Panorama nacional da produção de abacate

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Autores

Elisamara Caldeira do Nascimento
Pós-doutoranda PPG – Agricultura Tropical – Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
elisamara.caldeira@gmail.com
Glaucio da Cruz Genuncio
Doutor e professor de Fruticultura – UFMT
glauciogenuncio@gmail.com

O abacate, Persea americana Mill, originário do continente americano, foi intitulado inicialmente ahuacalt pelos Maias e Astecas e popularmente conhecido como palto pelos peruanos. Trata-se de uma frutífera subtropical de alto valor nutritivo e com características funcionais, tanto para a nutrição humana quanto para a produção de cosméticos.

Existem relatos da cultura do abacateiro no Brasil desde 1787, porém, a primeira introdução oficial deu-se em 1893, quando quatro árvores provenientes da Guiana Francesa, pertencentes à raça Antilhana, forneceram as primeiras sementes da espécie para o Brasil.

A propagação desta frutífera pelo mundo ocorreu de forma lenta, possivelmente pela facilidade da perda de germinação de suas sementes, bem como sua baixa resistência a adaptações em novos ambientes.

Consumo

Em termos gerais, o consumo de frutas no Brasil é relativamente baixo. Segundo o Instituto Brasileiro de Fruticultura (IBRAF), o consumo per capta é de apenas 57 kg por ano, bem abaixo de países europeus, como Itália (114 kg/ano) e Espanha (120 kg/ano). Em se tratando de abacate, o consumo médio da fruta no País passou de 600 gramas por pessoa ao ano, em 2016, para 900 gramas atualmente, segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores de Abacate (ABPA).

A mudança nos hábitos alimentares globais, marcada por uma procura crescente por alimentos saudáveis, tem pautado a expansão do consumo, produção e das exportações brasileiras de abacate. Nesse contexto, o sucesso mundial da fruta, que no Brasil ainda é muito associada ao consumo em vitaminas e como sobremesa, tem sido facilitado pela proliferação de restaurantes da culinária latina.

Este hábito alimentar brasileiro é uma das explicações para que o volume de abacate consumido no Brasil seja bem menor que os cinco quilos anuais consumidos nos Estados Unidos e os oito quilos por pessoa no México, maior produtor e consumidor global da fruta.

Tendência

O aumento de consumo, produção e exportação de abacates no Brasil acompanha uma tendência puxada pelo México e aprofundado pela China. Segundo dados da FAO, o volume de exportação pelo México passou de 563.500 toneladas, em 2013, para 926.600 toneladas em 2016. E as importações chinesas cresceram 900,7% no mesmo período.

Neste mesmo sentido, as exportações do Brasil passaram de 5.800 toneladas, em 2014, para 7.800 toneladas em 2017, um aumento de 34,9%, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic).

A diferença em relação aos números brasileiros reflete, além de outras coisas, os entraves à exportação gerados pela falta de abertura de novos mercados. Atualmente, praticamente toda a exportação brasileira é destinada à Europa, ficando de fora de mercados importantes, como o americano e o chinês.

No entanto, a expectativa é que este cenário mude e acompanhe o ritmo de crescimento da área plantada no País. O IBGE aponta que houve aumento de 36,12% na área plantada com abacate desde 2001. A produção, por sua vez, apresentou crescimento de 35,92% no período e atingiu 213.000 toneladas no ano passado.

Variedades

O abacateiro é uma planta dicotiledônea, pertence à família das Lauraceae e ao gênero Persea, que é dividido em dois subgêneros: Persea e Eriodaphne. As variedades do subgênero Eriodaphne não são produzidas comercialmente, devido à baixa qualidade de seus frutos e ausência quase total de polpa.

As variedades cultivadas para o consumo humano são classificadas em raças, conforme suas origens e variedades botânicas:

Ü Raça Antilhana: Persea americana, reúne as variedades conhecidas como Comum e Manteiga.

Ü Raça Guatemalense: Persea nubigena, originária das altas regiões da América Central, representada no mercado brasileiro pelas variedades: Prince, Wagner, Linda e Taylor.

Ü Raça Mexicana: Persea americana, variedade drymifolia. Seu centro de origem é o México e a Cordilheira dos Andes.

Polinização

O abacate apresenta o fenômeno de dicogamia protogínica, o que caracteriza a maturação do órgão feminino anterior ao órgão masculino, isso significa que o estigma de cada flor estará livre para recepção dos grãos de pólen antes mesmo que estes sejam liberados pelas anteras da mesma flor. As plantas apresentam hábitos distintos de abertura floral, sendo divididos em dois grupos: A e B.

No grupo A as flores das mesmas variedades se abrem pela manhã em sua forma feminina, receptiva ao grão de pólen, porém, nesse período as anteras permanecem fechadas não liberando o grão de pólen. As flores se fecham por volta do meio-dia e só tornarão a abrir no dia seguinte no período da tarde, apresentando estame maduro e apto à liberação de pólen, no entanto, o estigma não se encontra mais aberto para tal recepção.

O grupo B é caracterizado pela primeira abertura floral no período da tarde, também em sua fase feminina e estigma receptivo, fechando-se no escurecimento do dia e abrindo-se no amanhecer do dia seguinte, dessa vez em sua forma masculina, liberando o pólen de suas anteras, período em que já não há recepção pelo estigma.

Considerando a diversificação cronológica da biologia floral do abacate, pode-se afirmar que um pomar constituído apenas por uma das variedades de um grupo será estéril. Com o objetivo de polinização e fecundação cruzada, os pomares devem ser constituídos pela intercalação de cultivares do grupo A e B.

Híbridos

Cultivares de abacate são, em geral, híbridos entre as espécies ou raças mexicana, antilhana ou guatemalense. As variedades existentes apresentam frutos com as mais variadas formas, tamanhos e pesos, assim como diferentes proporções de casca, polpa e caroço.

9 Cultivares: mercado interno – Pollock (B), Simmonds (A), Barbieri (limeirão ou geada (B) – maturação precoce; Quintal (B), Fortuna (A) – meia estação; Ouro Verde (A), Breda (B), Reis (B), e Margarida (B) – maturação tardia. Mercado externo e/ou industrialização – Tatuí (B), Fuerte (B), Hass (A), Rincon (A) e Nabal (B).

Cultivo

O abacate é cultivado em todas as regiões do Brasil, porém, a maior parte da produção comercial está concentrada nas regiões sudeste e sul do País. Os maiores Estados produtores na região sudeste são SP e MG, e na região Sul o Estado do Paraná. Dentre as cultivares mais produzidas em São Paulo estão a ‘Fortuna’, ‘Geada’, ‘Quintal’ e ‘Margarida’.

A denominação ‘avocado’ tem sido utilizada no Brasil para identificar as cultivares de abacate ‘Hass’ e ‘Fuerte’, que são valorizadas pelo seu tamanho diferenciado e alto teor de lipídeos, apesar de suas reduzidas dimensões.

Estas cultivares têm grande aceitação do mercado consumidor pelo tamanho e também por terem menor teor de água em sua composição, o que representa um fruto com características ideias para pratos culinários salgados. Além disso, enquanto os abacates tropicais são produzidos em temperaturas mais altas, o avocado prefere climas mais amenos.

A variedade ‘Hass’ possui casca áspera e formato arredondado. Quando está madura, sua casca apresenta uma coloração arroxeada. Já a variedade ‘Fuerte’ possui casca verde brilhante e lisa, com formato alongado.

A cultivar ‘Hass’ é a mais valorizada no mundo. O fruto possui alta concentração de lipídeos e pode pesar entre 149 e 300 gramas Essas cultivares são reconhecidas pelos altos níveis de óleo e este fator tem uma forte influência na conservação do sabor.

A Jaguacy, empresa com sede em Bauru (SP), lidera no País a produção do abacate do tipo Hass, conhecido popularmente como avocado, e produz cerca de 70% de toda a fruta exportada atualmente.

Outra cultivar que tem demonstrado potencial para produção é a ‘Geada’, que possui fruto piriforme, podendo ser ovalado, sem “pescoço”, com coloração verde mais claro e sua polpa é amarela com a semente aderente.

Seu conteúdo de óleo é bastante baixo, por volta de 3,5% e a maturação bastante precoce. Esta maturação permite a entrada de frutas no mercado antes da safra, preços de comercialização melhores e garantia de produto para o consumidor por mais tempo.

Enxertia

O cultivo comercial de abacates é realizado por meio de mudas enxertadas com intenção de encurtar o período vegetativo da planta. A técnica da enxertia em abacateiros deve ser realizada para garantir a produção comercial e pode ser realizada por vários métodos, entretanto, o mais utilizado para produção de mudas de abacate é conhecido como garfagem, união do porta-enxerto com o ramo enxertado por uma fenda.

 O espaçamento entre plantas é um fato importante que deve ser observado na produção de abacates. Usualmente, é utilizado o espaçamento de plantio de 10 x 10 m e em cultivos mais adensados utiliza-se o espaçamento de 2,5 x 2,5 m, porém, deve-se atentar para o manejo da poda que, nesses casos, deve ser realizado cuidadosamente, evitando o desenvolvimento de folhas e galhos desnecessários.

Além disso, deve-se garantir a circulação de vento dentro da copa das árvores do abacateiro para diminuir o excesso de umidade, que geralmente favorece o desenvolvimento de doenças.

Condições para a produção

O abacateiro se desenvolve em temperaturas por volta de 20ºC, porém, suporta variações, de acordo com a cultivar. Em relação à pluviosidade, as exigências da espécie não são muito altas – ocupa uma faixa mediana de 1.200 mm distribuídas durante todo o ano.

Entretanto, perdem as folhas em grandes períodos de estiagem e podem apresentar problemas quando a oferta de água se dá em curto espaço de tempo, principalmente se este fato acontecer nos períodos de floração ou frutificação, causando perdas na produção do fruto.

Para um bom cultivo dessa planta o solo deve ser leve, aerado e possuir uma capacidade de retenção de água moderada. O excesso de água, ou baixa aeração do solo, podem acarretar na morte da planta.

Existem ainda outros fatores bióticos e abióticos que devem ser observados para que se obtenha uma maior e melhor produtividade no cultivo de abacate, como os agentes responsáveis pela polinização das plantas. No caso do abacateiro, sua polinização é realizada, na maioria, por abelhas.

Entretanto, as flores do abacateiro não são atrativas. Dessa forma, é importante manter afastado do local de cultivo outras flores mais atraentes que a do abacateiro, a fim de evitar a competição entre as flores na fase de polinização do fruto. O vento e o excesso de luminosidade são outros fatores que devem ser observados, pois em fase inicial dos frutos pode ocasionar sua queda, além da desfolha das plantas, provocando também má formação, queimaduras e aborto de folhas e frutos.

Adubação

A adubação de abacateiros deve sempre ser baseada na análise de solo. É indicada a aplicação parcelada de nitrogênio (N), superfosfato simples (P2O5) e potássio (K). O abacateiro se desenvolve melhor em solos com pH entre 5,0 e 6,5, portanto, é importante a realização da correção do solo sempre que necessário.

O manejo da poda em abacates é fundamental para a obtenção de uma produção de qualidade e maior produtividade, devendo ser realizada com a intenção de diminuir a altura da planta e induzir a produção periférica dos abacates. Deve ser realizada a retirada dos frutos com menor desenvolvimento, permanecendo apenas três frutos por ramo.

Fitossanidade

A abacaticultura pode ser acometida por algumas pragas (lagartas, besouros, ácaros, broca do fruto, etc.) e doenças (podridão das raízes, antracnose, verrugose, etc.) durante o seu desenvolvimento que, em geral, podem ser controladas por métodos culturais ou pela aplicação de produtos comerciais disponíveis no mercado, recomendados por profissionais.

Com a realização de um bom manejo no cultivo do abacate é possível obter uma produção de até 800 frutas por planta. A colheita do abacate deve ser realizada com cuidado para evitar ferimentos, o que tornaria o fruto inviável à comercialização, além de ser porta de entrada para doenças.

Colheita

A época de colheita varia de acordo com a região e variedade cultivada. Para a melhoria e aumento da vida útil pós-colheita da fruta, pode ser realizado um tratamento de imersão em solução contendo fungicida.

Atualmente, o cultivo de abacate se mostra uma alternativa ao pequeno produtor, pois é uma cultura que requer poucos tratos culturais, o que demanda também mão de obra reduzida, e possui um mercado promissor e em desenvolvimento.

Contudo, o Brasil só poderá se tornar referência em produção e exportação de abacates com investimentos em marketing interno e externo, gestão da qualidade da produção, investimentos em pós-colheita, mitigação de riscos de produção, além de melhoria na logística e infraestrutura de toda a cadeia de produção de frutas no País.


Curiosidades

Há cerca de dois anos o avocado (variedade Hass) vem sendo avidamente consumido com torradas em cafés hipsters e exibido em contas de influenciadores digitais pelos quatro cantos do mundo. Este aumento de consumo, associado a dois anos de baixa produtividade dos pomares, resultou em aumento dos preços e menor disponibilidade do produto.

Até mesmo o mercado brasileiro, de modo geral alheio ao sucesso da fruta, tem sofrido com os reflexos da crise do avocado.

No México o problema é social. No país, que produz quase um terço de todo o abacate consumido no mundo, o fruto ganhou o nome de “ouro verde”. Com clima e características perfeitas para o crescimento dos abacateiros, a produção se tornou um negócio extremamente lucrativo. Para se ter ideia, cartéis de droga começaram a fazer parte da concorrência, abrindo novas áreas para produção de abacate em meio à floresta.

No Chile, com o aumento da demanda externa, produtores também começaram a utilizar formas criminosas para manter o fluxo de produção em alta. Na província de Petorca, na região de Valparaíso, o governo encontrou diversas tubulações subterrâneas projetadas para desviar o fluxo de rios e irrigar plantações de avocado.

As condições climáticas do Chile exigem mais água para a produção das frutas e o uso ilegal da água para irrigação já está causando uma grave crise de abastecimento para a população.

No Brasil, apesar de o consumo desta variedade ser pequeno, muitos restaurantes que têm a guaca mole como carro-chefe também estão tendo problemas com abastecimento e precisaram substituir o cardápio ou misturar polpa de abacates tropicais ao avocado, que não é o ideal.

Portanto, este é um mercado em expansão e ainda não possuímos produção relevante para exportar. Neste caso, não atendemos nem mesmo o mercado interno, já que em alguns momentos importamos abacate Hass (avocado) do Chile.