Fertilizantes organominerais em pastagens

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Adriane Andrade Silva

Regina Maria Quintão Lana

Professora de Fertilidade e Nutrição de Plantas – Universidade Federal de Uberlândia (UFU)

Maria Clara PonceMestre em Produção Vegetal – UFU

Luciana Nunes GontijoDoutor em Produção Vegetal – UFU

Maria Lúcia Martins MagelaDoutora em Fitotecnia – UFU

Crédito: Vitória Agro

Em 2019 o setor ocupou o sexto lugar no ranking dos produtos exportados pelo País. A maior parte do rebanho de bovino brasileiro é criado a pasto (Ferraz; Felício, 2010), devido às pastagens se mostrarem como a forma mais econômica e prática de produção e oferta de alimento aos bovinos.

Em relação à pecuária leiteira nacional, assim como ocorre na criação de gado de corte, o modelo de produção varia de acordo com a propriedade em questão, em termos de área disponível, capacidade de investimento, entre outros.

O País hoje ocupa a 3ª posição no ranking da produção leiteira mundial, colocação alcançada devido à grande disponibilidade de terras agricultáveis; clima que possibilita a produção de forragem na maior parte do ano; disponibilidade de outros produtos para complementação da alimentação animal, como soja e milho; acesso a tecnologias e genética animal e vegetal para o setor (Embrapa, 2019).

Evolução

O modelo de produção bovina a pasto brasileiro evoluiu de um cenário de criação ultraextensivo, desde a introdução do gado bovino no País (Daniel, 2004), para os atuais modelos de produção extensivo e intensivo hoje utilizados.

Atualmente, grande parte da pecuária brasileira é desenvolvida de forma extensiva, com baixa aplicação de tecnologia e utilização de imensas áreas de pastejo, com uma baixa relação UA/ha (Unidade Animal por Hectare), áreas que, em sua maioria, são pouco produtivas, em termos de produção de massa seca e valor nutricional da espécie forrageira. Isso proporciona ganho lento de peso aos animais e uma baixa qualidade de leite produzido na pecuária leiteira.

O manejo inadequado do sistema solo-planta-forrageira-animal em pastejo pode explicar as baixas produtividades (kg de carne ou leite/ha/ano) e rentabilidade (R$/ha) de sistemas de produção animal em pastejo (Martha Júnior & Corsi, 2001), que comumente determinam a degradação de pastagem.

A busca pelo aumento da produtividade da atividade pecuária bovina e, por consequência, a ampliação do lucro do produtor, é mediada pela busca da intensificação da produção da propriedade. A intensificação do processo produtivo está ligada principalmente a investimentos em manejo e tecnologias ligadas ao aumento da qualidade do alimento e melhor aproveitamento do mesmo pelos animais, levando em conta a relação custos e produção.

Desafio

Dentro deste cenário, principalmente em áreas de fronteira agrícola no Brasil, o grande desafio é o aumento da eficiência da produção a pasto, gerada principalmente pelo uso de tecnologias mais intensivas de manejo de pastagem (Dias-Filho, 2010).

A intensificação do processo produtivo da criação a pasto vai desde a escolha da espécie forrageira, que deve ser a mais adaptada às condições ambientais e de manejo da propriedade, o correto manejo de adubação e de irrigação, quando realizada, a adequada taxa de lotação (cabeças de bovinos/hectare de pastagem), a suplementação mineral e o correto controle sanitário do rebanho, até as variáveis mercadológicas, nas quais a comercialização de seus produtos estão ligados.

A preocupação da sociedade com os princípios de sustentabilidade e bem-estar animal também representam importantes papéis na determinação do mercado consumidor, principalmente quando esse é de exportação. A adubação não deve ser considerada como uma prática isolada dentro dos sistemas de produção agropecuário.

O manejo adequado da adubação de correção e/ou de manutenção deve incluir, também, práticas apropriadas de preparo e conservação de solo, assim como efetivo controle fitossanitário de plantas infestantes (Novais et al.,2007).

Nutrição de ponta

O papel dos nutrientes minerais fornecidos às plantas forrageiras via adubação vão além de sua influência no desenvolvimento das espécies forrageiras, estando também ligados a possíveis comprometimentos na nutrição e saúde animal (Butller & Jones, 1973).

Entre as possíveis implicações na saúde animal em decorrência de deficiências na suplementação mineral das pastagens estão anormalidades como: a menor taxa de crescimento e desenvolvimento dos animais, má formação de ossos e dentes, anemia, infertilidade, dentre outros (Malavolta et al., 1986).

Unindo os princípios da suplementação mineral adequada das espécies forrageiras, e a busca pela adequação no modelo de produção sustentável, a adubação com fontes organominerais surge como uma grande aliada. Os fertilizantes organominerais apresentam grande potencial de uso agrícola e promovem maior equilíbrio nutricional em relação aos fertilizantes químicos.

O Fertilizante Organomineral (FOM) é uma mistura física de fontes orgânicas e minerais de nutrientes, que apresenta concentrações de macro e micronutrientes de acordo com a demanda da planta e carbono orgânico (Oliveira; Freire; Polidoro, 2016).

Seu processo de produção gera o enriquecimento de adubos orgânicos com fertilizantes minerais (Sousa et al., 2012), podendo utilizar fontes orgânicas de diferentes origens. Os FOM’s apresentam um ótimo potencial de uso agrícola como fertilizantes para as culturas anuais e perenes (Malaquias & Santos, 2017).

Regulamentação

No Brasil, toda regulamentação sobre uso e produção está contida na Instrução Normativa 25, de 23 de julho de 2009, que por sua vez estabelece as normas sobre as especificações e as garantias, as tolerâncias, o registro, a embalagem e rotulagem desses produtos.

De acordo com a IN 25, de 23 de julho de 2009, um fertilizante organomineral deve conter em sua constituição química percentual mínimo de 8% de carbono orgânico; umidade máxima de 30%; CTC mínima de 80 mmolc kg-1; N, P e/ou K, 10%; Ca, Mg e/ou S, 5% e 4% de micronutrientes.

Os principais resíduos que podem ser utilizados como fonte de matéria orgânica com potencial na agricultura são de origem animal, vegetal e agroindustrial.

Os componentes orgânicos presentes no fertilizante organomineral promovem uma liberação gradual dos nutrientes, à medida que são demandados pelas plantas, processo conhecido como liberação controlada ou slow release (Severino et al., 2004).

Quando comparado com os fertilizantes químicos, este efeito representa uma grande vantagem, pois se os nutrientes forem imediatamente disponibilizados no solo, podem ser perdidos por volatilização, fixação ou lixiviação.

Vantagens

A utilização de fontes organominerais proporciona elevação dos teores de carbono do solo pela adição do húmus, frações orgânicas estabilizadas na forma de substâncias húmicas e não-húmicas. As substâncias húmicas são o principal componente da matéria orgânica do solo, representam o compartimento de maior reatividade e estão envolvidas na maioria das reações químicas do solo (Novais et al., 2007).

Tais substâncias representam papel importante para o equilíbrio do solo, pois apresentam boa capacidade de retenção de água, fazendo que haja um aumento da solubilidade e da dispersão de nutrientes para as plantas. Com isso, a ação dos minerais contidos no meio potencializa a capacidade de troca catiônica (CTC) pelos coloides (Cabral, 2016).

Cabe destacar uma menor perda do fósforo do fertilizante, que por estar juntamente com os demais nutrientes solúveis, revestidos por uma matriz orgânica, se encontra protegido do contato direto com o solo, evitando assim perdas por fixação.

Devido à presença de maior quantidade de ânions orgânicos nos grânulos dos fertilizantes organominerais, que por sua vez competem pelos sítios de adsorção de P, ocorre momentânea diminuição da fixação desse nutriente, favorecendo a absorção pelas plantas. A camada de matéria orgânica também dificulta a lixiviação do nitrogênio e do potássio, pois a fase orgânica de tais elementos é insolúvel em água (Benites et al., 2010).

Atualmente, grande parte dos fertilizantes organominerais vem sendo comercializada na forma farelada e peletizada.

Estudos em andamento

Alguns trabalhos científicos vêm sendo conduzidos para demonstrar os benefícios dos fertilizantes organominerais no cultivo de pastagens e sua importância para o setor. Silva et al., (2020), estudando o crescimento e valor nutritivo do capim xaraés sob diferentes adubações e umidade do solo (70 e 100% da capacidade de campo) observaram que a adubação com fertilizante organomineral, promoveu maior altura e massa seca da parte aérea das plantas (Tabela 1).

Tabela 1. Altura e massa seca de Urochloa brizantha cv. Xaraés cultivada sob diferentes adubações e umidades no solo (70 e 100% da capacidade de campo), no estabelecimento e produção das plantas.

Tratamentos Altura (cm) Massa seca da parte aérea (g vaso-¹)
1º Corte 2º Corte 1º Corte 2º Corte
70% 100% 70% 100% 70% 100% 70% 100%
Sem adubação 38,59 b¹ 54,19 a 17,33 c¹ 17,92 c 0,58 d 3,44 e 1,35 e 3,18 c
Adubação mineral 43,50 b 45,05 a 24,58 ab 16,25 c 47,30 b 25,77 d 18,95 b 13,68 b
OM Pellet 160 % 41,59 b 42,56 a 26,17 a 24,50 ab 62,00 a 83,27 a 29,58 a 23,00 a
OM Pellet 80 % 57,91 a 50,75 a 21,75 abc 28,88 a 32,77 c 46,42 c 10,76 d 14,11 b
OM Farel. 160 % 49,39 ab 46,17 a 21,33 abc 22,08 bc 31,37 c 57,92 b 16,84 bc 17,63 b
OM Farel 80 % 45,38 ab 46.92 a 18,42 bc 18,38 bc 26,43 c 19,83 d 12,75 cd 13,73 b
CV(%) 13,16 14,05 11,26 14,27

1Médias seguidas de mesma letra por coluna (adubações) não diferem pelo teste Tukey a 5% de significância. Sem adubação, Adubação mineral (04-17-07), OM Pellet 160= Organomineral Peletizado 160%, OM Pellet 80= Organomineral Peletizado 80%, OM Farel 160= Organomineral Farelado 160%, OM Farel. 80= Organomineral Farelado 80%. Fonte: Silva et al., (2020) adaptado.

Inhaquitti (2019), avaliando o efeito residual de adubação com fertilizante organomineral à base de torta de filtro e biossólido em comparação adubação mineral em Urochloa brizantha cv. Marandu verificou que o uso do fertilizante organomineral à base de biossólido promoveu maior número de perfilhos (36,84%, 27,63% e 39,47%), independente da dose utilizada em comparação ao mineral (Tabela 2).

Tabela 2. Número de perfilhos em relação ao tipo de fertilizante e níveis de adubação em Urochloa brizantha cv. Marandu aos 61 dias.

Organomineral Doses
50% 100% 150% Média
Biossólido 26,0 aA 24,25 aA 26,5 aA 25,58
Torta de Filtro 19,25 bB 28,5 aA 17,75 bB 21,83
Mineral*                                  19
Média 22,62 26,37 22,12  

Médias/organomineral seguidas por letras distintas minúsculas na coluna e maiúsculas na linha diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de significância; * média difere-se da testemunha pelo teste de Dunnet a 5% de significância. Fonte: Inhaquitti (2019) adaptado.

O fertilizante organomineral à base de torta de filtro promoveu maior número de perfilho na dose de 100% do fertilizante em relação a adubação mineral.

A aplicação desses fertilizantes no cultivo de pastagens promove maior desenvolvimento da forrageira. Esse benefício é em função dos efeitos positivos no crescimento e volume de raiz que passam a explorar maior volume de solo desde o início do ciclo da cultura, o que proporciona maior absorção e acúmulo de água e nutrientes pela planta, resultando em maior desenvolvimento da parte aérea e, consequentemente, maior qualidade da forragem e palatabilidade.

Esses resultados de pesquisas focados na aplicação de fertilizante organomineral deixam evidente que a utilização desse tipo de tecnologia dentro do manejo da fertilidade do solo e nutrição de plantas, representa uma excelente forma de adubação para obtenção e manutenção de melhorias no sistema produtivo de pastagem.