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quinta-feira, janeiro 20, 2022
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Óleos essenciais e biológicos

Alternativas no controle de pragas e doenças do tomateiro

Alguns estudos apontam que o cravo da índia e a erva cidreira, além do hidróxido de cobre, nas concentrações 100 e 10%, inibem o crescimento de Xanthomonas spp. Os extratos à base de aroeirinha e assa-peixe são eficientes no controle de mancha de alternaria.

Herika Paula PessoaEngenheira agrônoma, doutoranda em Fitotecnia e professora – Universidade Federal de Viçosa (UFV)herika.paula@ufv.br

Manoel Nelson de Castro FilhoEngenheiro agrônomo e doutorando em Fitotecnia – UFVmanoel.nelson@ufv.br

Mariane Gonçalves Ferreira CopatiEngenheira agrônoma e doutora em Fitotecnia – UFVmarianegonferreira@gmail.com

Pragas – Crédito: Shutterstock

A cultura do tomateiro é extremamente suscetível ao ataque de pragas e o controle químico muitas vezes é adotado como único método pelos tomaticultores. O uso indiscriminado de inseticidas resulta em inúmeros problemas, como resistência de pragas aos produtos químicos, aparecimento de pragas secundárias, ressurgência de pragas pela destruição de seus inimigos naturais, efeitos adversos em insetos benéficos, efeitos tóxicos ao homem e em animais e efeitos negativos ao meio ambiente.

A fim de reverter esse cenário e motivados pela atual demanda de hortaliças para consumo in natura sem resíduos de agrotóxicos, o controle biológico de pragas do tomateiro tem se firmado como metodologia auxiliar ao controle químico.

Problema x solução

A traça-do-tomateiro, broca-pequena-do-fruto e os insetos vetores (tripes e mosca-branca) figuram entre as principais pragas para a cultura do tomateiro. O controle dessas pragas na lavoura é desafiador, e muitas vezes o controle químico isolado não é suficiente para reduzir a população dos insetos-praga.

Manejo integrado de pragas

Nesse contexto, o controle biológico tem se fixado como excelente auxiliar ao controle químico para o manejo integrado de pragas.

A traça-do-tomateiro (tuta absoluta), inseto minador que danifica significativamente as folhas, botões terminais, flores e frutos do tomateiro, causando reduções significativas no rendimento da planta é, atualmente, uma das principais pragas da tomaticultura e um dos principais desafios para o tomaticultor.

O controle químico isolado parece não ser suficiente para manejar as populações dessa praga na lavoura. Contudo, a utilização de inimigos naturais, como nematoides entomopatogênicos (Steinernema carpocapsae, Steinernema feltiae e Heterorhabditis bacteriophora), fungo (Metarhizium anisopliae var. anisopliae) e microvespa (Trichogramma pretiosum) tem apresentado excelentes resultados no controle dessa praga em seus estágios iniciais.

A broca-pequena-do-fruto (Neoleucinodes elegantalis) também é uma praga importante para a tomaticultura. Os adultos ovipositam no cálice ou sépalas, e após a eclosão ocorre a penetração das lagartas no interior dos frutos, provocando danos significativos e reduzindo drasticamente a produtividade.

Assim como a traça, o controle químico isolado muitas vezes não é suficiente para manejar a população de broca-pequena-do-fruto nas lavouras. Vários produtores relatam que o uso do parasitoide de ovos Trichogramma pretiosum e a aplicação do microrganismo Bacillus thuringiensis auxiliam de forma significativa no controle dessa praga no campo.

Os tripes (Thrips tabaci, T. palmi e Franklinelia occidentalis) e a mosca-branca (Bemisia tabaci) também são pragas importantes para a cultura. Esses insetos, além dos danos diretos às plantas, também atuam como vetores de vírus, os quais limitam ou inviabilizam a produção, e por isso o seu manejo em lavouras de tomate é essencial.

Para o controle biológico das espécies de tripes, liberações inundativas de percevejos predadores do gênero Orius têm demonstrado ser eficientes. Para a mosca-branca, existem relatos de eficiência de controle utilizando o fungo entomopatogênico Beauveria bassiana.

Alternativa

Com exceção dos sistemas de produção orgânicos, em que os métodos de controle químico não são permitidos, o controle biológico é utilizado principalmente como método auxiliar.

Ele é parte fundamental do manejo integrado de pragas, e no contexto da tomaticultura, sua utilização minimiza os impactos ao ambiente, elimina os problemas de contaminação do alimento e pode também reduzir os custos de produção da cultura, racionalizando o uso de agrotóxicos, evitando o desenvolvimento de resistência de insetos e ácaros aos inseticidas e o surgimento de novas pragas, antes secundárias.

Esta prática, além de favorecer os organismos inseridos no ecossistema lavoura, pode ajudar significativamente na atração e multiplicação de outros inimigos naturais. Dessa forma, a utilização do controle biológico na produção de tomate pode ter efeitos diretos sobre a produtividade por aumentar a eficiência do manejo de pragas na lavoura.

As estratégias de controle biológico devem estar associadas a outras estratégias, como o cultural e monitoramento da praga para determinar a época exata de controle efetivo. Essas estratégias deveriam ser utilizadas em conjunto em qualquer situação para garantir a eficiência de todos os produtos utilizados no manejo de pragas da cultura, reduzir os impactos ambientais negativos causados pelos agrotóxicos e os custos de controle.

Importância do monitoramento

Resultados positivos no controle de pragas e doenças, no manejo biológico e alternativo do tomateiro têm sido alcançados devido, em grande parte, ao correto monitoramento de pragas, pois dessa forma o produtor sabe a hora exata de realizar a liberação do parasitoide ou aplicar o biopesticida.

Pesquisas relatam a eficácia no monitoramento de algumas pragas pelo uso de armadilhas coloridas e de feromônios. As armadilhas coloridas atraem principalmente insetos sugadores, como por exemplo as armadilhas amarelas, quem atraem moscas-brancas, algumas espécies de tripes e pulgões, e a armadilha azul, que atrai alguns grupos específicos de tripes.

Entretanto, para uma boa eficiência no monitoramento utilizando armadilhas coloridas, essas devem ser instaladas espalhadas em toda a área de cultivo, sendo recomendado um mínimo de 20 armadilhas por cultivo, sendo 80% alocadas nas bordas da área.

As armadilhas de feromônios, além de atuarem no monitoramento, reduzem a população de pragas, pois atraem as mariposas macho, reduzindo assim o acasalamento e, consequentemente, a proliferação da praga.

Para esse tipo de armadilha, é recomendada a instalação de no mínimo duas armadilhas por hectare, sendo uma na borda e outra no interior.

Objetivo

O monitoramento pelo uso de armadilhas é direcionado a ataques de insetos. Entretanto, esse não deve ser a única forma de monitoramento. O tomateiro é uma planta rica em água, nutrientes e apresenta estrutura tenra, o que favorece o ataque de pragas e doenças.

Dessa forma, o monitoramento visual das plantas, por um profissional, torna-se fundamental, principalmente para identificação de doenças, vírus e ataques de nematoides.

Para controle dos nematoides, por exemplo, as bactérias do gênero Bacillus são muito eficientes, atuando na fitoproteção por meio da produção de toxinas que interferem no ciclo reprodutivo dos nematoides no solo.

Além disso, resultados positivos têm sido observados com a associação de produtos biológicos, a exemplo de Bacillus e Trichoderma, com resíduos orgânicos, como cama de frango, cascas de café e outros. Isso ocorre devido à liberação de substâncias tóxicas dos resíduos orgânicos, durante o processo de decomposição, associados à ação patogênica dos microrganismos citados.

Inimigos naturais

Além do uso de Bacillus e Trichoderma, o uso de inimigos naturais (parasitoides, predadores e patógenos) é prática-chave no manejo integrado de pragas, e tem possibilitado a redução de químicos nos cultivos.

Percevejos predados (Orius insidiosus), por exemplo, têm sido utilizados para controle de tripes no cultivo protegido de tomate. Ácaros predadores da espécie Neoseiulus californicu têm sido utilizados para controle de ácaro rajado (Tetranychus urticae), sendo observado, em alguns casos, controle de mais de 90% da população do ácaro-praga.

Para controle da traça-do-tomateiro (Tuta absoluta), bem como da broca-pequena-do-tomateiro e da broca-grande-do-tomateiro, têm sido utilizados parasitoides do gênero Trichogramma. Em liberações inundativas, o T. pretiosum, por exemplo, tem demonstrado grande eficiência, com valores variáveis de parasitismo, que em alguns casos ultrapassam os 80%.

Novidade

Apesar de ainda estar em fase de estudos, uma alternativa que tem alcançado resultados satisfatórios no controle de traça-do-tomateiro e mosca-branca, a nível de pesquisa, é a liberação do percevejo predador mirídeo (Macrolophus basicornis).

Calda bordalesa e óleos essenciais

Além do controle alternativo e biológico de pragas, o controle alternativo de doenças é fundamental. A calda bordalesa, por exemplo, ainda hoje é considerada um dos tratamentos alternativos mais eficientes no controle da requeima.

A calda bordalesa tem alta aderência, o que contribui com o controle de epidemias, principalmente em regiões úmidas e sujeitas a chuvas frequentes. Além da calda bordalesa, o óleo de neem também tem se mostrado promissor para essa finalidade.

Outras fontes alternativas de controle de algumas doenças são os óleos essenciais. Os extratos vegetais podem apresentar potencial inseticida, fungicida, herbicida e nematicida, sendo considerados de boa eficiência.

Alguns estudos apontam que o cravo da índia e a erva cidreira, além do hidróxido de cobre, nas concentrações 100 e 10%, inibem o crescimento de Xanthomonas spp. O cravo da índia, quando aplicado no tomateiro, promove aumento da síntese de enzimas peroxidase, quitinase e glucanase e a lignificação da parede celular, indicando a ativação do mecanismo de defesa da planta.

Pinta-preta

A pinta-preta, também conhecida como “mancha de alternaria”, é causada pelo fungo Alternaria solani e é uma das principais doenças do tomateiro que ocorre em todas as regiões produtoras do Brasil. Resultado positivo do controle de mancha de alternaria (Alternaria solani) foi observado aplicando-se extratos à base de aroeirinha e assa-peixe.


Erros fatais

Muitos produtores, por falta de conhecimento, mesmo utilizando o controle biológico, acabam utilizando também produtos químicos demasiadamente, o que provoca a morte dos inimigos naturais.

Outro erro frequente é a utilização de inimigos naturais não adaptados às condições climáticas locais, o que dificulta o sucesso do controle biológico, principalmente para o controle biológico clássico e o aumentativo, com liberação inundativa sazonal.

Em relação à utilização de calda bordalesa, um erro frequente está relacionado à dosagem e frequência de aplicação, em que, se utilizado de forma intensa, provoca fitotoxidez. Outro erro frequente de alguns produtores é o uso exclusivo da calda bordalesa para controle de requeima, sem adoção de outros métodos de controle e/ou outros produtos alternativos.

Uma prática importante para controle de pragas e doenças no tomateiro, e que alguns produtores não praticam, é o controle cultural, que consiste em medidas preventivas ou de controle propriamente dito. Exemplos de controle cultural são: evasão, rotação de culturas, consorciação de culturas, eliminação de restos vegetais, eliminação de plantas hospedeiras e outros.

A evasão, por exemplo, pode ser temporal ou espacial, e consiste em evitar plantar em locais de risco, e com isso quebrar o ciclo de algumas pragas e doenças.

Para evitar esses erros, o produtor deve realizar o monitoramento de pragas corretamente. Quando é adotado o controle biológico, com predadores e parasitoides, deve-se evitar o uso de produtos químicos na lavoura, principalmente daqueles de amplo espectro, pois esses produtos agem sobre os insetos benéficos, reduzindo assim sua ação. Quando utilizar de algum produto químico, optar pelo uso de produtos seletivos.

Utilizar inimigos naturais adaptados às condições ambientais locais, para assim obter sucesso no controle biológico, principalmente para o clássico e o aumentativo, com liberação inundativa sazonal.

Entre os fatores climáticos, um dos principais pontos a se observar é a temperatura. É importante que se conheça a resposta do inimigo natural a diferentes temperaturas e que sejam conhecidas as temperaturas favoráveis e desfavoráveis ao seu desenvolvimento. Para isso, ensaios em temperaturas constantes são úteis para a determinação do período e da taxa de desenvolvimento, além da porcentagem de sobrevivência em diferentes temperaturas.

Face à eventual restrição no uso da calda bordalesa e limitação da disponibilidade de produtos eficientes no controle da requeima em cultivos orgânicos, a integração de práticas de manejo da doença é indispensável.

Dessa forma, é necessário a adoção de outras medidas de controle ou outros produtos alternativos. Além disso, ajustes na concentração e/ou na frequência de aplicação de calda bordalesa podem diminuir os efeitos da fitotoxidez. A alternância de aplicação da calda bordalesa com outros compostos alternativos pode ser estratégia interessante no manejo da requeima em sistemas orgânicos de produção.

Por fim, faz se necessário a adoção de um sistema de controle robusto, que envolva o controle biológico, alternativo e controle cultural. Em tomateiro, o controle cultural é prática indispensável para quebrar o ciclo da praga ou doença.

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