Mais rendimento e pungência da cebola com Enxofre

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Autor

Claudinei Kurtz
Engenheiro agrônomo, doutor em Fertilidade do Solo e Nutrição de Plantas e pesquisador da Epagri/Estação Experimental de Ituporanga
kurtz@epagri.sc.gov.br

Crédito: Shutterstock

O enxofre (S) é constituinte importante de alguns aminoácidos, como a cistina, metionina, cisteína e triptofano, fazendo parte de todas as proteínas vegetais, além de ser precursor de compostos sulfurados voláteis.

A quantidade destes compostos à base de S é que determina a pungência da cebola e confere odor e sabor característicos a esta espécie. Os sintomas de deficiência nas plantas se caracterizam pelo amarelecimento das folhas mais novas, que se tornam finas e tortas, pela redução drástica no crescimento da parte aérea e radicular e pela bulbificação precoce, podendo levar à morte das plantas afetadas após alguns dias.

A deficiência de enxofre também reduz a produtividade e a pungência da cebola, podendo aumentar a suscetibilidade a problemas fitossanitários, além de reduzir a qualidade dos bulbos.

Resposta da cebola à adição de S

O enxofre é absorvido pelas raízes das plantas predominantemente na forma altamente oxidada de sulfato (SO42-). A maior demanda de S pelas plantas ocorre entre os 90 e 150 dias após a semeadura. O acúmulo deste nutriente é maior no bulbo, com cerca de 80%, enquanto na parte aérea o acúmulo é de aproximadamente 20% do S total extraído na colheita.

A cebola é uma planta exigente em S, e geralmente esse nutriente é o terceiro ou quarto em ordem decrescente de acúmulo. A deficiência de enxofre normalmente ocorre em solos com baixo teor de matéria orgânica, arenosos, intensivamente cultivados, sem reposição do nutriente e principalmente com o cultivo de espécies exigentes, a exemplo de famílias de plantas como as leguminosas (soja, feijão), as brássicas (repolho, couve-flor) e as aliáceas (cebola, alho).

As condições que afetam a mineralização da matéria orgânica, como baixas temperaturas e déficit hídrico, também podem reduzir a disponibilidade do elemento, pois mais de 90% do enxofre do solo está ligado à matéria orgânica. Outro fator que também contribui para o aparecimento da deficiência é o aumento sucessivo de produtividade nos cultivos, como a da cebola e de grãos, que promovem grande exportação do nutriente por ocasião das colheitas, o que torna inevitável a reposição de enxofre.

Além disso, solos com pH elevado e com altos teores de fósforo também contribuem para reduzir a disponibilidade de S na solução do solo e consequente aparecimento de deficiências de S. O sulfato (SO42-) que é a forma absorvida pelas plantas, pode ser facilmente lixiviado para camadas mais profundas pela percolação da água proveniente da chuva ou irrigação.

Desde 2010 são frequentes na região do Alto Vale do Itajaí (SC), principal região produtora de cebola do Brasil, lavouras que apresentam sintomas da carência de S. Nas lavouras afetadas com a deficiência de S, se a adubação corretiva com esse nutriente não for realizada de imediato, pode ocorrer redução drástica de produtividade, superior a 50%, mesmo com adoção de um bom padrão tecnológico.

A inobservância da deficiência de S em lavouras no passado se deve provavelmente à reposição do enxofre por formulações de adubos NPK (nitrogênio, fósforo e potássio), as quais normalmente continham o elemento na sua composição, principalmente pelo uso do superfosfato simples para compor as fórmulas.

Estudos

Pesquisas avaliando a resposta da cultura da cebola para S são muito escassas na literatura. Em trabalho realizado por Kurtz et al. (2018) em casa de vegetação, avaliando dois Cambissolos catarinenses da região de Ituporanga e um Nitossolo do Estado do Paraná (Araucária), ambos com cultivo frequente de cebola, verificou-se aumento significativo do rendimento de bulbos com a adição de S na forma de sulfato de cálcio (gesso agrícola) nos dois Cambissolos.

O rendimento passou de 111 g vaso-1, na testemunha sem S, para 426 g vaso-1, na dose de 30 kg ha-1 de S, promovendo um incremento de 384%, para o solo Cambissolo Háplico. Neste solo não houve aumento significativo de rendimento e outras variáveis com doses superiores a 30 kg ha-1 de S.

No solo Cambissolo Húmico também houve resposta e o rendimento de bulbos aumentou de 53 g vaso-1 na testemunha sem S para 363 g vaso-1 na dose de 60 kg ha-1 de S, promovendo um incremento de 688%, e não houve resposta para doses superiores. Já para o Nitossolo Bruno (coletado em Araucária (PR)), não houve resposta com a adição de S para rendimento e outras variáveis avaliadas, produzindo em média 450 g vaso-1.

Portanto, conforme os resultados obtidos nesse experimento, a recomendação conforme o nível crítico determinado para o RS e SC, que é de 10 mg dm-3, não está adequada para a cultura da cebola para os dois Cambissolos avaliados que abrangem a grande maioria das áreas com cebola em Santa Catarina, pois nestes solos houve resposta para a adição de S mesmo quando os teores foram de 16,6 mg dm-3 no Cambissolo Húmico e de 18,7 mg dm-3 no Cambissolo Háplico.

Desse modo, é indicada a adição de S nestes dois solos sempre que os teores de S forem inferiores a 20 mg dm-3. Já para o Nitossolo Bruno, mesmo com teores menores (13,6 mg dm-3) não houve resposta para a adição de S na cultura da cebola, indicando que o nível crítico de 10 mg dm-3 estaria adequado para este tipo de solo.

No Estado de São Paulo (cultivar ‘Perfecta’), Souza (2013) também relatou que o aumento da dose de S proporcionou incremento de rendimento de bulbos até a dose máxima de 45 kg ha-1, utilizando como fonte de S o enxofre-elementar. No Estado de São Paulo o nível crítico de S é de 15 mg dm-3.

Recomendação de enxofre para cebola

Com base nos trabalhos de pesquisa, recomenda-se a reposição desse elemento quando os teores no solo forem inferiores a 20 mg dm-3 para os solos Cambissolos e menores de 10 mg dm-3 para Nitossolos. Com base nessas pesquisas, recomenda-se nos Cambissolos a dose de 60 kg ha-1 de S quando os teores do nutriente no solo forem inferiores a 15 mg dm-3 e a adição de 30 kg ha-1 de S quando os teores estiverem na faixa 15 a 20 mg dm-3.

De modo geral, as doses de S necessárias para as diversas regiões e culturas ficam em média entre 30 e 60 kg ha-1, sendo a maior dose em solos arenosos ou pobres em matéria orgânica.

O produtor deve planejar a adubação com S em função da disponibilidade das fontes e dos custos de aquisição dos produtos no mercado regional. Os custos da adubação com o S normalmente são menores em relação ao NPK, pois é menor a quantidade exigida pelas plantas e pelo fato de ser um nutriente acompanhante de outros nutrientes usados na adubação.

Para corrigir a deficiência de enxofre quando diagnosticada na fase de lavoura, recomenda-se fazer a reposição do nutriente via solo (a lanço) com fórmulas de adubos solúveis, como por exemplo, o sulfato de amônio (22% de S e 20% de N), fórmula facilmente encontrada no mercado e que apresenta alta concentração do elemento.

Também podem ser usadas outras fontes como o gesso agrícola (sulfato de cálcio) (~16% de S; ~20% de Ca), sulfato de potássio (15% de S e 50% de K2O), sulfato de magnésio (11% de S; 10% de Mg), bem como outras formulações comerciais contendo o enxofre na forma de sulfato.

A reposição do nutriente também pode ser realizada por ocasião do plantio ou semeadura, usando formulações de adubos mistas que contenham NPK + S ou formulações simples, como superfosfato simples (13% de S e 18% de P2O5), enxofre elementar (95 – 100% de S), gesso agrícola, entre outras.

Via foliar

A adubação foliar com o enxofre, embora possa auxiliar na recuperação das plantas deficientes, não é eficaz na correção da carência, por ser um nutriente exigido em quantidades relativamente altas. Ainda em relação às fontes de enxofre, é importante destacar que o enxofre elementar constitui uma boa fonte de S, mas precisa ser transformado por microrganismos presentes no solo (Thiobalillus sp.) em sulfato (SO42-) para ser absorvido pelas plantas.

Esse processo promove reações de acidificação do solo e necessita de aproximadamente 50 dias para máxima disponibilidade de sulfato na solução do solo.

Custo

O custo da adubação deste nutriente é relativamente baixo, comparado aos demais nutrientes, por ser um nutriente secundário de diversas formulações comerciais, havendo, deste modo, uma relação custo-benefício muito favorável para o uso deste nutriente, quando constatada sua necessidade.