Mercado de biológicos

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Segundo pesquisa da Spark Inteligência estratégica, o mercado de bioinsumos defensivos no Brasil já fatura R$ 930 milhões, com foco especialmente nas culturas da soja e cana

Fábio Olivieri de NobileProfessor titular do Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos (UNIFEB)fabio.nobile@unifeb.edu.br

Maria Gabriela AnunciaçãoEngenheira agrônoma – UNIFEB

Praga – Crédito: Flávio Medeiros

A agricultura moderna está embasada nos pilares da sustentabilidade, de maneira a integrar aumentos produtivos com responsabilidade socioambiental. Uma ferramenta utilizada atualmente, que garante incrementos expressivos de produtividade e diminui expressivamente os impactos ambientais causados por resíduos de insumos químicos é a implementação de produtos biológicos no sistema de cultivo.

De maneira simplista, o controle biológico pode ser definido como a regulamentação de pragas ou doenças que acometem as plantas cultivadas por meio do uso de agentes de controle, que podem ser divididos em dois grandes grupos: macro e micro.

No primeiro grupo temos, por exemplo, a vespa Trichogramma galoi, que parasita os ovos de Diatraea saccharalis (broca-da-cana), e no segundo grupo temos a utilização de microrganismos tais como Bacillus thurigiensis, uma bactéria capaz de produzir uma substância que controla diversos gêneros de lagartas.

O uso de biológicos tem ganhado cada vez mais espaço no mercado, visto que hoje, seja no tratamento de sementes ou aplicação direta no sulco de plantio, é comum a utilização de microrganismos que possuem múltiplos espectros de ação.

Um exemplo muito comum é a utilização de Bacillus subtilis para controle de nematoides, no entanto, a bactéria, além do controle da praga que causa diversos prejuízos, também tem a capacidade de solubilizar fósforo e agir como promotor de crescimento, melhorando as condições rizosféricas do ambiente agrícola, sendo utilizado em grandes culturas, a exemplo da soja, milho e feijão e até mesmo café.

Em conjunto

Pensando no uso desta bactéria, é preciso citar como sua utilização no manejo integrado de doenças está presente de maneira muito expressiva na safra 2020/21 de soja, em que a ocorrência de mofo-branco, causada pelo patógeno Sclerotinia sclerotium, que pode atacar a planta na emergência e no florescimento, está em níveis altos, especialmente no Sul do País.

Neste segmento, temos diversos outros exemplos que podem ser aplicados, como Trichoderma sp., um fungo que, por meio de diversos mecanismos de ação, tem controle de nematoides, doenças presentes no solo, como a podridão abacaxi, em cana-de-açúcar e até podridões causadas por Fusarium sp. e Rhizoctonia sp., que podem acometer diversas culturas, como o milho.

Resultados

O sucesso do controle biológico no País pode ser observado por alguns índices. É claro que temos o fator financeiro, que será discutido logo a seguir, mas vamos falar de outras situações – em 2020 o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento teve recorde de registro, com 95 defensivos devidamente registrados, dentre os quais temos desde fungos entomopatogênicos (capazes de controlar insetos), como Metharizium anisopliae, eficiente no controle de cigarrinha das raízes, Beauveria bassiana, eficiente contra broca-do-café, por exemplo, até vespas que predam percevejos, como Telenomus podisi.

Outros fatores indicativos podem ser observados, como a maior abertura do mercado e o investimento em pesquisa e desenvolvimento para o segmento de biológicos utilizados na agricultura. Recentemente, no Estado de São Paulo, um centro de pesquisa voltado ao desenvolvimento de um novo manejo para integrar os sistemas agrícolas foi inaugurado com R$ 40 milhões previstos em investimento.

A resposta financeira é animadora, nacional e internacionalmente. O crescimento do controle biológico no Brasil vem apresentando passos largos, com aumentos de 20% ao ano, aproximadamente. Segundo pesquisa da Spark Inteligência estratégica, o mercado de bioinsumos defensivos no Brasil já fatura R$ 930 milhões, com foco especialmente nas culturas da soja e cana, mas cabe ressaltar que tem grande utilização em regiões ricas em hortifruticultura também.

Quanto custa?

Os inoculantes, como os utilizados em soja, como Bradyrhizobium japonicum e Azospirillum brasilense, são produtos relativamente baratos quando comparados aos biofungicidas e bioinseticidas. Hoje temos bioinsumos defensivos que estão na faixa de R$ 200,00 – R$ 300,00 a unidade com 1,0 L.

A dosagem é variável, podendo chegar de 200 a 300 mL/ha, dependendo do histórico da área frente aos patógenos e intensidade dos mesmos, além da cultura instalada. Existem diversas opções e empresas que oferecem portfólio muito completo, sejam empresas nacionais ou internacionais.

Não é intenção deste artigo incentivar o desuso de defensivos químicos, mas sim demonstrar que, se bem integrado com práticas sustentáveis, o sistema agrícola funciona. Os produtos biológicos não deixam resíduos que podem contaminar corpos hídricos e não interferem na segurança alimentar.

Pelo contrário, os produtos biológicos, além de controlar pragas e doenças, conseguem melhorar as condições abióticas que podem acometer a cultura de interesse. É preciso, desta forma, monitorar as pragas e observar os índices fitopatométricos do campo. Frente ao químico, nós temos a vantagem de sustentabilidade e do método de ação direto sobre o patágeno e indireto quanto à produção de enzimas, metabólitos e afins, que melhoram a condição da planta.

Foque no acerto

O principal erro na utilização dos biológicos no Brasil está na tecnologia de aplicação. Os horários de aplicação devem priorizar temperaturas mais amenas, deve ser realizada uma limpeza de tanque específica e devemos ter muito critério quanto à escolha dos componentes da calda, para que não agrida o microrganismo e este perca sua eficiência.

Neste ponto, é preciso se atentar aos produtos escolhidos. Deve-se priorizar empresas que garantam controle de qualidade eficiente, garantindo a concentração de microrganismos presentes nos rótulos, a ausência de contaminantes patogênicos e total segurança nos processos de produção dos insumos biodefensivos.

Viabilidade

O controle biológico é uma ferramenta biotecnológica que surgiu frente à necessidade de atendermos nossa demanda de fatores adversos com sustentabilidade. Dessa maneira, a tecnologia proporcionada por este segmento tem muito a crescer, pois além de atuar nas pragas e doenças diretamente, acaba agindo em diversos mecanismos fisiológicos da planta, ativando a resistência, promovendo a produção de hormônios e melhorando o condicionamento geral das plantas.

Biológicos são a evolução agrícola

Talis Melo ClaudinoEngenheiro agrônomo e mestrando em Agronomia/Energia na Agricultura – UNESP/FCA de Botucatut.claudino@unesp.br

Maurício Godoy Pereira dos SantosEngenheiro agrônomo godoymauricio.p@outlook.com

Murillo Pegorer SantosEngenheiro agrônomo e produtor ruralmurillo@rosalito.com.br

Lagarta doente devido ação de vírus – Crédito: Geraldo Papa

A agricultura tem passado por grandes transformações, evoluindo dia após dia, na maioria das vezes por meio da ciência, que traz explicações racionais e teorias para que possam ser empregadas na no campo.

O setor agrícola se tornou uma potência mundial, suas comodities giram bilhões de dólares por todo o mundo, altas produtividades, melhoramento genético dos vegetais, organismos geneticamente modificados nos trazendo a praticidade e o menor uso de agroquímicos, resultando em aumento de produtividade dos nossos campos.

Em contrapartida, o setor agro é muito afetado por críticas severas de ambientalistas e indivíduos, relatando que o agronegócio é um grande destruidor da fauna e da flora por onde atua, o desmatamento para a instalação de plantações, o uso de agroquímicos afetando a saúde humana e diversas informações que, na maioria das vezes, não tem nenhum fundamento técnico-científico, grande injustiça contra aqueles que alimentam e dão desde o que comer até o que vestir ao mundo.

Desafios

Diante da dificuldade de alimentar o mundo, sofrendo críticas árduas e mesmo assim à frente, o agronegócio começou a se inovar para a nova agricultura, que se tornará em breves anos a nova agricultura. Deixaremos de ser tão químicos e mais biológicos dentro da medida em que as produtividades continuem a crescer.

Os insumos biológicos vieram para nos mostrar que no fim do túnel há luz, e esta luz tem grande intensidade e poder de iluminar todos os nossos campos com produtividades elevadas, maior aproveitamento do nosso sistema ecológico e solos, com produtos mais saudáveis ao ponto de vista dos ambientalistas, e da mesma forma elevando as produtividades para que o agronegócio continue sendo rentável.

Ação no agro

Os insumos biológicos possuem diversas formas, usos e funções, desde sua forma adulta, como é o caso da Cotesia flavipes para o controle da broca-da-cana, presente e muito prejudicial à cana-açúcar, até na forma de microrganismos como o Bacillus thuringiensis, que aplicado em sua forma de estipes na cultura do milho, soja, citros ou demais, controlam insetos raspadores. Estas funções estão somente ligadas ao controle de pragas, e vamos estudar mais a fundo o que estamos falando.

Os insumos biológicos, fazendo a inserção de bactérias diazotróficas via foliar, como o Herbaspirilium seropedicae, associado a substâncias húmicas para o fazer o transporte para dentro da planta, levou a ganhos de produtividade e redução no uso de insumos químicos na cultura de cana-de-açúcar e milho. Assim, este produto é um promotor de crescimento totalmente biológico.

Como estamos falando em redução do uso de defensivos químicos, impossível não citar os solubilizadores de fosfato retidos por forte ligação covalente no solo. Muitos produtos apresentam esta função, e o gênero Bacillus spp. é o mais conhecido.

Contudo, temos as Pseudomonas spp. e mais uma diversidade de cepas e microrganismos que podem fazer a solubilização deste elemento, já que são os exsudados ácidos dos microrganismos que realizam esta função de quebra da cadeia de ligação fosfato-coloides.

Por onde começar

De forma diferente dos insumos químicos, para utilizar um produto biológico inicialmente devemos ter o alvo, o que se quer ser atingido. Assim definido, se traça a estratégia de trabalhar com espécies isoladas ou com comunidades microbianas para que se tenha sucesso.

Quando se trabalha com solo, é muito interessante trabalhar com a estratégia de se utilizar comunidade, todavia, o solo também possui uma grande comunidade que por ali está se perpetuando há anos, somente alterando as suas concentrações de acordo com o ambiente e os tratos culturais, mas ainda estão ali.

Pensando em um manejo via foliar, podemos direcionar nossas estratégias ao uso isolado de microrganismos.

Cuidado!

Sempre devemos nos lembrar de que são organismos vivos, que necessitam de uma série de fatores, como umidade, temperatura, mistura no tanque, associações microbiológicas e caso a caso as interações com o seu mecanismo de aplicação, sendo via foliar, na linha de cultivo, sementes ou realizando o tratamento do solo.

Todas as culturas podem ser tratadas com microrganismos. Pode-se, até mesmo quando analisados em laboratórios, realizar a mistura de defensivos químicos com eles.

Vale salientar que a missão não é extinguir da agricultura os químicos, mas sim realizar o manejo ecológico, que traz ao agricultor maior rentabilidade, melhoria na estruturação do solo e condições ideais para o cultivo das plantas.

Orientação é fundamental

Atualmente, as empresas que fazem a venda destes compostos já conhecem os manejos mais adequados a se realizar, como realizar e com o que não se deve fazer a associação. Consultando o representante técnico pode-se realizar o manejo ideal.

Os agricultores já vivem outra realidade em diversas regiões, como a criação de microrganismos on farm, técnica ainda muito discutida, pois o grande relato destes agricultores é que a compra das estirpes se torna cara para grandes campos agrícolas e assim eles compram estas e as multiplicam em biofábricas na fazenda, adicionando maiores quantidades do que o recomendado pelas empresas na cultura, visto que seu custo é menor.

Toda via, deve-se fazer o controle adequado de assepsia dos biorreatores, e além de tudo, verificar se a espécie de interesse é a mesma que está naquele reator, e se ainda é útil. Este assunto ainda é estudado por cientistas e há um aspecto monetário envolvendo-os.

Custo

O custo depende da empresa, contudo, devemos ver, além do preço de compra, a rentabilidade, lembrando que é a longo prazo, está sendo trabalhado toda a microbiologia de um ambiente, pode-se relatar algo e é altamente rentável.

De toda forma, o uso de microrganismos tende a agregar para todos, será a nova agricultura – o modelo de Agricultura 5.0 que será destinado aos campos, levando grande rentabilidade ao agricultor.

A inovação está vindo, os agricultores devem estar preparados para lidar com estas mudanças, fazendo com que seu manejo sustentável seja cada dia mais rentável, levando o Brasil e o mundo ao reconhecimento por sua sustentabilidade econômica e ambiental.