Hora de fazer análise de solo e da lavoura

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Autor

Daniel Vidal Perez
Pesquisador da Embrapa Solos

A amostra de solo deve ser coletada, no mínimo, dois a três meses antes do plantio para que haja tempo de realizar a análise e interpretar os resultados à luz da cultura que será implantada e da expectativa de produtividade almejada.

Se houver necessidade de correção do pH do solo (acidez), por exemplo, a etapa de distribuição e incorporação do calcário deverá preceder a de plantio em, pelo menos, um mês, para que haja tempo de ocorrer a reação de neutralização da acidez do solo e, também, para evitar a perda de nutrientes aplicados via adubação, principalmente o fósforo, no plantio.

Quando coletar

A coleta de solo segue, basicamente, dois princípios: a homogeneidade da área a ser amostrada e a profundidade de amostragem.

O primeiro passo é dividir a propriedade em áreas uniformes entre 10 e 20 hectares, para a retirada de amostras. Cada uma dessas áreas deverá ser uniforme quanto à cor, topografia, textura e adubações e calagem que recebeu.

Áreas pequenas, diferentes das circunvizinhas, não deverão ser amostradas juntas. Áreas aparentemente uniformes, mas que apresentem histórico de produtividades distintas, também devem ser separadas. Cada uma das áreas escolhidas deverá ser percorrida em zig-zag, retirando-se com um trado amostras de 15 a 20 pontos diferentes, que deverão ser colocadas juntas em um balde limpo.

Na falta de trado, poderá ser usado um tubo ou uma pá. Todas as amostras individuais de uma mesma área uniforme deverão ser muito bem misturadas dentro do balde, retirando-se uma amostra final, em torno de 500 gramas.

Manejo

A profundidade de amostragem está relacionada à profundidade do sistema radicular da cultura que se pretende implantar. Culturas de ciclo anual normalmente têm maior quantidade de raízes absorventes até os primeiros 20 cm. No caso de áreas sob plantio direto, é importante dividir essa amostragem em duas camadas, 0-10 e 10-20 cm, já que toda aplicação de insumos se dá em superfície, sem revolvimento.

Já culturas de ciclo mais longo, como as frutíferas, as raízes exploram profundidades bem maiores. Daí a recomendação, nestes casos, de uma amostragem entre 20-40 cm também. Vale destacar, no entanto, que há uma série de indícios, na área do Cerrado, que apontam que amostragens mais profundas, até 1 metro, podem beneficiar o processo de recomendação de adubação e correção de solo para fins de obtenção de melhores produtividades.

Boa parte dessas observações deriva do fato de que os veranicos favorecem as culturas que conseguem alongar com sucesso suas raízes a maiores profundidades. E isso só ocorre se a estrutura física e as condições de fertilidade forem adequadas. Ou seja, a identificação de solos que possuam camadas subsuperficiais adensadas e com baixa fertilidade auxilia no planejamento de correções mecânicas e químicas que propiciarão maiores produtividades.

Os produtores que praticam a agricultura de precisão já aplicam um conceito de amostragem diferenciado. A amostragem espacializada é utilizada como forma de avaliar a variabilidade espacial da fertilidade dos solos e, assim, estabelecer um planejamento de correção e adubação do solo. O tamanho da grade amostral usada tem variado entre 3,0 e 5,0 ha.

Qualidade na operação

Gosto da analogia com o exame de sangue. Identificar o equilíbrio e os limites de concentração dos diversos componentes do sangue é fundamental para direcionar nossa vida a patamares mais saudáveis. Se algum fator está fora do normal, medidas corretivas são necessárias e, eventualmente, algum tipo de remédio deve ser prescrito.

Se a análise estiver errada, os riscos são enormes, tanto de ser hospitalizado, por não se tratar, quanto por se intoxicar, ao usar medicamento que é desnecessário. O solo carrega todos os elementos nutrientes através de sua estrutura física e o perfeito equilíbrio desses elementos favorece produtividades maiores.

Se a análise for realizada de forma incorreta, como a de sangue, ou o produtor gastará mais recursos com insumos do que é necessário ou ele terá perdas de produtividade, por aplicar menos do que precisa.

Novos equipamentos

Com o incremento da agricultura de precisão, novos equipamentos vêm sendo testados para tornar menos laborioso o processo de coleta de solos. Mas ainda há pouco estudo sobre o impacto dessas novas tecnologias sobre as análises de solo. Um exemplo é o trabalho de mestrado do Nelson Henrique Dall’Acqua, pela Universidade de Rio Verde, que demonstrou que equipamentos de amostragem influíram nos resultados das análises em uma área de plantio direto. Nos EUA já estão sendo testados sistemas robóticos autônomos de coleta de solo.

Em campo

Acho que o melhor exemplo está no trabalho que o Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB – www.cesbrasil.org.br) vem realizando ao longo dos seus 10 anos de existência. Eles têm como um dos seus objetivos aprender com os campeões de produtividade de soja a fim de desenvolver e atualizar uma plataforma de alta produtividade e rentabilidade para os produtores brasileiros.

E o que se tem aprendido é que o manejo da fertilidade do solo é um dos pontos cruciais para estabelecer não só elevadas produtividades, mas também maior rentabilidade ao produtor, evitando desperdícios.

Erros analíticos

O que posso dizer é que o atributo do solo onde menos erros analíticos têm sido observados é a determinação de pH (acidez). Todos os outros apresentam, historicamente, erros maiores e de diversas origens.

Os erros são minorados com a implantação de um sistema de gerenciamento de qualidade no laboratório. Isso envolve desde a participação em programas interlaboratoriais de amostras de solo (p.e., Paqlf, Profert, Celas, Rolas, IAC) até a rastreabilidade de todo o processo analítico, notadamente a qualidade dos reagentes usados, inclusive a água.


Viabilidade

Os fertilizantes são o fator que mais contribui para o custo total de culturas, como a soja e milho, e o segundo maior responsável pelos custos de produção das culturas do algodão e arroz (irrigado ou sequeiro), por exemplo. No caso da agricultura familiar, fora os custos de mão de obra, os custos de fertilizantes também são importantes componentes do custo total.

Para se ter uma ordem de grandeza, por exemplo, no ano agrícola de 2018/19 o percentual de participação nos custos totais de produção do milho (1ª e 2ª safra), medido pela CONAB (https://www.conab.gov.br/info-agro/custos-de-producao/planilhas-de-custo-de-producao) esteve acima de 20% na maioria das regiões apuradas.

Existe o caso mais crítico, como o de Roraima, em que em torno de 49% do custo de produção do milho 1ª safra esteve na aquisição de fertilizantes e corretivos. A margem de renda do produtor é pequena. Logo, utilizar eficientemente os fertilizantes e corretivos é uma forma de garantir a sua rentabilidade. E isso só é obtido pela interpretação de uma análise de solo feita em laboratórios idôneos.

Usar mais fertilizante/corretivo do que o necessário é jogar dinheiro fora – a chuva leva embora. Usar menos do que o necessário significa produzir menos e, por isso, arrecadar menos na hora da colheita.


De olhos bem abertos

Os resultados das análises químicas de solo e/ou de folhas, usados para avaliar a fertilidade do solo e o estado nutricional das plantas, estão sujeitos a erros de diversas naturezas e imperfeições em sua emissão. Diferenças nos resultados de um mesmo laboratório, ou entre eles, causam descrédito, não só das análises em si, mas de todo o sistema de recomendação de adubação.

A diminuição dos erros pode ser conseguida por programas interlaboratoriais, que almejam a uniformização de metodologias. Tais programas atuam na troca de informações e análises das mesmas amostras pelos diferentes laboratórios.

Em geral, os programas vigentes no País têm o objetivo de divulgar e uniformizar protocolos analíticos entre laboratórios, bem como diagnosticar e promover a melhoria da qualidade dos resultados por eles emitidos.

No Brasil, existem cinco programas ativos que, normalmente, identificam os laboratórios que foram aprovados nos testes de qualidade realizados a cada ano: Paqlf, Profert, Celas, Rolas e IAC.

No caso de áreas sob plantio direto, é importante dividir essa amostragem em duas camadas, 0-10 e 10-20 cm, já que toda aplicação de insumos se dá em superfície, sem revolvimento.

Já culturas de ciclo mais longo, como as frutíferas, as raízes exploram profundidades bem maiores. Daí a recomendação, nestes casos, de uma amostragem entre 20-40 cm também.

Cada uma das áreas escolhidas deverá ser percorrida em zig-zag, retirando-se com um trado amostras de 15 a 20 pontos diferentes, que deverão ser colocadas juntas em um balde limpo.