Leguminosas intercaladas com café

0
124

Vanessa Alves GomesEngenheira agrônoma, mestre em Fitopatologia e doutoranda em Proteção de Plantas – UNESP/Botucatuvavvgomes@gmail.com

Carolina Alves GomesEngenheira agrônoma – Universidade Federal de Viçosa (UFV/CRP)carol.agomes11@gmail.com

Fabíola de Jesus SilvaEngenheira agrônoma, mestre em Produção Vegetal e doutora em Fitopatologia – Universidade Federal de Lavras (UFLA)fa.agronomia@gmail.com

Café – Crédito: Miriam Lins

O gênero Coffea apresenta mais de 100 espécies, destacando-se a C. arabica e C. canephora. O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de café, justificando a importância desta cultura para o País.

O café arábica é originário das florestas tropicais da Etiópia, Quênia e Sudão, em altitudes elevadas, acima de 1.500 m. Nestas regiões, a temperatura do ar apresenta pouca variação sazonal, com média anual variando entre 18ºC e 22ºC, temperaturas adequadas para esta espécie. A precipitação é bem distribuída, variando de 1.600 mm a 2.000 mm, com estação seca estendendo-se por três a quatro meses e coincidindo com o período mais fresco.

Já o café conilon apresentou o seu primeiro cultivo comercial nos solos do Congo, em 1870. É cultivado, predominantemente, em áreas de menor altitude, obtendo elevado crescimento em cenários em que a média da temperatura consiste entre 17ºC e 31,5ºC.

Manejo

A determinação do espaçamento de uma lavoura de café vai variar de acordo com as condições de cultivo de cada local. Locais que apresentam relevo plano, grandes áreas produtoras e que fazem uso de práticas mecanizadas, requerem maiores espaçamentos entre linhas para o tráfego das máquinas e implementos.

Já os locais com relevo inclinado, necessariamente, vão precisar fazer uso de práticas manuais. Com a não utilização de máquinas e implementos, o espaçamento entrelinhas pode ser reduzido, otimizando o sistema produtivo da área.

Independente do espaçamento utilizado entre as linhas do cafeeiro, é fundamental realizar o controle adequado das plantas daninhas. Se não houver um controle destas na entrelinha, pode dificultar as práticas culturais na lavoura, além do fato de as plantas daninhas poderem ser hospedeiras alternativas de insetos pragas e doenças que causam danos à cultura.

Desse modo, o controle das plantas daninhas nas entrelinhas é muito importante e apresenta inúmeros benefícios. Por outro lado, o solo não deve se encontrar descoberto, em prol de reduzir os problemas de erosão do solo.

Controle

Uma alternativa para conseguir o controle das plantas invasoras nas entrelinhas e não deixar o solo descoberto é o consórcio. Este consiste em realizar o plantio de uma cultura anual entre as ruas de café.

É uma prática não apenas econômica, mas também preservacionista, além de poder gerar renda extra ao produtor nos primeiros anos da lavoura, nos anos de menor safra ou safra zero, bem como nos anos de poda (esqueletamento, recepa e decote). As plantas mais utilizadas neste sistema são as leguminosas, por apresentarem inúmeros benefícios.

 O uso de leguminosas, além de representar uma prática conservacionista e produzir muita biomassa, ainda auxilia na disponibilidade de nitrogênio para o solo. Esta prática apresenta como vantagens uma estimulação de diversos processos físicos, químicos e biológicos no solo.

Pelo ponto de vista físico do solo, o uso de plantas na entrelinha auxilia numa melhoria do perfil do solo, deixando-o mais macio e poroso, evitando problemas de compactação. Em relação à química do solo, ela é beneficiada pelo fato das leguminosas realizarem a fixação biológica de nitrogênio, melhorando a fertilidade do solo. Já no ponto de vista biológico, os microrganismos benéficos são favorecidos ao ter um solo macio e poroso e com boa fertilidade.

Como opções de plantas a serem utilizadas intercaladas com o cafeeiro, temos o amendoim forrageiro, feijão, fava, guandu, labe-labe, siratro, híbrido de java, dentre outras. A escolha da cultivar vai depender da conveniência para o produtor.

Fonte de renda

Pequenos produtores, que fazem uso de sistemas de agricultura familiar, bem como produtores orgânicos, optam, frequentemente por leguminosas que servem de fonte de alimentos para os seres humanos. Como exemplo, pode-se encontrar a associação do café com o feijão, um dos pilares da alimentação humana no Brasil.

Neste sistema, a planta utilizada agrega valor e gera fonte de renda para o produtor, pois pode ser consumida e/ou comercializada. No caso de grandes lavouras de café, as práticas culturais são realizadas por máquinas e implementos. Na maior parte destes sistemas os produtores focam no controle de plantas daninhas e melhorias no solo, não necessariamente fazendo uso de espécies que podem ser comercializadas e consumidas.

Um estudo revela que o uso de Cajanus cajan (guandu) em entrelinhas de café arábica permite um aporte significativo de matéria orgânica, nitrogênio e outros nutrientes. O foco maior vai para o nitrogênio, um nutriente encontrado em menor escala nas fontes orgânicas utilizadas na adubação do cafeeiro, sendo difícil de suprir sua necessidade.

Neste trabalho foi possível constatar uma presença de N nas folhas dos cafeeiros de 3,3% nas plantas associadas com o guandu, enquanto que nas demais plantas o teor de N era de 2,7%.

Outro estudo com a Flemingia congesta (flemingia) associada com cafeeiros mostrou ganhos de produtividade de 60 a 200%. Constatou-se que a flemingia é uma ótima opção de leguminosa para recuperação de solos tropicais, principalmente os que se encontram em regiões geográficas mais distantes dos grandes mercados de insumo, onde os fertilizantes químicos possuem preços muito elevados.

Contra daninhas

Além dos fatores nutricionais existentes, outro ponto importante e que também é foco de inúmeros estudos, é o controle das plantas daninhas. Entre estes, em especial, a pesquisa avaliou a relação entre a quantidade de cobertura morta produzida e a redução de infestação de plantas daninhas.

De maneira geral, é possível observar que as plantas de cobertura realizam a supressão de plantas invasoras por meio de alelopatia e “abafamento”. A alelopatia consiste em compostos secundários produzidos pelas plantas utilizadas na associação, influenciando no crescimento e desenvolvimento das plantas daninhas. Já o “abafamento” consiste no controle por sombreamento e redução de luminosidade no solo, impedindo a germinação das sementes de plantas daninhas presentes nos solos.

Por conseguinte, os benefícios do consórcio de café com leguminosas são nítidos e trazem muitos benefícios para o produtor. Apesar das dificuldades encontradas, ainda é considerado um sistema vantajoso do ponto de vista conservacionista e de controle de plantas daninhas.

É uma prática que possibilita renda adicional para produtores de lavouras novas, em épocas de safra zero e nos momentos após as podas.