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Experiência sul-africana na produção de milho sob restrições climáticas

André Aguirre Ramos

Engenheiro agrônomo e mestre em Agronomia

andre.aguirreramos@gmail.com

Àesquerda, o agrônomo André Aguirre Ramos e o cientista de solo, Martiens Du Plessi - Crédito Arquivo pessoal
Àesquerda, o agrônomo André Aguirre Ramos e o cientista de solo, Martiens Du Plessi – Crédito Arquivo pessoal

Desde 2012, o Brasil se tornou um país produtor de milho de segunda safra, também chamada safrinha. Até então, nossas condições de produção de verão eram semelhantes às dos norte-americanos, chineses e argentinos. A partir daí, mudamos bastante, pois o foco não é um alto investimento visando altíssimas produtividades, mas sim uma boa produtividade e, principalmente, uma boa estabilidade produtiva, com menor recurso empregado.

Nossas tecnologias para produtividade de milho foram desenvolvidas para essa situação de verão e, com o passar de alguns anos, praticamente cultivamos mais de 14 milhões de hectares (78% do total de milho plantado) em condição de segunda época, em que saímos do verão chuvoso e adentramos o outono/inverno seco.

Isso implicou em uma série de mudanças de manejo, mas o grande limitante, em muitos casos, foi a distribuição das chuvas, ou mesmo a falta dela. Acostumados a termos uma certa abundância de chuvas normalmente em dezembro coincidindo com a floração, que é a época mais crítica quanto à necessidade hídrica, 9 mm de água por dia, passamos a ter esse excesso no período vegetativo, fevereiro e março, e fim das águas, em alguns casos antes mesmo da floração.

Algumas regiões do Brasil, como Paraná, Mato Grosso do Sul e Sul de Minas ainda são passíveis de geada na fase de enchimentos de grãos.

A adubação verde melhora as propriedades físico-químicas do solo - Crédito Shutterstock
A adubação verde melhora as propriedades físico-químicas do solo – Crédito Shutterstock

Nova era

Estamos em outra dimensão – o grande “guru“ de altas produtividades de milho, que são os Estados Unidos, já não nos inspiram mais nesse quesito. O estresse na segunda safra é uma realidade na maioria dos casos, seja por limitação de água, de nutrientes e em muitas situações, de temperatura.

Extremos

Há alguns anos soube das condições bastante severas de ambiente para a produção de milho no extremo sul da África, baixas precipitações, populações de plantas baixas e condições completamente diferentes dos demais verões no mundo. Em maio deste ano organizamos uma visita para comprovar isso.

A África do Sul é um país com 55 milhões de habitantes, sendo aproximadamente 10 milhões de refugiados dos locais mais pobres da África. Uma área de 2,4 milhões de hectares de milho, 700 mil hectares de soja, 600 mil hectares de girassol, o país possui uma altitude bem acima das que cultivamos cereais, ao redor de 1.500 metros de altitude, solos em sua maioria arenosos, percentuais de argila de 7,0 a 20%, mas em sua maioria ao redor de 12% de argila, porém, em vários casos de coloração avermelhada e em vários locais com presença de manganês tóxico.

A precipitação é muito baixa e nas regiões produtoras de cereais elas variam de 350 a 900 mm/ano. Em grande parte do país, as camadas superiores dos solos, 02 a 11 metros, vieram de deposição de areia do deserto de Kalahari presente em Angola, Botswana e África do Sul.

O nome Kalahari é derivado de uma palavra tsuana e significa “a grande sede“. Os plantios são inicializados em janeiro e fevereiro, a as chuvas normalmente cessam em março, muito similar à situação da nossa safrinha no Cerrado brasileiro. Mas pasmem, eles conseguem produtividades médias acima de 120 sacas de milho/ha (7.200 kg de grãos/ha).

Como conseguem isso? Nas propriedades que estivejuntamente com Martiens Du Plessi, cientista de solo, ao nordeste do país, a 200 quilômetros de Joanesburgo, de uma grande associação de cooperativas da África do Sul, a estimativa de produtividade que fizemos foi em torno de 110 sacos de milho/ha, com uma precipitação de 395 mm.

Incrível, nas regiões de safrinha em 2016 tivemos um “desastre climático“, com baixas produtividades em grande parte do Brasil, produtividades abaixo de 40 sacas, mas com precipitação próxima a que os agricultores sul-africanos têm na média dos últimos 35 anos.

Tive a grata oportunidade de visitar várias propriedades atendidas por esta associação e, melhor ainda, tínhamos uma grande quantidade de trincheiras abertas, onde era possível avaliar o crescimento radicular do milho e girassol.

Pelos resultados que os produtores têm obtido, pudemos perceber que a associação tem sido fundamental para isto. Foi possível observar o crescimento das raízes de milho a mais de 1,5 metro lateralmente, e com uma profundidade de mais de dois metros, ou seja, um verdadeiro banco de umidade.

Crescimento das raízes de milho a mais de 1,5 metros lateralmente, com uma profundidade de mais de 2,0 metros, observado na África do Sul - Crédito: André Aguirre
Crescimento das raízes de milho a mais de 1,5 metros lateralmente, com uma profundidade de mais de 2,0 metros, observado na África do Sul – Crédito: André Aguirre

Como é possível

Segundo MartiensDu Plessi, em alguns casos, aproximadamente de cinco em cinco anos, se faz necessária a entrada com escarificadores de médio e grande porte, chegando à profundidade de 0,5 a 01 metro, devido ao preparo normal de solo com grades intermediárias ocasionar o que chamamos de “pé de grade“. Esta operação é muito cara e drástica, e deve ser avaliada normalmente com penetrômetros e em trincheiras, o que faz parte do trabalho dele.

O que eles fazem? O que aprenderam nesse tempo todo?Das estratégias que conhecemos para amenizar o ambiente inóspito da safrinha no que se refere a melhorar a tolerância a falta de água, relacionamos:

ÃŒ Um bom plantio direto/palhada para retenção de umidade;

ÃŒ Perfil de solo com altos índices de cálcio na camada mais profunda;

ÃŒ Eliminação de impedimentos químicos como o alumínio, normalmente com doses mais elevadas de gesso, por exemplo;

Ì Plantio do milho safrinhabem cedo;

ÃŒ Descompactação do solo;

ÃŒ Espaçamento reduzido entrelinhas;

ÃŒ População boa (± 55.000 plantas finais) para fechamento rápido da área.

Essa é parte da matéria de capa da Revista Campo & Negócios Grãos, edição de julho de 2018. Adquira o seu exemplar para leitura completa.

 

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AutoresNatalia Nayale Freitas Barroso nataliaff.agro@gmail.com Luana Keslley Nascimento Casais luana.casais@gmail.com Rhaiana Oliveira de Aviz rhaianaoliveiradeaviz@gmail.com Graduandas em Agronomia - Universidade Federal Rural da Amazônia...

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