Fertilizante orgânico ajuda a enfrentar as intempéries climáticas

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Marina Scalioni Vilela

marinasv3p@gmail.com

Alisson André Vicente Campos

alissonavcampos@yahoo.com.br

Engenheiros agrônomos e doutorandos em Fitotecnia/Agronomia – Universidade Federal de Lavras (UFLA)

Otávio José de Figueiredo

Engenheiro agrônomo e mestrando em Fitotecnia/Agronomia – UFLA

otaviofigueiredo460@gmail.com

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Hora seca, outra geada, queimadas ou excesso de chuvas. Diante deste cenário, abre-se uma oportunidade para o aumento do uso do fertilizante orgânico na agricultura, com o objetivo de melhorar as condições do solo, retendo mais umidade e acúmulo de nutrientes, além de reduzir a fertilização mineral em 20 a 30%.

Fertilizante orgânico x seca

A adubação com fontes orgânicas, além do fornecimento de nutrientes, permite o aumento da capacidade de retenção de água no solo, principalmente devido ao maior teor de matéria orgânica (MO), que pode reter até 20 vezes seu peso em água.

Assim, esse aumento da MO proporcionado por esses fertilizantes orgânicos contribui também para a melhoria de atributos químicos, físicos e biológicos do solo. A atividade biológica no solo, por meio da ação de micro e macrorganismos, como minhocas, na degradação dos materiais orgânicos contribui para a formação de macroporos, os quais proporcionam a melhoria da infiltração e retenção de água no solo.

Da mesma forma, o uso de espécies para a adubação verde, principalmente aquelas com maior agressividade do sistema radicular, promovem o aumento da estruturação do solo e a formação dos macroporos. Isso favorece o crescimento e estabelecimento de raízes ao longo do perfil do solo, possibilitando a melhor tolerância e resiliência das plantas em períodos de seca.

Benefícios

O uso de fontes orgânicas de nutrientes, que favoreçam o aumento da MO do solo, irá contribuir para a melhoria das frações química, física e biológica do solo. A mineralização da matéria orgânica por microrganismos promove a liberação gradual e ciclagem de nutrientes, proporcionando a maior eficiência no aproveitamento de nutrientes pelas plantas, principalmente quando associados aos fertilizantes químicos, os quais promovem a liberação rápida desses nutrientes.

Esse tipo de manejo contribui para aumentar a CTC do solo, devido aos radicais carboxílicos e fenólicos presentes nas substâncias húmicas da MO. Também, essas cargas negativas presentes na MO podem se ligar aos sítios de adsorção de fósforo, possibilitando a melhoria da disponibilidade do nutriente.

A biodiversidade e função de microrganismos do solo é favorecida pelo aumento da MO, o que contribui para a estruturação do solo devido à formação de agregados e agentes cimentantes, ocasionando a melhoria da retenção de água no solo e a promoção do crescimento e enraizamento da cultura.

Além disso, observa-se proteção das plantas por meio da rizosfera, promovendo a defesa contra estresses bióticos e abióticos. Portanto, por meio de todos esses benefícios há o aumento da resiliência do sistema frente a condições de seca, sobretudo devido ao maior condicionamento de raízes ao longo do perfil do solo.

Manejo

A recomendação de utilização de fertilizantes orgânicos depende da sua composição e teores de nutrientes presentes no mesmo, se o material utilizado será compostado ou utilizado “in natura”, e também se a adubação orgânica será realizada como complementação à mineral ou de forma exclusiva, como em cultivos orgânicos.

Além disso, o material orgânico pode ser aplicado sobre o solo, como palhas, biomassa de adubos verdes ou misturado ao solo e incorporado superficialmente, como estercos de animais aplicados ao sulco de plantio, comumente utilizado em propriedades cafeeiras.

Para o cafeeiro, a recomendação para aplicação de compostos orgânicos depende da composição nutricional do mesmo, porém, de forma geral, recomenda-se 10 L por planta. A palha de café apresenta a mesma recomendação do composto orgânico.

Outros materiais não compostados, como o esterco de curral, esterco de galinha e torta de mamona, são recomendados na dose média de 11; 2,5 e 1,5 L por planta, respectivamente.

É importante ressaltar que, para a utilização desses fertilizantes orgânicos, deve-se atentar para a relação carbono/nitrogênio do material, bem como a composição química, para garantir a qualidade dos produtos e ausência de elementos tóxicos e prejudiciais às plantas.

Estratégias produtivas

O uso de doses de esterco de galinha de 2,5, 5, 10 e 20 t ha-1 proporciona produtividades que foram de 9 a 19% superiores às realizadas apenas com o uso de fertilizantes minerais. Esse manejo testado por Fernandes possibilitou também o acréscimo de teores foliares do cafeeiro quanto a N, P, K e S, além de reduzir as doses desses nutrientes fornecidos por fertilizantes minerais, verificados após três safras.

O uso do esterco possibilitou um fornecimento gradual de nutrientes, elevação da CTC e aumento da umidade do solo. Embora as vantagens apresentadas demonstrem a importância dos adubos orgânicos, seu uso combinado com adubos minerais é interessante.

Mais associações de técnicas também podem ser utilizadas pelos produtores, como a braquiária na rua do cafeeiro, juntamente com condicionadores de solo na linha, como compostos orgânicos. Esse manejo permitiu altas produtividades em regiões do Sul de Minas, com produtividade acima de 60 sacas e apresentando maior rentabilidade quanto ao custo-benefício da adoção desta técnica.

Vamos à prática

A casca de café é um manejo muito comum nas propriedades, sendo aplicada ao solo em doses de 10 L por planta, possibilitando o acréscimo dos teores de Ca, Mg e principalmente de K. O uso da casca de café é uma forma de utilizar os coprodutos gerados na própria atividade, reduzindo custos com adubação.

Outros manejos de plantas de cobertura são muito comuns na cafeicultura, como o cultivo de crotalária, que pode proporcionar aporte de matéria seca na área de até 16 t ha-1, incrementando ao solo 444 kg ha-1 de N, 21 ha-1 de P, 241 kg ha-1 de K, 191 kg ha-1 de Ca e 44 kg ha-1 de Mg.

Ainda, o uso das plantas daninhas espontâneas da entrelinha em lavouras de café na região do Cerrado Mineiro mostrou um acúmulo de N, P, K, Ca e Mg, de 31,0, 2,2, 104,7, 13,8 e 12,6 kg ha-1 pela mineralização da palhada roçada.

Esse conteúdo de nutrientes, oriundo de adubações orgânicas, tanto de compostos orgânicos como de plantas de cobertura, tem papel importante como condicionador e promove a manutenção da umidade e temperatura do solo.

A melhoria das condições edáficas permite o desenvolvimento de lavouras jovens em condições de déficit hídrico, além de manter a produtividade das lavouras.

Saiba mais

Fontes de adubação orgânica não estabilizadas, como cama de frango, esterco bovino e tortas de mamonas, se utilizadas sem realizar compostagem para estabilizar podem gerar problemas, assim como implementos inadequados para a distribuição de adubos orgânicos oriundos de fontes de alta umidade.

A adubação orgânica deve ser feita com material de que se tenha conhecimento dos teores nutricionais que compõem, para que não ocorram adubações em subdosagem para o cafeeiro, causando reduções de produtividade e doenças que se estabelecem pelo desequilíbrio nutricional, como a cercóspora.

As plantas utilizadas na adubação verde devem ser cultivadas na rua do cafeeiro, de forma que não fiquem muito próximas à linha de plantio para não competirem por água e nutrientes utilizados pelo café.

Para que os nutrientes acumulados possam ser disponibilizados pelos processos de decomposição/mineralização, é necessário que as plantas de cobertura sejam cortadas na época adequada, uma vez que, se o corte não for sincronizado com o estágio de maior demanda da planta, pode faltar nutrientes.

Da mesma forma, os compostos orgânicos utilizados reagem no solo em diferentes velocidades, dependendo da relação C/N, devido à sua composição nutricional.

A fonte certa

A utilização de fontes orgânicas nos cultivos propicia melhoras na estruturação física do solo e aumento da atividade microbiana, potencializando a disponibilidade dos nutrientes as plantas.

No entanto, a aplicação de fertilizantes orgânicos não deve ser indiscriminada, já que alguns pontos importantes devem ser considerados, como a composição química, relação carbono/nitrogênio da fonte orgânica e, principalmente, a estabilidade do material.

Nestas condições, recomenda-se que os materiais orgânicos sejam previamente compostados. Os materiais orgânicos, quando compostados, passam pelos processos de mineralização e humificação, que aumentam a disponibilidade dos nutrientes e estabilizam a matéria orgânica.

Quanto os materiais orgânicos não estão estabilizados totalmente e com a relação carbono nitrogênio desequilibrada, o processo de mineralização pode acontecer no próprio ambiente de cultivo, provocando problemas no sistema solo-planta, como imobilização do nitrogênio, aquecimento da fonte orgânica e danos à microbiologia do solo e estruturas das plantas.  

Outro fator importante na aplicação de fontes orgânicas é se atentar para o aporte de nutrientes – estes devem ser considerados para evitar grandes incrementos e, por consequência, desequilíbrio nutricional. Avaliar também a taxa de liberação dos nutrientes, que pode ser total, no mesmo ano da aplicação, como acontece com o potássio, ou gradual para os demais nutrientes.

A principal forma de evitar problemas com a aplicação de fertilizantes orgânicos é levar em conta as recordações de acordo com a análise do solo, considerar as características da fonte orgânica escolhida e prepará-la adequadamente para que o seu fornecimento agregue todas as vantagens possíveis.

É viável?

O custo atual das fontes orgânicas é bastante variável em função da disponibilidade e localização destas fontes, que são basicamente estercos, cascas e resíduos vegetais. Estes, por sua vez, são utilizados em usinas de compostagens, que produzem os compostos orgânicos.

O preço do composto orgânico pode variar de acordo com seus componentes, mas atualmente a tonelada custa entre R$ 250,00 a R$ 350,00 mais o frete, o que pode onerar bastante o preço do composto orgânico na fazenda.    

O custo-benefício da utilização de fertilizantes orgânicos é muito bom quando avaliamos apenas as suas vantagens em relação aos ambientes de cultivo, porém, como já dito, o custo tanto de fontes orgânicas como dos compostos orgânicos é dependente da localização e disponibilidade destes, que em certas condições podem se tornar inviáveis economicamente devido à logística.

Outro fator que pode interferir diretamente no custo-benefício dos fertilizantes orgânicos é que, na maioria das vezes, as fazendas produtoras destas fontes orgânicas e compostos já são grandes consumidores destes fertilizantes, o que impacta diretamente na disponibilidade destes produtos no mercado.