Consorciação de culturas faz bem ao mamoeiro e à lucratividade

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Autor

José Eduardo Borges de Carvalho
Pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura
jose-eduardo.carvalho@embrapa.br

A consorciação de culturas é a associação de uma cultura como o mamoeiro com uma outra, que poderá ser anual ou perene. Na escolha de uma cultura intercalar com o mamoeiro devem ser observados vários aspectos, como a identificação de culturas apropriadas, os espaçamentos compatíveis, o ciclo da cultura e o sistema de manejo das culturas associadas.

Dentre as culturas de ciclo curto ou anuais verificam-se em pomares comerciais vários consórcios de mamoeiro com plantas de ciclo mais curto, a exemplo de milho, arroz, feijão, batata-doce, amendoim e leguminosas para adubação verde, etc.

Por apresentar um ciclo relativamente curto, em média dois a três anos de vida, o mamoeiro pode ser consorciado com culturas permanentes, as quais serão formadas a um custo relativamente baixo, uma vez que a irrigação, a limpeza do mato e a adubação poderão ser comuns às culturas consorciadas.

O mamoeiro é utilizado como cultura intercalar nos plantios de acerola, macadâmia, café, abacate, graviola, manga, citros, coco e goiaba, principalmente.

É importante evitar o consórcio com abóbora, melancia, melão e pepino, por serem hospedeiras dos pulgões, que transmitem o vírus da mancha anelar.

Cuidados

Um dos principais cuidados a serem tomados é que a cultura consorciada com o mamoeiro não venha a se constituir uma ameaça à fitossanidade, como hospedeira de pragas do mamoeiro ou de vetores de doenças (virose), como é o caso do consórcio com as cucurbitáceas (abóbora, melancia, melão e pepino).

Outro cuidado muito importante é que as culturas intercalares não demandem aplicação de agrotóxicos que não estejam registrados para a cultura do mamão no Brasil. Esse é um aspecto muito importante para o produtor que pretende certificar sua produção na busca por mercados de melhor remuneração.

Preparo de solo

 Uma questão que merece atenção particular é o preparo do solo, que tem como objetivo criar condições propícias para o crescimento e desenvolvimento das plantas, facilitar o movimento de água e ar e controlar plantas infestantes.

Como a maior parte dos plantios encontra-se estabelecida em solos dos Tabuleiros Costeiros (que possuem camadas coesas, e a região tem um índice pluvial anual em torno de 1.200 a 1.800 mm), é importante o uso da subsolagem para evitar problemas de encharcamento, mesmo que temporários, não tolerados pelo mamoeiro.

A subsolagem é recomendada e apresenta resultados promissores, mas não deve ser usada indiscriminadamente. Recomenda-se que esta prática, quando necessária, esteja sempre associada à incorporação de matéria orgânica no solo, com o manejo de coberturas vegetais como gramíneas e, preferencialmente, leguminosas de sistema radicular profundo e vigoroso.

Solos

O manejo convencional do solo no controle de plantas daninhas adotado pela maioria dos produtores contribui para a degradação da estrutura do solo. Isso porque, na cultura do mamão esses solos são facilmente compactados pelo manejo inadequado, desde seu preparo primário, controle de plantas infestantes e trânsito exagerado de máquinas nos pomares que, associado à presença de horizontes coesos, compromete sua capacidade produtiva, além de reduzir a infiltração, armazenamento e consequente disponibilidade de água para a planta, comprometendo, também, o aprofundamento do sistema radicular do mamoeiro.

Esse manejo inadequado contribui para a redução do armazenamento de água no solo e para o agravamento do efeito estufa, uma vez que o material orgânico no solo é facilmente decomposto quando se realizam práticas de manejo não conservacionistas devido à liberação de gases de efeito estufa, como CO2 e N2O.

As características dos solos de Tabuleiros Costeiros e seu uso inadequado levam à busca de manejos diferenciados dos usualmente empregados pela maioria dos produtores, garantindo níveis adequados dos seus atributos físicos, químicos e biológicos para o desenvolvimento do mamoeiro. Essa melhoria nos atributos do solo proporciona condições adequadas às plantas para que elas possam desenvolver raízes profundas, de forma que o reservatório de água não fique limitado à camada superficial do solo (0-20 cm).

Dentre essas práticas de manejo mais sustentáveis, destaca-se o consórcio do mamoeiro com cobertura vegetal do solo utilizando-se espécies que tenham alta capacidade de produção de biomassa e sistema radicular vigoroso, associado a uma subsolagem no preparo primário, como uma operação capaz de romper as camadas compactada e coesa, influenciando diretamente na melhoria da qualidade do solo e, consequentemente, garantindo maiores produções e longevidade do mamoeiro.

Consorciação

Nesse particular, as coberturas vegetais desempenham papel importantíssimo, considerando-se que a parte aérea das plantas utilizadas como leguminosas e gramíneas após a ceifa e deixadas na superfície como cobertura do solo acabam se decompondo com o tempo, aumentando o estoque de matéria orgânica.

A matéria orgânica incorporada pela parte aérea e as raízes abundantes das gramíneas (eficientes na agregação do solo) e das leguminosas (mais agressivas e profundas) são os principais agentes de agregação do solo, melhorando sua estrutura em profundidade pelo aumento da macroporosidade, da aeração, da infiltração, da condutividade hidráulica e armazenamento de água no solo, reduzindo a compactação e a resistência mecânica ao crescimento radicular em profundidade.

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Benefícios

Entre os benefícios do uso de coberturas vegetais/adubos verdes estão:

ü Aumenta o teor de matéria orgânica no solo;

ü Promove a fixação biológica de Nitrogênio, com uso de leguminosas;

ü Melhora a capacidade de infiltração e armazenamento de água no solo;

ü Melhora o desenvolvimento e aprofundamento do sistema radicular (aumenta tolerância à seca);

ü Protege o solo da erosão (reduz o impacto direto da chuva sobre o solo);

ü Reduz o aparecimento de plantas daninhas;

ü Reduz o número de aplicações e a quantidade de herbicida por hectare/ano;

ü Remobiliza os nutrientes de camadas mais profundas para a superfície do solo (ciclagem de nutrientes);

ü Diminui o trânsito de máquinas no pomar, evitando a formação de camadas compactadas no solo;

ü Reduz os custos com o controle de plantas daninhas;

ü Melhora a produtividade e qualidade dos frutos.

Rentabilidade

A renda líquida nos manejos com coberturas vegetais e subsolagem foi, em média, 39,1% maior em comparação aos manejos mecanizados no controle das plantas daninhas.

As espécies de coberturas vegetais/adubos verdes recomendadas para o consórcio com o mamoeiro são feijão-de-porco (anual), crotalárias (anuais), calopogônio (perene), amendoim forrageiro (perene) e braquiária ruziziense (perene).