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Controle de pragas e doenças em folhosas

Uma inovação da pesquisa atual é a utilização de antagonistas microbianos.

As armadilhas com feromônios são outra tática inovadora que está sendo empregada nos cultivos modernos

Kethelin Cristine Laurindo de OliveiraEngenheira agrônoma, professora de Fitopatologia e mestra em Ambiente e Sistemas de Produção Agrícola – Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT)kethelin.oliveira@unemat.br

Fernanda Lourenço DippleEngenheira agrônoma, professora de Entomologia e mestra em Ambiente e Sistemas de Produção Agrícola – UNEMAT fernanda.dipple@gmail.com

Rayene Camila Cardoso Pereira Graduanda em Agronomia – UNEMAT rayenecardosoo@gmail.com

Marla Sílvia DiamanteDoutora em Agronomia/Horticultura – UNESPmarlasdiamante@gmail.com

Santino Seabra JuniorProfessor de Olericultura e dos Mestrados: Ambiente e Sistemas de Produção Agrícola e Biodiversidade e Agroecossistemas Amazônicos da UNEMATsantinoseabra@hotmail.com

Folhosas – Créditos: shurtterstock

O cultivo de folhosas é realizado em sistemas intensivos de produção, podendo ser produzido no solo, recipientes ou sobre hidroponia. De modo geral, é realizado em pequenas áreas localizadas próximas aos centros consumidores, nos locais chamados “cinturões verdes”, ou até mesmo na agricultura urbana, regiões que margeiam a cidade e facilitam a distribuição destas espécies que são tão perecíveis e necessitam que as colheitas sejam diárias.

Esta limitação de espaço faz com que o agricultor intensifique seu sistema de cultivo, se especialize em algumas culturas e com isso, seja mais eficiente no emprego de táticas de manejo que reduzam a alta pressão de pragas e patógenos, agentes causadores de danos e muitas vezes inviabilizando o produto para comercialização.

Dessa forma, os produtores acabam aumentando o uso de agrotóxicos, para possibilitar o cultivo, mas isso pode causar desequilíbrio no sistema de produção, contaminação dos alimentos e resíduos no meio ambiente. Este modelo de cultivo acarreta a simplificação das cadeias tróficas, provocando o desequilíbrio nos agroecossistemas, reduzindo os inimigos naturais, responsáveis pelo controle biológico de pragas, necessitando maior aporte de defensivos agrícolas.

Principais pragas e doenças em folhosas

Devemos informar que muitos insetos estão presentes nos sistemas de produção de hortaliças folhosas, porém, nem todos podem ser considerados pragas, pois alguns desses insetos podem ser benéficos (predadores, parasitas e polinizadores), e outros que se alimentam das hortaliças, mas devido à sua baixa infestação não ocasionam dano econômico, suas populações são baixas, estão em equilíbrio e não causam prejuízo ao agricultor.

No caso das doenças, podemos classificar em dois tipos, as de causa abiótica que são distúrbios fisiológicos causados por deficiência nutricional, ou ocasionado por algum fenômeno climático, porém, não são transmitidos entre as plantas. Já as doenças de causa biótica, causada por vírus, bactérias, fungos ou nematoides, podem ser disseminadas entre as plantas, sementes, mudas e ferramentas contaminadas, e até pelo homem.

Para ocorrer uma doença na planta, é necessário a interação entre três fatores: primeiro a presença de um hospedeiro suscetível, como por exemplo, uma cultivar de alface suscetível àquele organismo patogênico, o segundo fator é a presença do microrganismo causador da doença (patógeno virulento) no sistema de cultivo, e o terceiro fator é que esse ambiente (temperatura e umidade) deve estar favorável para que o organismo consiga sobreviver, multiplicar e hospedar na planta.

Dessa forma, ocorre a infecção do patógeno na planta. Dependendo da interação dos fatores, a doença pode ser mais severa, ocasionando maiores danos às plantas e, consequentemente, maiores prejuízos ao agricultor.

Podemos citar como exemplo a presença da Xanthomonas campestris pv. Campestris, patógeno responsável pela doença podridão-negra (Tabela 1), que ocorre em couve e outras brássicas. Em condições de alta umidade e temperatura, podem ocasionar danos severos numa lavoura de repolho, promovendo danos de até 100% na produção, quando a cultivar utilizada é suscetível à doença.

Condicionamento para pragas e doenças

Muitos fatores ambientais, como alta temperatura, alta incidência de chuvas, molhamento foliar, encharcamento do solo e períodos de baixa precipitação são diferentes condições que podem contribuir para o aumento da pressão de pragas e doenças em hortaliças folhosas, ou seja, cada organismo causador de danos tem condições ambientais favoráveis à sua multiplicação e desequilíbrio, podendo provocar danos aos cultivos.

Como exemplo, no verão, quando prevalecem períodos com altas temperaturas, umidade e encharcamento do solo, podem ocorrer podridões causadas por Fusarium oxysporum f. sp. Lactucae na maioria das cultivares de alface comerciais e outras espécies de Asteráceas.

Já no inverno, uma das principais doenças da cultura é o míldio (Bremia lactucae), em condições de temperatura variando de 12 a 20ºC, alta umidade e presença de filme d’água na folha (Tabela 1).

Tabela 1. Principais doenças que prejudicam a produção de folhosas no Brasil, destacando as culturas afetadas, o agente causal, qual o ambiente favorável e os sintomas da doença.

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Doença Cultura Agente Causal Ambiente favorável Sintomas
          Damping off (tombamento) Alface; Almeirão; Escarola. Rhizoctonia solani; Fusarium spp.; Pythium spp. (Globisporangium spp.) e Phytophthora spp. T 18° e 30 °C; Pouca luminosidade;  ↑U – Apodrecimento de sementes, raízes e colos, ocasionando falhas na germinação, murcha, tombamento e a morte de plântulas e mudas recém-transplantadas  
Agrião; Couve; Couve chinesa; Mostarda; Repolho; Rúcula.
    Septoriose Alface; Escarola Septoria lactucae Pass. T 16° a 23 °C;  ↑U – Pequenas manchas cloróticas e irregulares nas folhas basais, evoluindo para necróticas, pardo-escuras, envoltas por um halo amarelado e podem atingir toda área foliar
    Cercosporiose Alface Cercospora lactucae-sativae T 20° a 30 °C;  ↑U – Nas folhas mais velhas, com manchas circulares ou ovais, marrons, com centro claro, e envoltas ou não por um halo amarelo
            Murcha-de-esclerócio Alface; Escarola Sclerotinia sclerotiorum; Sclerotinia minor. T 16° a 23 °C;  ↑U   – Afeta a base das plantas, causando o apodrecimento do caule e das folhas próximo do solo; – Apresenta murcha progressiva, seguida de amarelecimento, colapso generalizado e morte; – As lesões apresentam aspecto úmido, coloração castanho claro ou escuro, e são recobertas por um denso micélio branco onde se formam escleródios negros
Agrião; Couve; Couve chinesa; Mostarda; Repolho; Rúcula.
  Podridão radicular Alface Globisporangium spp. (Pythium spp.) T 18 e 30 °C;    ↑U – Tombamento, redução do crescimento, podridão radicular, murcha e morte
        Míldio             Míldio Agrião; Couve; Couve chinesa; Mostarda; Repolho; Rúcula. Hyaloperonospora parasitica T 12 a 20 °C;  ↑U   – Manchas circulares, úmidas e cloróticas nas folhas, evoluindo para lesões irregulares e necróticas com frutificações branco-acinzentadas na face inferior das folhas.
Alface Bremia lactucae – Manchas foliares verdes claras ou amarelas, úmidas e de tamanho variável. Elas apresentam aspecto angular, sendo delimitadas pelas nervuras e ao evoluírem tornam-se necróticas, pardas e recobertas por um crescimento branco na face inferior
          Hérnia das crucíferas Agrião; Couve; Couve chinesa; Mostarda; Repolho; Rúcula. Plasmodiophora brassicae T 16° a 23 °C;    ↑U – O sistema radicular é colonizado pelo patógeno que induz a formação de tumores (galhas), estas galhas dificultam a absorção de água e nutrientes causando sintomas reflexos como: amarelecimento, murcha progressiva nas horas mais quentes do dia, queda de vigor e morte;
      Fusariose, Murcha de fusarium ou Podridão basal Alface; Almeirão Fusarium oxysporum f. sp. lactucae T 25 a 30 °C;  ↑U – Amarelecimento das folhas basais, atrofia generalizada, não formação de cabeça, listras marrons ou negras no sistema vascular, córtex acastanhado ou avermelhado, murcha progressiva, redução do sistema radicular e morte de plantas;
Agrião; Couve; Couve chinesa; Mostarda; Repolho; Rúcula. Fusarium oxysporum f. sp. conglutinans
            Queima da saia Alface; Almeirão Rhizoctonia solani T 15 e 25 °C;  ↑U – Inicia-se pela formação de pequenas lesões marrom-claras nas nervuras que podem aumentar de tamanho e tornam as folhas mais velhas necrosadas e amolecidas; – Observa-se na nervura central e na base do limbo foliar, a formação de um crescimento micelial vigoroso, branco no início e de coloração parda num estágio mais avançados;
        Mancha de Alternaria Agrião; Couve; Couve chinesa; Mostarda; Repolho; Rúcula. Alternaria brassicae; Alternaria brassicicola T 23 a 30 °C;    ↑U – Nas plântulas: necroses nos cotilédones, queda de vigor e tombamento generalizado de mudas; – Plantas adultas: manchas circulares ou ovaladas com anéis concêntricos e halos amarelados ao redor das mesmas, podendo ocasionar intensa desfolha e manchas necróticas no caule;
Nematoses Asteráceas e Brássicas Meloidogyne javanica; Meloidogyne incognita T 24 a 30 °C;   Solos arenosos; umidade próxima a capacidade de campo do solo – Formação de nódulos nas raízes que consequentemente apresentam sintomas reflexos na parte aérea causando amarelecimento, nanismo e murcha;
Vira cabeça Alface Tospovirus Transmitido por Tripes; – A planta apresenta desenvolvimento assimétrico, as folhas jovens centrais e internas se apresentam atrofiadas e com mau desenvolvimento (nanismo), ocorre necrose e parcial ou total nas folhas, podendo ocasionar a morte da planta;
Mosaico da Alface Alface Lettuce mosaic virus (LMV) favorecida pela capacidade de infectar sementes; Transmitido por Pulgão. – Indução do sintoma de mosaico e deformação foliar em alface  
Crestamento bacteriano Alface Pseudomonas cichorii A umidade é o principal fator para o desenvolvimento da doença – Manchas marrom escura e irregulares no interior do limbo foliar, avançando de forma triangular a partir dos bordos. Essas manchas apresentam a coloração marrom escura. Quando há coalescência de lesões, os bordos ficam queimados, de cor escura e o tecido apresenta-se flácido e podre
Podidão mole Alface Dickeya sp. (Erwinia sp.), Pectobacterim atrosepticum e Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum. T maiores que 30 °C;    ↑U – Murcha nas folhas mais externas; – Em estágios mais avançados da doença, a medula do caule torna-se encharcada e esverdeada e toda a planta pode apodrecer
Repolho; Couve Erwínia carotovora subsp. Carotovorum – Amolecimento dos tecidos; – Exsudação de odor fétido; – Murcha e apodrecimento  
Mancha bacteriana Alface; Xanthomonas axonopodis pv. vitians T maiores que 30 °C;    ↑U – Lesões marrons escuras ou negras, margeando as bordas das folhas mais velhas, resultando em lesões na forma de “V”;
Podridão negra Brássicas Xanthomonas campestris pv. Campestris T maiores que 28 °C;    ↑U – Lesões amareladas, em forma de “V”, com vértice voltado para o centro da folha. Com a evolução as folhas ficam amareladas, podendo apresentar necrose, podendo evoluir para murcha, queda prematura de folhas e apodrecimento das plantas afetadas; Escurecimento dos vasos do xilema, e facilmente disseminadas por mudas contaminadas;

Por outro lado, há pragas, como por exemplo, os pulgões (afídeos) (Tabela 2), que formam colônias na face abaxial das folhas da maioria das hortaliças folhosas, e têm a chuva como um fator que reduz a população dessa praga.

Chuvas intensas, respingos de água e lama podem derrubar esses insetos, ou até mesmo matá-los por asfixia. No entanto, os pulgões se multiplicam melhor em temperaturas amenas (18 a 25º C) e em períodos de pouca chuva.

Tabela 2. Principais pragas causadoras de danos na produção em hortaliças folhosas.

Inseto Dano Parte atacada Cultura Manejo
  Pulgão da couve (Brevicoryne brassicae)   Redução do crescimento da planta, folha encrespada e cloróticas; Transmissão de viroses Brotação e folha Couve Repolho Preferem épocas do ano mais secas e temperaturas amenas   Eliminar restos culturais, hospedeiros; Fazer rotação de culturas   Manejo adequado de inseticidas
Pulgão da alface (Nasonovia ribisnigri) Alface
  Pulgão verde (Myzus persicae) Alface Couve Repolho
  Mosca Branca (Bemisia tabaci) Redução do crescimento, perda de qualidade; Favorece doenças     Folha e partes herbáceas   Chicória Couve
    Tripes (Frankliniella schultzei, Thrips tabaci) Redução do crescimento, retorcimento e lesões prateadas na folha; Transmissão de viroses   Preferência pela face inferior da folha Alface Repolho Altas temperaturas e baixa pluviosidade favorecem o aumento populacional; Monitoramento e uso de armadilhas
Besouro “Vaquinha” (Diabrotica speciosa)     Redução do crescimento e morte da planta   Adultos preferem parte aérea, e larvas a raiz   Couve Repolho   Altas temperaturas e pluviosidade; Uso de armadilhas amarelas e inimigos naturais
 Grilo (Gryllus assimilis) Paquinha (Scapteriscus spp) Plantas jovens e raiz Alface Couve Repolho Controle da umidade do solo, eliminação de restos culturais; Uso de iscas líquidas
Lagartas cortadoras (Agrotis subterrânea) Morte da planta   Corte do caule rente ao solo     Alface Couve Chicória Repolho Controle da umidade do solo, eliminação de restos culturais
Caracóis (Bradybaena similares)  Lesmas (Deroceras laeve)     Produção, perda de qualidade Plantas jovens e folha Controle da umidade do solo, eliminação de restos culturais; Uso de iscas
Lagartas desfolhadoras Mede-palmo (Trichoplusia ni) Folha. Armadilha luminosa, inseticida biológico e inimigos naturais
  Traça das crucíferas (Plutella xylostella) Raspagem das folhas, “redilhado”. Produção e qualidade. Folha e a planta. Preferência pela região da gema apical. Couve Repolho Alface Chicória Altas temperaturas e pluviosidade; Uso de armadilha com feromônio e inimigos naturais
  Broca da couve (Hellula phidilealis) Produção, perda de qualidade e morte da planta.   Meristema apical, folha e caule       Couve Repolho Destruição de restos culturais, armadilha luminosa
  Curuquerê da couve (Ascia monuste orseis), Produção, perda de qualidade; Consomem o limbo foliar e não as nervuras.         Folha   Uso de armadilhas, inseticidas biológicos e inimigos naturais
  Mosca minadora (Liriomyza trifolii, Liriomyza sativae, Liriomyza huidobrensi) Produção, perda de qualidade; Disseminação doenças   Alface   Prefere baixa umidade e altas temperaturas; Uso de armadilhas cromotrópicas, adesivas, coloração amarela e eliminação de restos culturais

Desafios

Um dos maiores problemas na ocorrência de pragas e doenças é o cultivo sucessivo de espécies de mesma família botânica (Asteraceae: alface, almeirão e escarola; Brassicaceae: couve, repolho e rúcula) na mesma área de produção, podendo proporcionar uma seleção de pragas e organismos patogênicos no local, ou seja, favorece o aumento de pragas e doenças.

Além disso, o ato de não eliminar os restos de cultura e a destruição de lavouras abandonadas podem também aumentar a população de pragas e inóculos da doença, acarretando grandes prejuízos à produção.

Dentre os principais insetos pragas que causam danos em hortaliças folhosas, podemos citar pulgões que ocorrem em alface e couve (Aphis persicae e Myzodes persicae, Brevicoryne brassicae), mosca-branca (Bemisia tabaci) e tripes (Frankliniella schultzei), que além de sugar a seiva da planta, podem transmitir viroses, como é o exemplo do vira-cabeça em alface, que é uma das principais doenças que ocorrem no verão brasileiro.

A traça-das-crucíferas (Plutella xylostella) é uma das principais pragas das couves e repolhos, sendo uma das maiores pragas de ocorrência mundial (Tabela 2). Também há uma grande preocupação com a presença de moluscos (lesmas e caramujos africanos) em hortaliças folhosas que formam “cabeça”, pois além dos danos causados a produção, também podem afetar a saúde humana.

Dentre as doenças, a podridão-mole em alface ocasionada por Erwinia sp., talo-oco em couve (Erwinia carotovora) e a podridão-negra são doenças bacterianas de grande importância, principalmente no verão brasileiro. O Damping off causado por fungos de solo como Pythium sp., Rhizoctonia sp. e Fusarium sp. pode ocorrer na fase de mudas nas hortaliças folhosas de maneira geral, mas também pode provocar podridões caulinares e radiculares nestas espécies no campo.

Dentre as manchas foliares, a mancha de alternaria que acomete as brássicas (Alternaria sp.), a cercosporiose (Cercospora lactucae-sativae) e septoriose (Septoria lactucae) são as principais causadoras de danos em folhas de alface. Outras doenças de grande importância são causadas por nematoides (Meloidogyne sp.) em asteráceas e brássicas, protozoário (Plasmodiophora brassicae) em brássica, além de vírus como o causador do mosaico da alface (Lettuce mosaic virus) e vira-cabeça-da-alface (Tospovírus).

Estes patógenos, de maneira geral, sobrevivem de um ciclo a outro da cultura em restos culturais, estruturas de resistências, sementes e plantas hospedeiras alternativas. Sua disseminação acontece através de propágulos (esporos de fungos e células bacterianas), que são dispersos pelo vento, respingos de água de chuva, irrigação, sementes e insetos.

Controle

Como pode ser observado, muitos insetos e microrganismos causam prejuízos aos produtores e uma forma eficiente de minimizar estes danos é através do manejo integrado de pragas e doenças (MIPD).

O manejo tem como estratégia principal o planejamento na área de produção, o qual é facilitado principalmente quando o agricultor possui um croqui ou mapa da unidade produtiva, e este, com sua experiência, levando em conta as condições ambientais (conservação do solo e a preservação ambiental), aspectos técnicos, econômicos e comerciais, consegue desenvolver uma proposta de organização da sua área produtiva em talhões, facilitando o emprego da rotação de cultura, ou seja, a principal estratégia de controle de pragas e doenças.

Nesse planejamento, a utilização de barreiras vegetais isolando a propriedade e individualizando os talhões é extremamente importante para uma eficiente estratégia de controle de pragas e doenças.

Outro pilar do MIPD é o monitoramento da produção. Assim, o produtor terá um registro constante do aumento das pragas e doenças no campo, nas diferentes espécies e épocas de cultivo, criando um histórico fitossanitário que contribui para a tomada de decisão de “o que cultivar?”, “onde cultivar?” e “em qual época cultivar?”.

Ao identificar a doença e as pragas principais que ocorrem no sistema de plantio de hortaliças folhosas, podemos incorporar ao manejo diversas táticas de controle, além de inserir produtos que possam induzir resistência nas plantas.

Dentre esses produtos, podemos destacar armadilhas, feromônios e organismos (insetos parasitoides, bactérias, fungos e vírus) que podem ser utilizados no controle de pragas e doenças. Esses produtos, além de terem a eficácia comprovada, como por exemplo, o parasita Trichograma (Trichogramma pretiosum) no controle de traça-das-crucíferas, reduzem o custo com inseticidas em couve e o risco de resíduos de agrotóxicos ao consumidor.

Regiões mais afetadas

Os trópicos são regiões com maior incidência de pragas e doenças em folhosas, uma vez que a maioria das doenças é favorecida por altas temperaturas e alta umidade, e as pragas devido às temperaturas constantes durante o ano, não diminuem a sua população e têm os ciclos mais curtos. Regiões subtropicais, principalmente de baixa altitude, onde a estação de verão é quente e chuvosa, também são acometidas por um grande número de doenças.

Artrópodes, insetos e microrganismos necessitam destes fatores para desenvolvimento e reprodução. Assim, temperaturas acima de 20ºC, luminosidade com mais de 10 horas dias e umidade relativa do ar acima de 60% atuam na perpetuação e sucesso destes organismos.

Outro ponto de favorecimento e auxiliar em se tornarem problemáticos é a falta de um inverno frio, pois este diminui as gerações destes organismos e auxilia no controle natural. Entretanto, existem exceções, como doenças que têm sua ocorrência em condições de temperaturas amenas, como o míldio, a hérnia das crucíferas e o murcha de esclerócio (Tabela 1).

Produtos inovadores

Muitas vezes, o sistema de produção é altamente dependente do uso de agrotóxicos, baseando-se em aplicações repetidas de inseticidas e fungicidas que são registrados para as culturas.

Porém, muitas vezes esses produtos, dependendo do nível de infestação da praga ou da incidência e da severidade da doença, pode não ser eficiente. Além disso, aplicações sucessivas do mesmo produto podem comprometer sua eficácia, gerando resistência da praga e do patógeno ao princípio ativo.

Outro problema está relacionado ao período de carência do produto, pois o tempo entre a aplicação e a colheita da hortaliça é curto, limitando o uso de produtos que necessitem de maior tempo de segurança para o consumo.

Para reduzir a dependência de inseticidas e fungicidas na lavoura, o agricultor deve optar por um manejo que integre táticas de controle (Figura 1), dando ênfase ao MIPD. Esse manejo deve ser pensado de maneira mais ampla, tendo em vista os sistemas adotados e novas técnicas no mercado, sempre em busca de menos impactos, tanto no meio ambiente como também sobre custo de produção.

Figura 1. Táticas de controle aplicadas ao manejo integrado de pragas e doenças (MIPD) em hortaliças folhosas.

 A adoção de práticas conservacionistas que tornam os agroecossistemas mais complexos e favorecem a biodiversidade funcional, promovem equilíbrio entre pragas e inimigos naturais.

Como exemplos dessas práticas tem-se: a rotação de cultura com gramíneas; o cultivo sobre palhadas de milheto, aveia preta e braquiária em sistema de plantio direto ou cultivo mínimo; a utilização de consórcios com plantas que repelem algumas pragas da alface, como cebolinha; a implantação de faixa circundante com espécies que apresentem nectários para atrair inimigos naturais, como por exemplo, o sorgo, que também é barreira de proteção contra a disseminação de fungos e bactérias, podem diminuir os problemas resultantes deste sistema de produção.

Essa barreira também dificulta a infestação de pragas como o tripes e oferece proteção à deriva de agrotóxico das propriedades circunvizinhas. O uso de tagetes ou cravo-de-defunto circundando os talhões auxilia na redução da população de moscas-brancas e traça-das-crucíferas, podendo contribuir como uma tática para MIPD.

Telas e malhas

O emprego de malhas em cultivos de hortaliças folhosas vem se mostrando bastante eficiente para controle de pragas e doenças, por permitir uma melhor adequação do ambiente e proteção entre planta e insetos.

A exemplo de malhas utilizadas no cultivo de hortaliças, temos o TNT (tecido-não-tecido), que por sua vez é um material desenvolvido a partir de longos filamentos de polipropileno que imprime resistência do contato do inseto com a planta. O uso deste material tem se mostrado favorável ao estabelecimento de couve e alface, quando utilizado sob túnel baixo, sendo bastante efetivo no controle de pragas, diminuindo a aplicação de inseticidas.

Outra malha que também está sendo avaliada é a organza, material têxtil, leve, que possibilita uma barreira, formando um ambiente favorável e impedindo a entrada de insetos. Porém, este uso é promissor, já que esse material ainda não é de uso agrícola. Além destas, há resultados da redução de infestação de insetos-pragas em cultivo protegido com diferentes colorações ou tipos de malha.

Também existem telas anti-insetos ou do tipo exclusão, com malhas de tamanho próprio para dificultar a entrada de pragas, a qual é fotosseletiva e bloqueia a luz UV, interferindo na visão, orientação e dispersão dos insetos, bem como também o emprego de telas tratadas com inseticidas.

Existem, no mercado, filmes agrícolas que utilizam aditivos com essa tecnologia. O uso do cultivo protegido empregando esse plástico, além de contribuir para o controle de pragas, também possibilita a redução de doenças em regiões com alta incidência de chuvas, lembrando que esses ambientes devem respeitar os preceitos técnicos, como altura de pé-direito maior que três metros, janelas laterais e zenitais, visando reduzir o problema com altas temperaturas nesses ambientes, principalmente em regiões tropicais.

Tecnologias

Uma inovação da pesquisa atual é a utilização de antagonistas microbianos, que têm sido indicados como potentes agentes biológicos no controle de pragas e doenças, envolvendo os grupos dos fungos, bactérias e actinomicetos. Entretanto, a maior parte desses microrganismos é testada contra fungos de solo, como por exemplo, os do gênero Trichoderma, que é encontrado naturalmente em quase todo tipo de solo e age como indutor de resistência, promotor do crescimento de plantas e atua no controle de fitopatógenos por diferentes mecanismos de ação (antibiose e micoparasitismo).

O fungo Trichoderma, quando utilizado em substrato para produção de mudas e no solo, contribui para o controle do mofo cinzento (Botrytis cinerea), mofo branco (Sclerotina sclerotiorum e S. minor), fusarium (Fusarium oxysporum f. sp. lactucae) e tombamentos provocados por Rhizoctonia solani.

Manejo sustentável

As armadilhas com feromônios são outra tática inovadora que está sendo empregada nos cultivos modernos, as quais são importantes instrumentos de monitoramento e controle de insetos.

Os feromônios, por sua vez, são agentes biológicos produzidos por insetos, que são específicos em cada espécie, tendo como objetivo a comunicação entre eles. Assim, esses feromônios são inseridos em armadilhas que apresentam características importantes de ação apenas entre insetos da mesma espécie. Um exemplo dessa tecnologia já utilizada é o uso de armadilhas adesivas com liberação de feromônio. 

O uso de feromônios em conjunto com armadilhas determina com exatidão o momento certo da intervenção, sintetizando o uso de praguicidas, dos custos envolvidos e dos possíveis riscos de contaminações.

Sua utilização traz diversos benefícios para monitoramento de pragas, tais como permitir a utilização de praguicidas menos persistentes, pois determina o momento exato da necessidade da intervenção, redução dos riscos de desenvolvimento de resistências dos insetos aos praguicidas, não apresenta ação nociva sobre os insetos benéficos, dentre outras.

Um outro exemplo do emprego de armadilhas no controle de pragas é o uso de armadilhas adesivas de cores amarela e azul. Algumas espécies de pragas, como pulgões, moscas-brancas, tripes e minadoras são atraídas pelas cores amarela e azul. Sendo assim, painéis adesivos nestas cores podem ser instalados, de preferência, nas bordaduras da cultura para capturar insetos em transição de uma cultura para outra ou ainda durante a dispersão entre plantas.

Não existe um número exato de cartões a serem instalados por área, porém, quanto maior o número de cartões, maior será a probabilidade de captura do inseto. Recomenda-se, para o monitoramento de insetos-praga, a utilização de 100 a 200 armadilhas/ha.

Uma ferramenta de grande valia e que tem sido amplamente recomendada é a instalação de armadilhas luminosas, que são dispositivos para atração e captura de insetos nas formas aladas e que apresentam fototropismo positivo.

Destacam-se na coleta os insetos das ordens Coleoptera, Lepidoptera, Heteroptera, Orthoptera e Diptera. O método baseia-se na interrupção do ciclo de vida do inseto no estágio adulto através de seu aprisionamento e morte na armadilha. Assim, cada fêmea atraída e morta antes da postura representa a eliminação de centenas de ovos que eclodiriam, gerando pequenas larvas, caso ocorresse a oviposição.

Palavra de especialista

Entre os principais erros observados nos sistemas de produção de hortaliças, o monocultivo e a falta de planejamento, como já citados anteriormente, aumentam o risco com pragas e doenças. Outro problema que vem sendo observado é a não destruição dos restos culturais, visto que estes se tornam refúgio de pragas e fonte de inóculo para doenças.

A instalação do viveiro de mudas em local inadequado, muitas vezes sem distanciamento da área de produção, sem proteção com barreiras vegetais e sem respeitar os preceitos técnicos mínimos para a utilização de cultivo protegido em regiões tropicais e subtropicais, é outro ponto a ser considerado.

A irrigação por aspersão também é um problema importante, principalmente para regiões de alta umidade e temperatura, pois proporciona um molhamento foliar que favorece o desenvolvimento e infecção dos patógenos. A mistura de produtos como inseticidas, fungicidas e outros insumos agrícolas pode também reduzir a eficácia do controle.

O que pode se perceber é que os erros cometidos por produtores frequentemente se dão pela falta de conhecimento. Portanto, o acesso à informação é o maior aliado na hora da escolha e manejo das hortaliças, evitando assim cometer erros pequenos que podem diminuir drasticamente sua produção.

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