Controle biológico de bactérias no alho

0
18

Rodrigo Vieira da Silva rodrigo.silva@ifgoiano.edu.brEngenheiro agrônomo, doutor em Fitopatologia e professor – Instituto Federal Goiano – Campus Morrinhos, Morrinhos (GO)

Ana Paula Gonçalves Ferreira / Gabriela Araújo Martins / Giovana Cândida Marques Graduandas em Agronomia – IF Goiano – Campus Morrinhos

Alho – Crédito: Shutterstock

O alho é um dos principais condimentos utilizados no Brasil, apresentando uma produção anual de aproximadamente 132 mil toneladas em uma área de mais de 11 mil ha. Os principais Estados produtores são Minas Gerais e Goiás, com 36 e 21% da produção nacional, respectivamente (IBGE, 2021).

O alho caracteriza-se por ser rico em compostos sulfurados, em especial a alicina, que proporciona o cheiro característico, um dos grandes responsáveis pelas suas propriedades funcionais. Além disso, ele é rico em vários minerais que nutrem o organismo, como potássio, cálcio e magnésio, apresentando diversas propriedades farmacológicas.

O modo de propagação vegetativa dessa cultura faz com que microrganismos patogênicos, a exemplo de bactérias, sejam levados junto dos bulbilhos para as áreas de cultivo, e, consequentemente, causem elevadas perdas na produção. Para minimizar esses prejuízos, uma alternativa que apresenta grande potencial de sucesso é o controle biológico.

Para uma melhor abordagem acerca do controle biológico, podemos citar que este não se limita apenas à ação direta de microrganismos antagônicos aos patógenos, mas que dispõe de outros mecanismos, como a competição pelo substrato, indutores de resistências às plantas, aceleradores da decomposição e liberação de nutrientes e condicionadores de solo.

Principais doenças bacterianas do alho

As principais doenças bacterianas na cultura do alho no Brasil são causadas por Pseudomononas marginalis pv. marginalis, a queima bacteriana, e a Pectobacterium carotovorum (Sinonímia: Erwinia carotovora) a podridão mole.

As bactérias penetram pelos estômatos, hidatódios e, principalmente, por ferimentos. Após a penetração, as toxinas produzidas pela bactéria Pseudomononas marginalis pv. marginalis matam as células e desencadeiam intensa colonização e destruição dos tecidos, enquanto Pectobacterium carotovorum produz enzimas pectinolíticas que dissolvem a parede celular, provocando uma podridão aquosa, daí a denominação podridão mole.

A queima bacteriana faz com que as folhas apresentem descoloração parcial ou total e, posteriormente, a formação de estrias amareladas alongadas. Com a evolução da doença, ocorre encharcamento de coloração marrom e amolecimento na nervura central da folha.

O restante do limbo pode permanecer verde e firme. Porém, tende a ocupar todo o limbo foliar, apresentando, ao final, uma coloração marrom e ressecamento, com aspecto de maturação fisiológica da planta.

Benefícios do controle biológico

A crescente preocupação da sociedade com os impactos ambientais e com a contaminação de alimentos pelo uso intensivo de agroquímicos na agricultura tem levado a modificações nas formas de controle de doenças, e umas das alternativas que se encontra em expansão é a utilização de agentes de controle biológico.

O controle biológico é o uso de um ou mais microrganismos antagonistas com a finalidade de reduzir a quantidade e a viabilidade do inóculo do organismo patogênico ou da atividade determinante da doença provocada por fitopatógeno.

Até o presente, não existe nenhum defensivo registrado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para as doenças bacterianas da cultura do alho. Em razão da ausência de bactericidas eficazes e indisponibilidade de cultivar resistente às bacterioses do alho, a estratégia de manejo biológico faz-se imprescindível para reduzir os danos causados à cultura.

Principais agentes de controle biológico

O fungo do gênero Trichoderma é um dos mais usados no controle de doenças de plantas. Este é facilmente isolado do solo, madeira em decomposição e outros tipos de matéria orgânica.

Os pontos mais interessantes da utilização do Trichoderma com agente de controle de doenças de plantas é o fato de ele ser não patogênico e associativo com as plantas, além de apresentar vários mecanismos de atuação no controle dos patógenos, entre os quais: o micoparasitismo, a produção de antibióticos, a competição por nutrientes e espaço na rizosfera e a indução de resistência das plantas.

As bactérias do gênero Bacillus encontradas no solo, na região de contato com as raízes, além de exibirem a capacidade de inibir ou retardar o desenvolvimento de patógenos, possuem a capacidade de promover o crescimento de plantas, de maneira direta e indireta. Por esse motivo são denominados rizobactérias promotoras de crescimento de plantas.

Além da capacidade de controlar outras bactérias, o gênero Bacillus pode servir como ferramenta de controle de fitopatógenos. A multifuncionalidade presente em microrganismos rizosféricos e endofíticos é vista com destaque para a fixação de N, solubilização de fosfato, produção de enzimas hidrolíticas como as celulases, xilanases, lipases, proteases e pectinases, além de outras características de biocontrole associadas.

Biológico ou químico?

Os agentes de controle biológico podem ser mais eficientes que os produtos químicos para a proteção das raízes e crescimento das plantas, pois a aplicação no início da cultura proporciona proteção a longo prazo.

O controle biológico não se enquadra apenas na aplicação de microrganismos antagônicos aos patógenos, mas também microrganismos competidores pelo substrato, indutores de resistência às plantas, aceleradores de compostagem e condicionadores de solos cultivados. Esses retratados pelo complexo de microrganismos são produzidos por meio de fermentações, conhecidos como ‘bokashi’ em japonês.

Detalhes do manejo biológico

O uso de agentes de controle biológico no manejo de doenças bacterianas no alho deve ser aliado a outras técnicas culturais para aumentar as chances de sucesso. Assim, deve-se plantar cultivares recomendadas para a região, na época correta e nos espaçamentos adequados.

Também devem ser realizadas correções do pH solo e uma adubação equilibrada, que propicie o melhor desenvolvimento das plantas. Além disso, recomenda-se evitar adubações nitrogenadas em excesso, uma vez que esse mineral, em alta concentração nos tecidos vegetais, faz com que os tecidos fiquem mais suculentos, o que favorece a multiplicação das bactérias.

Os biológicos podem ser utilizados nos tratamentos dos bulbilhos ou aplicados no sulco de plantio nas horas mais frescas do dia, seguindo a dose recomendada pelo fabricante. O ideal é que seja monitorado por um agrônomo especialista. Vale ressaltar que os melhores efeitos de produtos biológicos são alcançados a médio e longo prazos.

Resultados de campo

Em pesquisa realizada com o uso de isolados de 179 bactérias para o controle da queima bacteriana de Pseudomonas marginalis, verificou-se que dentre as bactérias antagonistas avaliadas, 24% resultaram em nenhum controle, 15% propiciaram um nível de controle de 25%; 31,84% dos isolados promoveram entre 26% e 50% de controle, 17,32% proporcionaram entre 51 e 75% de controle e 11,74% dos isolados bacterianos apresentaram 100% de controle.

Erros mais frequentes

Na utilização de agentes de controle biológico no manejo de doenças, faz-se necessário atentar para a densidade do patógeno no solo, que pode afetar a eficácia do agente biológico. Outro fator importante são as condições ambientais, a exemplo das variações de temperatura, umidade do solo, ar e pH.

Também sofrem interferências externas, como o armazenamento, tecnologia de aplicação utilizada, manuseio do produto e, inclusive, a competição com outros microrganismos presentes no local, uma vez que, se não forem ideais, podem afetar diretamente a sobrevivência desses agentes, inibindo sua ação no alvo.

Como evitar os erros

Para evitar falhas na utilização dos biológicos, é importante buscar profissionais capacitados que orientem o produtor na condução de sua cultura da maneira correta para minimizar a quantidade de patógenos no solo e reduzir futuros prejuízos.

Esse profissional deve orientar o produtor a utilizar a dose correta do produto biológico para proporcionar maior eficácia no controle. Além de aumentar os custos, as superdosagens não garantem eficiência do controle biológico, além de ocasionar redução na produtividade.

Deve-se manter a embalagem do produto biológico em condições adequadas, de acordo com a recomendação do produto. A eficácia do produto biológico também depende da temperatura, ou seja, a aplicação deve ser realizada em momentos do dia em que a temperatura esteja adequada para o microrganismo melhor se desenvolver e realizar sua ação antagonista.

Formas de agregar a esta tecnologia

Uma forma de agregar ao controle biológico é aliar outras medidas de controle para reduzir o efeito das doenças nessas áreas infestadas. Um exemplo seria realizar o controle cultural e físico, limpando maquinários e implementos e evitando assim a disseminação de patógenos. Verificar se as sementes e mudas possuem certificação e estão livres de patógenos e doenças, eliminar possíveis hospedeiros da doença e, se possível, realizar rotação de cultura.

Uma atividade importante é realizar acompanhamento periódico da área de cultivo e eliminar reboleiras e áreas com focos da doença.

Custo x benefício

O Brasil se tornou líder mundial em tecnologias de controle biológico e, de acordo com algumas estimativas, o mercado de biológicos está em constante crescimento, chegando a crescer, nos últimos anos, taxas acima de 10% ao ano.

Os custos com insumos na agricultura estão cada vez mais altos, logo, os produtos biológicos podem contribuir para mudar essa situação. Uma vez que os solos vão ficando supressivos, com aumento da população dos agentes de controle biológico, vai diminuindo a necessidade e/ou as doses do produto a cada ano de cultivo.

Em alguns casos, o produto biológico pode ser mais caro que o químico, porém, se torna viável por não agredir o solo, ser mais sustentável, garantir o controle e não induzir resistência ao patógeno. Mesmo estes produtos a médio e longo prazo podem se tornar mais econômicos.

Considerações

O uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos nos cultivos de alho tem promovido diversos problemas ambientais, bem como a possível contaminação do alimento, do solo e da água.

Dessa forma, o controle biológico apresenta-se como uma excelente e viável estratégia para o desenvolvimento de uma agricultura mais sustentável, especialmente para as bacterioses de plantas, onde não existem produtos registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para seu controle.

Além disso, os agentes biológicos, diferentemente dos químicos sintéticos, contribuem para uma melhor conservação da microbiota benéfica do solo.