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sexta-feira, agosto 12, 2022
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Nematoides causam redução de 70% na produtividade da soja?

Autores

José Celson Braga Fernandes
Mestre em Energias Renováveis e Biocombustíveis e Doutorando em Biocombustíveis – UFU/UFVJM, e fundador da Agro+
celsonbraga@yahoo.com.br
Maria Idaline Pessoa Cavalcanti
Mestra em Ciências Agrárias e doutoranda em Ciência do Solo – Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
idalinepessoa@hotmail.com
Flávia Regina Nascimento Toledo
Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre e professora do Centro Universitário UNA Uberlândia
Crédito: Embrapa Soja

A soja é a mais importante oleaginosa cultivada no mundo. No entanto, para atingir altos índices produtivos é necessário o manejo correto de uma série de pragas e doenças que afetam a cultura. Atualmente, o Brasil é o segundo maior produtor de soja, atrás apenas dos Estados Unidos.

Estima-se que para a safra de 2019/20 o Brasil atingirá uma produção de 245,6 milhões de toneladas. Com uma agricultura de alta competitividade, essa cultura, que tem um caráter econômico agrícola muito importante para nosso País, tem levado os produtores a buscar opções que aumentem a eficiência produtiva.

Logo, essa cultura tem apresentado inúmeros fatores que têm agravado a produção de soja, entre os quais os nematoides, microrganismos que estão presentes no solo e que podem afetar de forma negativa a produção.

Entre os danos causados pelos nematoides estão o baixo vigor e pouco desenvolvimento da parte aérea, podendo ocorrer clorose das folhas, que consequentemente afetará todo o desenvolvimento da planta, reduzindo a sua produtividade.

Na cultura da soja, as principais espécies são o nematoide de galha (Meloydogine incognita e Meloydogine javanica), o nematoide das lesões radiculares (Pratylenchus brachyurus) e, ainda, o nematoide de cisto da soja (Heterodera glycines) (Pionner, 2019).

Planejamento é fundamental

Assim como toda cultura agrícola, a produtividade estimada é um objetivo desejado pelo produtor. Portanto, para ter sucesso nessa cultura o planejamento deve ser elaborado, em que se espera do produtor estar preparado para eventuais acontecimentos, entre os quais está o surgimento de nematoides, que pode ocasionar uma diminuição significativa na produção, interferindo diretamente no desenvolvimento da cultura.

Logo, além da redução da produtividade da soja tem-se a contaminação do solo pelo desenvolvimento desses microrganismos, que podem vir a afetar outras culturas agrícolas.

Sintomas

Fitonematoides são organismos vermiformes e microscópicos que habitam o solo e retiram os nutrientes necessários para o desenvolvimento e reprodução das células dos vegetais, geralmente das raízes, causando danos severos às plantas hospedeiras.

Estes microrganismos atacam as raízes das plantas, e sem uma análise do solo torna-se difícil da sua identificação prévia. Após atacada pelos nematoides, a parte área da soja apresenta alguns sintomas que, na maioria das vezes, são facilmente confundidos com outras causas, entre elas, deficiência de nutrientes, ataque de pragas e doenças, estiagem e compactação de solo.

Portanto, os principais sintomas consistem em reboleiras de plantas com tamanho reduzido e amarelecimento. Além de causarem danos diversos às plantas parasitadas, os nematoides participam de complexos de doenças de diferentes modos: criação de portas de entrada para outros patógenos; modificação da rizosfera, favorecendo o crescimento de outros patógenos; atuação como vetores de viroses, bactérias e fungos; e alteração da suscetibilidade do hospedeiro a outros patógenos por meio da indução de alterações fisiológicas no hospedeiro (Bergson, 1971).

Regiões mais afetadas

 Ao longo dos últimos anos, os nematoides se tornaram motivo de enorme preocupação para os agricultores brasileiros. Com ampla distribuição geográfica, estes ocorrem em praticamente todas as regiões de importância agrícola do País.

Pode-se considerar que os fatores que mais influenciam a ação dos nematoides são solo, clima e tipo de manejo. Segundo Kimenju et al. (2009), a distribuição dos nematoides depende das características do solo no qual habitam e que permite a orientação, movimentação e reprodução dos mesmos.

A maior densidade populacional de nematoides se concentra na camada superficial do solo, na qual se encontram as primeiras camadas do sistema radicular, o que também pode estar associado à compactação das camadas mais profundas (Ribeiro et al., 2009 e Vicente, 2011).

A densidade populacional de nematoides, ainda segundo Vicente (2011), está diretamente relacionada à quantidade de matéria orgânica no solo, uma vez que esta fornece maior mobilidade e oxigenação para esses organismos.

Quanto ao clima, os nematoides sobrevivem melhor em regiões com temperatura de solo acima de 28°C, sendo mais nocivos em regiões com verão longo e inverno mais ou menos curto. Porém, há ocorrência destes organismos em regiões de clima bem diverso, por exemplo, Meloidogyne hapla é mais encontrado em clima ameno e tolera temperatura de solo abaixo de 12ºC, enquanto M. incognita e M. javanica são mais cosmopolitas e bem adaptados às diferentes condições climáticas brasileiras (Embrapa Hortaliças, 2006).

Enfim, o manejo agrícola que se baseia em um número reduzido de culturas anuais, cultivadas em áreas extensas por anos consecutivos, com tráfego de máquinas intenso e implementos constitui-se em fator de seleção e dispersão, bem como aumento das populações de nematoides.

Formas de controle

O manejo destes patógenos é bastante complexo e medidas isoladas não surtem efeito satisfatório. O primeiro método indicado é a escolha de áreas indenes, porém, é quase impossível encontrar no Brasil áreas agrícolas onde não ocorra pelo menos uma das espécies de grande importância.

Ainda assim, é importante que o produtor tome alguns cuidados básicos para evitar a entrada de diferentes espécies ou raças de nematoides, como aquisição de sementes de boa qualidade, realização de limpeza periódica de máquinas e implementos, principalmente quando estes vêm de outras áreas, cuidados com os tratos culturais, entre outros.

No caso da ocorrência em reboleiras, recomenda-se que esta seja isolada e trabalhada separadamente do restante da área, especialmente nas grandes propriedades, o que pode reduzir o custo com o manejo e tornar possível o uso de algumas práticas para redução do nematoide (Grupo Cultivar, 2019).

Além destas estratégias de controle, é importante também sempre seguir as seguintes estratégias complementares: rotação de culturas; utilização de tratamento de sementes com nematicidas; eliminação de camadas compactadas; melhoria do equilíbrio do pH no perfil do solo; manutenção de bons níveis de potássio; e aumento nos teores de matéria orgânica (coberturas verdes).

Antagonistas, entre elas as plantas armadilhas, devem ser preferidas. Isso porque o nematoide consegue penetrar o sistema radicular, porém, não é capaz de completar seu ciclo de desenvolvimento. Já no caso de hospedeiras desfavoráveis, há penetração do sistema radicular, porém, poucos nematoides se desenvolvem; e aquelas que contêm compostos nematicidas/nematostáticos em seus tecidos.

Logo, a adoção dessas práticas aliadas a um manejo correto visa a redução populacional desses parasitos, com benefícios incontestáveis.

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