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quinta-feira, agosto 11, 2022
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Micronutrientes e biofertilizantes em cana-planta

Autores

Renato Passos Brandão
Gerente Especialista em Nutrição Vegetal
Raphael Bianco Roxo Rodrigues
Gerente Técnico de São Paulo e Sul de Minas

O agronegócio canavieiro desempenha um papel importante na economia brasileira. É a locomotiva econômica em determinadas regiões brasileiras, notadamente em São Paulo, Norte do Paraná, Triângulo Mineiro, Goiás, Alagoas e Pernambuco. A estimativa de produção de cana para a safra 2017/18 é de 625 milhões de toneladas (Conab, 2018).

A produtividade da cana está prevista para 72 t/ha. É considerada relativamente baixa em comparação ao potencial genético das atuais variedades de cana. Atualmente, há variedades que ultrapassam a produtividade de 200 t/ha. Algumas usinas e fornecedores de cana do Estado de São Paulo estão com três dígitos de produtividades ou muito próximo. Além disso, é cada vez maior a preocupação com o aumento do ATR.

Produtividade

Vários fatores podem estar contribuindo para a baixa produtividade da cana. A expansão da cultura para solos de baixa fertilidade natural e com textura arenosa podem estar influenciando na redução da produtividade média dos canaviais brasileiros (ambientes de produção D e E), assim como as mudanças climáticas, notadamente com a intensificação dos veranicos na estação chuvosa e o período seco – inverno no Centro-Oeste.

Nos solos de menor fertilidade natural e naqueles que outrora possuíam alta fertilidade, o fornecimento de doses adequadas de nutrientes torna-se uma prática indispensável para a obtenção de produtividades economicamente sustentáveis para a atividade canavieira.

O objetivo deste artigo é abordar a influência dos micronutrientes e biofertilizantes na produtividade da cana-planta.

Micronutrientes em cana-planta

Os micronutrientes, também denominados de elementos traços ou elementos menores, são os elementos químicos essenciais ao desenvolvimento da cana-planta, requeridos em pequenas quantidades na ordem de g/ha, mas de grande importância para o seu desenvolvimento (Tabela 1).

Tabela 1. Extração e exportação de micronutrientes para a produção de 100 t de colmos de cana (Orlando Filho, 1983).

Partes da planta B Cu Fe Mn Zn
– – – g – – –
Colmos 149 234 1.393 1.052 369
Folhas 86 105 5.525 1.420 223
Total 235 339 6.918 2.472 592
% exportada 63,4 69,0 20,1 42,6 62,3

Isso, no entanto, não implica de forma alguma em uma função secundária. A deficiência dos micronutrientes nas culturas pode causar sérios problemas ao metabolismo das plantas, comprometendo a produtividade agrícola.

Os micronutrientes

Atualmente, oito elementos químicos são classificados como micronutrientes: boro (B), cloro (Cl), cobre (Cu), ferro (Fe), manganês (Mn), molibdênio (Mo), níquel (Ni) e zinco (Zn).

Em 1986, o níquel foi o último elemento químico reconhecido como essencial às plantas e classificado como micronutriente. É componente da urease, enzima que catalisa a reação da ureia [CO(NH2)2] à amônia (NH3) e gás carbônico (CO2), conforme equação a seguir (Marschner, 1986).

CO(NH2)2 + H2O → 2NH3 + CO2

Segundo Marschner (1995), a lista de micronutrientes tende a aumentar, considerando o avanço da tecnologia de detecção, bem como a possibilidade de utilização de produtos cada vez mais puros quimicamente em investigações de essencialidade.

Funções dos micronutrientes

Basicamente, os micronutrientes, exceto o boro e o cloro, atuam como catalisadores ou ativadores das reações enzimáticas. Estão envolvidos na síntese de compostos necessários ao funcionamento do metabolismo da cana.

Sem os micronutrientes atuando como “arranque”, o sistema enzimático nas plantas seria simplesmente uma massa inerte de proteínas (Gupta, 2001).

As funções mais relevantes dos micronutrientes em cana são:

† Boro: estimula o desenvolvimento das raízes da cana. Participa no transporte dos carboidratos das folhas para outros órgãos e também no seu metabolismo. Cana com teores adequados de B, normalmente, possuem maior ATR. Atua também na lignificação das paredes celulares e na maturação e diferenciação celular.

† Cloro: envolvido na fotossíntese pelo desdobramento da molécula de água na fotossíntese II e na regulação estomática.

† Cobre: é ativador de diversas enzimas. Atua no metabolismo dos carboidratos e lipídeos e no processo de lignificação, aumentando a tolerância da cana às doenças. Os fungicidas cúpricos são largamente utilizados como fungicidas protetores das plantas às doenças fúngicas.

† Ferro: é constituinte da clorofila, atuando na fotossíntese da cana. As condições de solo do Brasil são raras as deficiências deste micronutriente em cana. A deficiência de Fe pode ocorrer em brotações de cana, mesmo em solos com altos teores do nutriente, mas rapidamente desaparece com o desenvolvimento das raízes.

COLOCAR FIGURA 01 AQUI

† Manganês: atua na fotossíntese, por estar envolvido na estrutura, funcionamento e multiplicação dos cloroplastos e no transporte de elétrons. Ativa enzimas da rota do ácido chiquímico e rotas subsequentes, conduzindo a síntese de compostos aromáticos como tirosina e substâncias secundárias, como lignina e flavonoides, aumentando a tolerância da cana às doenças.

† Molibdênio: atua no metabolismo do nitrogênio. É constituinte de duas enzimas – nitrato redutase e nitrogenase, melhorando a eficiência da adubação nitrogenada e da fixação biológica do nitrogênio em cana. Maior desenvolvimento vegetativo e aumento na produtividade da cultura.

† Zinco: atua diretamente no crescimento da cana por meio da síntese do triptofano, aminoácido precursor do ácido indolacético (AIA), que irá formar as enzimas responsáveis pelo alongamento e crescimento celular.

Micronutrientes em cana-planta

A adubação com micronutrientes ainda é pouco utilizada em cana. As respostas da cana aos micronutrientes são inconsistentes. Nas décadas de 70 a 90, os resultados da cana à aplicação dos micronutrientes eram neutros ou negativos. As respostas mais significativas da cana ao fornecimento dos micronutrientes com o cobre e zinco, ocorreram em solos dos tabuleiros costeiros do Nordeste Brasileiro.

Pesquisas recentes têm evidenciado respostas positivas na produtividade da cana com o fornecimento dos micronutrientes. Mellis et al. (2009) observaram respostas positivas na produtividade da cana-planta à aplicação dos micronutrientes. Os maiores incrementos na produtividade da cana-planta foram proporcionados pelo zinco e molibdênio, seguido pelo boro, cobre e manganês.

Fornecimento dos micronutrientes à cana-planta

Os micronutrientes podem sem fornecidos à cana-planta de cinco diferentes maneiras:

† Via solo: os micronutrientes podem ser aplicados com os fertilizantes fornecedores de NPK+S ou isoladamente em pré-plantio, sulco de plantio ou quebra-lombo;

† Via herbicida: o boro é um dos poucos micronutrientes fornecido com os herbicidas. Respeitar a solubilidade máxima das fontes do boro em água. A fonte mais usual de boro é o ácido bórico, seguido pelas soluções de boro contendo em média 10% do nutriente;

† Via tolete: podem ser aplicados com os inseticidas e demais defensivos agrícolas na cobrição dos toletes de cana. Ocorre uma distribuição mais uniforme dos micronutrientes. Entretanto, é importante verificar a compatibilidade química com os defensivos agrícolas;

† Via foliar: é uma das formas mais usuais para o fornecimento de micronutrientes em cana-planta. Deve ser utilizada em complementações as adubações via solo ou via tolete. As pulverizações foliares com o molibdênio são usuais em grande número de usinas e fornecedores de cana. Normalmente, é realizada com o nitrogênio na época de maior demanda da cultura, antes do fechamento do canavial. Além disso, é crescente o uso dos demais micronutrientes via foliar em cana-de-açúcar.

Biofertilizantes em cana-planta

Os biofertilizantes podem ser uma alternativa para a minimização dos estresses abióticos em cana-planta, proporcionando maior desenvolvimento do sistema radicular e vegetativo, com reflexos positivos na produtividade e no ATR.

Atualmente, há uma discordância conceitual entre a legislação brasileira e a europeia. Segundo Du Jardin (2016), um bioestimulante é qualquer substância ou microrganismo aplicado às plantas com o objetivo de melhorar a sua eficiência nutricional, a tolerância a estresses abióticos, e/ou a qualidade dos cultivos, independente do seu conteúdo nutricional.

Em outubro de 2017, o Parlamento Europeu definiu os bioestimulantes como produtos que estimulam os processos de nutrição de plantas, independentemente do teor de nutrientes do produto, com o objetivo de melhorar uma ou mais das seguintes características das plantas: (a) eficiência do uso de nutrientes, (b) tolerância a estresses abióticos, ou (c) qualidade do cultivo (Stadnik et al., 2017).

As principais fontes de bioestimulantes às plantas estão especificadas a seguir.                               

Bioestimulantes Ácidos fúlvicos e ácidos húmicos
Hidrolisados proteicos
Aminoácidos
Hormônios
Extratos de algas e vegetais
Microrganismos benéficos às plantas – fungos e bactérias
Polímeros como a quitosana

Na legislação brasileira, o termo bioestimulante não é contemplado, ou seja, não há a classe de produtos bioestimulantes para registro de produtos. Os produtos com as características apontadas acima podem ser registrados como fertilizantes, na classe de estimulantes ou biofertilizantes.

Respostas da cana-planta aos biofertilizantes

Foi instalado um experimento em cana-planta com ciclo de 14 meses em Uberlândia (MG) para a avaliação do Bioenergy® – biofertilizante formulado com extratos de algas marinhas do Mar do Norte, Europa.

A variedade de cana foi a RB-92579, adaptado para ambientes de produção, apresentando alta taxa de perfilhamento e brotação de soqueira, alta produtividade e elevado índice de açúcar total recuperável (Ridesa, 2010).

O experimento foi constituído por sete tratamentos, sendo um controle, duas doses de três biofertilizantes – Bioenergy®, biofertilizante 1 e biofertilizante 2 – 0,5 e 1,0 L/ha. Os biofertilizantes foram aplicados na cobrição dos toletes utilizando um cilindro pressurizado a CO2, com um volume de calda de 333 L/ha.

O delineamento experimental foi de blocos casualizados (DBC) com quatro repetições. As parcelas foram constituídas por cinco linhas de cana com 10 m de comprimento e espaçadas de 1,5 m entre si, totalizando 75 m2 de área total, com espaçamento de 3,0 m nas cabeceiras. A área útil constou de três linhas centrais totalizando 9 m2.

A colheita da cana foi realizada em maio de 2018 – 424 dias após o plantio e foram avaliados a produtividade, açúcar total reduzido (ATR) e açúcar por hectare.

O Bionergy® aumentou a produtividade e a produção de açúcar por ha. A dose do produto que proporcionou os melhores resultados foi 1,0 L/ha. Ocorreu um aumento expressivo na produção de açúcar por hectare – 2,0 t/ha, ocasionado pelo incremento na produtividade de colmos de cana por hectare.

Considerações finais

O uso de micronutrientes e biofertilizantes ou bioestimulantes em cana-planta tem sido negligenciado. Em muitos experimentos realizados nas décadas de 70 a 90, as respostas da cana-planta aos micronutrientes foram baixas ou nulas, causando uma descrença na utilização em escala comercial.

É importante mencionar que muitos experimentos foram realizados em solos com boa fertilidade natural e também em solos com a aplicação de vinhaça e/ou torta de filtro, resíduos da indústria sucroalcooleira com micronutrientes.

Entretanto, nas condições atuais de cultivo da cana-planta, com a expansão dos canaviais em solos com baixa fertilidade natural – solos arenosos e sob vegetação de cerrado –, esgotamento das reservas dos micronutrientes dos solos e o uso de variedades com alto potencial produtivo e mais exigentes em nutrientes, a adubação com estes nutrientes torna-se cada vez mais necessária.

A deficiência dos micronutrientes pode ocasionar distúrbios metabólicos na cana-planta, diminuindo a produtividade e a produção de sacarose e reduzindo a longevidade dos canaviais. Em situações extremas, pode ocasionar a morte de plantas.

De forma similar aos micronutrientes, os biofertilizantes podem desempenhar um papel crucial na cana-planta, reduzindo as consequências dos estresses abióticos e aumentando o potencial produtivo da cultura.

O Grupo Vittia vem pesquisando a utilização de micronutrientes em cana-de-açúcar, e até o presente momento os resultados são extremamente positivos com aumento na produtividade, no ATR e na produção de açúcar. É importante mencionar que um número significativo de experimentos foi realizado em solos derivados de basaltos – solos com alta fertilidade natural.


Quer saber mais?

Para mais informações, consulte o site do Grupo Vittia – www.vittia.com.br, nossos representantes comerciais ou os profissionais do Departamento Agronômico.

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