Espaçamento de cafezais evolui a passos largos

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José Braz Matiello

Engenheiro agrônomo da Fundação Procafé

jb.matiello@gmail.com

 

Atualmente, é quase inconcebível plantar menos de 5.000 plantas de café por hectare. Mas, para se chegar a esse ponto custou muito. Foram 40 a 50 anos de evolução.

Antes da década de 1970 as maiores áreas de cafezais, concentradas nos estados do Paraná e São Paulo, utilizavam espaçamento do tipo quadrado, na base de 3-4 x 3-4m, com plantio de 3-4 mudas por cova. Nessa época, a manutenção de muita área de terreno livre tinha a ver com o uso de cultivos intercalares. Nesses espaçamentos se usavam menos de 800 covas por hectare.

Com o plano de renovação de cafezais, a partir de 1970, com a ocorrência da ferrugem, os espaçamentos que passaram a ser indicados, à época, procuravam ser no formato mais retangular, mantendo a rua aberta, para facilitar a operação do maquinário de controle da doença e fechando um pouco na linha, ficando, os espaçamentos mais comuns, na base de 4 x 1,5-2,5m, ainda, na maioria, com duas mudas por cova. O mais comum eram 1.600 pl/ha.

A partir da década de 1980 muitos ensaios de espaçamentos foram conduzidos e resultaram na redução do espaçamento entre plantas para 1m e uma só muda por cova, tendo sido observado, na época, que duas mudas (plantas) espaçadas de 1m produziam cerca de 30% mais do que as duas juntas nas covas a cada 2m. Isto resultou num estande básico de cerca de 2.500 pl/ha.

Evolução

A evolução nas décadas de 1990 a 2000 mostrou que ainda se poderia reduzir mais a distância entre plantas na linha, para 0,5 a 0,7 m, com aumentos significativos de produtividade, especialmente nas safras iniciais. Também, nessa época, foram demonstrados muito produtivos espaçamentos adensados, com 1,7 – 2,0 x 0,5m, muito importante para zonas montanhosas.

Assim, chegou-se, até recentemente, a dois sistemas básicos de espaçamentos mais usados na nossa atual cafeicultura, sendo o primeiro em renque aberto, com 3,5 – 4,0m x 0,5m e o renque fechado ou plantio adensado, com 1,75 – 2,0 m x 0,5m.

O primeiro para zonas de mecanização plena e o segundo para áreas sem mecanização, sendo que o adensamento, sendo submúltiplo do renque aberto, pode ser transformado naquele, pela eliminação de uma linha a cada duas. Estes dois sistemas compreendem estandes de 5.000 a 10.000 pl/ha.

Terceira técnica

Como toda tecnologia cafeeira, nos últimos anos, a questão do espaçamento ainda vem evoluindo, com ajustes nestes dois sistemas básicos, partindo-se para um sistema intermediário, que resulta em um maior estande de plantas por hectare e, mesmo assim, permita um bom manejo e facilidade nos tratos e na colheita.

Deste modo, surgiu uma terceira via, que é o plantio semiadensado, com espaçamentos na faixa de 2,5 – 3,2 x 0,5m, combinado com o uso mais frequente de podas, principalmente do tipo esqueletamento. Este sistema compreende estande variável de 6.300 a 8.000 pl/ha.

Sabe-se que no café, como na maioria das outras culturas, a produtividade, dentro de certos limites, guarda relação com o número de plantas por hectare. Além disso, plantas mais próximas produzem menos e se estressam menos com a carga, podendo se recuperar melhor para a safra seguinte, resultando em maiores produtividades por área.

Qual o melhor?

 

Na tabela 1 pode-se ver que, em três períodos distintos de evolução nos espaçamentos, os trabalhos experimentais mostram, com clareza, a importância do estande de plantas por área sobre a produtividade.

Pode-se ver que a evolução no espaçamento dos cafezais mudou até a forma de se falar da lavoura. No passado, até a década de 1990, os técnicos e os produtores se referiam à sua lavoura, sua área e produtividade, em covas de café e produção por mil plantas. De lá para cá, todos os quantitativos, índices e recomendações fazem menção somente por área de café.

 

Tabela 1- Efeito do espaçamento (número de plantas/área) sobre a produtividade dos cafeeiros em três ensaios, em três épocas de evolução.

Locais e espaçamentos

Número de pl/ha/covas

Produtividade (sc/ha)

1 ” Ensaio ” Pindorama (SP) – (média 21 safras/1938-1959)

  Espaçamento 4 x 4m

625

8,7

  Espaçamento 3,5 x 2,5m

1142

13,4

  Espaçamento 3,5 x 1,7m

1680

17,5

2 ” Ensaio Varginha (MG) – (média de sete safras/1978-1985)

  Espaçamento 5 x 2,0m

1000

13,5

  Espaçamento 3,8 x 2,0m

1315

19,6

  Espaçamento 3,8 x 1m

2630

23, 7

  Espaçamento 1,5 x 1m

6666

40,1

3 – Ensaio Martins Soares (MG) – (média de 11 safras/1996-2006)

Espaçamento 4 x 0,5m

5000

42,7

Espaçamento 2 x 0,5m

10.000

56,0

Espaçamento 1 x 0,5m

20.000

78,0

 

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