Doenças e pragas – Como mantê-las sob controle na mangueira

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Autor

Luiz Eduardo Ferraz
Engenheiro agrônomo e consultor técnico da Clorofila Agropecuária & Consultoria
eduardocsferraz@uol.com.br

As pragas e as doenças da mangueira constituem fatores limitantes à atividade. Sendo uma fruta de clima tropical, as áreas onde há uma melhor adaptação da manga são aquelas que apresentam as estações secas e chuvosas mais ou menos definidas. Chuvas em excesso e em época inadequada podem causar problemas à qualidade dos frutos se ocorrerem durante a floração. Relacionados a excessivas chuvas e altas umidades estão doenças gravíssimas, como a antracnose e o oídio.

A região nordeste é afetada principalmente na época das chuvas e nas demais áreas do País, a ocorrência segue o mesmo princípio.

Principais pragas e doenças

Ü Trips: provoca danos às brotações novas e também às flores e frutos jovens. Caso não tenha um controle adequado, pode provocar sérias perdas na produtividade e qualidade.

Ü Ácaros: podem causar danos às folhas maduras, resultando na redução da capacidade fotossintética das mesmas e diminuindo o acúmulo de reservas. São importantes transmissores da má formação floral e vegetativa, doença que causa grandes prejuízos às plantas, resultando em baixa produção. Provocam danos aos frutos na fase inicial do desenvolvimento, resultando em perdas expressivas na qualidade das frutas.

Ü Cigarrinha: ataca as brotações novas na fase inicial do desenvolvimento, causando sérios prejuízos à formação dos mesmos. Em caso de ataque severo, pode inutilizar as brotações, obrigando o produtor a fazer outra poda de formação. O inseto injeta uma toxina nas brotações novas, provocando deformação nas mesmas.

Ü Mosquinha (cecidomideo): o adulto desta praga oviposita brotações novas e as estruturas florais em desenvolvimento. As larvas que eclodem, fazem galerias nos brotos novos e estruturas florais, abrindo porta para a Lasiodiplodia (doença). O resultado do ataque é a total destruição das estruturas. Frutos no início do desenvolvimento também são atacados e terminam por cair (aborto). 

Ü Lagartas/brocas: os adultos destas pragas ovipositam nas estruturas florais, principalmente as mais compactas, e as larvas eclodem e passam a se alimentar das estruturas e dos frutos jovens. Provocam sérias perdas na produtividade e qualidade, caso não sejam controladas.

Ü Lasiodiplodia: é um fungo que se encontra presente nas plantas na forma de infecções sistêmicas, ou eventualmente infectam as plantas através de aberturas provocadas por danos mecânicos ou podas. A severidade da doença está relacionada a estresses, e dessa forma, quando se submete as plantas ao déficit hídrico durante a indução floral, é bastante comum se observar o aumento da incidência da doença. O fungo provoca sérios danos ao sistema vascular das plantas, e também às estruturas florais e frutos em desenvolvimento. Na fase de florescimento, pode provocar necrose nas estruturas florais e destruí-las completamente. Em pomares com incidência elevada da doença, as frutas produzidas tendem a apresentar problemas com podridões pedunculares, devido à infecção sistêmica nos vasos do pedúnculo.

Ü Alternária: esta doença vem aumentando a incidência na região, ao longo do tempo, e provocando sérios prejuízos na fase de pós-colheita das frutas. O fungo infecta as frutas durante a fase de frutificação, principalmente quando há ocorrência de chuvas. Provoca podridões na casca, que resultam em perdas significativas na qualidade. Normalmente as infecções avançam durante o transporte das frutas (contêineres) para o mercado consumidor (Europa). Mesmo nas frutas imaturas, o fungo pode avançar e provocar danos severos.

Ü Antracnose: esta doença tem incidência comum na região nordeste e provoca sérios prejuízos na fase de pós-colheita das frutas. O fungo infecta as frutas durante a fase de frutificação, principalmente quando há ocorrência de chuvas. Provoca podridões na casca, que resultam em perdas significativas na qualidade. Normalmente as infecções avançam durante o transporte das frutas (Containers) para o mercado consumidor (Europa). O avanço da doença está diretamente relacionado com o avanço da maturação das frutas.

Ü Dothiorella: esta doença tem maior incidência em períodos chuvosos que coincidem com a fase de florescimento. O fungo infecta a flor e fica de forma latente no pedúnculo das frutas. Na fase pós-colheita a infecção avança durante o transporte das frutas aos mercados consumidores. A infecção avança também em função da evolução da maturação das frutas, provocando podridões pedunculares.

Ü Verrugose: esta doença ocorre predominantemente no período chuvoso, quando há coincidência com o florescimento e frutificação da manga. Com a umidade elevada, os restos florais servem de meio de cultura para o desenvolvimento do fungo, que ataca os frutos no início do desenvolvimento, provocando manchas que se assemelham a verrugas (daí o nome verrugose). Frutos muito atacados perdem o valor comercial, pois a aparência dos mesmos é totalmente comprometida.

Formas de controle (preventiva e curativa)

Para o controle eficiente de pragas e doenças, é muito importante o monitoramento adequado dos pomares, para que as medidas de controle sejam adotadas em função do nível de infestação. Uma vez detectado o problema, as medidas de controle podem ser adotadas, levando em consideração a fase da cultura e que tipo de intervenção é mais eficiente e segura para a fase específica.

No caso de insetos e ácaros, já há níveis de controle estabelecidos, que a partir do momento que ultrapassa o referido limite, a medida de controle se faz necessária. Utilizam-se inseticidas químicos, extratos de plantas (óleo de nem etc.) e também produtos biológicos.

No caso das doenças, o monitoramento desempenha um papel fundamental. No entanto, outro fator que também é de crucial importância é o monitoramento das condições climáticas. Associando estas duas componentes à fase em que a cultura se encontra, podemos adotar medidas preventivas de controle, pois há fases específicas onde as estruturas das plantas são extremamente sensíveis às infecções.

Técnicas e produtos inovadores

O controle de pragas e doenças deve ser encarado de forma abrangente, pois vários componentes do sistema produtivo contribuem para uma maior ou menor incidência. Fazer uma boa nutrição contribui de maneira decisiva na redução de problemas com pragas e doenças. O equilíbrio nutricional torna as plantas mais atrativas ou não a pragas e doenças.

O arejamento do pomar também auxilia muito, pois desfavorece as pragas e doenças e também aumenta a eficiência das aplicações de produtos fitossanitários. A remoção de materiais contaminados por doenças também auxilia no controle, pois reduz o potencial de inóculo no pomar e diminui a possibilidade de infecções.

O uso de produtos biológicos para controle de pragas e doenças é uma realidade presente na hortifruticultura. Dentro do manejo, adotamos o uso destes produtos visando reduzir/eliminar a aplicação de químicos e evitar problemas com resíduo nas frutas, principalmente quando precisamos controlar alguma praga ou doença em fases próximas à colheita.

Acertos

Os erros mais frequentes ocorrem quando não há um treinamento adequado das pessoas envolvidas no monitoramento de pragas e doenças, pois isso resulta em erros de avaliação e consequente falta de aplicação, ou aplicação desnecessária. É muito importante treinar e atualizar estes profissionais constantemente, para que os mesmos tenham excelência no trabalho que fazem.

O uso de extratos de plantas, fungos e bactérias no controle de pragas e doenças, tem se tornado uma excelente novidade para a agricultura, de uma maneira geral. Ainda temos problemas com o nível de eficiência dos produtos (inferior aos químicos), no entanto, as tecnologias estão avançando rapidamente, e acreditamos que em curto/médio prazo teremos muitos produtos biológicos com nível igual ou melhor que os químicos.

Atitude inteligente

O uso de estratégias inteligentes de controle resultam em economia e baixo impacto ambiental. Um bom controle de pragas e doenças não significa necessariamente erradicar os agentes causais (na maior parte das vezes). Muitas vezes, a cultura convive com baixa incidência dos agentes, sem que haja prejuízo econômico.

Acreditamos que o melhor trabalho reside no entendimento das dinâmicas populacionais destes agentes e no desenvolvimento de estratégias de controle que visem não deixar a população, ou o inóculo, atingirem níveis críticos que resultem em prejuízos.

Dessa forma, as intervenções seriam pontuais e de forma preventiva, visando controlar o aumento da incidência, e isso muitas vezes pode ser feito por agentes de controle biológico. As intervenções com produtos químicos seriam utilizadas quando as “populações”, atingissem níveis críticos (monitoramento).

Para que isso funcione efetivamente, o investimento em treinamento/capacitação de pessoas para fazer um monitoramento adequado é de suma importância, além do investimento em meios para que se possa realizar um bom trabalho (transporte, lupas, computadores, etc.).

Acreditamos que o custo para combater, na maioria das vezes, sai mais caro, pois muitas vezes já houve danos à cultura e o prejuízo já ocorreu. Quando computamos as perdas de qualidade e produtividade que um controle ineficiente pode gerar, temos a certeza que o trabalho preventivo realizado com critérios técnicos adequados resultam em maior eficiência de produção e menor custo.