Como ter um canavial produtivo e com longevidade?

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Autores

Renato Passos Brandão
Gerente do Deptº Agronômico do Grupo Vittia
Raphael Bianco Roxo Rodrigues
Gerente Técnico Regional
Crédito: Luize Hess

O plantio é uma das etapas mais importante da cana, interferindo diretamente na produtividade da cultura nos primeiros cortes e na sua longevidade e, consequentemente, nos custos de produção e no retorno econômico (Anjos e Figueiredo, 2008).

Na região centro-sul do Brasil, o plantio da cana de ano e meio ocorre nos primeiros meses do ano – fevereiro a abril –, época em que as condições climáticas são favoráveis para o desenvolvimento inicial da cultura.

A brotação da cana é relativamente rápida, e normalmente ocorre um bom pegamento das mudas e redução do índice de doenças nos toletes. Atualmente, o custo para a implantação de uma lavoura de cana varia entre R$ 7.000,00 e R$ 8.000,00 por hectare, considerado relativamente alto, e por isso, todos os cuidados no plantio da cana são necessários para otimizar os investimentos.

Portanto, é extremamente importante o planejamento cuidadoso do plantio e realizar boas práticas agrícolas. A escolha da variedade de cana levando em consideração o ambiente de produção, a seleção de mudas de qualidade, o período de plantio, o preparo adequado de solo e o manejo nutricional são as premissas fundamentais que garantem um bom plantio da cana.

Correção da acidez do solo e adubação balanceada

As práticas agrícolas para o plantio da cana são todas interligadas. A adubação é um dos principais fatores de produção com grande interferência na produtividade e longevidade da cana. Além disso, a adubação tem um peso considerável no custo de produção da cana-planta.

Segundo Rossetto et al. (2008), a adubação representa de 17 a 25% do custo de produção da cana-planta. Eventualmente, a adubação pode não proporcionar os resultados esperados se o produtor de cana não realizar adequadamente as demais práticas culturais, dentre as quais um bom preparo do solo, plantio com a variedade mais indicada para o ambiente de produção, mudas de qualidade, controle de pragas e fitonematoides e os tratos culturais para com o solo, com teor de umidade adequado, minimizando a sua compactação, dentre outras (Rossetto et al., 2008).

Acidez do solo e adubação vs. longevidade do canavial

O sistema radicular da cana-planta explora mais intensamente as camadas mais superficiais do solo, se comparado à soqueira. Portanto, a calagem e a adubação de plantio exercem maiores efeitos sobre a produtividade da cana até o 2º corte (Vasconcelos e Casagrande, 2008).

A adubação adequada pode manter ou melhorar a fertilidade do solo, induzindo maior longevidade do canavial com maior número de cortes entre os ciclos de reforma do canavial. Do ponto de vista econômico, a maior longevidade do canavial é desejável, reduzindo o custo de produção total. Ocorre a diluição dos elevados custos de plantio do canavial ao longo dos anos.

Orlando Filho et al. (1993) verificaram que a adubação das soqueiras reduziu a queda da produtividade ao longo dos cortes. A adubação NPK com S, usando gesso agrícola ao final da terceira soqueira, proporcionou uma redução na produtividade da cana em 26%. A testemunha – sem adubação NPK com S – teve uma redução de 45% na produtividade da cana.

Na somatória dos primeiros quatro cortes, a produtividade acumulada da cana sem adubação nas soqueiras foi de 424 t/ha, enquanto que o canavial com adubação NPK com S teve um acúmulo de 511 t/ha, uma diferença de 87 t/ha. 

Recomendação de corretivos agrícolas e fertilizantes

A primeira etapa para a recomendação de fertilizantes para a cana-planta é a análise química de solo. É uma ferramenta imprescindível para a avaliação da capacidade do solo em fornecer adequadamente os nutrientes para a cana-planta. Além disso, as informações da análise química do solo permitem que os profissionais da área agronômica possam verificar a necessidade de corretivos agrícolas.

A análise química do solo deve ser feita em pelo menos duas profundidades no solo: 0 a 25 cm e 25 a 50 cm, para que possamos diagnosticar possíveis limitações ao desenvolvimento das raízes da cana em camadas subsuperficiais do solo.

Correção da acidez do solo

Se houver necessidade, a correção da acidez do solo deve ser realizada elevando a saturação por bases a 70%, com antecedência mínima de três meses antes do plantio da cana. Esse período é importante para que haja tempo suficiente para a reação do calcário no solo.

Nunca esquecer de manter o teor mínimo de Mg nos solos cultivados com cana em 9 mmolc/dm3 (0,9 cmolc/dm3), principalmente em talhões que recebem vinhaça. Esse resíduo da produção de etanol possui K e pode ocasionar um desequilíbrio com o Mg no solo, prejudicando a produtividade e o ATR em cana.

Utilizar, preferencialmente, calcário dolomítico com teor adequado do MgO para a manutenção do teor de Mg acima do valor comentado anteriormente.

Gessagem

O desenvolvimento das raízes e o potencial produtivo da cana podem ser prejudicados por limitações nas camadas subsuperficiais do solo, representada pela acidez elevada, altos teores de alumínio trocável, baixos teores de cálcio e indisponibilidade de nutrientes.

A correção da acidez do solo nas camadas subsuperficiais apresenta limitações operacionais. Normalmente, os benefícios da calagem ficam restritos às camadas do solo com a incorporação do corretivo agrícola.

A gessagem é a prática corretiva mais recomendável em solos com impedimentos químicos nas camadas subsuperficiais. A solubilidade do gesso é cerca de 178 vezes maior que a do calcário, permitindo a sua percolação no perfil do solo e proporcionando a melhoria do ambiente radicular em camadas subsuperficiais do solo – neutralização do alumínio tóxico e a elevação do teor de cálcio.

A melhoria do ambiente radicular induz o maior desenvolvimento das raízes em camadas subsuperficiais do solo, favorecendo a absorção de água e nutrientes. O uso de gesso é imprescindível em regiões com ocorrência de veranicos, cujos prejuízos são maiores em cana com o sistema radicular concentrado nas camadas superficiais do solo e em solos arenosos com baixa capacidade de retenção de água.

Adubação

Basicamente, a adubação na cana-planta deve fornecer a diferença entre as necessidades nutricionais da cana-planta e a capacidade do solo em fornecê-los.

Adubação = (necessidade nutricional da planta – teor do nutriente no solo) x f

As porcentagens médias de utilização dos nutrientes pelas plantas, levando em consideração as perdas dos nutrientes no solo e o respectivo fator F, estão na Tabela 1.

Tabela 1. Porcentagem de aproveitamento dos nutrientes e o fator de correção (Adaptado de Vitti, 2007).

Nutrientes Aproveitamento (%) Fator (F)
N, S e B 50 a 60 2,0
P2O5 20 a 30 3,0 a 5,0
K2O 70 1,5
Cu, Fe, Mn e Zn 30 a 50 2,0 a 3,0

Fosfatagem corretiva

Em solos arenosos (teor de argila < 30%) e baixo teor de P (P resina < 15 mg/dm3), realizar fosfatagem corretiva. Aplicar 5,0 kg/ha de P2O5 por porcentagem de argila do solo, em área total, após a calagem e a gessagem, antes da gradagem de nivelamento – incorporação superficial (Vitti e Mazza, 2002).

Adubação com macronutrientes

A forma mais eficiente para o fornecimento de fósforo na cana-planta é no sulco de plantio. A recomendação de fósforo para a cana-planta é baseada no teor do nutriente no solo. Segundo Vitti et al. (2007), a dose de fósforo varia de 70 a 170 kg/ha de P2O5. Quanto menor o teor de P no solo, maior será a dose de fósforo no plantio da cana.

A recomendação de potássio para a cana-planta é baseada na produtividade esperada e no teor de K no solo. Segundo Raij et al. (1996), a dose de potássio varia de 80 até 170 kg/ha de K2O. Quanto menor o teor de K no solo, maior será a dose de potássio em cana-planta.

Até o presente momento, não há nenhum método para a determinação da disponibilidade do nitrogênio do solo para as plantas. As doses de nitrogênio recomendadas no Estado de São Paulo para a cana-planta variam de 40 a 90 kg/ha, dependendo do sistema de manejo.

Adubação com enxofre

A aplicação de 500 kg/ha de gesso agrícola fornece a dose de S suficiente para atender as necessidades da cana-planta. Doses maiores de gesso permitem um maior efeito residual. Entretanto, é também aconselhável o fornecimento de 50 kg/ha nas soqueiras de cana.

Adubação com micronutrientes

Os micronutrientes, também denominados de elementos traços ou elementos menores, são essenciais ao desenvolvimento da cana-planta, requeridos em pequenas quantidades, na ordem de g/ha, mas de grande importância para o seu desenvolvimento (Tabela 2).

Atualmente, oito elementos químicos são classificados como micronutrientes: boro (B), cloro (Cl), cobre (Cu), ferro (Fe), manganês (Mn), molibdênio (Mo), níquel (Ni) e zinco (Zn).

Tabela 2. Extração e exportação de micronutrientes para a produção de 100 t de colmos de cana (Orlando Filho, 1983).

Partes da planta B Cu Fe Mn Zn
– – – – – – – – – – – – – – – – – – – g – – – – – – – – – – – – – – – – – – –
Colmos 149 234 1.393 1.052 369
Folhas 86 105 5.525 1.420 223
Total 235 339 6.918 2.472 592
% exportada 63,4 69,0 20,1 42,6 62,3

Isso, no entanto, não implica de forma nenhuma em uma função secundária. A deficiência dos micronutrientes nas culturas pode causar sérios problemas no metabolismo das plantas, comprometendo a produtividade agrícola.

Basicamente, os micronutrientes, exceto o boro e o cloro, atuam como catalisadores ou ativadores das reações enzimáticas. Estão envolvidos na síntese de compostos necessários ao funcionamento do metabolismo da cana. Sem os micronutrientes atuando como “arranque”, o sistema enzimático das plantas seria simplesmente uma massa inerte de proteínas (Gupta, 2001).

As doses de micronutrientes no plantio da cana são variáveis (Tabela 3), levando em consideração os teores no solo (Tabela 4).

Tabela 3. Doses de micronutrientes no plantio da cana (Adaptado de Vitti et al., 2007).

Teor no solo B Cu Zn
– – – – – – – – – – – – – – – – – – kg/ha – – – – – – – – – – – – – – – – – –
Baixo 1,0 a 2,0 2,0 a 3,0 3,0 a 5,0
Médio 0,5 a 1,0 1,0 a 1,5 1,5 a 2,5
Alto 0,0 0,0 0,0

Tabela 4. Interpretação da análise química do solo para a recomendação de micronutrientes para cana no Estado de São Paulo (Raij et al., 1997).

Micronutrientes Teor no solo – mg/dm3
Baixo Médio 1/ Alto
Boro (B) ≤0,20 0,21 a 0,60 >0,60
Cobre (Cu) ≤0,20 0,30 a 0,80 >0,80
Ferro (Fe) ≤4 5 a 12 >12
Manganês (Mn) ≤1,2 1,3 a 5,0 >5,0
Zinco (Zn) ≤0,5 0,6 a 1,2 >1,2

1/ O limite superior desta classe indica o nível crítico dos micronutrientes no solo. Extratores: B = água quente; Cu, Fe, Mn e Zn: DTPA.

Cobrição dos toletes

Na cobrição dos toletes de cana podem ser fornecidos os biofertilizantes, inoculantes à base de Azospirillum brasilense e produtos biológicos para o controle de pragas e doenças. Eventualmente, se os micronutrientes não foram fornecidos com os fertilizantes de plantio ou quebra-lombo, utilizá-los na cobrição dos toletes: 0,6 a 0,9 kg/ha de Zn; 0,35 a 0,50 kg/ha de Cu e 0,30 a 0,35 kg/ha de B (Vitti et al., 2007).

Adubações foliares

As adubações foliares devem ser realizadas para o fornecimento de micronutrientes e biofertilizantes. Realizar uma adubação foliar antes do fechamento do canavial e a segunda 30 dias após.

As adubações foliares com Mg e B cerca de 45 a 60 dias antes do maturador têm proporcionado aumento na produtividade e ATR da cana.

Considerações finais

A cana é uma cultura semi-perene com sucessivos cortes até a reforma do canavial. Em muitos talhões de cana é usual fazer 10 ou mais cortes, com produtividades econômicas. A adubação adequada pode manter ou melhorar a fertilidade do solo, induzindo maior longevidade do canavial, com maior número de cortes entre os ciclos de reforma do canavial.

Do ponto de vista econômico, a maior longevidade do canavial é desejável, reduzindo o custo de produção total. Ocorre a diluição dos elevados custos de plantio do canavial ao longo dos anos.

Para a obtenção de altas produtividades em cana-planta, deve-se proceder ao seguinte manejo químico do solo: calagem, gessagem, fosfatagem corretiva, adubação mineral no sulco de plantio e quebra-lombo e adubações foliares.


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