Correto manejo do plantio de abacateiro

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Matheus de Jesus Morais

Graduando em Engenharia Agronômica – ESALQ-USP

matheusmorais@usp.br

Catherine Amorim

Engenheira agrônoma e doutoranda – ESALQ-USP

catherine.amorim@usp.br

Ricardo Alfredo Kluge

Doutor e professor – ESALQ/USP

rakluge@usp.br

Crédito: Ana Maria Diniz

A cultura do abacate é originária da América Central, portanto, é de clima subtropical e tropical úmido, ocorrendo algumas variedades tolerantes a baixas temperaturas. O fruto é rico em uma gama de compostos nutricionais, divididos em proteínas, vitaminas A, D, B e óleos.

A polpa é amplamente utilizada pela indústria de cosméticos e farmacêutica. O México se configura como o maior produtor mundial de abacate, com o Brasil ocupando o quinto lugar em produção no ano de 2018 (FAO, 2018).

No ano de 2020, o Brasil produziu em torno de 250 mil toneladas de abacate, gerando uma receita bruta nacional de aproximadamente R$ 450,00 (IBGE, 2020), sendo o Estado de São Paulo o maior produtor interno.

Detalhes do cultivo

O abacateiro é uma cultura sensível ao frio e a geadas. Tais fatores climáticos são decisivos na fase do florescimento por afetarem a taxa de fixação de frutos. A cultura tem preferência por solos ricos em matéria orgânica, bem drenados, levemente ácidos e profundos.

A planta possui bom desenvolvimento em todo tipo de solo, porém, não se aconselha o plantio da cultura em solos sujeitos a encharcamento, que favorecem o aparecimento de gomose, uma das principais doenças da cultura.

A gomose se caracteriza como a podridão de raízes, causada pelo fungo Phytophthora cinnamomi Rands, ocasionando perda de plantas e consequente perda de produção. Devido a estas características, é desejável plantar o abacate em um nível um pouco acima do solo por meio de leiras ou camalhões.

O camalhão é uma porção de terra mais elevada localizada entre dois sulcos, com aproximadamente 30 a 40 cm de altura e 2,0 a 2,5 m de largura. Nesse sistema, as plantas ficam mais elevadas em relação ao sulco e, portanto, o solo é menos sujeito ao encharcamento, favorece o desenvolvimento das raízes e proporciona maior qualidade fitossanitária à planta.

Correção de solo

A acidez do solo deve ser corrigida com a aplicação de gesso, que aumenta a macroporosidade do solo, reduz o número e tamanho das estruturas de patógenos, além de ter efeito nutricional positivo. A aplicação de calcário junto com fosfito de potássio é uma opção para prevenção da podridão radicular.

O consórcio de plantas que possuam raízes pivotantes com a cultura do abacate favorece a descompactação do solo, ajudando a corrigir a porosidade. O consórcio de espécies agrega diversidade e garante maior sanidade e estabilidade do ecossistema.

O uso de cobertura no solo com palhada e matéria orgânica nos camalhões também ajuda na conservação da umidade do solo em período seco e no controle da podridão radicular.

É possível que se observe ocorrência de deficiências nutricionais relacionadas a micro e macronutrientes no desenvolvimento da planta. Para corrigir essas deficiências, é recomendada a utilização de fontes de adubos fosfatados (superfosfato simples ou tríplice e MAP), potássicos (KCl, sulfato de potássio e nitrato de potássio) e adubação com zinco (sulfato de zinco) e boro (ácido bórico ou ulexita). Para melhorar a inflorescência, pode-se usar boro na pré-florada ou aplicar nitrogênio com dose controlada na primavera.

Preparo de plantio

Em campo, é recomendado o espaçamento de 10 x 10 m entre plantas, dispostas em forma de retângulo, triângulo ou quadrado. Para cultivares de copa vigorosa, recomenda-se espaçamento de 10 m x 10 m, enquanto para plantas que possuem copa menos vigorosa, ou que se pretende podar regularmente, o espaçamento pode ser de 6 m x 7 m. O preparo do solo deve garantir características físicas para a manutenção da planta.

O plantio normalmente é realizado com transplantio de mudas enxertadas em viveiro para o campo. Em plantas enxertadas e bem cuidadas, a produção de frutos começa em dois anos após o plantio.

A planta deve ser tutorada com estaca, logo após o transplantio, a fim de se estabelecer e fixar no solo. A produção de mudas por enxerto leva de seis a nove meses e, preferencialmente, usa-se porta-enxertos resistentes à podridão radicular.

Podas

A poda deve ser realizada a fim de conduzir a planta em forma e tamanho desejado, garantindo iluminação em todas as partes da árvore e a produtividade uniforme. Podas são feitas para renovar e reduzir a altura do pomar.

Na cultura do abacateiro, ocorre o que é chamado de dicogamia protogínica. Este termo se refere à maturação do órgão feminino da flor antes do masculino, o que dificulta a autopolinização.

Dessa forma, a fecundação precisa ser cruzada, para isso, é recomendado plantio intercalado entre cultivares de diferentes grupos florais (A e B) para coincidência de abertura de flores. Ao se intercalar as cultivares dos dois grupos na linha de produção, otimiza-se a produção.

Cuidados

De início, é recomendado realizar análise de solo pelo menos três meses antes do plantio, e aplicar primeiramente o calcário antes da adubação. O adubo não deve entrar em contato com as raízes para que não ocorra danos fisiológicos e estruturais às mesmas, como queimaduras.

Tradicionalmente os espaçamentos são menos adensados, no entanto, há a tendência de implementação de mais plantas por área, sendo necessárias operações de poda e uso de fitorreguladores (para conter desenvolvimento de brotações).

Deve-se tomar cuidado com fatores que limitam ou dificultam a produção, como ocorrência de doenças e competição entre brotos e flores. A escolha de cultivares deve ser pautada no processo de polinização, para que haja frutificação quando atingirem a idade adulta.

A cultura também deve ser protegida contra rajadas de vento e geadas. A irrigação não deve ser excessiva, sendo necessária uma vez por semana e no inverno pode ser suspensa por dois meses.

Quanto custa?

O preço das mudas em viveiro pode variar de R$ 5,00 a R$ 20,00, a depender da cultivar, porte, mercado e outros fatores agronômicos. Em estudo realizado por Partichelli et al. (2020), foi avaliado o custo de implantação e retorno financeiro da cultura do abacate por um período de 20 anos na cidade de Venda Nova do Imigrante (ES). O estudo levou em conta o espaçamento de 10 m x 10 m em 1,0 hectare, totalizando 100 plantas.

Em relação ao preço, nesse mesmo estudo o valor médio ponderado era de R$ 2,17 por kg de fruta e R$ 43,40 por caixa de 20 kg, de acordo com a cotação local. Foi observado que os custos totais para a plantio de abacateiro no primeiro ano são de R$ 6.683,90.

Os primeiros dois anos são caracterizados pela implantação e preparo de solo, enquanto a partir do quarto ano já se pode visualizar retorno do valor investido. A partir do sexto ano ocorre estabilização da produção e, portanto, custos e receitas semelhantes nos anos seguintes.

Rentabilidade

Vale citar que a cultura do abacate é viável para produtores que não pretendam obter um retorno financeiro rápido, pois a cultura só começa a pagar pelos custos iniciais a partir do quarto ano.

No entanto, a rentabilidade da cultura pode ser alta. A rentabilidade é a taxa interna de retorno e foi contabilizada em 72%, sendo maior que a da cultura da tangerina Ponkan (15,5%), por exemplo.

Segundo dados da Conab, para os anos de 2021 e 2022, o preço médio do abacate no País foi de R$ 4,22 e R$ 4,88, respectivamente. O preço da fruta varia ao longo do ano, de acordo com a disponibilidade no mercado, podendo ir de R$ 4,10 em janeiro a R$ 6,50 em dezembro.

Tabela 1. Preço médio (em reais) das principais cultivares de abacate para os último três anos no Brasil.

 Preço médio anual (R$)
Cultivar202020212022
Geada2,293,214,12
Fortuna2,833,163,76
Quintal3,163,413,76
Ouro Verde3,903,965,00
Breda5,827,084,86
Margarida3,704,195,20
Avocado14,2019,4216,90

*O preço médio é calculado pela divisão do valor pela quantidade comercializada no ano.

Fonte: Conab, 2022