Híbridos triplos: Antracnose do sorgo sob controle

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Autores

Pedro César de Oliveira Ribeiro
pedroc.ribeiro14@gmail.com
Ronaldo Machado Junior
ronaldo.juniior@ufv.br
Engenheiros agrônomos e doutorandos em Genética e Melhoramento – Universidade Federal de Viçosa (UFV)
Ruane Alice da Silva
Engenheira agrônoma e mestra em Genética e Melhoramento – UFV
ruane.alice29@gmail.com
Crislene Vieira dos Santos
Engenheira agrônoma e mestranda em Genética e Melhoramento de Plantas – UFV
crislene.vsantos@gmail.com
Crédito: Claudinei Kappes

O cultivo do sorgo granífero é uma excelente opção quanto à produção de grãos, por apresentar ampla adaptação às regiões e estações, além de tolerância à seca e resistência à algumas doenças.

No entanto, um desafio encontrado pelos produtores é o manejo da antracnose, principal doença da cultura, causada pelo fungo Colletotrichum sublineolum, que pode reduzir a produção de grãos e forragem em mais de 50%, em cultivares suscetíveis, durante severas epidemias.

Além disso, pode afetar a qualidade das sementes produzidas, pois as infecções foliares, durante a fase de formação de grãos e infecção nas flores, reduzem a produtividade e o peso de grãos. A estratégia mais eficiente é a utilização da resistência genética, porém, o fungo C. sublineolum apresenta alta variabilidade patogênica, fazendo com que a resistência seja quebrada em um curto período.

A alternativa encontrada pelos programas de melhoramento é a piramidação de alelos de resistência às diferentes raças deste patógeno, por meio de híbridos triplos.

A doença

A antracnose pode ocorrer em qualquer estádio de desenvolvimento das plantas, causando queima foliar, podridão do colmo e queima da panícula e de grãos. No entanto, sua forma mais comum e severa ocorre nas folhas, na fase reprodutiva do sorgo, quando inicia o florescimento.

Primeiramente, é muito importante que a doença seja reconhecida de forma correta, sendo os sintomas iniciais caracterizados por pequenas lesões elípticas a circulares, com diâmetro em torno de cinco milímetros.

De acordo com o desenvolvimento das lesões, elas passam a apresentar centros necróticos de coloração palha, com margens avermelhadas, alaranjadas ou castanhas, variando de acordo com a pigmentação do cultivar. No centro das lesões ocorre a formação de acérvulos e conídios, frutificação típica do patógeno. Essa é a principal forma de identificação da doença em condições de campo.

Quando em condições de alta umidade, geralmente ocorre a junção das lesões, que cobrem grande parte da área foliar. Para cultivares muito suscetíveis, pode ocorrer ainda a seca precoce das plantas.

A nervura central das folhas é infectada de forma independente da foliar. Os sintomas nesta região são caracterizados por lesões elípticas a alongadas, de coloração avermelhada, púrpura ou escura, nas quais podem ser observados os acérvulos do patógeno. A doença ocorre de forma contínua, assim, os conídios presentes da antracnose foliar infectam o colmo e ocasionam a podridão do colmo.

O colmo da planta geralmente é infectado no estádio de maturação, quando a planta está apta para reproduzir. As lesões ocorrem nos entrenós, o que dificulta a translocação de água e fotoassimilados, prejudicando de forma direta a produção de grãos. Os conídios da antracnose do colmo podem penetrar o pedúnculo floral e infectar as flores, que posteriormente irão formar os grãos.

Como consequência, as panículas podem apodrecer, resultando na antracnose da panícula, e afetando assim a qualidade dos grãos.

Regiões atacadas

A antracnose do sorgo está presente em todas as regiões brasileiras, e principalmente nas condições climáticas de alta precipitação, temperatura moderada e alta umidade relativa. Assim, as maiores regiões produtoras são as mais propícias à incidência da doença, sendo os Estados de Goiás, Minas Gerais e Bahia os mais atacados.

Os fatores que causam a infestação da doença são a presença do patógeno na área de cultivo e as condições ideais para o desenvolvimento do mesmo. Já a sua disseminação pode acontecer por meio da chuva e do vento, quando as condições ideais para o seu desenvolvimento são caracterizadas por um período mínimo de molhamento foliar de 24 horas e temperaturas entre 22 e 30ºC.

Controle

As medidas de controle preventivo são definidas separadamente na teoria, mas na prática a melhor forma de uso é a administração conjunta dessas que, se bem aplicadas, tendem a reduzir muito a severidade dos danos potenciais do patógeno. A seguir estão explicadas algumas medidas preventivas recomendadas para controle da antracnose no sorgo.

Sabe-se que a antracnose pode afetar as sementes, caule e folhas do sorgo, por isso, o uso de sementes sadias é o primeiro passo para amenizar e reduzir a propagação do seu agente causal, que pode sobreviver nas sementes de uma safra para outra.

É importante, neste caso, conhecer bem a sintomatologia, a fim de identificar corretamente as sementes infectadas, que devem ser descartadas da população.

Rotação de culturas e cultivares

A rotação de culturas trata da alternância entre espécies vegetais numa mesma área de cultivo, dentro do mesmo ano agrícola. A prática da rotação é bastante difundida nos sistemas que incluem o cultivo de sorgo granífero. Como exemplos podem ser mencionados os Estados de Goiás e Minas Gerais, maiores produtores de sorgo granífero, que cultivam o sorgo após a colheita da soja, na safrinha.

A época de plantio da safrinha é a mesma do milho e sorgo (entre janeiro e fevereiro), contudo, a utilização deste é estratégica quando precisa ser realizada a semeadura tardia (março). A segurança em estender a safrinha com sorgo é ampliada pela possibilidade de utilizar cultivares de ciclo reduzido, com menor demanda hídrica, menos sensíveis ao encurtamento dos dias e com pouca interferência nos ganhos produtivos devido à época de estiagem, comparado ao milho.

Dentro deste sistema, e complementando a rotação de culturas, pode ser realizada a rotação de cultivares que possuam diversidade genética entre si quanto à resistência para a antracnose.

Sistema de plantio direto

O plantio direto está bem estabelecido pelo histórico de sucesso do sistema (SPD). No caso específico do SPD como medida preventiva de incidência de doenças no sorgo, alguns dos principais pontos positivos são o controle da umidade e temperatura do solo.

A associação entre baixa umidade e temperaturas mais amenas (abaixo dos 25°C) desfavorece as condições de reprodução do fungo. Porém, é preciso ter cuidado com o manejo deste sistema, pois o benefício da palhada cobrindo o solo pode ser subtraído pela possibilidade desta abrigar inóculos de C. sublineolum, que podem sobreviver até 18 meses sem a presença do hospedeiro.

Nos casos em que há alta incidência da doença na região, pode ser recomendada a realização da incorporação da palhada no solo como medida curativa, o que descaracteriza o sistema de plantio direto, mas pode ser uma alternativa para o controle do patógeno.

Época e locais de menor incidência da antracnose

Os cultivos de verão são, em geral, mais afetados pela antracnose, sendo mais propícios à sua multiplicação e disseminação. Por isso, os plantios de sorgo em safrinha podem auxiliar no escape da doença e, claro, em locais onde a incidência da doença é menor. Com isso, é importante atentar-se também para áreas vizinhas com inóculos, ou lavouras contaminadas, que podem ser vetores da doença.

Dicas importantes

Assim como em qualquer cultura, conhecer a demanda nutricional e hídrica é primordial para obter boas produtividades. Entretanto, devido aos cultivos de sorgo serem sucessores à soja, muitos produtores negligenciam a adubação de plantio e cobertura específicos para o primeiro, visto que a soja deixa um aporte residual de nutrientes considerável.

Naturalmente, a falta de nutrição deixa as plantas mais suscetíveis à antracnose e a quaisquer outras doenças do sorgo e com intensidade de danos muito maiores. Preocupação semelhante acontece para a irrigação na cultura, que por característica tem maior tolerância às condições de déficit hídrico do que o milho, o que induz alguns produtores às aplicações irregulares.

Todavia, as boas práticas de irrigação auxiliam nos processos vitais, já que a água está envolvida em todos os processos fisiológicos, que acabam respondendo pela nutrição, sanidade e produtividade das culturas. Desse modo, tanto a adubação quanto a irrigação não devem ser realizadas de forma empírica, mas sim com base na recomendação específica para a cultura.

Melhoramento genético

Para suprir a necessidade de genótipos de sorgo que possuam resistência prolongada, os programas de melhoramento têm utilizado técnicas de aumento da diversidade genética das populações.

Inicialmente, os programas de melhoramento recomendavam como cultivares linhagens com alelos de resistência, que rapidamente se tornavam suscetíveis às doenças. Visando ampliar a produtividade e resistência, os melhoristas desenvolveram os híbridos simples, provenientes do cruzamento entre duas linhagens homozigóticas, que aumentaram a variabilidade e maximizaram a quantidade de alelos de resistência (com ao menos um dos parentais resistente).

Conforme ocorreu o crescimento das áreas de cultivo de sorgo, os problemas com doenças na espécie também se intensificaram. Isto porque a falta de aplicação conjunta de medidas preventivas faz com que a multiplicação e surgimento de novas raças do patógeno seja muito mais intensa.

Dessa forma, a produção de híbridos resistentes não consegue acompanhar tal demanda. Na tentativa de suprir esta necessidade, a diversidade genética tem sido estudada com auxílio dos marcadores moleculares, sendo possível agrupar parentais utilizados no programa de melhoramento, que possuem alelos de resistência em diferentes locos.

Com isso, tem sido viabilizado o método chamado de multilinhas dinâmicas, que consiste na mistura de três linhagens, com diferentes alelos de resistência para a antracnose, a fim de formar um híbrido triplo.

Híbridos triplos

Os híbridos triplos são resultados do cruzamento inicial entre duas linhagens (A e B), formando um híbrido simples (F1). Este é cruzado com uma terceira linhagem (C), que origina o híbrido triplo. Os diferentes alelos de resistência, combinados em um só material genético, ampliam a diversidade do sorgo, estabilizam a população do patógeno e previnem o surgimento ou seleção de novas raças.

Os métodos de controle genético, preventivo e químico têm trabalhado em associação para garantir a fitossanidade das lavouras de sorgo granífero. Quanto ao controle genético, o emprego dos híbridos triplos, que associam boas produtividades, diversidade genética e ampliação da duração da resistência, apresentam resultados promissores.


Novidades

Dentre os métodos supracitados, a novidade foi a liberação do controle químico da antracnose para a espécie S. bicolor (L.) Moench. Até maio de 2019 o MAPA, IBAMA e a ANVISA, órgãos que deliberam sobre o registro de agroquímicos no Brasil, não haviam concedido o registro que regulamenta a utilização de fungicidas em sorgo.

O Cercobin 875 WG, produto de ação sistêmica, de aplicação foliar, que pertence a IHARA, foi certificado para auxiliar no manejo da antracnose nas lavouras de sorgo. A dose de aplicação deve ser recomendada por um agrônomo responsável, que deve avaliar a condição de incidência do patógeno na lavoura. Além disso, deve integrar o controle genético e as medidas preventivas no sistema, utilizando o controle químico como auxiliar.

O controle químico não deve substituir os métodos já utilizados para controle da antracnose, mas que a soma desses amplie e prolongue a sanidade, reduzindo os prejuízos causados pela antracnose.


Erros frequentes

Dentre os fatores citados que podem causar a antracnose e as técnicas utilizadas no controle da doença, alguns erros frequentes podem acontecer no combate ao patógeno, dificultando o controle da doença na cultura do sorgo.

O erro mais comum no controle da antracnose normalmente está relacionado ao uso de cultivares suscetíveis à doença, ou seja, a utilização de cultivares que não são geneticamente resistentes. É necessário que o produtor esteja atento na escolha do cultivar, optando por cultivares resistentes.

Outro problema recorrente no manejo da doença é a utilização de fungicidas recomendados para outras culturas. Cabe ressaltar que o produtor deve procurar recomendações técnicas de um agrônomo na escolha do fungicida com registro no Ministério da Agricultura para o controle da antracnose foliar do sorgo.

Além disso, o desleixo nas práticas culturais, como o não uso rotação de culturas e a não eliminação de restos culturais, que podem servir de hospedeiro alternativo, são práticas errôneas no combate à doença.

Conforme as práticas culturais supracitadas, os erros mais frequentes podem ser evitados utilizando um conjunto de medidas e técnicas agronômicas, que vão desde a escolha por sementes tratadas no plantio até o manejo rotacional pós-colheita. Ressalta-se que a utilização de cultivares resistentes à doença é a técnica primordial na implantação da cultura e aliada ao acompanhamento técnico podem caracterizar o sucesso na implementação e condução da lavoura de sorgo.