Enxertia – Sem vez para os patógenos de solo

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Givago Coutinho – Doutor em Fruticultura e professor efetivo do Centro Universitário de Goiatuba (UniCerrado) – givago_agro@hotmail.com

Enxertia em pimentão – Crédito Embrapa

O sucesso na produção agrícola depende diretamente da qualidade da muda utilizada pelo produtor. Assim, a natureza da muda adquirida contribui, juntamente com outros fatores de produção, com a busca por altas produtividades.
Basicamente, os métodos de propagação de plantas para produção de mudas podem ser agrupados em dois tipos: propagação sexuada, na qual se utiliza sementes, e propagação assexuada por meio de estruturas vegetativas.
A propagação assexuada constitui a principal forma de produção de mudas em diversas áreas, como a fruticultura (bananeira, abacaxizeiro, videira, etc.), em floricultura (rosas, crisântemo, etc.), em olericultura (batata, batata doce, morangueiro, etc.), assim como em muitas outras espécies de importância econômica (cana-de-açúcar, mandioca, etc.).
Dentre os métodos de propagação assexuada, a enxertia é amplamente utilizada pelos produtores, pois proporciona resistência à salinidade, pragas e aos patógenos presentes no solo, sendo umas das principais modalidades de propagação de plantas.

Enxertia contra patógenos de solo

A enxertia apresenta diversas vantagens, quando comparada a outros métodos de propagação de plantas. Dentre as principais, podemos citar que ela atua no controle de pragas e doenças de solo, ao se lançar mão do uso de porta-enxerto resistente.
Na olericultura a enxertia tem sido empregada na propagação de espécies das famílias Solanaceae e Cucurbitaceae, em culturas como tomate, pimentão e berinjela e melancia, melão, pepino e abóbora, respectivamente, as quais são comumente enxertadas.
Dentre as frutíferas, diversas são propagadas por enxertia, destacando-se a macieira, pereira, videira e os citros, mangueira, pessegueiro, ameixeira, aceroleira, abacateiro, caquizeiro e gravioleira.

Enxertia

De maneira geral, o parentesco botânico é essencial para o sucesso da enxertia. Caso a enxertia ocorra entre plantas da mesma espécie, não são comuns problemas relacionados à incompatibilidade. Já a enxertia entre gêneros diferentes, mas dentro da mesma família, é possível, podendo, em alguns casos, ser limitada a sua utilização (Frazon et al., 2010). Fica evidente que o processo de enxertia é utilizado somente em plantas com características em comum, como por exemplo, pertencentes à mesma família.
Outra característica a ser observada na escolha das espécies para enxertia é a analogia no porte e se as espécies apresentam folhas persistentes ou cadentes, devendo ser semelhantes.
Caso sejam verificados problemas relacionados à incompatibilidade, outro método de propagação deverá ser utilizado, a exemplo da estaquia. Outra possível solução para a incompatibilidade, dependendo do grau em que esta se apresenta, seria a utilização do inter-enxerto ou filtro, que constitui uma porção intermediária entre o porta-enxerto e o enxerto (Nacthigal et al., 2005),

Benefícios proporcionados

A enxertia tem como principal objetivo proporcionar maior resistência às mudas. Assim, com o uso da enxertia é possível implantar a cultura em áreas que já estão contaminadas por patógenos de solo.
Além do controle de patógenos e pragas de solo, a enxertia apresenta outros benefícios, como: impede a separação de caracteres genéticos importantes, auxilia na fixação de híbridos ou mutações, acarreta maior precocidade à produção, atua na redução do porte da planta, controlando seu vigor vegetativo, aumenta a produtividade das plantas, ser utilizada na restauração de plantas que sofreram danos, dentre outras.
Outros benefícios também são atribuídos à enxertia, como capacidade de sobrevivência a determinadas condições edafoclimáticas, como por exemplo, resistência à baixa temperatura, à seca, ao excesso de umidade e aumento da capacidade de absorção de nutrientes.

Como implantar a técnica

Segundo Silva et al. (2006), a enxertia consiste em fixar uma estrutura vegetativa, como um ramo, gema ou borbulha de determinada planta, previamente selecionada de acordo com suas qualidades, sendo esta estrutura denominada cavaleiro, em outra, denominada porta-enxerto ou cavalo, a qual irá formar um único indivíduo.
Assim, as mudas provenientes da enxertia são formadas por duas ou mais cultivares diferentes combinadas entre si e essa nova planta, formada por meio da enxertia, compreende basicamente duas partes: o enxerto (ou garfo) e o porta-enxerto (ou cavalo).

Resultados de campo

Na prática, a exemplo da cultura do tomateiro, a enxertia tem sido adotada por ser uma técnica que auxilia no controle de doenças de solo, contudo, ainda limitada no Brasil devido ao alto custo das sementes híbridas de porta-enxerto.
Neste sentido, estes autores recomendam a utilização de Solanum stramonifolium var inerme (Dunal) Whalen) como porta-enxerto do tomateiro, por ser uma planta de que apresenta polinização aberta e, assim, com possibilidade de multiplicação de sementes pelo produtor, o que contribui para diminuição dos custos para aquisição da muda enxertada.

Erros mais frequentes

A escolha do porta-enxerto é um fator essencial para o sucesso da prática. Na sua escolha, além de resistência, devem ser observadas outras características. O vigor do porta-enxerto é outro critério importante de escolha, pois o porta-enxerto vigoroso confere vigor à copa, permitindo assim a diminuição da densidade de plantio, sem diminuir, no entanto, a produção (Peil, 2003).
Na escolha, a afinidade entre as partes que irá compor a nova planta é essencial. Aspectos morfológicos e fisiológicos de ambas as plantas devem ser observados, como a similaridade entre os vasos condutores e a composição e translocação de seiva nos dois indivíduos.

Recomendações

Recomenda-se a utilização herbácea em olerícolas a culturas e materiais genéticos de elevado valor de mercado e também para pequenas áreas de produção, como o cultivo em ambiente protegido de híbridos devido ao fato de ser uma técnica exigente em mão de obra qualificada. Esses materiais costumam ser sensíveis a determinadas condições edafoclimáticas adversas, além de apresentarem alto custo de aquisição da semente.
Ao se tratar de propagação assexuada ou vegetativa, como é o caso da enxertia, torna-se importante o conceito de clones, que vêm a ser o grupo de indivíduos que tem como origem uma única planta matriz, e assim possuem o mesmo genótipo entre si.
Já na propagação sexuada ou seminal, ao selecionar a planta matriz pode-se inferir que cada semente terá 50% do material genético de origem conhecida, caso a polinização não seja controlada.