Cultivo de guaraná é exclusividade do Brasil

0
2028

Autor

Diego Henriques Santos
Engenheiro agrônomo – CODASP – Companhia de Desenvolvimento Agrícola de São Paulo
dihens@bol.com.br

O Brasil é o único produtor comercial de guaraná do mundo, exceto diminutas áreas na Amazônia venezuelana e peruana. Possui uma área plantada de 10.719 hectares e para cada R$ 1,00 investido, tem-se o retorno líquido de R$ 1,02.

Crédito Shutterstock

O guaranazeiro é uma espécie nativa da região Amazônica, de considerável valor econômico e social. O valor total da produção de guaraná no Brasil em 2017 foi pouco maior que R$ 31 milhões. Em 2016 este valor havia superado a casa dos R$ 38 milhões. O Brasil é praticamente o único produtor de guaraná do mundo, excetuando-se algumas pequenas áreas plantadas na Amazônia venezuelana e peruana para fins comerciais, mas sem muita importância econômica.

Área plantada

O guaranazeiro é uma planta nativa da Amazônia, no entanto, o maior Estado produtor é a Bahia. A área plantada no Brasil em 2017 foi de 10.719 hectares, de acordo com dados divulgados pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2018. Deste total, 5.846 hectares plantados na Bahia e 4.382 no Amazonas.

Comparado a outras culturas, a área plantada pode parecer pequena, mas apenas uma semente do fruto verdadeiro de guaraná rende o suficiente para sete latinhas de 350 ml do refrigerante. A legislação brasileira permite essa pequena quantidade, e as bebidas ficariam muito fortes se a adição fosse maior.

De acordo com o IBGE, a produção anual em 2017 de ramas (grão torrado) de guaraná no País foi de 2.663 toneladas. Grande parte dessa produção é absorvida pelas indústrias de refrigerantes gaseificados, sob a forma de xarope, e o restante é comercializado sob a forma de xarope, pó, bastão, extrato para consumo interno e para a exportação.

O Amazonas deixou de ser o maior produtor nacional, sendo ultrapassado pela Bahia nos quesitos produção e produtividade, e pelo Mato Grosso em produtividade somente. Tais diferenças substantivas de produtividade referem-se ao fato de o sistema de produção adotado na Bahia e Mato Grosso utilizar a combinação de grandes áreas de monocultivo, irrigação e o uso intensivo de defensivos agrícolas.

Produtividade brasileira

Seguindo as orientações técnicas mais modernas para o cultivo do guaraná, utilizando mudas clonadas de alta resistência a doenças e adotando as técnicas básicas de tratos culturais, o produtor poderá obter uma produtividade variante de 1 kg a 1,5 kg de sementes secas por guaranazeiro, o que representa 400 a 600 kg/ha, considerando-se uma área com 400 plantas/ha, quantidade de plantas quando se tem o espaçamento mais usual, de 5 m x 5 m. No entanto, a produtividade média em 2017 no País foi de 250 kg/ha – no Amazonas 197 kg/ha, na Bahia 263 kg/ha e no Mato Grosso 567 kg/ha.

Investimento x rentabilidade

A Embrapa Amazônia Ocidental publicou em outubro de 2018 uma análise de viabilidade econômico-financeira, considerando o cultivo de 1,0 hectare, no Estado do Amazonas, utilizando a cultivar BRS Maués.

Para os cálculos, o preço de venda considerado foi de R$ 20,00/kg de semente torrada (guaraná em rama). O resultado obtido foi de R$ 2,02, o que sinaliza a viabilidade da cultura, pois para cada R$ 1,00 investido, tem-se o retorno líquido de R$ 1,02.

A tabela apresenta o fluxo de caixa para o cálculo da relação custo x benefício realizado pela Embrapa, com os valores investidos para implantação da cultura e o retorno financeiro. Considerou-se, neste caso, um ciclo de quatro anos, ou seja, da preparação da área para o plantio até a terceira colheita, com produção de 30% na primeira colheita, 60% na segunda e 100% na terceira (Pinheiro et al., 2018).

Tabela 1: Fluxo de caixa para o cálculo da relação custo x benefício na cultura do guaraná (01 hectare)

Ano Receita (R$) Custo (R$)
0 0,00 11.278,40
1 7.009,34 3.350,37
2 13.101,59 3.063,50
3 20.407,45 3.352,86
Soma 40.518,38 20.045,13

Adaptado de: Pinheiro et al., 2018

O guaranazal começa a produzir a partir do terceiro ou quarto ano de implantação, e por volta do quinto ano alcança o nível de produção econômica. É uma planta de crescimento lento, com problemas de adaptação em campo sob céu aberto.

Portanto, tendo em vista a necessidade de sombreamento das mudas, bem como ao longo do período de carência da cultura, recomenda-se o seu consorciamento com outras espécies, sejam elas anuais, tal como a mandioca, ou semi-perenes, caso do maracujá e da banana. Espera-se, com isso, que tais culturas, além de integrarem a necessária etapa do sombreamento do guaranazal em maturação, contribuam para amortizar seus custos de implantação, ao gerarem outras fontes de renda aos produtores.

Demanda

Apesar de ser uma cultura tradicional do Amazonas, o guaraná produzido é insuficiente para suprir a demanda local, principalmente pela baixa produtividade dessa região. Já a nível nacional, praticamente toda a produção brasileira de guaraná é consumida aqui mesmo, no mercado interno.

Mudas – o berço da produção

Em uma produção comercial, os produtores devem utilizar sementes ou mudas (clones) selecionadas. Não é recomendado que o guaranazeiro seja propagado por meio do enraizamento de estacas (ramos retirados da planta), e nem a produção de mudas por sementes, devido à grande variabilidade genética existente entre as plantas de guaraná, produzindo um pomar desuniforme e de produtividade muito variável.

As principais vantagens das mudas obtidas por clonagem (propagação vegetativa), em relação às plantas tradicionais são o menor tempo de formação, de sete meses, enquanto a muda tradicional, produzida a partir das sementes, demora 12 meses para ficar pronta e ir ao campo, a precocidade dos clones para o início da produção, em média de dois anos, contra quatro anos das plantas tradicionais, a resistência dos clones à antracnose e a produtividade superior, fatores estes que levam ao menor custo de implantação e condução da cultura, elevando o retorno financeiro.

Manejo

O guaranazeiro é cultivado em solos profundos e bem drenados, sem pedregosidade, e com textura variando de média a argilosa. A área pode ser plana, desde que bem drenada, ou levemente inclinada, uma vez que o guaranazeiro morre ao menor sinal de acúmulo de água na região de seu sistema radicular.

Por outro lado, locais com extrema declividade devem ser evitados, pois favorecem os processos erosivos. Deve-se escolher áreas anteriormente cultivadas ou de capoeiras para o plantio do guaranazeiro. No preparo de áreas já abertas, áreas de pastagens degradadas, por exemplo, recomenda-se inicialmente uma aração ou escarificação do solo, para prevenir e corrigir problemas de compactação.

Caso isso não seja possível, deve-se abrir covas maiores, para proporcionar a expansão do sistema radicular da planta no início de seu desenvolvimento. O plantio deve ser realizado no início do período chuvoso, em covas de 40 x 40 x 40 cm, com espaçamento usual de 5 m x 5 m, totalizando 400 plantas/ha, e preenchidas com 3,0 kg de adubo orgânico, 120 g de superfosfato triplo e, em caso de solos muito ácidos, com pH inferior a 5, 500 g de calcário dolomítico.

Adubação recomendada

Para a adubação de cobertura do guaranazeiro, utilizar ureia mais cloreto de potássio, num raio de 1,5 m da planta, aos três, seis e nove meses, quando do ano de implantação da cultura, bem como no ano seguinte. Já no período de produção comercial, entre o primeiro e o vigésimo ano de produção, deve-se adubar num espaço de 30 a 50 cm distante da planta, no início do período chuvoso e utilizando fósforo, nitrogênio e potássio.

Prevenção

Quanto às ervas daninhas, durante os dois primeiros anos após o plantio, quando necessário, deve ser feito o coroamento das plantas num raio de aproximadamente meio metro. Deve-se evitar revolver em demasia o solo, pois pode danificar o sistema radicular do guaranazeiro, que é muito superficial. Evitar também a formação de bacias ao redor das plantas.

Nas entrelinhas, quando as plantas invasoras atingirem mais de 40 cm de altura, deve-se promover a roçagem. Em situações de elevada infestação de plantas daninhas, o controle deve ser feito com herbicidas dessecantes, à base de glifosato, aplicando-os sem que o produto atinja o guaranazeiro.

Quanto às doenças, a antracnose é a mais problemática, pois ataca a planta em qualquer estágio de desenvolvimento e de forma altamente destrutiva. O controle da antracnose pode ser obtido pelo emprego de pelo menos três estratégias, sendo a utilização de clones resistentes, aplicações regulares de fungicidas e redução de severidade da doença mediante utilização de podas em épocas pré-definidas.

Quanto às pragas, o tripes é o inseto que causa os maiores danos ao guaranazeiro. Desenvolve-se geralmente na parte inferior de folhas em estágio inicial de desenvolvimento, onde causa deformações e queda, e nas inflorescências, provocando o secamento prematuro das flores. Essa espécie também ataca os frutos nos estágios iniciais de seu desenvolvimento, comprometendo o crescimento e a qualidade.

Dicas importantes

Em um manejo visando obter altas produtividades, deve-se adotar como práticas a roçagem, o coroamento e a adubação de cobertura, além do replantio e a cobertura morta ao redor das plantas, com restos de roçagem, em particular durante a época seca do ano.

Deve-se realizar, também, a poda de limpeza e de frutificação, cortando-se com uma tesoura de poda os galhos secos, quebrados, doentes e a parte final dos ramos muito desenvolvidos. Indispensável também é o controle de pragas e doenças, especialmente a antracnose, identificada pelas manchas marrom avermelhadas nas folhas e seu posterior enrolamento, os ácaros, que causam o estiramento da folha, e o tripes, que causa sua deformação.

Também faz parte do manejo adequado os cuidados na colheita. Os frutos, quando maduros, apresentam coloração que vai do amarelo ao vermelho. e depois se abrem parcialmente, deixando as sementes expostas, que podem ser retiradas com as mãos. Neste estágio, se não forem colhidas, as sementes cairão, entrando em contato com o solo e tendo sua qualidade prejudicada.

O guaranazeiro apresenta frutificação desuniforme dentro de uma mesma planta, o que determina a necessidade de se proceder à colheita pelo menos duas vezes por semana. Esta frequência poderá aumentar ou diminuir de acordo com a velocidade de maturação dos frutos.

Brasil à frente

Como dito, o Brasil é, praticamente, o único produtor de guaraná do mundo. A produção concentrou-se durante muito tempo no Amazonas, de onde a espécie é nativa. Posteriormente o plantio expandiu-se para os Estados do Pará, Acre e Rondônia e, nos últimos anos, para os estados do Mato Grosso e Bahia, que também dinamizaram suas plantações comerciais visando principalmente ao atendimento da demanda de xarope do guaraná pelas indústrias de refrigerantes gaseificados.

Novidades

O super guaraná, desenvolvido pela Embrapa, é uma grande novidade do setor. As cultivares de guaranazeiro desenvolvidas pela Embrapa têm potencial para aumentar em mais de dez vezes a produtividade da cultura.

Já foram lançadas 18 cultivares para uso comercial pelo Programa de Melhoramento Genético do Guaraná, sendo que algumas dessas variedades podem chegar a uma produção de 2,5 kg de semente seca por planta, enquanto a média no Estado do Amazonas é de cerca de 0,2 kg.

Além de maior produção, essas cultivares são resistentes à principal doença que ataca o guaranazeiro, a antracnose.


RETRANCA

Guaraná made in Amazonas

Luca D’Ambros veio da Itália para Maués, no interior do Amazonas, há 17 anos, e ao conhecer o guaraná se apaixonou pela iguaria. Começou a plantar a frutinha em 2009, e no começo vendia a semente torrada para as indústrias de concentrados.

Como a maioria dos pequenos produtores de Maués, percebeu que os valores pagos pelas empresas não condiziam com os altos custos produtivos do guaraná tradicional. Foi então que decidiu apresentar seus produtos para o mundo, por meio de um site, o que lhe permitiu agregar valor, tornando seu guaraná uma referência pela qualidade do pó, que é mantida como fresca por meses.

Logo, somente o plantio de Luca passou a não suprir a demanda, exigindo que ele fizesse parceria com pequenos produtores, mas todos com as mesmas características do seu produto. Atualmente, são mais de 20 pequenos e micro produtores (alguns com poucas dezenas de quilos de sementes produzidas) que participam da comercialização, e todos seguem o sistema tradicional de cultivo: não são usados adubos químicos ou agrotóxicos, as frutas são colhidas manualmente e somente quando maduras.

Somente Luca produz, hoje, 1,5 ha de guaraná, e tem uma produtividade média de 450 kg de sementes torradas por ano. Ele é um dos poucos produtores orgânicos existentes no Brasil, e por isso mesmo é mais valorizado, chegando a R$ 24,00/kg do grão torrado, esse foi o preço máximo da AmBev aos atravessadores. O preço da semente torrada certificada orgânica pode chegar a R$ 50,00/kg.

O processo

O guaraná produzido por Luca é processado na usina da Copermaués, onde é descascado, selecionado, moído e embalado a vácuo. A usina conta com máquinas industriais de alto rendimento e um moinho 100% inox com uma peneira de 2,0 dízimos de milímetro para produzir um pó extremamente fino, o qual é embalado no máximo 24 horas após a moagem.

Para o produtor, o guaraná tem dois segmentos diferentes: “não é todo guaraná que serve para tudo. Há duas grandes distinções – o guaraná do Amazonas ainda é produzido de forma artesanal, porque centenas de produtores não têm acesso à mecanização, à irrigação e os recursos econômicos são muitos baixos. Assim, geralmente eles não fazem adubações, muito menos análise do solo, porque vêm nesta uma cultura extrativista. Já os produtores do Sul vêm de uma cultura europeia de manejo do solo, com análises, adubações, correções, etc.”, compara Luca.

Doenças e pragas

Há 40 anos a produção de guaraná era pequena, com pequenas áreas plantadas, até porque não tinha mercado definido, tornando a cultura muito cara. O uso da fruta para fabricar o refrigerante foi o marco que fez a escala de plantio aumentar. Ao mesmo tempo que aumentaram as áreas, também as doenças antes inexpressivas passaram a se manifestar, como a antracnose e o superbrotamento, além do tripes.

Isso acabou derrubando a produtividade para níveis mínimos, o que foi corrigido na Bahia e Mato Grosso, onde as áreas produtoras de guaraná contam com maior investimento e tecnologia.

Mas em Maués essas doenças e pragas ainda são desafios enfrentados pelos produtores, e a falta de tratos culturais na cultura não favorece a produção nesse quesito. No caso da produção de Luca, trata-se de uma mistura do extrativismo com os tratos culturais de forma orgânica. As podas são realizadas nas épocas certas, oferecendo grandes resultados no combate a pragas e doenças, e o solo é adubado com compostagem e esterco de boi.

Dicas

Luca deixa uma dica para ter uma boa produção de guaraná: “é necessário um preparo de solo apropriado, com gradeamento, fazer a correção do perfil com calcário e gesso conforme a necessidade dada pela análise de solo, e então eliminar todas as plantas concorrentes. O solo tem que ser preparado no segundo semestre do ano, para evitar as chuvas, e o plantio deve ser de muda originada de viveiro autorizado e de cultivares que a Embrapa recomenda. Para plantio comercial no Estado do Amazonas são recomendados os clones BRS-Amazonas e BRS-Maués”, informa.

Quanto ao plantio, deve ser feito de dezembro a janeiro, no começo da época chuvosa, porque o guaraná é uma muda originada de estaquia, que passou seis meses no viveiro sob o nebulizador, e deve sair dessa condição aos poucos, para não sofrer com o estresse.

O guaraná também precisa ser protegido da radiação solar, o que é feito com a aplicação de protetor solar nas folhas ou tinta branca diluída. Outra opção são as casinhas de palha, que Luca ensina a fazer: “basta pegar três folhas da palmeira e fazer a casinha em cima da planta. Isso dá uma ‘quebrada’ no sol, e com o tempo a palha vai caindo, apodrecendo e se torna matéria orgânica para a solo, sem trabalho para ser retirada”.

Nos sucessivos dois a três anos é necessário fazer a poda de alguns galhos que ficam grandes, e a partir do terceiro ano a planta já começa a produzir o fruto. É importante, ainda, que seja adubada para repor os nutrientes que são gastos ao longo dos anos.

Hora de colher

O guaraná de Maués é colhido quando a fruta está aberta, significando que está madura. A operação é feita manualmente, seguindo para a lavagem e torração em forno por seis a oito horas, e no máximo 40 a 50 kg por vez.

A umidade relativa desse guaraná é de 4,0 a 5%, bem mais desidratado do que o guaraná que passa por secadores mecânicos.  Isso porque para poder fazer dele o pó e o bastão, precisa ser descascado para retirar a pele. Para fazer o pó especial é necessário retirar manualmente as amêndoas, que durante a torrefação acabam sendo queimadas ou ficam com cascas.

“As amêndoas perfeitas são moídas em peneiras de 0,2 mm, algo que o guaraná da Bahia não faz, devido ao método de secagem, que deixa mais umidade nos grãos. Com todo esse trabalho nosso produto passa a ser de melhor qualidade, além de ter um aroma específico do guaraná, por ser torrado e embalado a vácuo”, explica Luca.