Coronavírus: Como fica o mercado HF?

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Autores

Fabio Olivieri de Nobile
Doutor e professor – Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos (Unifeb)
fabio.nobile@unifeb.edu.br
Maria Gabriela Anunciação
Graduanda em Engenharia Agronômica – Unifeb

Com o avanço do novo coronavírus pelo mundo, as preocupações quanto aos impactos na economia global se elevam por parte de investidores e dos governos, principalmente devido à possibilidade de uma recessão. Embora os reflexos ainda sejam indefinidos, várias instituições têm reduzido as perspectivas de crescimento mundial.

Não é surpresa que uma pandemia mundial e as medidas de segurança impostas pelos governos causem iminente impacto no mercado financeiro e no consumo. Apesar das atividades essenciais, principalmente aquelas que se referem ao abastecimento de alimentos, seguirem em operação, é natural que a demanda seja reduzida e que problemas de escoamento de produção, por exemplo, possam assombrar os produtores.

Avaliações do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA) demonstram que as consequências do novo coronavírus irão impactar diretamente na economia. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, por exemplo, sofrerá uma retração de 1,18%, dessa maneira, há de se esperar os impactos em diversos setores do agronegócio.

Os ajustes econômicos e sanitários para frear a disseminação do vírus impactam diretamente nos setores agrícolas, especialmente quando pensamos em produtos menos resistentes ao armazenamento como, por exemplo, as hortaliças folhosas e frutas, pois as medidas de restrição de circulação acabam por impactar o escoamento e diminuir a demanda geral, visto que feiras, restaurantes e centros comerciais foram pilares das medidas de quarentena.

O que esperar

Para alguns economistas, o cenário é de depressão nos preços das commodities, o que pode comprometer os valores da safra 2020/21. “Dizem que as pessoas pelo mundo continuam comendo, e estão, mas não têm dinheiro para continuar pagando os preços que achamos justo”, comenta. O produtor precisa rever suas estratégias de comercialização e seus custos neste momento.

A situação do pequeno produtor no período da crise é preocupante, pois, além da diminuição de demanda, o mesmo irá encontrar problemas com frete para escoar seus produtos para regiões vizinhas.

Outros setores agropecuários que sentirão com mais força os efeitos da pandemia, além do hortifrutícola, ainda segundo o CEPEA, são da bovinocultura de leite, floricultura, biocombustíveis e têxtil. No entanto, independente do setor, os produtores de pequeno e médio porte sentirão com maior agressividade os efeitos do vírus.

Exportações

Segundo informações da Associação Brasileira de Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), a redução da exportação de frutas depende, especialmente, da relação com a comunidade europeia.

A intensidade dos casos de contágio em algumas regiões acabou fechando fronteiras – é em função disso, por exemplo, que a exportação de manga peruana para a China foi paralisada. Importante salientar também que o período de maior concentração de exportação de frutas do Brasil se dá no segundo semestre, sendo a diminuição do volume exportado incerto.

Atualmente, no entanto, já é possível notar diminuições na demanda de lima ácida tahiti e manga, frutas cuja exportação se dá no primeiro semestre do ano.

Insumos agrícolas

No entanto, há outro fator que devemos levar em consideração: os insumos agrícolas. Vamos considerar que uma parcela considerável de insumos é proveniente da China, país de origem do novo coronavírus, onde grande parte das atividades industriais, comerciais e de serviços estão paralisadas, devido à quarentena.

A paralisação da China pode influenciar o fluxo econômico e comercial de diversos países, visto que tal fato, atrelado à alta do dólar, irá causar aumento no preço dos insumos agropecuários e, consequentemente, no produto final.

Por outro lado, os insumos podem ficar baratos, já que os preços internacionais do petróleo recuaram 20% desde o início deste ano e podem cair ainda mais com o avanço do novo coronavírus pelo mundo.

Com isso, é esperado que insumos e outras commodities também se desvalorizem. Não só derivados, como fertilizantes que têm como matéria-prima o petróleo, mas também defensivos, produtos agrícolas e metais.

Custos x preços

Outro efeito de médio prazo decorrente da pandemia seria o aumento dos preços. Para o caso de insumos que são importados da China, por exemplo, a paralisação das atividades, caso se prolongue, pode impactar os fluxos comerciais entre praticamente todos os países.

Isso, atrelado à expressiva alta do dólar, pode resultar em aumento dos custos de produção e, consequentemente, dos preços dos produtos. Contudo, há de se considerar que os eventos climáticos adversos têm sido frequentes no País e podem afetar a oferta de HF’s ao longo ano, sustentando os preços no mercado.

As medidas de controle para essa crise devem prover de subsídios governamentais e ajustes flexíveis nos bancos que contam com financiamentos por parte de agricultores. O Banco do Brasil prorrogou, para produtores hortifrutícolas e de plantas ornamenteis, o pagamento das operações de custeio e investimento. Além disso, as linhas de créditos para o agronegócio foram reforçadas.

Os brasileiros não precisam estocar alimentos em decorrência da pandemia do novo coronavírus. A afirmação foi feita no dia 30 de março, pela ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina. Isso porque o setor agropecuário do Brasil segue produzindo normalmente os produtos que vão para as mesas da população. 

“O Brasil é um grande celeiro, produtor de alimentos, e não precisamos ter nenhuma expectativa negativa de que não teremos alimentos para nosso povo”, afirmou Tereza Cristina, referindo-se às mudanças na rotina dos brasileiros, impostas pela pandemia do novo coronavírus.


Previsibilidade é o desafio da indústria de flores, frutas, legumes e verduras

A PMA Brasil, entidade que representa a indústria de flores, frutas, legumes e verduras, acredita que prever o que o consumidor é o grande desafio, daqui para frente: “a imprevisibilidade das últimas semanas exigiu um esforço e mudanças de estratégia de gestão de pessoas, logística e comercial de todas as empresas para atender todo o País e garantir o abastecimento. A primeira etapa foi vencida, “a duras penas” por todos os lados. A pergunta agora é: quais são os produtos que os consumidores continuarão consumindo? Prever esse comportamento será o diferencial para que a indústria de frutas, flores, legumes e verduras possa se organizar e passar por essa fase difícil”, expõe em documento sobre a conjuntura do setor.

Em resumo, o cenário do setor mostra que as frutas, legumes e diversos (batata, alho, cebola e ovos) continuam sendo os produtos mais procurados. O produtor vê com preocupação o aumento do custo do frete, principalmente para o Sul e Nordeste.

Análise macro

Ü Folhosas: Produtores em dificuldade. Boas vendas para quem atende o varejo e registros de forte redução nas vendas para quem atende restaurantes, bares. Neste momento não há nenhum auxílio ou socorro financeiro ao produtor que amarga perdas. Existe relatos de redução de semeadura de até 35% em folhosas no principal cinturão verde de São Paulo. Com isso, surgem campanhas privadas de crownfunding (vaquinhas virtuais) em apoio aos agricultores para garantir que continuem produzindo e os alimentos sejam doados para Comunidades e Bancos de Alimentos.

Ü Flores: O segmento de flores foi muito prejudicado pela falta de consumo – queda de mais de 70%. Em apoio ao setor entidades vêm incentivando o Consumo e algumas redes varejistas iniciaram campanhas de vendas de flores e plantas em suas lojas. A ação surte resultados, mas enquanto Garden Centers e Floriculturas não puderem operar (claro, seguindo as novas regras de restrição dos órgãos de saúde) essa retomada será mais lenta.

Ü Exportação/importação: As exportações se mantêm estáveis, mas reduções do transporte aéreo podem prejudicar futuramente os resultados. Também há relatos de dificuldades de transporte e inspeção nos carregamentos no Chile e Argentina que têm operação padrão em suas aduanas. A demanda por frutas importadas (maçãs, pêras, kiwis ameixas, citrus, etc) tiveram redução, mas mantêm giro básico. Como já comentado, o desafio é entender o comportamento do consumidor e a taxa de câmbio.

Ü Varejo: As vendas desaceleraram na última semana do mês de março porque os consumidores estavam abastecidos. O mês de abril já demonstrou resultados mais positivos. A população está mais segura sobre o abastecimeno, e o número de visitas as lojas tem sido menor, elevando o ticket médio de compra. Apesar de seguir com boas vendas algumas redes do varejo relatam um aumento nos custos operacionais e isso naturalmente, tem sido motivo de grande preocupação. A indústria e varejo relatam que houve um aumento da prática de solicitação de antecipação de recebíveis. As taxas de juros para créditos bancários aumentou, inviabilizando a operação. O canal atacarejo perdeu parte da clientela de restaurantes, bares, pequenos empreendedores que estão com seus comércios fechados.

Ü Food Service: continua estagnado.

Giro pelo mundo

Em muitos países, não há mão de obra para realizar a colheita. Portugal tem dificuldade de mão de obra para os packing houses, por exemplo. No sul do Chile está proibida a saída das pessoas e há controle policias, o mesmo ocorre em Santiago.

Israel: A maioria das empresas está em home office e a Indústria só pode funcionar com 30% de sua capacidade e aumento do número de turnos.

EUA: O Varejo Americano ainda continua com consumo alto. O varejo está pedindo para produtores não estocarem batatas (importante produto da cesta básica americana). Os produtos essenciais estão em alta. As redes supermercadistas em geral, estão procurando segmentar, concentração nas unidades de manutenção de estoque, que são mais importantes.

Surgem oportunidades de aumento das exportações de grãos do Brasil.

Palavra da indústria sementeira

Para Paulo Christians, diretor geral da Bejo Brasil, importante empresa de sementes de HF, em época de isolamento social a alimentação não pode parar: “Temos que cuidar para que nossas sementes cheguem na hora certa, no lugar certo. Mas também temos que cuidar de nossa equipe, o que vem antes de tudo. Há três semanas implantamos o trabalho remoto para quase toda a equipe. Na sede da empresa estamos com uma equipe reduzida e nossa expedição está operando quase normalmente, com as devidas adaptações. Entretanto, o atendimento ao cliente e fornecedores está funcionando sem problemas, apoiado na tecnologia”, diz.

O desenvolvimento de produtos não pode parar, então, com muita criatividade e as devidas medidas de segurança, a Bejo tem utilizado ainda mais sua estação em Bragança Paulista (SP), “Alguns trabalhos que normalmente faríamos com os produtores rurais, agora estamos fazendo em nossa casa. Nosso pessoal de marketing tem tentado se reinventar todos os dias, mantendo a informação e a comunicação com o mercado. Resumindo, embora não estejamos nos vendo todos os dias e nada seja tão fácil como nos dias normais, o agro não parou, e nós, da Bejo Sementes, também não”.

A Agristar, outra empresa de renome no mercado sementeiro de HF, continua funcionando para atender ao mercado hortifruticultor, considerado essencial para alimentação básica da população. “A empresa tem tomado todos os cuidados, seguindo as orientações das entidades governamentais de saúde, com parte da equipe em home office, higienização constante de equipamentos, cuidados de distanciamento mínimo, com o objetivo de manter o funcionamento da empresa, mas preservando o bem-estar de clientes, parceiros comerciais, fornecedores e equipe. Nosso atendimento ao produtor, revendas e demais consumidores continua pelos meios digitais, de forma a garantir o mínimo de assistência e informação sobre nossas sementes e serviços”, diz Marcos Vieira, gerente de marketing da Agristar do Brasil.


Protagonismo dos alimentos nos momentos de crise

 Na maior cidade do País, São Paulo, a maior central de abastecimento de frutas, hortaliças, flores e pescados da América Latina não parou. No Entreposto Terminal São Paulo (ETSP) da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (CEAGESP) circulam diariamente cerca de 50 mil pessoas e 12 mil veículos, comercializando produtos vindos de 1.500 municípios de 22 Estados brasileiros e também de 19 países, uma comercialização média mensal de 283 mil toneladas.

O governo do Estado de São Paulo decretou quarentena, iniciada em 23 de março de 2020 para evitar a possível contaminação ou propagação do novo coronavírus. O Entreposto Atacadista é considerado serviço essencial, e devido a isto, as atividades de rotina foram mantidas, com algumas adequações necessárias.

Devido às medidas restritivas no Estado de São Paulo para funcionamento de bares e restaurantes da capital, foi verificada mudança no perfil do comprador e de volume de produtos adquiridos.

Os dias da semana de maior movimento se mantiveram (segunda-feira, quarta-feira e sexta-feira). Com a diminuição do volume de compras por restaurantes, distribuidores, feirantes e demais segmentos afetados, os supermercados e lojas de hortifrutigranjeiros aumentaram o seu volume de compras.

A população está preferindo, nas poucas saídas, ir a um local onde consegue encontrar um mix de produtos, ao invés de ir ao uma feira-livre ou lojas voltadas para a venda de hortifrútis. O setor de hortaliças folhosas foi o que mais sofreu, pois os maiores clientes são restaurantes e feirantes, cujas atividades estão parcialmente suspensas.

Os preços no atacado, não mostraram mudanças significativas, apenas as decorrentes da sazonalidade, clima, variação cambial e procura. Verificou-se também uma tendência de redução de preços em razão da retração gradativa da demanda.

Todas as ações realizadas no entreposto da capital, também estão sendo aplicadas nos entrepostos da CEAGESP do interior de São Paulo.

“Nossa missão primordial é prover o abastecimento alimentar com regularidade e não deixar que nada falte na mesa do brasileiro, principalmente nesse período de pandemia em virtude de Covid-19. Nosso trabalho está e sempre estará relacionado a vidas”, fala Presidente da Ceasa, Johnni Hunter Nogueira.