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quinta-feira, agosto 11, 2022
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Importações de alho ainda na dianteira

Alho – Crédito: Shutterstock

Nos meses de maio, junho e julho de 2020 as importações brasileiras ficaram acima dos volumes médios mensais dos últimos quatro anos. Porém, nos meses de agosto, setembro e outubro os volumes foram menores. No mês de novembro, foram importadas 16,19 mil t, o maior volume para o mês nos últimos quatro anos (Tabela1).
Desta forma, 2020 foi o ano com maior volume de alho importado desde 2017, com 193,51 mil t de alho, 16,97% a mais que em 2019, quando foram importadas 165,43 mil t.
A China forneceu ao Brasil o maior volume de alho em 2020, porém, pelo maior valor médio do alho, a Argentina recebeu o maior valor FOB (Tabela 2).

Tabela 1. Importações de alho no Brasil de janeiro de 2017 a dezembro de 2020 (mil t)
Ano Jan Fev Mar Abr Maio Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Total
2017 12,63 10,00 12,79 12,38 13,90 9,43 12,97 18,12 12,02 13,64 11,20 20,12 159,20
2018 17,24 14,53 17,28 14,77 16,67 13,33 15,99 12,70 8,61 10,39 7,59 15,71 164,81
2019 18,06 16,28 13,59 15,77 15,56 12,58 15,05 11,21 7,78 11,16 9,20 19,19 165,43
2020 20,43 15,07 16,36 14,57 16,69 18,93 23,33 15,90 12,01 9.39 16,15 14,63 193,51

Fonte: Comexstat/ME: janeiro/2021.

Tabela 2. Principais países fornecedores de alho para o Brasil em 2020.
Países Valor FOB (US$ mil) Volume (t) Valor médio (US$ /kg)
China 105.134,9 102.782 1,02
Argentina 139.449,3 72.057 1,94
Espanha 15.755,8 10.399 1,52
Demais 14.607,8 8.274 1,76
Total 274.947,8 193.511 1,56
Fonte: Comexstat/ME: janeiro/2021.

Produção nacional

Em 2019, a produção brasileira de alho, segundo o IBGE, foi pouco acima de 131 mil t (Tabela 4), crescimento de 11,01% comparativamente à safra de 2018. O incremento na produção nacional foi decorrente da ampliação da área plantada, que passou de 10.633 ha para 11.219 ha, aumento de 5,5% e, obviamente, por ganhos em produtividade, que passaram de 11.151 kg/ha para 11.723 kg/ha, aumento de 5,1% comparado à safra de 2018 (Tabela 3).
O Estado de Minas Gerais é o maior produtor nacional, cuja produção em 2019 foi 52,82 mil t, representando 42,6% da produção nacional. Em seguida, vem o Estado de Goiás, com 26,8%; em terceiro lugar, Santa Catarina; com 11,8% da produção.
Em quarto lugar, o Rio Grande do Sul, com 11,7%. No conjunto, estes quatro Estados produziram em 2019, últimos dados publicados pelo IBGE, 90,7% do alho brasileiro. A produção brasileira de alho tem variado de 118 a 131 mil t entre 2017 a 2019.

Tabela 3. Área colhida, produção e rendimento dos principais estados produtores de alho nas safras de 2017 a 2019.
Estados Área Colhida (ha) Produção total (t) Rendimento (kg/ha)
2017 2018 2019 2017 2018 2019 2017 2018 2019
Minas Gerais 2.644 3.051 3.424 40.362 44.399 52.828 15.266 14.552 15.429
Goiás 2.348 2.480 2.788 29.615 30.865 35.113 12.613 12.968 12.594
Santa Catarina 2.229 1.771 1.655 22.793 16.250 15.434 10.226 9.176 9.326
Rio Grande do Sul 2.019 1.920 1.946 15.663 14.801 15.399 7.758 7.709 7.913
Bahia 629 516 524 4.342 4.040 4.242 8.192 7.845 8.095
Distrito Federal 262 300 300 4.716 4.800 4.800 18.000 16.000 16.000
Paraná 444 429 402 2.278 2.116 2.028 5.131 4.932 5.045
Espírito Santo 92 164 154 1.008 1.395 1.525 10.957 8.506 9.903
Demais 20 2 26 120 8 154 6.000 4.000 5.923
Brasil 10.687 10.633 11.219 120.897 118.682 131.523 11.418 11.151 11.723
Fonte: IBGE – janeiro/2021.

Em relação ao abastecimento interno (Figura 1), o consumo anual de alho (produção nacional + importação) se mantém acima de 283 mil t/ano. Em 2019 o consumo brasileiro foi de 296,9 mil t, crescimento de 4,7% em relação a 2018.
A participação do produto importado no mercado nacional em 2019 foi de 55,7%. Por outro lado, a produção nacional abocanhou, em 2017, 41,1% do mercado interno, em 2018, 41,9% e 44,3% em 2019.
Portanto, esse quadro indica o potencial do mercado interno brasileiro e, por outro, para a necessidade de superação de gargalos que afetam a cadeia produtiva da cultura no país, que basicamente é redução de custo de produção.

Figura 1. Produção, importação e consumo interno de alho de 2017 a 2019 (t/ano).

Fonte: SISCOMEX/ME/IBGE/dezembro/2020.

Na Figura 2 é apresentada a evolução da quantidade de alho internalizada e o desembolso mensal de janeiro de 2019 a dezembro de 2020, pelo Brasil. Destaca-se a queda vertiginosa do preço do produto no mercado internacional a partir de junho de 2020.
Embora nos últimos quatro meses tenha ocorrido recuperação média dos preços FOB, na ordem de 34%, o mercado não foi favorável ao produto nacional. Essa situação foi provocada pela forte presença do alho chinês nas importações brasileiras. Para a Associação Nacional de Produtores de Alho (Anapa), as liminares que os importadores obtêm na justiça para isenção do pagamento da taxa antidumping, que é de US$ 0,78/kg, contribuem para prejudicar e até inviabilizar o produtor nacional.
Em novembro, o volume total importado foi de 16,00 mil t, aumento de 70,32% em volume em relação a outubro. Comparada com novembro de 2019, quando a importação foi de 9,19 mil t, o aumento é de 74,1%, volume que está impactando a conjuntura do mercado interno.
O desembolso com a importação no mês de novembro foi de US$ 16,15 milhões (FOB), aumento de 96,2% em relação a outubro, puxado pelo maior volume importado e aumento no preço médio (FOB) (Figura 2).

Figura 2. Volume e valores da importação de alho no Brasil de janeiro de 2019 a dezembro de 2020

Fonte: ComexStat/ME: janeiro/2021.

Custo de produção e rentabilidade

O alho é, entre as hortaliças, a que apresenta um dos maiores custos de produção. Os itens que mais impactam o custo são os bulbos para semente e a mão de obra. Levantamento feito com produtores e empresas produtoras no Cerrado (Goiás e Minas Gerais) mostra um custo de produção na safra de 2020 entre R$ 120 mil a R$ 130 mil/ha.
Deste custo, a mão de obra (36%), alho-semente (32%), corretivos e fertilizantes (13,5%), arrendamento da terra (6,5%) e produtos fitossanitários (4,4%) representam os maiores itens do custo. Considerando um rendimento médio de 15 t/ha, o custo ficará entre R$ 8,00 a R$ 8,70/kg de alho.
Já em SC, terceiro maior Estado produtor de alho, em levantamento feito pela Epagri/CEPA, o custo de produção por área é bastante variável entre os produtores e menor em comparação ao custo de produção no Cerrado.
O custo na safra 2020 ficou, em média, em 77,7 mil/ha, mas variou consideravelmente entre produtores, dependendo, principalmente, da origem e quantidade de alho-semente utilizada, necessidade de arrendamento de terra e maior ou menor necessidade de contratação de mão de obra.
Na média das propriedades, alho-semente (39%), mão de obra (26%), corretivos e fertilizantes (10%) e produtos fitossanitários (7%) representam os maiores itens do custo. Na atual safra, para um rendimento médio de 9,0 t/ha, o custo ficou em R$ 8,63/kg de alho, valor muito próximo ao observado no Cerrado.
A rentabilidade da safra 2020/21 é considerada boa para o alho produzido na região do Cerrado, pois se observou um dos mais altos rendimentos de bulbos dos últimos anos e os preços de venda do alho também foram positivos. Vários produtores fecharam a safra com médias acima de 15 t/ha.
Para os Estados do sul, com o início da comercialização da safra no mês de janeiro de 2021, a perspectiva de rentabilidade é também otimista. Ainda que o rendimento de bulbos foi bastante variável (de 5 a 18 t/ha), principalmente influenciado pela disponibilidade de água para irrigação no período com forte estiagem (junho a outubro/2020), o alto custo de importação de alho da Argentina poderá refletir-se num bom valor de venda do alho.

Desafios

Com relação aos desafios tecnológicos e de competitividade da cadeia produtiva da cultura, embora os significativos avanços dos últimos anos em ganho de produtividade e maior eficiência produtiva e, mesmo com a permanência da taxa anti-dumping sobre o alho chinês, este ainda afeta a competitividade do produto nacional.
Desta forma, é premente a necessidade de encontrar soluções tecnológicas para a melhoria de desempenho da cultura de forma a reduzir custos para enfrentar a concorrência com o produto importado.

Autoria:
Jurandi Teodoro Gugel
Engenheiro agrônomo, doutor e pesquisador – Epagri/Cepa
jurandigugel@epagri.sc.gov.br
Leandro Hahn
Engenheiro agrônomo, doutor e pesquisador – Epagri/Estação Experimental de Caçador (SC)
leandrohahn@epagri.sc.gov.br

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