Panorama da produção de uvas de mesa

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Autor

Givago Coutinho
Doutor em Fruticultura e professor efetivo do Centro Universitário de Goiatuba (UniCerrado)
givago_agro@hotmail.com
Fotos: Shutterstock

A viticultura vem se tornando cada vez mais relevante do ponto de vista econômico brasileiro. A produção de uvas constitui uma atividade altamente rentável e que vem ganhando significativa contribuição na fruticultura nacional, inclusive com fins para exportação.

Nos últimos anos é crescente o número de produtores interessados na viticultura, sendo também crescente a extensão das áreas empregadas nos cultivos. A figura 1 mostra a evolução da área agricultável em que a viticultura foi implantada no período de 1988 a 2017.

Figura 1. Área plantada ou destinada à colheita com videira no período de 1988 a 2017.

Fonte: IBGE – Produção Agrícola Municipal.

Em 2019 houve incremento de 0,2% na área cultivada em relação a 2018, saindo de 73.742 para 73.920 ha.

Regiões produtoras

Em relação às principais regiões produtoras, o Sul se destaca e segue na liderança em área plantada, seguido pelas regiões nordeste, sudeste, centro-oeste e norte, respectivamente. Em relação à produção, o ranking continua o mesmo, com dados de 2017, com a região sul na liderança.

Figura 2. Quantidade produzida (ton.) de uva em 2017.

Fonte: IBGE – Produção Agrícola Municipal.

As variedades mais cultivadas para mesa no Brasil são ‘Niágara’, ‘Itália’, ‘Rubi’, ‘Benitaka’ e ‘Brasil’.

Manejo das uvas de mesa

Com relação ao manejo, deve-se atentar ao local de implantação do vinhedo a fim de se evitar possíveis prejuízos futuros. O local deve apresentar temperatura do ar compatível com a exigida pela planta em cada fase de seu ciclo, pois esta apresenta diferentes efeitos em função das diferentes fases do ciclo vegetativo ou de repouso da videira.

Sobre a precipitação, a videira é considerada uma planta grande resistência à seca, sendo importante uma adequada precipitação bem distribuída ao longo do ano. Além disso, no período de brotação das plantas a videira é sensível à disponibilidade de água, sendo extremamente importante que a mesma esteja disponível ao longo dessa fase.

Contudo, chuvas em excesso na primavera podem favorecer o desenvolvimento de algumas doenças fúngicas da parte aérea, além de afetar fases importantes da videira, como a floração e a frutificação, causando baixo vingamento de frutos e desavinho.

Por conseguinte, o baixo índice de umidade do ar é fator desfavorável ao surgimento de doenças. Neste caso, os fungos não obtêm boas condições ao seu desenvolvimento e, dessa forma, pode-se obter cachos com bagas mais saudáveis e sem o uso excessivo de defensivos.

Em relação à radiação solar, a videira é considerada ávida por luz. Assim, seu manejo deve proporcionar uma boa exposição foliar à radiação solar, podendo intensificar também a evolução do teor de açúcar nas bagas, melhorando sua qualidade. Com relação à intensidade de ventos, na época chuvosa estes facilitam a secagem das folhas, prevenindo a incidência de fungos.

Contudo, ventos fortes e constantes podem prejudicar as plantas, pois podem causar queimaduras nas folhas e danos mecânicos nos frutos, além de dificultar a condução das plantas.

2019 x 2020

Recentemente, em 2019, a Embrapa realizou o lançamento de duas novas cultivares de videira a ‘BRS Melodia’, com aptidão para mesa e a ‘BRS Bibiana’, com finalidade para a indústria vinícola.

Segundo a Embrapa, a ‘BRS Melodia’ constitui uma nova opção para o produtor de uva de mesa. Cultivar apirênica (sem sementes), apresenta bagas rosadas e com sabor de mistura de frutas vermelhas, além de média tolerância ao míldio, ao oídio e às podridões de cacho e alta tolerância à antracnose.

De acordo com o manejo adotado, sua produtividade pode alcançar até 25 t.ha-1 em comparação com as cultivares tradicionais, como a Itália.

Já a ‘BRS Bibiana’ constitui uma nova alternativa para elaboração de vinho branco de mesa. Segundo a Embrapa, esta cultivar apresenta cachos soltos, o que ajuda a evitar as podridões.

Outra vantagem apresentada por esta cultivar é sua capacidade para o acúmulo de elevada quantidade de açúcares, mesmo em condições adversas de clima, além de apresentar resistência intermediária ao míldio e ao oídio e ser resistente à podridão ácida e à podridão cinzenta, causada por Botrytis.

Nichos de mercado

Na produção de frutas de qualidade, além das técnicas de manejo e tecnologias inseridas no processo de produção, um fator é preponderante no sucesso da atividade: o conhecimento do mercado a ser atendido, bem como suas particularidades. Para se alcançar um mercado diferenciado, deve-se fazer previamente a pesquisa acerca da identidade do mesmo, ou seja, preferências, exigências, demanda e tudo mais relacionado ao mesmo.

No caso da uva não seria diferente – quanto maior o volume de atributos tecnológicos aplicados ao processo produtivo, maior a tendência de produção de uvas finas de mesa com qualidade visando diferentes nichos de mercado, até mesmo o de alto padrão de exigência, que incluem marca e selo de garantia da procedência, tanto a nível nacional quanto de diferentes importadores.

Atualmente, ocorre a tendência de aumento das exportações de uva de mesa devido aos acordos internacionais de mercado entre o Brasil e países da América do Sul e Europa. Neste sentido, espera-se que haja um aumento expressivo nas exportações das uvas.

Exigências de mercado

Segundo Leão (2006), para uma boa aceitação do mercado, as uvas de mesa devem apresentar determinadas características, além de ter cachos atraentes, que incentivem seu consumo “in natura”. Dentre elas podemos citar o sabor agradável, resistência ao transporte e ao manuseio, período prolongado para conservação pós-colheita, cachos com formato cônico, (mercado externo) e de tamanho médio de 15 a 20 cm e peso superior a 300 gramas e cheios (não compactos).

Com relação às bagas, o mesmo autor ressalta que estas devem apresentar uniformidade e maior dimensão de tamanho, com diâmetro igual ou maior a 18 mm para uvas sem sementes e 24 mm naquelas com sementes, além de adequada aderência ao pedicelo. Devem ser limpas e sem defeitos causados por agentes como insetos, doenças, danos mecânicos ou defensivos agrícolas.

Por fim, a polpa deve ser de boa firmeza, com película e engaço resistentes. Outro aspecto importante na comercialização é a coloração das bagas, que pode variar entre verde, verde-amarelada ou âmbar, vermelha ou preta, de acordo com a cultivar escolhida.