O futuro dos cultivos sustentáveis

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Ana Claudia Costa
anaclaudia.costa@ufla.br
Leila Aparecida Salles Pio
leila.pio@ufla.br
Professoras do curso de Agronomia, Universidade Federal de Lavras (UFLA
)

A busca pela sustentabilidade é fundamental em todos os setores e tem sido um dos temas mais relevantes para o agronegócio brasileiro. A utilização de práticas que promovam a biodiversidade e os processos biológicos naturais permite o desenvolvimento da agropecuária sustentável, produtiva e ambientalmente equilibrada.
Tanto na agricultura quanto na pecuária, o uso de insumos biológicos (ou bioinsumos) é uma estratégia importante para impulsionar a sustentabilidade sem reduzir a produção e competitividade do negócio. Assim, o interesse por esses produtos tem se tornado cada vez maior e deve garantir ao Brasil a liderança mundial no setor.
De acordo com a CropLife Brasil, o mercado de bioinsumos movimentou, em 2019, cerca de R$ 657 milhões em biodefensivos, sendo que, atualmente, mais de 10 milhões de ha no país já são tratados com produtos biológicos e 40 milhões já são cultivados com bactérias promotoras de crescimento (MAPA, 2020).
Os bioinsumos são produtos feitos a partir de microrganismos, materiais vegetais, orgânicos ou naturais e utilizados nos sistemas agrícolas para controlar pragas e doenças e/ou melhorar a fertilidade do solo e a disponibilidade de nutrientes para as plantas.
Esse tipo de insumo reduz os impactos ambientais em comparação com os agroquímicos comuns, por apresentar baixa toxicidade e ser biodegradável.

Mitos e verdades

Ainda existe um certo receio quanto aos bioinsumos por parte de alguns produtores (agricultores e pecuaristas). No entanto, a busca por produtos mais sustentáveis restabeleceu o interesse pelos bioinsumos, o que resultou em incentivo e investimentos na sua inovação, posicionando os produtos naturais como tecnologias de ponta e tão eficientes como qualquer outro produto do mercado.
Esses produtos proporcionam melhor crescimento, desenvolvimento e mecanismos de respostas no metabolismo dos animais, plantas e microrganismos. Na horticultura, os bioinsumos destacam-se especialmente por favorecerem o gerenciamento solo-planta.
Há conceitos importantes que estão atrelados com as multifuncionalidades dos bioinsumos e, dentro deles, podemos dividir em quatro pilares, que são: proteção, ativação, potencialização da produtividade e regeneração do solo.
A proteção multifuncional pode ser definida como a aplicação de vários microrganismos para que os patógenos não alcancem estruturas vitais das plantas, criando assim uma barreira biológica. Dessa forma, as caldas de aplicação requerem atenção, sendo que os adjuvantes podem melhorar ainda mais a eficiência, tanto no controle de fitopatógenos quanto em nutrição.
Somado a estes itens estão o MIP e o MID, ou seja, o manejo integrado de pragas e doenças, que devem ser retomados, favorecendo a ação dos agentes de biocontrole.
Já a potencialização e ativação da produtividade buscam fornecer nutrientes e estímulos de forma inteligente, maximizando o aproveitamento de ambos na absorção e metabolização da planta. A utilização de bioestimulantes, de forma integrada, é uma das formas de realizar a potencialização de produção, pois eles agem como ativadores metabólicos.

Solo em equilíbrio

A regeneração do solo é essencial, afinal, a sustentabilidade da produção está na vida e atividade do solo. Assim, os produtos que visam incrementar e estimular a biota benéfica dos solos, incluindo os bionematicidas, biofungicidas, condicionadores e nutrição, favorecem a vida do solo.
Esse processo combina produtos e microrganismos, buscando mais efetividade na produção como um todo, podendo oferecer produtos diferenciados para cada cultura, atuando nas raízes, solo e planta.
Os bioinsumos ajudam, ainda, a aumentar a produtividade, mantendo a segurança alimentar, o que agrega valor ao produto final. A redução de custos com aplicações intensivas de defensivos e fertilizantes também reflete diretamente na rentabilidade e na margem de lucro da lavoura. E a aplicação pode ser feita inclusive por drones, facilitando e barateando o processo.

Opções

Dentre os bioinsumos, destacam-se:
• Agentes biológicos de controle: organismos vivos que promovem o controle das pragas de maneira natural na função de inimigos naturais;
• Bioestimulantes: produtos feitos a partir de substâncias naturais que podem ser aplicados nas sementes, solo ou plantas para melhorar o desempenho, germinação, desenvolvimento das raízes e demais processos fisiológicos das plantas;
• Biofertilizantes: produto composto por componentes ativos ou substâncias orgânicas animais, vegetais ou microbióticas, que atuam aumentando a produtividade e a qualidade das plantas;
• Condicionadores biológicos de ambientes: substâncias que melhoram a atividade microbiológica dos ambientes de produção;
• Inoculantes biológicos: uso de microrganismos com foco na intensificação do processo natural de fixação biológica de nitrogênio e outras características benéficas para o desenvolvimento das plantas.

Programas e incentivos

Devido ao aumento da demanda por esses produtos, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) tem desenvolvido medidas para fortalecer o setor de bioinsumos.
Uma delas é o Programa Nacional de Bioinsumos (PNB) criado pelo decreto n° 10.375 de 26 de maio de 2020, que descreve conceitos e discorre sobre a utilização desse tipo de produto no setor.
Os bioinsumos, de acordo com o referido decreto, são definidos como qualquer produto, processo ou tecnologia de origem vegetal, animal ou microbiana destinado ao uso na produção, no armazenamento e no beneficiamento de produtos agropecuários, abrangendo os sistemas de produção agrícola, pecuária, aquícola e florestas.
O programa objetiva melhorar a oferta e o acesso a insumos biológicos, oferecer suporte técnico e fomentar pesquisas sobre a implantação desse manejo nas lavouras. Além disso, o programa foi criado para estruturar o desenvolvimento e a regularização de produtos de origem biológica, assim como incentivar a adoção e uso correto desses produtos.
Em parceria com o governo, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) dispõe de pesquisadores que atuam no controle biológico de pragas e no desenvolvimento de inoculantes para a fertilização do solo.

Estratégia

A utilização de bioinsumos como uma nova estratégia de manejo da agricultura reduz a dependência por insumos químicos. Dessa forma, abre-se um mercado cada vez mais significativo para que mais empresas atuem no desenvolvimento desse modelo de agricultura, criando mecanismos e sistemas produtivos sustentáveis e que seguramente trará benefícios para toda a sociedade.