Milho-pipoca é um novo atrativo para o produtor?

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Autores

Israel Alexandre Pereira Filho
Emerson Borghi
Pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo
Crédito: Pixabay

O milho-pipoca (Zea mays L.) é um tipo de milho que tem como característica principal grãos duros e pequenos que possuem a capacidade de estourar devido a uma pressão de 135 psi formada dentro do grão quando aquecidos ao redor de 185º C.

Antigamente, classificava-se o milho-pipoca como Zea mays L. var. everta. Entretanto, trabalhos recentes relatam que o gênero Zea é monotípico, e que todos os grupos de milho, que eram classificados como espécies ou subespécies, não passam de formas genéticas bem definidas e outras complexas, da estrutura do grão.

Mercado

O milho-pipoca é um alimento bastante apreciado no Brasil, tendo mostrado um aumento exponencial e um mercado promissor que só cresce, mas mesmo assim ainda é dependente do processo de importação para atender à demanda de consumo interna. Isso se deve, principalmente, à limitação de sementes de qualidade e ao uso muitas vezes de tecnologias inadequadas em seu sistema de produção.

O cultivo do milho-pipoca no Brasil ainda se restringe a pequenas áreas, mas com boas perspectivas de expansão para áreas maiores com uso de tecnologias modernas, visando o mercado de sementes e o setor industrial de empacotamento.

A área plantada com este tipo de milho varia de ano para ano, em função da demanda de mercado futuro. Entretanto, vem crescendo a necessidade de informações a respeito do cultivo deste tipo de milho, não só pela diversificação agrícola, mas também pelos bons preços ofertados ao produto no mercado.

Importância econômica e consumo

O Brasil é o segundo maior consumidor de pipoca do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, que tem área plantada de 101,5 mil hectares e produção de aproximadamente 375,7 mil toneladas.

Em 2018, o Brasil produziu cerca de 260 mil toneladas, dos quais 220 mil foram consumidas internamente, o que movimentou US$ 628 milhões. Os dados revelam ainda que a região Sudeste é a que mais consome pipoca (56%), seguida das regiões Sul (16%), Nordeste (13%), Centro-Oeste (9%) e Norte (5%).

Entretanto, há uma projeção de mais crescimento, segundo dados de pesquisa. A expectativa é de que, em 2024, o consumo dos brasileiros chegue a 385 mil toneladas, movimentando cerca de US$ 850 milhões. Em 2018, a região Sudeste comercializou 148 mil toneladas; a região Sul 44 mil toneladas e a região Nordeste, 35 mil toneladas. As regiões Centro-Oeste e Norte comercializaram juntas 38 mil toneladas.

A expansão observada na década passada, quando a quantidade comercializada pela Ceasa-MG passou de 780 toneladas para 1.435 toneladas, ou seja, 84% a mais, mostrou boas perspectivas para o cultivo do milho-pipoca.

Informações mais recentes indicam locais de concentração de milho-pipoca em Mato Grosso e em Goiás, devido à expansão de áreas para produção de sementes. Esses registros de aumento de produção e de área plantada incentivam os produtores para o cultivo dessa espécie de milho e ainda contribuem para a melhoria dos indicadores econômicos dos milhos especiais.

Escolha da semente

A oferta de sementes de cultivares melhoradas de milho-pipoca no mercado é muito pequena quando se compara com o milho commodity e não acompanhou a melhoria apresentada na qualidade da pipoca consumida no Brasil. Atualmente, existe disponibilidade de poucas cultivares de milho-pipoca no mercado de sementes: a variedade RS 20, de grãos amarelo-alaranjado; os híbridos IAC 112 (cor dos grãos amarelo), IAC 125 (cor dos grãos laranja), IAC 268 (cor dos grãos amarelo-claro); e o IAC 367 de grãos alaranjados.

O Registro Nacional de Cultivares do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) evidencia que, além das cultivares citadas anteriormente, existem cultivares registradas em nome da Yoki Alimentos S/A e outras em nome da Pipolino Indústria e Comércio Ltda.

As cultivares que foram registradas pela Yoki são as P 608, P 618, P 621, P 6025 e AP 4501, que também estão relacionadas pelo Zoneamento Agrícola para plantio no Rio Grande do Sul e Mato Grosso. 

Uma boa cultivar de milho-pipoca deve apresentar “Índice de Capacidade de Expansão” (ICE), valor obtido pela relação volume/massa, com unidade de mL/grama, acima de 40 mL/mL. Valores iguais ou acima de 40 mL/g indicam excelente pipoca. Por exemplo: uma xícara de café cheia de milho-pipoca tem que produzir 40 ou mais xícaras de grãos estourados, sem deixar os “piruás” (grãos que não estouram).

Sugere-se ao produtor que se interessar pelo cultivo do milho-pipoca consultar as empresas de sementes sobre a disponibilidade do produto antes de fazer qualquer programação de plantio da cultura, principalmente se for com contrato de venda.

A maioria da semente de milho-pipoca semeada no Brasil é importada dos Estados Unidos e da Argentina, o que eleva os custos de produção. Ainda assim, as sementes importadas de milho-pipoca são mais baratas do que as sementes de milho convencional porque não são transgênicas.

Época de semeadura

O milho-pipoca é uma planta menos vigorosa e mais suscetível ao ataque de doenças que o milho comum. Por isso, a escolha do local e a época de plantio tornam-se essenciais para o sucesso do cultivo. O zoneamento edafoclimático, por exemplo, reduz as perdas de produção, aumentando a produtividade por meio da identificação dos riscos climáticos das diferentes regiões, o que identifica, dessa forma, a melhor época de semeadura.

Normalmente, a época de semeadura do milho-pipoca é a mesma do milho comum, ou seja, coincide com o período chuvoso ou em épocas em que as condições climáticas permitam o cultivo irrigado. O estabelecimento da época de semeadura no período chuvoso prevalece para todas as regiões do Brasil onde se cultiva o milho-pipoca, principalmente para as regiões Norte e Nordeste do País, onde o regime de chuvas é bastante variável quanto à distribuição e época do ano.

Quase tão importante quanto a época de semeadura para a produtividade é a época da colheita para a qualidade do milho-pipoca. Como o “Índice de Capacidade de Expansão” (ICE) está intimamente ligado à integridade do pericarpo, a condição climática ideal é aquela em que não ocorram mais chuvas após a maturação fisiológica dos grãos.

Chuvas nessa época fazem com que os grãos voltem a se hidratar e depois a secar, em um processo que, à medida que se repete, enfraquece e provoca trincas no pericarpo. Esse processo reduz o potencial genético de expansão.

Adubação e irrigação

A adubação deverá levar em consideração os resultados da análise do solo e o potencial produtivo do milho-pipoca, que geralmente é menor do que o milho normal. Considerando-se a irrigação como um complemento tecnológico para a obtenção de altas produtividades, o produtor, após a implantação da cultura do milho-pipoca, necessita ser orientado para obter o máximo rendimento e a melhor qualidade do produto. Essa orientação técnica em manejo de irrigação significa estabelecer lâminas de água a serem aplicadas e o momento adequado da aplicação.

A fase mais crítica à deficiência de água na cultura do milho-pipoca é a do florescimento, chegando a ter perdas de até 50% de rendimento de grãos, como acontece também no milho normal. No desenvolvimento vegetativo e enchimento de grãos, as perdas são menores.

Com a possibilidade da irrigação, um dos fatores que se pode levar em consideração é o atraso na semeadura para fazer com que a maturação e a colheita dos grãos ocorram num período mais seco ou menos chuvoso, para se obter uma boa qualidade dos grãos e, consequentemente, uma boa qualidade da pipoca.

Manejo de plantas daninhas

A lavoura de milho-pipoca deve permanecer no limpo entre 40 e 50 dias após a emergência para que a interferência das plantas invasoras não prejudique o desenvolvimento das plântulas, que são mais frágeis, refletindo no rendimento de grãos, cujo potencial genético de produção é menor que o do milho comum.

Existe no mercado uma série de herbicidas que podem ser utilizados no milho-pipoca com ótimos índices de controle da planta invasora. Mas é preciso ter o cuidado com alguns grupos de herbicidas que podem não ser os mais recomendados para milho-pipoca. Para isto é preciso da ajuda de especialista no manejo das plantas daninhas no momento de comprar o herbicida.

O produtor tem que ficar atento. Se o controle do mato não for feito na época certa, ou seja, até os 40 dias pelo menos, a perda da produção de grãos pode ser considerável, podendo, segundo dados de pesquisas, a chegar ao redor de 80% da produção.

Controle de pragas

Basicamente, as pragas são as mesmas que atacam o milho para a produção de grãos, assim como as medidas de controle. No caso do milho-pipoca, sempre que possível, deverá ser evitado o controle químico, dando preferência ao controle biológico ou cultural, como a rotação e a sucessão de culturas, espaçamentos e época de plantio.

O controle biológico de pragas é uma das alternativas para substituir ou reduzir o uso de produtos químicos quando se pretende obter produtos mais saudáveis e, consequentemente, um ambiente mais limpo. Na cultura do milho comum, por exemplo, o maior avanço em controle biológico está sendo no controle da lagarta-do-cartucho e da lagarta-da-espiga.

Como exemplo de controle biológico, tem-se a liberação das vespinhas que depositam seus ovos no interior dos ovos da lagarta, tornando-os inativos. Essas vespinhas (para uso em controle biológico) já existem em escala comercial de produção. Sugere-se que, quando se optar pelo controle químico, utilizar sempre os menos agressivos ao homem, ao meio ambiente e aos insetos benéficos, que ajudam no controle das lagartas.

De qualquer forma, é bom que o produtor, quando tiver problemas com ataques de pragas na sua lavoura de milho-pipoca, procure um técnico, com especialização no controle de insetos-praga para auxiliá-lo nas tomadas de decisões.

Colheita

O milho-pipoca atinge sua maturação fisiológica em um período de, aproximadamente, 100 a 110 dias após o plantio, quando se inicia a secagem da palha que recobre a espiga. A partir desse ponto, o produtor deve acompanhar diariamente a umidade dos grãos para determinação do ponto de colheita, que é feita quando os grãos estiverem entre 16% e 17% de umidade.

A colheita manual é indicada em áreas pequenas ou em lavouras com alta porcentagem de plantas acamadas e quebradas e quando há excesso de chuva nessa época, impedindo a colheita mecânica e causando alta incidência de podridão dos grãos.

Nesse tipo de colheita é conveniente proceder à seleção de espigas antes da debulha, separando as doentes e as atacadas por pragas. A colheita mecânica deve ser feita com colheitadeiras tipo axial, utilizando velocidade e regulagem que proporcionem menor dano aos grãos (velocidade e rotação mínima da colheitadeira).

Mesmos que os grãos não apresentem danos visíveis, a colheita mecânica pode causar perda de 10% a 20% na capacidade de expansão. Antes de utilizar a combinada deve-se proceder a uma boa limpeza para evitar mistura mecânica com milho ou outros tipos de grãos. Manter a cultura livre de plantas daninhas para obtenção de um produto limpo e sem a presença de sementes silvestres.

Processos de secagem rápida com altas temperaturas causam trincamento do endosperma, prejudicando sua qualidade e a capacidade de expansão da pipoca. Recomenda-se processos de secagem lenta, utilizando baixa temperatura ao redor de 35°C. Em locais de baixa umidade relativa, podem ser utilizados processos que envolvam apenas ventilação. Os grãos colhidos com umidade menor que 17% podem ser armazenados em silos aerados até atingir a umidade de 14%. Em seguida, deve-se armazená-los à sombra em local bem ventilado até completar a umidade que proporciona o máximo de qualidade da pipoca, ou seja entre 12,5 e 13,5%.

É bom salientar que cada cultivar tem uma umidade adequada para proporcionar uma boa qualidade de pipoca e, consequentemente, uma alta capacidade de expansão

O Brasil é o segundo maior consumidor de pipoca do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, que tem área plantada de 101,5 mil hectares e produção de aproximadamente 375,7 mil toneladas.

Em 2018, o Brasil produziu cerca de 260 mil toneladas, dos quais 220 mil foram consumidas internamente, o que movimentou US$ 628 milhões. Os dados revelam ainda que a região Sudeste é a que mais consome pipoca (56%), seguida das regiões Sul (16%), Nordeste (13%), Centro-Oeste (9%) e Norte (5%).