Nutrição foliar: Desenvolvimento acelerado do algodoeiro

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Autores

Sarah Maysa Perim Silva
saraahpe@gmail.com
Arthur Felipe Eustáquio e Silva
arthurestaqui22@gmail.com
Graduandos em Agronomia – Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
Roberta Camargos de Oliveira
Engenheira agrônoma, pós-doutoranda – Universidade Federal de Uberlândia (ICIAG-UFU)
robertacamargoss@gmail.com
Fernando Simoni Bacilieri
Engenheiro agrônomo e doutor em Produção Vegetal – UFU
ferbacilieri@zipmail.com.br
Crédito: Shutterstock

O algodoeiro (Gossypium spp.) é uma cultura de grande importância econômica para o Brasil, que atualmente é o quarto maior produtor mundial. Além da fibra, o caroço também é utilizado na fabricação de ração e para extração de óleo. Na safra 2019 o País produziu cerca de 5,6 milhões de toneladas, um grande marco em produtividade (IBGE, 2019).

Para produzir cada vez mais, com maior qualidade de fibra, a cadeia produtiva do algodoeiro precisa investir em alternativas que otimizem ao máximo a produção, e uma maneira de fazer isso é realizando um adequado manejo nutricional.

A adubação no algodoeiro tende a padronizar o ciclo e o tamanho das plantas, aumentar o peso dos capulhos e melhorar determinadas qualidades da fibra.

Nutrição equilibrada

Os nutrientes essenciais às plantas desempenham funções específicas no seu metabolismo. Nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca), magnésio (Mg) e enxofre (S), por serem requeridos em grandes quantidades (kg ha-1), são conhecidos como macronutrientes.

Já boro (B), cobre (Cu), ferro (Fe), manganês (Mn), zinco (Zn), molibdênio (Mo), e níquel (Ni) são requeridos em pequenas quantidades (g ha-1), logo, denominados de micronutrientes.

Entre os nutrientes utilizados na cultura do algodoeiro, o N é o mais absorvido e exportado, pois compõe a molécula da clorofila e, além disso, participa da expansão foliar e, desse modo, a sua presença está diretamente ligada à habilidade fotossintética da planta.

A deficiência de N pode alterar a atividade enzimática da rubisco e a fotossíntese líquida, afetar o índice de área foliar e a quantidade e qualidade de energia solar absorvida pelas folhas. Dessa forma, esse nutriente deve ser corretamente manejado para evitar deficiências e impactos na produtividade.

Outro elemento vital para o desenvolvimento do algodoeiro é o K. Por ser ativador de reações enzimáticas, a sua presença no ciclo do algodão é fundamental para o funcionamento do seu metabolismo. Adicionalmente, o K tem papel importante na quantidade e qualidade da fibra produzida, visto que é ele que conserva o potencial osmótico e a absorção de água no decorrer da formação da fibra, tendo influência direta na formação de capulhos.

Boro

O boro (B) é um micronutriente indispensável na adubação, entre as suas importantes funções na planta se destaca a sua participação nos processos de transporte de açúcares e na composição da parede celular.

Contudo, o B é um elemento com comportamento imóvel na planta e Santos, Cerutti e Wille (2019) observaram que o seu uso na adubação foliar na cultura da soja no estádio reprodutivo proporcionou uma maior massa de mil grãos. Possivelmente esses resultados se devam ao comportamento do B na planta e o período reprodutivo ser de alta demanda deste nutriente pelas plantas.

Os bons resultados no cultivo do algodão, em parte estão relacionados a um adequado manejo de adubação, principalmente de N e K. Uma maneira de potencializar a utilização desses nutrientes é o uso de adubação foliar complementar, que tem mostrado ser uma alternativa passível de amenizar problemas de deficiência nutricional durante o desenvolvimento da cultura.

Via folha

A adubação foliar é uma técnica de manejo nutricional das plantas, utilizada complementarmente à adubação via solo, especialmente nos períodos do ciclo em que há uma maior exigência de nutrientes pela cultura, auxiliando na chegada ao equilíbrio nutricional.

A grande vantagem está na sua capacidade de promover uma rápida correção da deficiência, e mais que isso, a adubação foliar é um mecanismo de baixo custo, de menor potencial para fitotoxicidade e ainda pode ser combinada às pulverizações de alguns defensivos agrícolas, otimizando assim a atividade.

Bons resultados podem ser obtidos pela adubação foliar quando se consegue aplicar o nutriente necessário no local adequado, na época certa, na quantidade correta e ainda se dispuser de tempo suficiente para a absorção.

Para a tomada de decisão de aplicar nutrientes via adubação foliar, a análise de folhas é uma ferramenta muito importante na avaliação do estado nutricional da planta, uma vez que elas representam o principal compartimento da planta relacionado ao seu potencial produtivo e complementa as informações obtidas pela análise do solo.

A adubação foliar na cultura algodoeira é uma prática que pode ser facilmente executada, pois o manejo do algodão exige uma grande quantidade de entradas na lavoura para pulverização de fitossanitários, o que oferece a oportunidade de combinar a atividade de controle de pragas com a aplicação de nutrientes em uma só operação.

Complemento nutricional

A complementação ao manejo nutricional convencional deve ser ponderada, quando se leva em consideração o nível de exportação pelo algodão de determinados nutrientes. A exemplo do K, que pode chegar a uma taxa de retirada de 5,6 kg ha dia-1 durante o florescimento e a frutificação, em algumas circunstâncias a quantidade disponível no solo não consegue atender o aumento da demanda comum durante o pico de florescimento. Caso isso aconteça, as plantas podem apresentar sintomas de deficiência tardia.

Baseado nisso, Rosolem e Witacker (2007) desenvolveram um estudo com adubação foliar de nitrato de potássio (KNO3) no algodão a partir da primeira semana do florescimento. Contudo, os tratamentos que tiveram a aplicação da adubação recomendada via solo na semeadura e cobertura não apresentaram modificações no parâmetro de produção com o incremento da aplicação de KNO3 via pulverização a uma dose de 8 kg ha-1.

Apesar disso, a adubação foliar foi responsável por aumentar o nível de K nas folhas das plantas que estavam com deficiência.

Alerta

Existem alguns fatores que interferem na eficiência da adubação foliar, basicamente por influenciarem na qualidade da absorção dos nutrientes. Esses fatores podem ser inerentes às folhas, como a arquitetura foliar, a quantidade de ceras e o estádio fenológico.

Podem ser externos à planta, como quantidade de luz, que interfere na translocação dos nutrientes, disponibilidade de água no solo, temperatura e vento. O bom resultado da adubação foliar ainda é dependente de condições intrínsecas aos nutrientes, como a mobilidade dos mesmos, principalmente.

 Dado o exposto, para alcançar um bom resultado na adubação foliar é importante combinar as informações sobre o comportamento do nutriente e o estádio fenológico da cultura. O B é um micronutriente bastante exigido pelo algodoeiro, e como a sua principal fonte é a matéria orgânica, é comum os solos cultivados terem uma escassez desse nutriente.

A disponibilidade de B pode diminuir consideravelmente a produção do algodão devido ao abortamento das estruturas reprodutivas, por isso, é importante considerar uma complementação nutricional com o B desde o estádio vegetativo.

Resultado semelhante foi observado com o uso de N via adubação foliar, em que o estádio mais adequado para aplicação também foi o vegetativo. Apesar de a fase do florescimento ser o período de maior demanda de nutrientes, inclusive de N, é nessa fase também que o crescimento da parte área e o sistema radicular se maximizam, fazendo com que haja uma maior absorção radicular do que foliar.

Além de conhecer o estádio fenológico mais favorável para a prática e o comportamento de cada nutriente na planta, para alcançar bons resultados na adubação foliar é necessário tomar alguns cuidados em relação ao manejo, para evitar principalmente as perdas. Esses cuidados incluem a escolha da ponta de pulverização, a possibilidade de usar um adjuvante e a decisão sobre a melhor condição ambiental para aplicação.

O sucesso da adubação foliar extrapola condições inerentes à planta e ao nutriente, e muitas vezes o manejo inadequado é que o mais limita o desempenho da nutrição complementar via foliar.

Opções

Os produtos usados na adubação foliar podem ser simples (contêm apenas um elemento principal, macro ou micronutriente) ou produtos mistos (contêm dois ou mais nutrientes, que podem ser macro ou micro). Podem ser encontrados no comércio no estado sólido ou líquido, que são dissolvidos ou diluídos em água, preparando-se a solução na concentração desejada.

Atualmente, existe no mercado uma grande diversidade de produtos com nutrientes, quelatizantes, bioestimulantes e biofertilizantes que possuem na formulação tecnologias capazes de melhorar a eficiência da utilização dos nutrientes para adubação foliar.

 A adubação foliar como ferramenta de nutrição complementar na cultura do algodoeiro é uma prática viável, comprovada por estudos que demonstraram que a aplicação de nutrientes nas folhas colaboraram para o equilíbrio nutricional.

Contudo, os agricultores devem dar preferência a empresas idôneas que posicionam tecnicamente os produtos e que também auxiliem no monitoramento do status nutricional da cultura para evitar aplicações desnecessárias que não agregam qualidade ou produtividade.