Cresce o mercado de biodefensivos

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Crédito: Luís Cláudio Paterno

Brasil já conta com o registro de 433 produtos biodefensivos. Faturamento estimado chega a R$ 1,7 bilhões para este ano. Crescimento de vendas pode ultrapassar 107% até 2030, com previsão de faturamento de R$ 3,69 bilhões

O ano de 2021 pode ser visto com otimismo pelo mercado de biológicos brasileiros. De acordo com dados recentes, apresentados pela CropLife Brasil, com pesquisa da Consultoria Blink Projetos Estratégicos, o setor deve crescer 33%, com faturamento estimado em R$ 1,7 bilhões.

Atualmente, o Brasil conta com 433 produtos registrados, sendo que 35% são decorrentes dos últimos três anos, segundo Amália Borsari, diretora executiva de biológicos da CropLife Brasil. O mercado chegou a dobrar de tamanho na safra 2019/20 em comparação com a safra de 2017/18. Para o futuro, o cenário continua promissor, principalmente com o avanço da biotecnologia, que deverá ser cada vez mais empregada no segmento.

Amália ressalta que a justificativa para esse crescimento ocorre pelo aumento da demanda do produtor rural e o interesse cada vez mais nítido de discussões nas áreas, na busca de práticas cada vez mais sustentáveis no campo. “O uso de produto biológico não entra mais como alternativa no processo, mas sim como essencial no manejo”, ela afirma. Hoje, esse fortalecimento do mercado vai desde a cadeia de pesquisa até a indústria e a distribuição.

Projeções para o mercado

Para Lars Schobinger, sócio-diretor da Consultoria Blink, o que deve ser visto nos próximos anos é uma continuidade do que já é enxergado hoje. Segundo ele, quem adota o uso desses produtos de forma contínua está dentro de 20% da área agrícola hoje. “É uma tecnologia que ainda exige um espaço muito amplo para avançar”, completa. Entretanto, uma vez que o processo é experimentado, há uma percepção de satisfação dos produtos bastante elevada.

“Em torno de um terço da demanda de campo já é hoje, possivelmente, controlada totalmente ou parcialmente por produtos biológicos”, diz Lars Schobinger. E esse rápido crescimento do setor traz projeções bastante otimistas para os próximos anos, mesmo porque a tecnologia dos produtos biodefensivos não é abraçada apenas por pequenos produtores, mas vem sendo abordada e utilizada por grandes produtoras do Brasil inteiro.

O faturamento estimado para 2030 é de R$ 3,69 bilhões, o que indicaria um crescimento de mais de 107% nos próximos anos.

Produção de biodefensivos

Os produtos biológicos para agricultura, chamados de biodefensivos, são insumos agrícolas desenvolvidos a partir de um ingrediente ativo que seja natural, sendo ainda, em sua grande maioria, de baixa toxicidade. Eles agem com o objetivo de eliminar uma praga-alvo.

“Nós temos substâncias químicas naturais, que são representadas pelos semioquímicos. Eles têm uma ação tanto de monitoramento, quanto de controle”, elenca Amália Borsari. Na classificação de substâncias, existem também os produtos bioquímicos, representados pelos hormônios reguladores de crescimento e as enzimas.

Há, ainda, os agentes biológicos de controle, que são organismos vivos que controlam pragas e doenças, como os microbiológicos, que são representados por vírus, bactérias, protozoários e fungos, e os macrobiológicos, representados pelos insetos, ácaros e nematoides.

De acordo com o tipo de praga, os defensivos podem se classificar em inseticidas (insetos), acaricidas (ácaros), fungicidas (fungos), nematicidas (nematóides) e herbicidas (plantas daninhas).

“Todos eles só se tornam produtos bioquímicos depois que passam por processos produtivos”, explica Amália Borsari. Essa transformação industrial, inclusive, é essencial para assegurar a efetividade do produto. Apenas após a seleção em campo é que o produto passa por processos de produção em escala altamente controlada. Depois disso, ele é formulado para garantir um tempo maior de prateleira, sendo esse seu grande diferencial.

“Dados de pesquisa mostram que um produto formulado tem efetividade próxima a 70% ou mais. O produto biológico é eficaz, é seguro, devido a todos esses processos regulatórios que ele passa”, diz Amália Borsari, diretora executiva de biológicos da CropLife Brasil.

Testes e aprovações

De acordo com Natália Martins, doutora em Bioquímica e pesquisadora no Laboratório Multiusuário de Química e Produtos Naturais, da Embrapa Agroindústria Tropical, o impacto do uso de insumos biológicos que percebemos hoje vem do Programa Nacional de Bioinsumos, lançado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) em maio de 2020. “Eu trabalho no desenvolvimento de nanoformulações que são bioestimulantes ou biopesticidas para a agricultura, em uma parte teórica que faz a simulação dessas nanoformulações e propõe testes aos laboratórios para ver o que funciona”, compartilha.

“Antes do agricultor ter o produto ou ficar testando coisas aleatórias, a gente vai ter essas simulações. A mesma lógica usada para a indústria farmacêutica também é aplicada para a produção de bioinsumos, nesse caso, os nanoformulados”, ela completa.

“Eu sou uma gotinha no oceano de bioinsumos, mas eu percebo o enorme potencial desses nossos produtos, chamados de ativos, porque eles atendem aos requisitos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, os ODS. Por natureza, a característica deles já é vir de uma economia circular”, diz a pesquisadora.

As nanopartículas são matérias que vêm de restos químicos ou restos orgânicos. Essa matéria-prima é processada muito rapidamente e gera pouquíssimo resíduo, por ela própria já vir do aproveitamento de um resíduo. “A descoberta dessas partículas que trabalhamos foi feita em 2014. Em 2018, colegas da Universidade de Brasília começaram a trabalhar com isso. Em 2020, nós lançamos a patente de um produto bioestimulante chamado Arbolin. A enorme vantagem dele, em relação a outros fertilizantes, inseticidas e pesticidas, é a sustentabilidade e o menor impacto sobre o meio ambiente”, avalia Natália.

A linha de produtos Arbolin é baseada na tecnologia arbolina, desenvolvida na agtech brasileira Krill Tech, nascida da parceria entre a Universidade de Brasília e a Embrapa. Alguns resultados em campo do produto contemplam aumento de produtividade de até: 80% do morango, 33% do feijão, 25% do tomate, 21% da soja sob estresse hídrico, 7% do algodão e 12,5% do trigo. Novos produtos seguem em teste para avaliar a efetividade da arbolina. “Atualmente, aqui no Ceará, temos o melão sendo testado”, compartilha a pesquisadora.

Fonte: TrendsCE

Visão macro do mundo dos biológicos

Wagner Bettiol PhD e pesquisador – Embrapa Meio Ambientewagner.bettiol@embrapa.br

Controle biológico pode ser conceituado como “o uso de um organismo para reduzir a densidade populacional de outro organismo”. O controle biológico é efetivo no controle de doenças e pragas das plantas e plantas invasoras.

Possivelmente seja o método mais bem-sucedido, tanto economicamente como ambientalmente. São reconhecidos quatro diferentes tipos de controle biológico: natural, conservacionista, clássico e aumentativo.

O controle biológico natural é o tipo em que as pragas e doenças são controladas por antagonistas e inimigos naturais de ocorrência natural, sem qualquer intervenção humana. O controle biológico conservacionista consiste nas ações humanas para proteger e estimular a preservação e aumento natural de agentes benéficos.

No controle biológico clássico, os inimigos naturais são coletados em uma área de exploração, geralmente a área de origem da praga, patógeno ou planta invasora, e em seguida, liberado em áreas onde se deseja elevar o número de agentes de biocontrole, podendo resultar em população permanente.

Controle biológico aumentativo é aquele em que os antagonistas, os entomopatógenos, os parasitoides e os predadores são aplicados de forma massal em uma cultura. O controle biológico aumentativo é o mais conhecido entre os agricultores, pois tem como base a aplicação de um agente de biocontrole disponível no mercado.

Benefícios para a agricultura brasileira

As primeiras preocupações com os danos causados pelo uso de pesticidas químicos na agricultura surgiram na década de 1950. Contudo, na década de 1980, no Brasil, a preocupação com os impactos ambientais da agricultura aumentou e as externalidades passaram a ser estudadas.

Nessa década foi evidenciado que o uso intensivo de pesticidas tem potencial de impacto negativo dentro e fora do agroecossistema. Dentro do agroecossistema, o uso intensivo de pesticidas aumenta a sua dependência devido aos desequilíbrios biológicos com a eliminação de inimigos naturais e de antagonistas, à ressurgência de pragas, à resistência aos princípios ativos e ao surgimento de novos problemas fitossanitários causados pela eliminação dos agentes responsáveis pelo controle biológico natural.

Fora dos agroecossistemas, os pesticidas químicos têm potencial de causar danos à saúde do consumidor e contaminar o solo, a água e o ar. Desta forma, o controle biológico contribui para a restauração da biodiversidade e colabora para o desenvolvimento de uma agricultura sustentável, trazendo benefícios para o meio ambiente e para a saúde das plantas.

Além disso, é de extrema importância os benefícios para a saúde dos agricultores, dos consumidores e dos animais. E o tripé da sustentabilidade é fechado com as vantagens econômicas e sociais do controle biológico, tanto pela sua eficiência quanto pelas vantagens ambientais e de saúde pública.

Agentes biológicos

É importante considerar que, no Brasil, de acordo com a legislação, o registro dos produtos biológicos é feito para o alvo. Os dois principais agentes de controle biológico utilizados para o controle de doenças de plantas no Brasil são as espécies de Bacillus e as de Trichoderma, que dominam o mercado.

Além de serem utilizados como agentes de biocontrole, essas espécies também são registradas para a promoção de crescimento das plantas.

Para o controle de fitopatógenos são registrados os seguintes agentes de biocontrole no Brasil: Bacillus amyloliquefaciens, Bacillus licheniformis, Bacillus methylotrophicus, Bacillus pumilus e Bacillus subtilis entre os produtos à base de bactérias.

Os produtos à base de fungos são: Clonostachys rosea, Paecilomyces lilacinus, Pochonia chlamydosporia, Trichoderma asperellum, Trichoderma harzianum, Trichoderma koningiopsis e Trichoderma stromaticum, entre outros.

Os agentes de controle biológico são registrados tanto em formulações contendo apenas um organismo como em mistura, que é uma nova tendência.

Esses agentes de controle biológico são registrados para o controle das doenças causadas por Botrytis cinerea, Colletotrichum lindemuthianum, Fusarium oxysporum f. sp. lycopersici, Fusarium oxysporum f. sp. phaseoli, Fusarium solani f. sp. glycines, Macrophomina phaseolina, Moniliophthora perniciosa, Rhizoctonia solani, Sclerotinia sclerotiorum, Thielaviopsis paradoxa, Heterodera glycines, Meloidogyne exigua, Meloidogyne graminicola, Meloidogyne incognita, Meloidogyne javanica, Pratylenchus brachyurus, Pratylenchus zeae, Radopholys similis, entre outros.

Para informações completas sobre os produtos, consultar o Agrofit (www.agrofit.agricultura.gov.br) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Evolução do setor

Desde o primeiro produto disponibilizado no mercado brasileiro, em 1987, para controlar doenças de plantas, que não era formulado, passando pelo primeiro produto registrado à base de Trichoderma, em 2006, a evolução na qualidade dos produtos foi enorme.

Hoje as formulações disponíveis no mercado são de qualidade e com vida de prateleira adequadas para os agricultores. O uso de produtos biológicos ou bioprotetores ou biopesticidas está em ampla expansão em todo o mundo.

No Brasil, a área sob controle biológico de pragas e doenças com inimigos naturais e antagonistas é superior a 30 milhões de hectares, considerando as informações de 2017. Contudo, atualmente, este número é consideravelmente maior, principalmente, se considerarmos a produção “on-farm” ou “caseira” de alguns agentes de biocontrole (sem dados disponíveis).

O aumento do uso de controle biológico está relacionado às características positivas da técnica em relação à saúde do homem, aos produtos mais saudáveis e aos ganhos de produtividade nas culturas, além de custos menores em diversas situações.

A produção de agentes de controle biológico em grande escala, a maior diversidade de agentes biológicos para os diferentes alvos disponíveis no mercado e os casos de sucessos que vêm sendo observados pelos agricultores, entre outros, são alguns dos fatores que colaboram com os avanços no uso de agentes de controle biológico no Brasil e no mundo.

Demanda

Associado a esses fatores, o papel dos consumidores e varejistas, que demandam por redução de resíduos de pesticidas nos alimentos, também tem sido fundamental para o aumento no uso de bioagentes em escala mundial.

Também tem que ser considerado o aumento no número de novos profissionais em controle biológico formados na década passada, no Brasil.

O aumento no uso dos agentes de controle biológico pode ser observado pela previsão da taxa composta anual de crescimento (CAGR – compound anual growth rate) de 14,7% até 2025, para quando se estima que, no mundo, o mercado atinja US$8,5 bilhões de dólares, de acordo com a Markets and Markets (2020).

Contudo, é importante considerar que para que o mercado continue crescendo há necessidade do desenvolvimento de novos produtos contendo novos ingredientes ativos.

Registro

O Brasil possui, possivelmente, uma das melhores legislações do mundo para registro de agentes de controle biológico. Esse fato se deve aos esforços conjunto do MAPA, IBAMA e ANVISA, com a sociedade brasileira, que no início dos anos de 2010 se dedicaram a atualizar as normas de registro.

Essas mudanças permitiram um aumento de 26 produtos registrados em 2011, para 337 até o mês de fevereiro de 2021. Esse número deverá crescer continuamente, pois novas empresas de produção e comercialização de bioagentes estão sendo criadas, além de que empresas tradicionais da área de proteção de plantas estão desenvolvendo produtos biológicos. Logicamente que a legislação sempre deve ser melhorada.

Alguns fatos são importantes de serem destacados para o crescimento do setor, além do descrito anteriormente. Aqui, somente dois serão apresentados:

1 – A criação da ABCBIO – Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico em 2007 (atualmente dentro da CropLife), que permitiu que as empresas se organizassem, trazendo ganhos de qualidade aos produtos;

2 – O programa Bioinsumos do MAPA, apesar de recente, tem colaborado para o crescimento do setor. E, de acordo com a CropLife, o mercado de biológicos em 2020 foi de R$ 1,17 bilhão, representando crescimento de 70% em relação a 2019.

Demanda por biológicos acompanha evolução do setor

Dhyene Rayne dos Santos Beckerdrayneagro@gmail.com

Delziane Bezerra Araújo delziane.araujo22@gmail.com

Mestrandas em Biodiversidade e Conservação – Universidade Federal do Pará (UFPA)

Pablo Henrique de Almeida OliveiraMestrando em Produção Vegetal – Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)pablohenrickk@gmail.com

André dos Santos MeloMestrando em Entomologia – UFRPEandre.mello004@gmail.com

No Brasil e no mundo, é crescente o aumento pela demanda de práticas mais sustentáveis na agricultura, ocasionando uma pressão no mercado para o desenvolvimento de estratégia inovadoras para produção de alimentos. O uso de práticas mais sustentáveis na agricultura traz impactos e benefícios diretos ao setor.

A agricultura enfrenta inúmeros desafios, como mudanças climáticas, que causam alteração na capacidade produtiva, degradação dos solos e contaminação dos recursos hídricos devido ao uso exagerado de produtos químicos e agrotóxicos. Esses desafios demandam alternativas cada vez mais sustentáveis e diversificadas para recuperação e minimização dos impactos.

O uso de biodefensivos na agricultura tem surgido como uma grande inovação, e eles são fundamentais por contribuir positivamente para lavouras cada vez mais saudáveis e rentáveis. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio), o setor de biodefensivos cresceu entre 16 e 20% no ano de 2017, e a tendência é aumentar cada vez mais essa demanda, pois esses produtos não estão sendo demandados somente pelos produtores da agricultura orgânica, mas pelos produtores agrícolas no geral.

Premissa

O controle biológico tem como premissa básica controlar as pragas e insetos transmissores de doenças a partir de inimigos naturais, que podem ser microrganismos, insetos benéficos, predadores e parasitoides, de forma a não deixar resíduos nos alimentos e serem inofensivos à saúde da população e ao meio ambiente.

Esse tipo de controle na agricultura faz parte do Manejo Integrado de Pragas e Doenças (MIP), fator esse que tem impulsionado o desenvolvimento de biodefensivos.

O uso de biodefensivos agrícolas como estratégia do controle biológico de pragas e doenças tem sido uma alternativa para reduzir a resistência gerada pelo uso contínuo dos químicos e pela urgência na utilização mais racional de agrotóxicos.

Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (2019), os biodefensivos são divididos em dois tipos: macrobiólogicos, que utilizam insetos, ácaros e outros inimigos naturais, e os microbiológicos que utilizam fungos, bactérias e vírus no controle biológico, todos fundamentais e que podem ser aplicados em qualquer cultura de frutas, hortaliças, grãos e outros.

Principais biocontroles utilizados

Segundo a ABCBio, os principais biodefensivos utilizados na agricultura no Brasil são: Bacillus, Trichoderma, Trichogramma, Pochonia, Beauveria e Cotesia. O Bacillus thuringiensis tem um destaque especial, sendo um dos biodefensivos mais utilizados no controle biológico de pragas.

Para a produção de frutíferas no Brasil, o uso de agrotóxicos é controlado, com poucos produtos registrados no MAPA. No mercado brasileiro há formulações à base de B. thuringiensis registradas para o controle biológico em frutíferas, como para broca-do-abacaxi (Strymon basalides), lagarta desfolhadora da bananeira (Opsiphanes invirae), mariposa-oriental da maçã (Grapholita molesta) e para bicho-furão dos citros (Ecdytolopha aurantiana), conforme Venzon et al (2016).

Verificou-se registro de outros gêneros Bacillus, como a espécie Bacillus subtilis para o controle biológico de vários patógenos para diversas culturas, como para mancha bacteriana (Xanthomonas vesicatoria), mofo-branco (Sclerotinia sclerotiorum) e antracnose (Colletotrichum lindemuthianum).

Outros microrganismos muito utilizados para o manejo de nematoides são os gêneros Trichoderma spp. e Pochonia spp., que são fungos parasitas e competitivos com os nematoides que atacam várias culturas como hortaliças. O gênero Pochonia spp. controla nematoides na fase de ovos, o que, consequentemente, reduz a população de nematoides, enquanto o Trichoderma sp. atua com efeito de antibiose, competição e parasitismo com os fitonematoides.

No biocontrole realizado por insetos, há o parasitismo feito pela Cotesia flavipes, que é uma vespa endoparasitoide para o controle da broca-da-cana (Diatraea saccharalis). O controle realizado pela C. flavipes se inicia por uma picada da vespa nas larvas de D. saccharalis depositando uma grande quantidade de ovos, que após eclodirem se alimentam do interior da larva, não permitindo que ocorra o ciclo de vida completo da broca.

Vantagens do uso de biodefensivos

As principais vantagens da utilização de biodefensivos estão atreladas ao tripé da sustentabilidade (ambiental, econômico e social), com respeito ao meio ambiente, devido à diminuição de resíduos tóxicos, economicamente viável e socialmente justo, principalmente pelo produtor poder adotar tecnologias de fácil utilização, como rotação de culturas favorecendo a presença de inimigos naturais, rendimento, qualidade, maior período de controle, sustentabilidade dos agroecossistemas, redução de resistência nas plantações e contribuindo com lavouras mais sustentáveis.

Desafios do uso de biodefensivos

Os principais desafios do uso de biodefensivos estão relacionados à falta de informações e conhecimento do produtor rural sobre a técnica, disponibilidade do insumo biológico, falta de tecnologias para saber o momento ideal de aplicação do controle para atacar as doenças no local e nas quantidades corretas do biodefensivo, dificuldades técnicas e falta de capacitação sobre aplicabilidade desses produtos. Logística e armazenamento dos produtos também se apresentam como um dos principais desafios.

Inimigo natural para combater a broca-da-banana

O fungo Beauveria bassiana vem dando bons resultados no controle da broca-da-banana. Este microrganismo tem a capacidade de penetrar no corpo do besouro através do exoesqueleto, estrutura externa que funciona como a nossa pele, causando a morte do inseto. 

O pesquisador do Instituto Biológico (IB) e coordenador da APTA (Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios), Antonio Batista Filho, explica que essa característica “os coloca em vantagem quando comparados com outros grupos de patógenos que só entram no inseto por via oral”.

A cepa de Beauveria bassiana utilizada no combate à broca é a IBCB66 que, de acordo com o pesquisador, já é utilizada em 5 mil hectares de bananais brasileiros. Por ser um inimigo natural da praga, o controle do fungo pode ser de até 90%, dependendo de fatores ambientais e dos isolados de microrganismos utilizados.

Bioinsumos é nova aposta

O pesquisador orienta que, antes de qualquer tipo de controle, é preciso monitorar a praga para ter conhecimento da sua população. A aplicação do fungo é feita por armadilhas preparadas com o pseudocaule (a parte da bananeira equivalente ao tronco) de uma planta que já produziu banana. O produtor pode escolher entre dois tipos de armadilhas:

Isca tipo queijo: um pedaço de pseudocaule, com altura entre 5,0 e 10 centímetros, cortado transversalmente. A isca deve ser colocada em cima da base do pseudocaule que permaneceu no solo.

Isca tipo telha: consiste em um pedaço de pseudocaule de cerca de 50 cm, cortado na vertical, e separado em dois pedaços. A parte cortada deve ser colocada virada para baixo em contato com o solo, ao lado das touceiras.

“São utilizadas cerca de 20 iscas por hectare para monitoramento da população e cerca de 100 a 150 iscas – tipo telha para controle. As avaliações são realizadas quinzenalmente, e quando for encontrada a média de cinco adultos por isca, deve ser iniciado o controle da praga”, explicou Antonio Batista.

O fungo é colocado na parte cortada das iscas, e pode ser distribuído nas formas sólida ou pastosa. Ao entrar em contato com a armadilha, o microrganismo penetra no inseto, que acaba adoecendo e morre. O besouro infectado também vai servir como um transmissor da doença, espalhando o fungo entre os outros insetos.

Produtores aprovam o controle biológico

 Segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA), São Paulo é o maior produtor de banana do país. Em 2020, o Estado colheu cerca de 1,1 milhão de toneladas da fruta. A maior parte dos bananais paulistas está na região do Vale do Ribeira, onde fica a propriedade de Jeferson Magario. Ele é a terceira geração da família que sempre cultivou banana, numa área de 60 hectares, no município de Sete Barras.

Ao longo dos anos, Magario vem tentando controlar a broca-da-bananeira com a utilização de várias tecnologias. Em 2019, decidiu experimentar o controle biológico com a Beauveria bassiana

O monitoramento da praga é constante. A cada dois meses, o agricultor espalha armadilhas, do tipo queijo, pelo cultivo. “O uso dos produtos biológicos é uma tendência, não só para combater a broca, mas também outras doenças. É uma coisa que veio pra ficar”, destaca Magario.

 “Os produtores mais tecnificados ou que estão de olho em determinado mercado, já estão usando mais os biológicos. É uma tendência e tem que ter bom senso na hora de fazer o manejo adequado”, conclui o agrônomo.

Fonte: CropLife Brasil

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Biodefensivos x químicos

E agora?

Marcos Roberto Ribeiro JuniorEngenheiro agrônomo e doutorando em Agronomia/Proteção de Plantas – UNESPmarcos.ribeiro@unesp.br

Daniele Maria do NascimentoEngenheira agrônoma e doutora em Agronomia/Proteção de Plantas – UNESP

Adriana Zanin KronkaEngenheira agrônoma, doutora em Agronomia/Fitopatologia e docente – UNESP

Os biodefensivos são amplamente utilizados no controle de pragas e doenças e, ao contrário dos defensivos químicos tradicionais, são de origem biológica, à base de microrganismos e insetos. Em outras palavras, é a própria natureza ajudando o agricultor a estabelecer o equilíbrio em sua lavoura.

Esse aliado em potencial se faz necessário, principalmente na agricultura brasileira, em que manejar pragas e doenças representa um verdadeiro desafio aos envolvidos nesse segmento. Além de nosso clima ser altamente favorável à ocorrência de fungos, bactérias, insetos, entre outros, durante todo o ano, cultivamos culturas de interesse agronômico em nossos campos.

Desse modo, sempre teremos um hospedeiro suscetível, uma potencial doença/praga à espreita e clima favorável para o seu desenvolvimento.

Fatia de mercado

Nos últimos anos, os defensivos biológicos vêm ganhando o mercado de modo significante. Se no início era limitado a pequenos produtores, hoje a maioria já adota essa tecnologia a campo. No manejo integrado de doenças e pragas, o químico e o biológico são dois pilares indispensáveis e que se complementam.

São considerados produtos biológicos todos aqueles insumos desenvolvidos com base em um ingrediente ativo natural (ativo biológico). De modo geral, possuem baixa toxicidade e são seletivos, não atingindo assim os inimigos naturais e contribuindo para manutenção desses insetos benéficos na lavoura.

Podem ser classificados em: a) semioquímicos, quando induzem respostas comportamentais nos organismos-alvo, como os feromônios e aleloquímicos; b) bioquímicos, compostos de origem natural, como hormônios reguladores de crescimento e enzimas; c) microbiológicos, organismos vivos (vírus, bactérias, protozoários e fungos) que controlam pragas e doenças e; d) macrobiológicos, insetos, ácaros e nematoides.

De acordo com dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), até junho de 2020, mais de 300 produtos estavam registrados para uso no Brasil. Quase metade foi regularizado nesses últimos cinco anos, evidenciando a cada vez maior participação desse segmento.

Do total de produtos registrados, em torno de 60% correspondem aos microrganismos, 17% aos macrorganismos, 13% aos semioquímicos e 9% aos bioquímicos.

Para se obter o registro de um produto biológico no País, os investimentos são altíssimos, e são necessários, em média, cinco anos, desde a pesquisa, visando identificação de novos ativos biológicos, formulação do produto, avaliações a campo e a etapa final: análise de segurança, aprovação e registro pelos órgãos responsáveis (MAPA, Anvisa e Ibama).

Exemplos de biodefensivos

Os fungos representam a maior parte dos biodefensivos comercializados. Para o controle de doenças nas mais diversas culturas, como as causadas por nematoides do gênero Pratylenchus e fungos dos gêneros Macrophomina, Fusarium, Sclerotinia e Rhizoctonia, todos patógenos presentes no solo, temos disponíveis fungicidas à base de Trichoderma harzianum. Esses produtos podem ser aplicados preventivamente em áreas com histórico de damping off. O fungo possui três mecanismos de ação: antagonismo, micoparasitismo e antibiose.

Outros fungos entomopatogênicos são Isaria fumosorosea, que controla a lagarta Helicoverpa armigera e o psilídeo do citros, e o Metarhizium anisopliae, para cigarrinha da raiz. Ambos atuam através da colonização dos insetos, matando-os em poucos dias.

Para o controle de insetos, temos ainda as microvespas parasitoides Trichogramma galoi, Thrichogramma pretiosum e Telenomus podisi, que localizam os ovos das pragas, depositam seus próprios ovos e os parasitam; e o ácaro Neoseiulus californicus, predador do ácaro rajado (Tetranychus urticae).

No controle de doenças, além do já citado Trichoderma, a bactéria Bacillus amyloliquefaciens pode ser empregada no controle de nematoides dos gêneros Pratylenchus e Meloidogyne, colonizando as raízes da planta e protegendo-as contra o ataque desses nematoides.

Bacillus subtilis também é comercializada, recomendada para diversas culturas e doenças (fungos dos gêneros Colletotrichum, Sclerotinia, Alternaria, Botrytis, Fusarium, Mycosphaerella, Pythium, Rhizoctonia, entre outros, e bactérias do gênero Xanthomonas).

Desequilíbrio ambiental

A maior preocupação dos agricultores, principalmente daqueles que estão adotando esses produtos pela primeira vez, é a da possibilidade desses micro e macrorganismos causarem desequilíbrio ambiental.

Mas, ressaltamos que um dos pré-requisitos para que um microrganismo ou um inseto se torne agente de biocontrole, é que o mesmo não seja uma praga e não cause doença. Além do mais, o inimigo natural depende da praga para sobreviver. Uma vez que a população do inseto-alvo tenha sido reduzida, a de seu inimigo também será. Por isso, é necessário sempre estar realizando novas liberações a cada safra.

Aplicações

Os microbiológicos (fungos, bactérias) possuem uma formulação em pó ou líquida. Quando o produtor recebe esses produtos, a logística de aplicação é semelhante à dos químicos. É realizada a diluição em água e aplicado por pulverizadores via barra, por aviões, ou tratamento de sementes.

Quando se trata dos macrobiológicos (insetos), ainda temos alguns entraves relacionados à dispersão em grandes áreas. Atualmente, esse processo é realizado por drones, já que, dependendo do tamanho da lavoura, a liberação manual não é possível.

On farm

É comum observamos biofábricas dentro de algumas fazendas, e a lei garante que o produtor possa fabricar seu próprio biodefensivo, desde que use cepas registradas para isso. No entanto, obter o produto comercial e replicar na fazenda é pirataria.

Vale lembrar que, apesar de todo esse processo ser regularizado, o agricultor precisa se atentar para a qualidade de sua produção. São vários os aspectos envolvidos na obtenção de um produto com boa eficiência, e muitas vezes, na fazenda não é possível alcançar todos esses parâmetros exigidos.

Embalagens

Apesar de a legislação seguir a dos produtos químicos, a rotulagem é um pouco diferente: produtos biológicos não são mais rotulados com a tradicional caveira. Por serem de baixa toxicidade e periculosidade, são caracterizados por faixas verdes ou azuis, e não mais a vermelha, que representa os defensivos extremamente tóxicos.

Ademais, para o descarte das embalagens de biodefensivos, segue-se o mesmo procedimento de não reutilização de embalagem, tríplice lavagem e recolhimento.

Mercado

O mercado dos biológicos ainda não movimenta tanto dinheiro quanto os químicos. Mas, a seu favor tem-se o fato de que, enquanto o desenvolvimento de químicos caminha um pouco mais lentamente, o de biológicos segue a todo vapor.

Somente no ano de 2018, esse mercado cresceu mais de 70%. Talvez em poucos anos já tenhamos esses dois mercados lado a lado, com participações expressivas nas lavouras. A agricultura orgânica depende desse segmento, mas observamos um maior crescimento do biológico nas lavouras tradicionais, principalmente devido aos casos de resistência de insetos/patógenos aos defensivos químicos.

Nesse cenário, a integração com os biodefensivos é a melhor alternativa no manejo.

Perspectivas

Já temos no mercado, biodefensivos para o controle de pragas e doenças, mas apesar de já existir tecnologia para isso, ainda não temos bioherbicidas registrados. Nos Estados Unidos, ao menos dois herbicidas já são conhecidos, e por aqui, espera-se que, para os próximos anos, também já tenhamos.

macrobiológicos

Biológicos

Eficiência e quebra de resistência de pragas

O manejo biológico tem crescido cada vez mais na agricultura brasileira e tem se tornado um grande aliado para manejo de diversas doenças e pragas. Por definição, o manejo biológico é o uso de inimigos naturais como predadores, parasitoides e microrganismos, para o controle de pragas e doenças.

O mercado biológico cresce mais de 10% ao ano no Brasil, e principalmente no mercado de HF tem tomado evidência pela crescente preocupação com a sustentabilidade e segurança alimentar. Além disso, os produtos biológicos conseguem quebrar A resistência de pragas e doenças aumentando nosso potencial de manejo sanitário.

Solução eficiente

A principal utilização de microrganismos em HF é no combate de patógenos de solo, que causam principalmente doenças radiculares e foliares. E, para o manejo especificamente de doenças, temos alguns microrganismos que apresentam grande eficiência de controle, como os Trichoderma spp. e o Bacillus amyloliquefaciens presentes no Pardella.

O Pardella é um fungicida microbiológico à base de três ativos: O Trichoderma harzianum, o Trichoderma asperellum e o Bacillus amyloliquefaciens. O conjunto de ação dos três organismos consegue combater tanto patógenos de solo, que causam as podridões radiculares, com também patógenos de parte aérea, que causam problemas principalmente em caules e folhas, como a antracnose.

O Trichoderma spp. já foi estudado para diversas culturas como agente de controle, combatendo muitas doenças limitantes em hortaliças. Os mecanismos de ação do Pardella acontecem principalmente de três formas: antibiose, parasitismo e competição.

Foco

Os fungos do gênero Trichoderma têm como característica a capacidade de parasitar outros fungos. Espécies de Trichoderma, como as presentes no Pardella, têm a capacidade de produzir enzimas que degradam a parede celular dos fungos patogênicos, como as quitinases e proteases, que vão degradar a parede celular dos fungos causadores de doenças e, como consequência, reduzir a presença do patógeno na área e trazer sanidade para a cultura.

A antibiose é a ação que tanto o T. harzianum, T. asperellum, quanto B. amyloliquefaciens presentes no Pardella vão causar em patógenos por meio de produção de metabólitos secundários. Essas substâncias têm potencial antifúngico e fazem com que a eficiência de combate aos patógenos aumente, gerando maior proteção e sanidade.

Direto ao alvo

A competição é o comportamento dos organismos por espaço ou recursos. A capacidade de crescimento dos três organismos no Pardella, e principalmente a compatibilidade e ação em conjunto fazem com que eles cresçam de forma rápida e tomem espaço das populações de patógenos, se estabelecendo mais rápido no ambiente. Isso faz com que os problemas de doenças radiculares diminuam devido à redução da população dos patógenos.

A capacidade dos organismos presentes no Pardella faz com que possamos utilizar essa ferramenta de manejo nas principais doenças causadas em hortaliças e nos traz um grande potencial de sanidade, manejando o complexo de doenças de forma mais eficiente e com menor impacto de contaminação dos alimentos e meio ambiente.