Microrganismos solubilizadores – mais eficiência do fósforo

Microrganismos solubilizadores de fósforo (MSP) estão sendo utilizados como alternativa para aperfeiçoar a eficiência na utilização de P no solo, disponibilizando-o para as plantas.

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Crédito Shutterstock

José Roberto Pereira de Castro
Engenheiro agrônomo – Superação Treinamento de Consultoria
jrpcastro60@gmail.com

A área cultivada no Brasil na safra 2021/22 foi de 71,5 milhões de hectares, o que representou um crescimento de 3,6% em relação ao registrado em 2020/21. Já a área com pastagens chegou a 154 milhões de hectares em 2021, o que equivale a praticamente todo o Estado do Amazonas, que tem 156 milhões de hectares, ou 6,2 Estados de São Paulo.
O Brasil ocupa a quarta posição no consumo global de fertilizantes. Em 2021, o País consumiu cerca de 45 milhões de toneladas de fertilizantes, sendo que os fosfatados representaram 33% dessa quantidade.
O Brasil tem minas de fósforo em quatro Estados – as principais estão em Minas Gerais. A região em que foi localizada a maior jazida de fosfato é Cascata, próximo a Sertãozinho, na divisa de Presidente Olegário e Patos de Minas. Entretanto, faltam, principalmente, investimentos em infraestrutura para viabilizar a exploração das minas fosfáticas no País.
Em longo prazo, as alternativas existentes seriam capazes de suprir a demanda total de fósforo.

Essencialidade do fósforo para as plantas

O fósforo desempenha papel importante na transferência de energia das células vegetais, na respiração e na fotossíntese. É, também, componente estrutural dos ácidos nucleicos de genes e cromossomos, assim como de muitas coenzimas, fosfoproteínas e fosfolipídeos.
As duas causas principais da baixa disponibilidade do fósforo em solos tropicais são os baixos níveis de fósforo nos materiais de origem dos solos (rochas que originaram os solos) e o alto nível de intemperismos a que as rochas foram submetidas durante o processo de gênese (formação) dos solos.
As alternativas estão relacionadas ao bom uso de fertilizantes (minerais e orgânicos), promoção do crescimento do sistema radicular das plantas cultivadas e emprego de inoculantes solubilizadores de fósforo.

Bactérias como alternativa

Bactérias solubilizadoras de fósforo (BSP) têm sido reconhecidas como uma estratégia alternativa para melhoria da aquisição de fósforo (P) por plantas a partir de mecanismos de biossolubilização do fosfato no solo pela produção de ácidos orgânicos.
Como outros inoculantes microbianos, essas bactérias devem ser introduzidas nos sistemas de produção próximas ao sistema radicular das plantas, de forma a ter boas condições para colonizar a rizosfera.
Assim, os inoculantes para solubilização de fósforo podem ser aplicados em tratamento de sementes, em jato dirigido na linha de semeadura/plantio ou via sistema de irrigação localizada.
Os microrganismos solubilizadores devem ser introduzidos nos sistemas de produção próximos ao sistema radicular das plantas, de forma a ter boas condições para colonizar a rizosfera. O ideal é reaplicar a cada nova safra, de forma a manter uma população elevada desses microrganismos nos sistemas de produção.

Os remineralizadores de solo

Os remineralizadores de solo são materiais de origem mineral (ricos em nutrientes) submetidos a processos mecânicos para redução e classificação de tamanho das suas partículas, sem quaisquer outras alterações.
Como exemplos de rochas que são amplamente utilizadas na remineralização de solos, pode-se citar: micaxisto, basalto, diabásio, glauconita, carbonatitos, entre outros, os quais são fontes de cálcio (Ca), magnésio (Mg), potássio (K), fósforo (P), silício (Si) e micronutrientes de planta.

Benefícios para o solo e a planta

Os principais benefícios são melhorar a nutrição fosfatada dos cultivos e a promoção do desenvolvimento radicular das plantas, permitindo a obtenção de rendimentos mais elevados.
A ampliação da oferta de inoculantes com microrganismos solubilizadores de fósforo deve favorecer o produtor rural, que terá à disposição inoculantes cada vez mais eficientes e com um custo mais baixo.


MSP
Como acontece a reação no solo

Rayla Nemis de Souza
rayla.ns@outlook.com
Rafael Rosa Rocha
rafaelrochaagro@outlook.com
Engenheiros agrônomos e mestrandos em Ambiente e Sistemas de Produção Agrícola – Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT)

Microrganismos solubilizadores de fósforo (MSP) estão sendo utilizados como alternativa para aperfeiçoar a eficiência na utilização de P no solo, disponibilizando-o para as plantas.
No Brasil, estima-se que a área plantada no ano de 2022 seja 72,9 milhões de hectares (CONAB, 2022). Os solos brasileiros apresentam, em sua maioria, baixas concentrações de fósforo devido às condições climáticas. Por serem fortemente intemperizados, são ricos em óxidos de ferro e alumínio, refletindo em baixa fertilidade. O fósforo é fixado nesses óxidos ficando, desta forma, indisponível para que as plantas o absorvam.
O atual consumo brasileiro de fertilizantes é próximo a 45 milhões de toneladas por ano, o que nos torna o quarto maior consumidor, tendo à nossa frente apenas os Estados Unidos, a Índia e a China. A grande diferença entre o Brasil e os demais grandes consumidores é que, aqui, 85% do consumo são importados.

Demanda x importação

No Brasil, em 2020 o consumo aparente de fertilizantes fosfatados foi de 6,0 milhões de toneladas de P2O5, classificando o Brasil como o terceiro maior consumidor de fertilizantes fosfatados. A produção brasileira não supre a demanda nacional de fertilizantes fosfatados, o que impõe uma necessidade de importação.
As poucas reservas de fertilizantes fosfatados no Brasil se concentram principalmente nos Estados de Minas Gerais, com 67,9% desse total, seguido por Goiás e São Paulo, com 13,8 e 6,1%, respectivamente.
Dentre os nutrientes requeridos em maiores quantidades pelas plantas, o fósforo (P) é um dos mais importantes, sendo indispensável para o metabolismo e funcionamento das plantas, pois está intimamente ligado ao desenvolvimento e crescimento da planta, desempenhando papel fundamental na formação de ATP (trifosfato de adenosina), sendo ela a principal fonte de energia para a realização de processos como a fotossíntese, divisão celular, transporte de assimilados e carga genética.
Na intenção de suprir a deficiência desse elemento no solo, é necessário a aplicação de fertilizantes. Grande parte dos fertilizantes fosfatados, como superfosfatos e fosfatos de amônio, são obtidos quimicamente a partir de rocha de fosfato extraída em minas, e assim envolvendo gastos significativos de energia oriundos de fontes não renováveis para o seu processamento, transporte e distribuição.
Por esses motivos, há uma busca por estratégias alternativas para a adubação fosfatada do solo.

Precipitação do fósforo

Conforme destacado, o fósforo adicionado ao solo, em formas lábeis ou não, pode ser retido pela precipitação em solução com formas iônicas de cálcio, ferro e alumínio, mas também pela sua adsorção à superfície de óxidos, hidróxidos e oxi-hidróxidos de ferro e alumínio presentes em maiores quantidades, principalmente em solos mais intemperizados, originando os fosfatos inorgânicos insolúveis.
Essas transformações diminuem a disponibilidade do fósforo para as plantas e reduz a eficiência dos fertilizantes.
Entretanto, existem algumas alternativas que possibilitam o aumento da disponibilidade do fósforo no solo, como a utilização de microrganismos capazes de solubilizar os fosfatos formados.
Uma grande variedade de microrganismos, como fungos dos gêneros Aspergillus e Penicillium e bactérias dos gêneros Enterobacter, Bacillus e Pseudomonas Agrobacterium apresenta capacidade de solubilizar fosfatos naturais, existentes ou adicionados no solo.
Essa alternativa consiste na utilização de rochas naturais, que possuem baixas taxas de solubilização, mas que em associação com microrganismos do solo, como inoculantes, denominados solubilizadores de fósforo (MSP), são capazes de suprir, mesmo que parcialmente, a demanda de fósforo pelas plantas.
Além de aumentar a disponibilidade de P no solo, eles contribuem para a nutrição vegetal, aumentando o crescimento das plantas e a produtividade das culturas.

A transformação

Os microrganismos solubilizadores utilizam diferentes métodos para transformar formas pouco solúveis de fosfato em solúveis, como processos de acidificação, quelação e reações de troca, mas o principal mecanismo de solubilização é a liberação de metabólitos, como ácidos orgânicos e enzimas extracelulares.
Outro provável procedimento de solubilização de fosfatos, principalmente o fosfato de ferro (estrengita), é a produção de sideróforos, que são moléculas orgânicas de baixo peso molecular produzidas por algumas espécies de microrganismos, cuja função principal é complexar metais, em especial ferro em estado insolúvel.
Além dos benefícios sobre a liberação do P, o uso de inoculantes microbianos é considerado uma alternativa ambientalmente correta com relação às aplicações de fertilizantes químicos.
Há, também, a utilização de uma boa rotação de culturas e a construção de um bom perfil de solo como solução para muitos problemas da agricultura atual, sendo uma delas a utilização do trigo mourisco (Fagopyrum esculentum Moench).

Trigo mourisco

O trigo mourisco é uma cultura de ciclo curto, de aproximadamente 75 dias, o que possibilita a realização de três safras na mesma área, implantação como cultura de cobertura ou consórcio com outras culturas.
Um dos diferenciais do trigo mourisco é o bom desenvolvimento em solos pobres, com presença de metais pesados, sem necessidade de adubação e com rusticidade a pragas e doenças. Além disso, possui um bom fechamento de rua, o que contribui com o manejo de plantas daninhas e suprime nematoides.
Este cultivo tem ótimo desenvolvimento em solos pobres, pois seu sistema radicular tem maior facilidade de absorver fósforo e potássio a maiores profundidades, o que é muito benéfico para ciclagem de nutrientes no solo.
Além disso, esta cultura tem alta tolerância a metais pesados, podendo ser cultivada, por exemplo, em áreas com alto teor de alumínio ou cobre. O trigo mourisco apresenta alta solubilização de fósforo à conta das micorrizas, suportando temperaturas elevadas e baixa precipitação.

Manejo

Quando se trata de manejo de utilização dos microrganismos solubilizadores de fósforo (MSP), eles podem ser aplicados via jato dirigido no sulco de semeadura ou no tratamento de sementes, sempre respeitando a dose indicada na bula ou pelo responsável técnico do produto utilizado.
Importante se atentar sempre sobre a compatibilidade dos produtos. Existem, hoje, no mercado, produtos que não apresentam incompatibilidade quando utilizados em conjunto com outros inoculantes ou produtos. Ou seja, é possível misturar diferentes inoculantes na mesma calda.
Cuidados na aplicação sempre devem ser atendidos, como: sempre verifique o prazo de validade do produto; siga as recomendações do fabricante para forma de armazenamento, manipulação e dosagem do produto; agite bem o inoculante/produto antes da aplicação; no tratamento de sementes distribua o produto de maneira uniforme, garantindo que toda a superfície das sementes seja recoberta; se atentar à incompatibilidade de produtos.