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quinta-feira, janeiro 20, 2022
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Hérnia em repolho: E agora, o que fazer?

Autora

Janaína Marianno de Marque
Engenheira agrônoma, doutora, professora de Fitopatologia e Entomologia – FESB – Bragança Paulista e proprietária do Laboratório Atena – Diagnóstico, Manejo e Rastreabilidade
contato@labatena.com.br
Fotos: Igor Pereira

Dentre as várias doenças que atacam a cultura do repolho, uma das principais e mais limitantes é  hérnia das crucíferas, causada por Plasmodiophora brassicae, um fungo falso, muito próximo taxonomicamente dos protozoários. É um parasita obrigatório, ou seja, depende das células vivas para se reproduzir e ataca exclusivamente a família das brássicas (Chaves et. al, 2018). As condições ideais para a ocorrência da doença são solos ácidos, encharcados e com temperaturas que variam entre 12 e 27ºC (Reis, 2009).

Sintomas

O patógeno coloniza o sistema radicular das plantas, causando engrossamento e deformação das raízes, muitas vezes confundidos com nematoides. Por isso, o diagnóstico correto é fundamental, para que não existam erros no manejo, o que aumentaria ainda mais os prejuízos causados pela doença.

Outros sintomas comumente observados são a formação de galhas, desenvolvimento atrasado e amarelecimento das plantas, já que as deformações nas raízes impedem a absorção correta de água e nutrientes. Se a infeção ocorrer em plantas muito novas elas podem morrer (Colombari et. al, 2018).

Perdas

As perdas causadas pela hérnia podem chegar a 100%. A presença do patógeno na área pode inviabilizar a produção de repolho, já que a hérnia pode sobreviver no solo por até 10 anos, mesmo sem hospedeiros suscetíveis (Reis, 2009). Mesmo que as plantas sobrevivam ao ataque, a queda da produção é muito severa, trazendo grandes prejuízos econômicos ao produtor (Vidal, 2012).

Porta de entrada

A entrada do patógeno na área pode acontecer de diversas formas, como: utilização de mudas contaminadas, movimentação de máquinas e implementos, escorrimento de água a partir de áreas infestadas e o próprio homem (Vidal, 2012).

Manejo integrado

O manejo integrado pode ser definido com a utilização de diversas técnicas diferentes de controle, a fim de minimizar os efeitos danosos da doença. No caso da hérnia das crucíferas, o manejo integrado consiste na utilização de técnicas de controle cultural, como ajuste do pH e rotação de culturas, controle físico, como a solarização, controle biológico, controle químico e genético, que é o uso de variedades resistentes.

Como não é possível erradicar o patógeno depois que ele se instala numa área, as medidas de manejo integrado são a única forma de conviver com a doença e minimizar seus prejuízos.

O controle cultural contempla as técnicas que visam os tratos culturais exigidos pela cultura, como adubação, irrigação e limpeza. As medidas de controle cultural que devem ser tomadas com relação a hérnia são as seguintes:

ð Evitar a movimentação de solo entre áreas contaminadas e áreas isentas. Isso significa limpar máquinas, implementos, ferramentas e sapatos das pessoas envolvidas no cultivo. As áreas contaminadas devem ser sempre as últimas a serem trabalhadas, evitando, assim, a circulação de solo aderido a máquinas e pessoas de áreas contaminadas para áreas isentas (Reis, 2009);

ð Produção de mudas em substratos com origem idônea, isentos de propágulos do patógeno (Vidal, 2012);

ð Correção do pH do solo para 6,5 (Vidal, 2012);

ð Rotação de culturas: consiste no plantio de plantas não hospedeiras por pelo menos quatro anos, sendo que o ideal seriam oito anos. O patógeno tem grande capacidade de sobreviver sem hospedeiro suscetível devido à produção de estruturas de resistência. Algumas culturas podem ser sugeridas, como espinafre, aveia, alfavaca e salsa (Reis, 2009; Vidal, 2012; Cruz, Fischer e Yamaguti, 2016).

Controles físico e biológico

O controle físico com a solarização consiste em cobrir o solo úmido com plástico transparente, por um período aproximado de 30 dias. Vidal (2012) relata alguns resultados interessantes com o uso da solarização para o controle da hérnia, que comprovam que a técnica pode reduzir a quantidade de inóculo no solo, diminuindo, consequentemente, os sintomas da doença no repolho cultivado logo após o tratamento.

Existem, também, resultados na diminuição da doença em plantas tratadas com controle biológico. Aplicações de Trichoderma e Bacillus subtilis de forma preventiva apresentam bons resultados (Vidal, 2012; Cruz, Fischer e Yamaguti, 2016).

O controle químico dessa doença é difícil e apresenta várias limitações. Exige um longo período de atuação no solo, doses altas e múltiplas aplicações (Vidal, 2012). Além disso, no Brasil existe apenas um princípio ativo registrado, a ciazofamida (Agrofit, 2020), o que limita o uso, já que pode gerar resistência do patógeno. No entanto, pesquisas demonstram boa eficiência da ciazofamida, quando aplicada preventivamente e diretamente no solo (Colombari et. al, 2018).

Melhoramento genético

O controle genético consiste no uso de variedades resistentes ou tolerantes. No caso da hérnia, essa medida é pouco eficiente, pois existem pouquíssimos materiais comerciais disponíveis, e como o patógeno apresenta grande variabilidade genética e um número grande de raças, essa resistência é quebrada facilmente (Reis, 2012).

A hérnia das crucíferas é um patógeno importante e limitante para o cultivo de repolho. Por isso, o diagnóstico correto, análises químicas do solo que será cultivado e a adoção de manejo integrado são as melhores ferramentas para conviver com essa doença, caso ela já esteja instalada na área.

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