Como eliminar a mosca-branca com um manejo integrado?

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Como eliminar a mosca branca com um manejo integrado? No artigo a seguir, veja o que é a mosca-branca, quais os sintomas do ataque e quais os fatores que favorecem a instalação da praga. Ao final, confira como eliminar a mosca-branca.

Claudia Aparecida de Lima Toledo
Engenheira agrônoma e doutoranda em Agronomia/Proteção de Plantas – UNESP
claudia.lima.toledo@gmail.com

Franciely da Silva Ponce
Engenheira agrônoma e doutora em Agronomia/Horticultura – UNESP
francielyponce@gmail.com

Santino Seabra Júnior
Engenheiro agrônomo, PhD e professor – Universidade Estadual do Mato Grosso (UNEMAT)
santinoseabra@hotmail.com

tipos de mosca-branca
Divulgação

A mosca-branca (Bemisia tabaci Gennadius (Hemiptera: Aleyrodidae) é considerada uma das pragas globais mais prejudiciais em culturas de campo aberto e ambiente protegido, possuindo uma ampla gama de hospedeiros e sendo vetor de cerca de 300 vírus. A disseminação provavelmente se dá pelo transporte de material vegetal pelo homem.

A mosca-branca é considerada um complexo de espécies morfologicamente indistinguível, com mais de 44 espécies descritas no mundo, sendo a diferenciação realizada por métodos moleculares.

Dentro desse complexo, temos no Brasil a MEAM1 (anteriormente conhecida como biótipo B), MED (anteriormente denominada como biótipo Q) e a NW (antes denominada como biótipo A). Entre elas, MED e MEAM1, são as mais invasivas.

A mosca-branca MED tem causado grande preocupação devido aos prejuízos causados à agricultura e sua alta capacidade de desenvolver resistência aos principais inseticidas utilizados no controle da praga.

Sintomas do ataque de mosca-branca

Os danos causados pelas moscas-brancas são resultado da sucção contínua de seiva, deixando as plantas debilitadas, provocando menor produtividade e qualidade dos frutos ou folhas. Ao alimentar-se da planta, os insetos excretam uma solução açucarada que possibilita o desenvolvimento de fungos, formando a fumagina sobre as folhas.

Em tomate, a infestação de mosca-branca causa nos frutos maturação desuniforme, com aspecto isoporizado. Além disso, por ser vetor de vários vírus, como os do gênero Begomovírus e Crinivírus, há o risco de transmissão de várias doenças. Em tomate, a infestação de mosca-branca pode causar perdas de até 50% à produção, e quando atrelada a viroses essa perda pode chegar a 100%.

Fatores que favorecem a infestação da mosca branca

A densidade populacional de mosca-branca é dependente das variáveis climáticas, sendo baixa na época chuvosa e maior em períodos com baixa pluviosidade, isso porque o crescimento populacional é favorecido por altas temperaturas.

A chuva pode atuar como agente de regulação natural, causando mortalidade principalmente nos insetos adultos, por meio da ação mecânica das gotas de água. A densidade demográfica varia com a temperatura e a planta hospedeira. Em tomate, a mosca-branca MEAM1, nas condições climáticas de 25ºC e 65% de UR, o ciclo de ovo-adulto tem duração de cerca de 22,3 dias o que corresponde a 16 gerações durante o ano.

Controle preventivo ou curativo?

O controle não deve acontecer apenas com um método, mas sim com a misturas de várias táticas. Para isso, é indispensável o Manejo integrado de pragas (MIP). No entanto, sabe-se que o principal método de controle de mosca-branca ainda é com o uso de inseticidas químicos.

Porém, quando usados de modo indiscriminado podem provocar a seleção de insetos resistentes, serem tóxicos a inimigos naturais e polinizadores, e causar poluição ambiental.

Entre as táticas presentes no manejo integrado de pragas, o uso de cultivares resistentes, práticas culturais, controle biológico e químico são práticas necessárias para a redução da infestação. Como controle preventivo, podemos citar o uso de cultivares resistentes e o controle cultural.

O controle cultural é importante por auxiliar na redução da infestação da praga. Para isso, a destruição dos restos culturais, rotação de cultura com plantas não hospedeiras e controle de plantas daninhas fontes de alimento, como: amendoim bravo, erva-de-santa-maria, fedegoso, guanxuma-rasteira, maria-pretinha, mentruz, perpétua-brava e poaia-do-cerrado, são importantes para a redução da infestação de mosca-branca nas áreas de cultivo.

Quanto ao controle curativo, tem-se o manejo biológico e o químico. Como mencionado anteriormente, o controle químico é, atualmente, o mais difundido entre os produtores, no entanto, o uso como única tática tem acarretado em grandes problemas ao agroecossistema.

Nesse sentido, o uso conjunto entre as táticas de controle, químico e biológico, com o uso de inseticidas seletivos, é indispensável para a manutenção da população da praga abaixo no nível de dano econômico, mantendo os inimigos naturais presentes na área.

Opções para eliminar a mosca-branca

O controle biológico de mosca-branca conta com micro e macrobiológicos. Entre os macrobiológicos, podemos citar predadores e parasitoides. Os predadores são organismos de vida livre que precisam de mais de uma presa para completar seu desenvolvimento.

Já os parasitoides requerem apenas um indivíduo de mosca-branca para completar seu desenvolvimento. Os adultos são de vida livre, geralmente especialistas e auxiliam na redução da população da praga de interesse.

Entre os predadores de mosca-branca, podemos citar alguns ácaros predadores e insetos das famílias Coccinellidae, (joaninhas), Chrysopidae (bicho-lixeiro) e Anthocoridae (percevejo predador, Orius insidiosus). Quanto aos parasitoides, podemos citar os insetos do gênero Encarsia e Eretimocerus.

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Quanto aos microbiológicos, temos alguns fungos entomopatogênicos registrados no Brasil para o controle de mosca-branca. Segundo o site Agrofit, são eles Beauveria bassiana e Isaria fumosorosea, com altos níveis de controle.

Fungos entomopatogênicos estão presentes na natureza, e se desenvolvem dentro do inseto, agindo em várias fases de desenvolvimento, causando, consequentemente, a morte dele. Além disso, os produtos biológicos, em sua maioria, são de baixa toxicidade e têm como objetivo atingir apenas a praga-alvo, mantendo os inimigos naturais na área e reduzindo a dependência por inseticidas químicos.

Dentre os produtos microbiológicos registrados para o controle biológico de mosca-branca, a maioria é à base do ingrediente ativo natural Beauveria bassiana. Alguns exemplos podem ser analisados no quadro a seguir:

Viabilidade

Importante ressaltar a importância dos inimigos naturais presentes na área plantada, pois auxiliam não apenas na redução da população de moscas-brancas, mas de outros inseto-pragas que atacam a cultura de interesse.

Para isso, é importante o uso de áreas de refúgio e que sirvam como fonte de abrigo e alimentação para os inimigos naturais. Como exemplo, podemos citar a aveia-preta e plantas espontâneas, como a nabiça.

Atuação contra mosca-branca

Parasitoides parasitam as ninfas de mosca-branca e causam sua morte. De modo simplificado, os parasitoides (Encarsia sp.) inserem seu aparelho ovipositor na ninfa de mosca-branca e libera seus ovos, que se alimentam da ninfa para se desenvolver, saindo de dentro dela um adulto de Encarsia sp. ao invés de um adulto de mosca-branca.

Durante o período de desenvolvimento de Encarsia sp. dentro da ninfa, a ninfa de mosca-branca muda de coloração, tornando-se escura, facilitando a visualização de ninfas parasitadas a campo. Todavia, por se desenvolverem dentro do inseto-praga, podem sofrer impacto de inseticidas não seletivos.

Já os predadores, geralmente são maiores do que suas presas, e durante seu desenvolvimento necessitam de mais de uma presa para completar o ciclo. São insetos mais generalistas, consumindo preferencialmente insetos que estão em maior abundância no agroecossistema.

Entre os predadores temos aranhas, ácaros predadores (alimentam-se preferencialmente de ovos e ninfas de 1º e 2° instar de mosca-branca), bicho-lixeiro (alimenta-se de ninfas e adultos), joaninhas, etc.

Os fungos entomopatogênicos estão presentes no ambiente e são preferidos para o controle de insetos por atuarem em várias fases do ciclo de vida do inseto-praga. Eles entram em contato com a cutícula do inseto, penetram no corpo da mosca-branca e colonizam seus órgãos internos, causando a paralisação e, posteriormente, sua morte.

Após a morte, dependendo das condições ambientais, os esporos do fungo são disseminados pelo ar, água, solo e outros insetos contaminados. No entanto, fatores como alta umidade relativa, temperatura e luz solar podem afetar a eficiência desses entomopatógenos.

Em experimentos realizados por vários pesquisadores, em ninfas de 1º e 2º instar de desenvolvimento, a mortalidade pode ser superior a 80%, para Isaria fumosorosea e Beauveria bassiana, dependendo da cepa e concentração de conídeos utilizada.

Para eliminar a mosca-branca, evite possíveis erros:

  • Identificar a mosca-branca presente na área, pois elas podem apresentar suscetibilidade diferente aos principais inseticidas utilizados no manejo de mosca-branca;
  • Utilizar inseticidas seletivos, buscando controlar apenas a praga, mantendo a população de inimigos naturais na área;
  • Realizar aplicações com inseticidas em horários de menos atividade dos inimigos naturais;
  • Utilizar barreiras vegetais visando reduzir e atrasar a infestação da praga em áreas recém-plantadas;
  • Manter plantas que sejam abrigo e fonte de alimento para os inimigos naturais;
  • Quanto aos fungos entomopatogênicos, analisar a compatibilidade desse patógeno com os pesticidas, pois é essencial para a maior eficácia, visto que produtos incompatíveis podem inibir a ação dos fungos sobre os insetos;
  • Analisar as recomendações de bula dos produtos biopesticidas, pois fatores ambientais, como luz solar, temperatura, umidade e raios ultravioletas podem afetar a atividade do inseticida em campo. Geralmente é recomendado realizar aplicações no fim da tarde;
  • Analisar a temperatura solicitada para o armazenamento desses produtos.

Essencialidade

O controle biológico é uma tática indispensável no manejo de mosca-branca, por não favorecer o surgimento de insetos resistentes, não causar danos aos inimigos naturais ou preocupações quanto à segurança alimentar, mostrando-se uma tática sustentável.

Além disso, pode ser utilizado em conjunto com outras táticas do MIP para maior eficiência no controle de mosca-branca.