soja seguinte, pela impossibilidade de utilizar consórcio de milho e braquiária com essa cultivar de milho.

A dessecação da braquiária deve ocorrer cinco dias antes da semeadura da soja, para garantir o controle de plantas daninhas no período inicial de desenvolvimento da cultura. A dessecação em períodos menores que cinco dias antes do plantio pode acarretar em redução de até 30% da produção.

Mais produtividade

A semeadura de braquiária, quando realizada na mesma época de semeadura do milho-safrinha, aveia e milheto, é uma alternativa que veio complementar uma escassez na formação de palhada para o plantio de verão. A palhada de milho-safrinha, aveia e milheto, com o aumento da temperatura, desaparecem da lavoura, enquanto a palhada da braquiária pode chegar até março, devido à relação carbono/nitrogênio ser alta, fazendo com que a decomposição seja lenta.

Quando realizada a safra de verão da soja sobre a palhada de braquiária em um ano de condições normais de clima, é possível ter um aumento de quatro sacas por hectare, enquanto em um ano com clima seco a utilização de braquiária pode apresentar uma diferença de 10-20 sacas por hectare, quando comparada com plantio sem consórcio.

Esse aumento na produtividade em épocas quentes e com escassez de chuva ocorre devido à palhada da forrageira aumentar a capacidade de reserva de água no, devido a suas raízes profundas e intensas, favorecerem a percolação e retenção de água no solo por um maior período de tempo e a cobertura proporcionada pela palhada diminuir a temperatura do solo, e consequentemente, a evaporação.

Durante o período de estiagem ou seca, a água armazenada retorna por capilaridade para a cultura da soja. Outro fator de efeito, quanto maior a produção de raízes da braquiária, maior será o desenvolvimento das raízes da cultura da soja.

Principais erros

Os erros mais frequentes na utilização de braquiária em consórcio com a cultura da soja são:

Ü Época de semeadura: deve ocorrer a partir do estágio R5;

Ü Época de dessecamento: deve ocorrer cinco dias antes da semeadura da soja, para não ocorrer o desenvolvimento de plantas daninhas;

Ü Densidade de semeadura da braquiária garantindo a uniformidade da palhada na área total de cultivo;

Ü Deve-se ter cuidado para a implantação da braquiária em áreas que estão infestadas com nematoide de lesões radiculares (Pratylenchus brachyurus), pois as braquiárias são hospedeiras desses parasitas.

Custo-benefício

A braquiária torna-se um grande aliado para o aumento da produtividade da cultura da soja, melhorando as qualidades físicas e químicas do solo. Atua, principalmente, durante o período de estiagem, pela capacidade das raízes em aumentar a infiltração de água e pela ação da palhada remanescente no solo impedir que ocorra a evaporação da água.

Desta forma, torna-se uma alternativa promissora para o produtor que deseja aumentar a produção de soja e evitar perdas por condições climáticas adversas ao desenvolvimento da cultura.