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quinta-feira, janeiro 27, 2022
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Mofo-branco – Todo cuidado é pouco na soja

Daniele Maria do Nascimentodonascimentodm@gmail.com

Tadeu Antônio Fernandes da Silva Júniortadeusilvajr@gmail.com

Engenheiros agrônomos e doutores em Agronomia/Proteção de Plantas – FCA/UNESP

Mofo-branco – Crédito: Daniel Cassetari

O Brasil é hoje o maior produtor mundial de soja e segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a estimativa de produção para a safra 2020/21 é de 135,9 milhões de toneladas (8,9% a mais que na safra anterior). Isso se deve principalmente ao aumento da área plantada e da produtividade, que atualmente está em torno de 3,52 t/ha.

Apesar do cenário animador, essa cultura está sujeita à ocorrência de diversas doenças, que podem vir a comprometer sua produtividade.

O mofo-branco, causado pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum, é uma das mais antigas doenças da soja, e já foi relatado na maioria das regiões produtoras no Brasil. A doença merece preocupação devido à expansão do cultivo da soja para as regiões altas do Cerrado, pois em anos de ocorrência de elevadas precipitações, o mofo-branco pode causar severas perdas em diversas dessas regiões.

Estima-se que os danos causados pela doença possam chegar a 70%. De modo geral, para cada 10% de incidência da doença em campo, a redução na produção pode variar entre 147 e 335 kg/ha.

Sintomas

Os primeiros sintomas do mofo-branco em plantas de soja são manchas aquosas com crescimento de hifas do fungo, com abundante formação de micélio cotonoso, de coloração branca.

Com o avanço da colonização do tecido vegetal pelo fungo, as lesões inicialmente aquosas tornam-se secas, de aspecto descolorido e normalmente esbranquiçadas, e não apresentam mais sinais externos.

Em poucos dias ocorre a formação de escleródios, uma massa negra e rígida, que é a estrutura de sobrevivência do fungo. Os escleródios possuem tamanho variado e são formados tanto na superfície externa quanto no interior de hastes e vagens infectadas pelo fungo.

S. sclerotiorum pode infectar qualquer parte da planta, porém, as infecções iniciam-se com maior frequência a partir das inflorescências, das axilas dos pecíolos e dos ramos laterais. Em geral, o processo de infecção começa na junção do pecíolo com a haste, cerca de 10 a 15 cm acima do solo, onde flores, pétalas e folhas senescidas se aderem.

Nas folhas, ocasionalmente podem ser observados sintomas de murcha e seca. A fase mais vulnerável da cultura vai do estádio da floração plena (R2) ao início da formação das vagens (R3/R4).

As sementes de soja infectadas por S. sclerotiorum apresentam tamanho reduzido, sem brilho, com descoloração, enrugamento e menor peso. Em muitos casos, não apresentam sintomas de infecção.

As sementes infectadas também podem apodrecer e não germinar, ocorrendo a formação de escleródios. As sementes que germinam podem dar origem a plantas de soja doentes ou então morrerem logo em seguida, caracterizando o sintoma de tombamento (damping-off).

Agente causal

O mofo-branco é uma doença monocíclica, onde o fungo apresenta apenas uma fase do seu ciclo de vida durante cada ciclo da cultura da soja. Por isso, em áreas onde o fungo está iniciando seu desenvolvimento, os sintomas iniciais do mofo-branco são observados em reboleiras.

As condições climáticas que favorecem o desenvolvimento do patógeno são temperaturas entre 20 e 30ºC e umidade relativa do ar superior a 75%.

O fungo sobrevive a maior parte de seu ciclo através dos escleródios, que são compostos por uma massa de hifas, geralmente arredondada, de consistência firme que favorece a sobrevivência do fungo no solo durante a entressafra.

O escleródio é composto por três camadas distintas: uma parede grossa rica em melanina, responsável pela sua coloração negra, e que confere resistência em condições adversas; uma parede fina denominada de córtex; e a medula branca, que é o micélio dormente do fungo. Os escleródios podem permanecer no solo por até 11 anos, conservando sua capacidade de causar doença à cultura.

Quando germinam, os escleródios podem dar origem a estruturas denominadas apotécios, responsáveis pela produção de novos esporos do fungo (ascósporos), ou micélio (germinação miceliogênica).

Os ascósporos são ejetados dos apotécios sobre pressão, alcançando várias partes das plantas de soja, e encontrando nas flores as melhores condições de colonização. A infecção se inicia, geralmente, nos nós de origem dos racemos, ou nos tecidos onde caírem as pétalas. A infecção de plantas adultas pela germinação dos micélios dos escleródios é pouco frequente.

Plantas hospedeiras

S. sclerotiorum possui uma ampla gama de hospedeiros, infectando mais de 400 espécies de plantas mono e dicotiledôneas, com destaque para amendoim, alface, algodão, canola, cebola, feijão, girassol, soja e tomate, e para as plantas daninhas carrapicho, picão, caruru, mentrasto e vassoura.

O nabo forrageiro, bastante utilizado em rotação de culturas no Sul do País (nabo/trigo/soja), é um desses hospedeiros que tem causado preocupações. Gramíneas como o trigo não são hospedeiras do patógeno, mas uma vez presente na lavoura, o fungo consegue sobreviver através dos escleródios até a semeadura da soja.

Esses escleródios também são encontrados com frequência em sementes não certificadas de nabo e em restos culturais. Inclusive, o patógeno vem sendo introduzido em novas áreas através dessas sementes. São necessárias vistorias constantes na lavoura, a fim de se detectar esses escleródios, e preparar-se para a possível ocorrência da doença na soja.

Disseminação

O patógeno é disseminado a longas distâncias por meio das sementes de plantas hospedeiras, misturadas com escleródios, ou com presença de micélio dormente nas sementes. A disseminação a curtas distâncias pode ocorrer pelo vento carregando esporos do fungo ou até escleródios mais leves presentes na superfície do solo, aderidos ao solo em máquinas e implementos agrícolas, e pela água da irrigação ou de chuvas.

Também podem ser colhidos e transportados para outras áreas por máquinas agrícolas ou misturados aos grãos, transportados a outras regiões.

Manejo

O controle preventivo é essencial no manejo do mofo-branco, pois, uma vez detectado nas lavouras, sua erradicação é quase impossível. O emprego de sementes sadias e certificadas é fundamental.

No entanto, os testes de sanidade, que garantem a ausência do patógeno nas sementes, não são um parâmetro obrigatório para sua comercialização, logo, sementes certificadas não são garantia de que estejam livres do fungo. Para tanto, o produtor deve se atentar à sanidade do lote adquirido, bem como realizar o tratamento das sementes com fungicidas.

Em lavouras em que a doença já esteja ocorrendo, é importante realizar a sucessão/rotação com culturas não hospedeiras, como a aveia branca, braquiária, milheto, milho, sorgo e trigo. O plantio direto sobre a palhada de gramíneas também contribui para o controle da doença, uma vez que a palhada atua como uma barreira física, impedindo que os apotécios recebam luz e iniciem sua germinação.

Plantas daninhas, por serem hospedeiras alternativas do patógeno, devem ser eliminadas da lavoura. Outras práticas agrícolas, como aumento do espaçamento entrelinhas, reduzindo a população de plantas ao mínimo recomendado, e emprego de cultivares com boa arquitetura, de modo que favoreça a areação entre plantas, irão contribuir para um microclima que desfavoreça o desenvolvimento do fungo.

A limpeza de máquinas e equipamentos agrícolas também deve ser realizada todas as vezes, principalmente se o maquinário transitar por uma lavoura infestada, correndo risco de carregar e disseminar escleródios para as demais áreas.

Controle químico e biológico

O controle químico do mofo-branco deve ser realizado com produtos registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), especialmente em áreas com histórico de ocorrência da doença ou preventivamente, antes de aparecerem os primeiros sintomas.

Atualmente, 54 produtos estão registrados para uso na cultura da soja, pertencentes aos seguintes grupos químicos: anilinopirimidina, acilalaninato, anilida, amônio quaternário, benzimidazol, benzamida, benzoiluréia, carboxamida, carboxanilidas, dicarboximida, dimetilditiocarbamato, estrobilurina, fenacilamida, fenilpiridinilamina, fenilpirrol, pirazol e triazolinthione.

O ingrediente ativo fenpirazamin (pirazol) foi registrado este ano, sendo inédito no Brasil. Instruções de uso como doses, época e intervalos de aplicações podem ser consultados no AGROFIT – Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários.

De modo geral, as aplicações são realizadas no início do florescimento (estádio R1), com intervalos de 10 a 14 dias, de acordo com o índice de infecção, podendo-se realizar até três aplicações durante o ciclo da cultura. A cobertura deve abranger principalmente as partes mais baixas das plantas, onde tem início as infecções.

Embora essa seja a principal ferramenta para o controle do mofo-branco, o uso contínuo de produtos com o mesmo modo de ação pode torná-los menos efetivos ao longo do tempo, devido ao desenvolvimento de resistência pelo patógeno. Desse modo, deve-se intercalar as aplicações com fungicidas de grupos químicos diferentes.

Outros métodos de controle também devem ser incorporados ao manejo desta doença, como o biológico. A adoção dos biodenfesivos vem crescendo no mercado brasileiro, e já se encontram registrados junto ao MAPA pelo menos 32 produtos biológicos microbiológicos para o manejo do mofo-branco, com destaque para as bactérias Bacillus amyloliquefaciens e B. subitilis; e os fungos Trichoderma asperellum, T. harzianum e T. asperellum.


Semente de qualidade é o diferencial

O manejo do mofo-branco na soja tem início na seleção das sementes para plantio, que devem ser, além de certificadas, com qualidade sanitária comprovada. Atenção também deve ser dada às sementes de outras culturas usadas em rotação, como o nabo forrageiro e a canola, que podem conter os escleródios.

As medidas de controle cultural, químico e biológico devem ser empregadas em conjunto, nunca isoladamente, e o mercado conta hoje com diversos produtos registrados, com destaque para os agentes de biocontrole.

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