Desbaste aos 48 meses: é possível?

0
262

Matheus Marques Dy Lá Fuente Gonçalves
Engenheiro Florestal – Universidade Federal de Brasília (UnB)
matheusfuente@gmail.com

Foto: Matheus Marques

Qualquer produtor florestal deve buscar as melhores práticas silviculturais para que os projetos e investimentos obtenham sucesso, como podas, adubação, controle de pragas, etc. Entre elas está o desbaste, uma prática que consiste na remoção de indivíduos de padrão inferior com a intenção de reduzir a competição entre os restantes, impulsionando o crescimento em diâmetro e fazendo com que as árvores remanescentes subam as classes de diâmetro.

Consequentemente, a qualidade final do produto é maior. Ou seja, essa prática também afeta diretamente o retorno financeiro, pois com um produto melhor é possível praticar maiores preços, fora o fato de haver um retorno intermediário no momento do desbaste.

Quais são os desbastes?

Existem quatro tipos de desbaste propriamente ditos: por baixo, pelo alto, seletivo e sistemático. O desbaste por baixo remove a maioria das árvores intermediárias ou suprimidas, mantendo apenas as dominantes e codominantes.

O desbaste pelo alto escolhe árvores de estrato médio, mantendo as dominantes e codominantes, que assim têm menor competição, porém, também as de estrato baixo, na intenção de que elas consigam um impulso no crescimento.

O desbaste seletivo é específico com as características dos indivíduos. São removidas árvores que saem do padrão e possuem tortuosidades, defeitos ou bifurcações, assim como as dominantes, codominantes, mortas e doentes, para que as classes inferiores sejam estimuladas.

O sistemático é um desbaste em relação à posição do indivíduo às demais no plantio, e possui um esquema padrão que consiste na remoção de linhas alternadas ou inteiras em diferentes intervalos, com a mesma intenção de fornecer mais luz e nutrientes para os restantes, conferindo maior valor comercial ao produto final.

Esse desbaste necessita de um monitoramento constante do desenvolvimento da floresta, assim determinando o melhor momento para aplicação da prática.

Quando fazer o desbaste?

Essa questão faz toda diferença para o resultado provocado pela prática, e francamente é uma decisão que vai depender de diversos fatores, como espécie em questão, espaçamentos e curvas de prognose do plantio.

No estudo de Soares et. al (2003), Avaliação econômica de plantações de eucalipto submetidas a desbaste, feito na Universidade Federal de Viçosa, os pesquisadores obtêm resultados onde o desbaste na idade dos 48 meses resulta num melhor retorno financeiro.

O estudo chega nesse resultado pela análise econômica do valor anual equivalente (VAE), além de afirmar que é melhor desbastar apenas 20% da área basal.

Esse melhor resultado em desbastes com menos tempo pode ser explicado pelo fato de as árvores remanescentes terem mais tempo em sítios com melhores condições de crescimento pelo aspecto de competitividade, que é exatamente o intuito do desbaste, além de identificar previamente indivíduos que não cumpririam as qualidades necessárias para o final do projeto.

Com isso, diversos outros fatores dos indivíduos restantes são impulsionados, como diâmetro e densidade, que são ótimas qualidades para madeira comercial.

Outro fator levado em conta é que um desbaste de maior intensidade também gera um maior crescimento de copa, o que não significa necessariamente que o diâmetro será maior. Na realidade, dessa forma cria-se uma margem para o crescimento de muitos galhos que resultam numa madeira de pior qualidade, por isso a decisão de desbastar com intensidades menores é ideal.

Quais as vantagens?

O desbaste é uma ferramenta silvicultural que auxilia positivamente no custo-benefício de um projeto, pois seus resultados influenciam em fatores que impulsionam o valor do produto, além da possibilidade de rendas intermediárias em momentos que o produtor ainda está no prejuízo com o projeto, visto que plantios florestais são investimentos com retorno de médio a longo prazos.

Regimes florestais desbastados têm panoramas de cenário futuro muito satisfatórios, porque os indivíduos restantes são conduzidos para a serraria com maior valor agregado ao produto, pois as madeiras terão maior dimensão.

Assim, é conclusivo que essa prática é sempre bem-vinda, uma vez que a madeira de corte final com maior preço influencia fortemente nos lucros do projeto.

O caminho

Diversos erros têm que ser evitados quando o desbaste for aplicado, mas existem práticas anteriores a ele que devem ser executadas desde o começo do plantio, de forma que o desbaste possa influenciar mais ainda o resultado final.

O projeto precisa de uma equipe técnica altamente qualificada e com paciência na elaboração do projeto, pois ali se minimizam quase todos os erros subsequentes.

A seleção das mudas é um importantíssimo fator para o desbaste, visto que mudas de qualidade inferior resultam em um maior número de árvores com características longe do ideal, além da maior possibilidade de haver árvores mortas e assim a intensidade do desbaste aumentaria.

Como explicado antes, maiores intensidades resultam em piores retornos financeiros no final, com menos volume de madeira produzido.

Outro fator que pode ser um erro é a decisão do tipo de desbaste e a idade correta para o corte. A falta de critério na seleção dos indivíduos por parte de um motosserrista é um exemplo, ou um desbaste feito de forma tardia, que pode afetar minimamente as árvores no restante do tempo, sem obter resultados tão superiores no retorno financeiro.

É aí que uma equipe qualificada toma as melhores decisões, que culminam mais facilmente na obtenção dos objetivos.

Quem ganha?

O acervo sobre desbaste é bem vasto, com ótimos estudos feitos em diversas espécies, além do eucalipto, como em plantios de teca (Tectona grandis), cedro australiano, em integrações de lavoura pecuária e floresta, sistemas agroflorestais sintrópicos, viveiros com os desbastes em mudas, em hortifrúti etc.

Fica a critério do investidor ou produtor seu interesse e o tempo que ele planeja ter o retorno, visto que espécies como a teca têm uma idade bem maior de corte final. Assim, o desbaste também ocorre em períodos diferentes dos comentados para o eucalipto.

O desbaste é uma prática quase inevitável nos plantios florestais focados em produção de madeira – o caminho é esse, contratar a melhor equipe possível para a execução e para as tomadas de decisão sobre as idades de corte dos povoamentos, tanto nos desbastes quanto no corte final.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!