Panorama nacional da produção de frutas vermelhas

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Autores

Ivan Marcos Rangel Junior
juniorrangel2@hotmail.com
Altino Junior Mendes Oliveira
altinojrmendes@gmail.com
Engenheiros agrônomos e doutorandos em Agronomia/Fitotecnia – Universidade Federal de Lavras (UFLA)
Filipe Almendagna Rodrigues
Engenheiro agrônomo e doutor em Agronomia/Fitotecnia
filipealmendagna@yahoo.com.br

Crédito Shutterstock

Nos últimos anos, a produção de frutas vermelhas no Brasil vem ganhando espaço entre pequenos e médios produtores devido ao seu alto valor de mercado, porém, a obtenção de dados oficiais sobre a área plantada acaba sendo escassa. Ainda assim, estima-se que as frutas vermelhas ocupam uma área de aproximadamente 4.200 hectares quando se considera a produção nacional dessas frutas. O morango, por sua popularidade, acaba sendo o protagonista, ocupando 83% dessa área, seguido da amora-preta e do mirtilo.

Por serem plantas de clima temperado e assim exigentes em temperaturas baixas, a produção dessas frutas tendem a concentrar-se em regiões cujo clima seja favorável ao seu desenvolvimento e frutificação. Atualmente, os principais produtores de frutas vermelhas são Rio Grande do Sul, São Paulo, região sul do Estado de Minas Gerais, entre outros.

Cultivares

As cultivares mais utilizadas pelos produtores depende de uma série de variáveis e das particularidades da região onde cada uma está inserida. Na produção nacional de morangos existem cultivares de dias curtos, cujo florescimento ocorre nos meses de menor duração de luz natural (período de inverno no Brasil), como a Oso Grande, Camarosa, Camino Real, Ventana, Festival e Palomar, e também cultivares de dias neutros, como a Aromas, Diamante, Albion, Portola, San Andreas e Monterey.

Já em relação ao mirtilo, as cultivares são escolhidas de acordo com a necessidade de frio apresentada pela cultivar e as características climáticas onde será implantado o pomar, apresentando plantas de alta (650 a 850 horas), média (200 a 600 horas) e baixa (menos de 200 horas) necessidade de frio, a exemplo da Northern highbush, Southern highbush e Rabbiteye.

Entre as cultivares de Framboesa mais cultivadas no Brasil destacam-se a Batum, Heritage, Golden Bliss, Polana e Autumn Bliss.

Aspectos produtivos

Quando se pensa na produção de frutas vermelhas, é fundamental observar alguns aspectos relativos ao manejo da cultura para obter sucesso na atividade. Inicialmente a escolha do terreno é considerado fator-chave para a implantação da cultura, devendo-se optar por terrenos planos, que apresentem boa ventilação e insolação.

O preparo do solo é outro fator de suma importância – é ideal que a produção de frutas vermelhas seja feita em solos de boa fertilidade, bem drenados e com pH entre 5,5 e 6,5, de forma generalizada. Assim, o manejo deve ser feito de acordo com as exigências de cada cultura e suas particularidades.

Lucro é o maior atrativo

As frutas vermelhas vêm atraindo cada vez mais produtores por causa de sua rentabilidade. Dependendo da cultura, a produtividade média pode chegar a 60 toneladas por hectare, como é o caso do morango, enquanto a framboesa e o mirtilo podem atingir produtividade média de cinco e nove toneladas por hectare, respectivamente.

Além disso, as frutas vermelhas são altamente apreciadas devido às suas propriedades nutracêuticas. Ainda, quando processadas originam geleias, sorvetes, doces, entre diversos outros segmentos industriais, como cosméticos e usos farmacêuticos.

A escassez de grandes produtores e a baixa oferta desse tipo de fruta no mercado acabam atribuindo alto valor a elas, sendo uma atividade promissora.

As características como cor, sabor, aroma e composição nutricional fazem com que as frutas vermelhas atraiam de forma positiva o mercado consumidor, além da versatilidade apresentada pelos frutos na produção dos mais variados produtos.

Retorno certo

O tempo de retorno do investimento feito na implantação e produção de frutas vermelhas pode variar de oito meses a 2,5 anos. No caso do morango, o tempo de retorno do investimento gira em torno de oito meses a partir do plantio, quando manejado adequadamente.

Já para o mirtilo e a framboesa esse tempo se estende para dois anos, por isso a implantação do pomar deve ser bem planejada, para não haver percalços nesse período.

Cultivares de framboesas adaptadas ao Brasil

As principais cultivares de framboesas adaptadas ao Brasil são a Autumn Bliss e Heritage, ambas caracterizadas por apresentarem florescimento em meados de setembro e colheita iniciando em outubro, sendo possível haver produção até final de maio, com produtividade média de 3 a 3,5 toneladas por hectare.

Assim, devido ao alto valor de mercado da cultura, sua rentabilidade pode chegar a R$ 140 mil por hectare. A escolha da cultivar de framboesa a ser plantada é de suma importância visando a qualidade e o rendimento do pomar a ser formado, e deve ser bem alinhada com o local de implantação do pomar, visando sempre fatores climáticos, de solo, pragas e doenças.

Considerações como necessidade de frio exigido pela cultura devem ser avaliados em conjunto com a região de plantio e sua característica climática.

Adaptação

A cultivar de framboesa Autumn Bliss tem se adaptado bem aos fatores climáticos da região sul do Estado de Minas Gerais, enquanto a Heritage tem sido produzida tanto no Estado de São Paulo, nos municípios de Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí, como no Sul de Minas e também no Rio Grande do Sul, na região de Vacarias.

Na agricultura, de maneira geral, os desafios no campo são inúmeros, mas as frutas vermelhas enfrentam, além dos problemas comuns, a falta de produtos registrados para o combate de pragas e doenças que assolam essas culturas. Assim, torna-se ainda mais importante a escolha de cultivares adequadas a cada situação.

Os solos ideais para esse cultivo são profundos, de textura média, bem drenados e com pH em torno de 6. O espaçamento varia de 0,3 a 0,7 m entre plantas e 2,0 a 3,0 m entrelinhas. O plantio deve ser realizado em solo úmido e entre inverno e primavera, ou a qualquer época, desde que haja irrigação. As plantas devem ser tutoradas, com mourões de dupla linha de arame, o que irá garantir o suporte das plantas.

O ponto de colheita é indicado pela coloração dos frutos, sendo necessário realizar a colheita quando a coloração está avermelhada, uma vez que vermelho intenso indica que esse fruto já passou do ponto e a perda de firmeza causará danos na pós-colheita.

Exigências climáticas e nutricionais da framboesa

Devido a sua origem em regiões temperadas, a produtividade da framboesa está ligada ao período de frio ao qual a planta é exposta. Por isso as regiões mais indicadas para a produção de framboesas de qualidade são as que apresentam verões não rigorosos e invernos intensos, visto a planta necessitar de 600 a 800 horas de frio abaixo de 7,2°C para florescer, existindo cultivares de até 1.000 horas.

Toda adubação deve ser realizada baseada na interpretação da análise de solo da área a ser implantado o pomar. No caso da framboesa, deve-se fazer uma adubação de pré-plantio utilizando fontes de fósforo e potássio para correção de acordo com o resultado da análise de solo.

Estercos de curral ou de aves também podem ser utilizados para melhoria da fertilidade do solo que irá receber a cultura. A manutenção deve ser realizada no período anterior à brotação das plantas e também após a colheita.

A adubação foliar com fosfito de potássio, em framboesa, pode aumentar a tolerância das plantas a doenças que irão impactar diretamente na produtividade da cultura. É importante salientar, também, que a adubação de cálcio e boro tende a conferir maior firmeza ao fruto, melhorando sua qualidade e consistência, e ajudando no processo de colheita e transporte dos frutos.

Durante o preparo do solo para a implantação do pomar, a calagem deve ser feita de modo a elevar a saturação por bases a 70%. Na adubação de plantio deve-se aplicar de 40 a 90 kg por hectare de uma fonte fosfatada e 15 toneladas de esterco de curral curtido.

Já na adubação de produção são indicados valores máximos de 100 kg de N, 90 kg de P, 120 kg de K e 100 kg de Mg por hectare, parcelados em três aplicações espaçadas de um mês entre cada, sempre visando os resultados da análise de solo.

Práticas indicadas para as doenças da framboesa

Até o momento, não existem produtos registados no Brasil para a cultura da framboesa, sendo necessário lançar mão de práticas que visem controlar ou minimizar os efeitos das doenças nas plantas.

Dentre essas práticas estão as utilizadas pela agricultura orgânica, como o uso de calda bordalesa, que é um fungicida pouco tóxico composto de sulfato de cobre e cal virgem. Outro ponto importante, nesse aspecto, é a utilização de mudas sadias e livres de patógenos, plantas resistentes e evitar práticas que possam favorecer o desenvolvimento de patógenos, como o molhamento da parte aérea das plantas pela irrigação, enquanto que galhos com sintomas de doenças devem ser removidos da planta.

Lembrando que os aminoácidos estimulam a coloração das frutas vermelhas.

Cultivo orgânico de frutas vermelhas

Embora as frutas vermelhas já tenham um alto valor de mercado, as frutas produzidas em sistema orgânico acabam se tornando ainda mais caras. Apesar dos altos valores praticados na comercialização, os desafios no campo são grandes, segundo levantamento feito pelo SEBRAE com produtores de orgânicos em geral. Os altos preços, a falta de regularidade na produção e a falta de informação são os principais problemas enfrentados pelos produtores que optam pelo manejo orgânico.

De forma generalizada, as diferenças entre o manejo convencional e o orgânico estão na utilização de produtos químicos para adubação e controle de doenças e pragas. Como ainda não há produtos registrados para o controle de pragas e doenças das culturas que compõem as chamadas frutas vermelhas, em muitos casos os produtores convencionais acabam optando por produtos utilizados na agricultura orgânica como medida contra esses estresses, a exemplo da calda bordalesa para doenças fúngicas.

Para o melhor rendimento e desempenho das plantas, estratégias que visam melhorar a fertilidade do solo devem ser traçadas pelo agricultor que deseja conduzir seu pomar no manejo orgânico, como a adição de matéria orgânica no solo, comumente feita com esterco de curral curtido, cama de ave, produtos de compostagens, etc.

Além disso, todo o manejo da produção deve estar de acordo com as normas da agência certificadora de produtos orgânicos e a legislação vigente para esse fim.

Um estímulo para as frutas vermelhas

O uso dos bioestimulantes vem aumentando entre os agricultores nas mais variadas culturas e impulsionado as indústrias químicas. Eles são compostos orgânicos capazes de atuar em diversos processos biológicos das plantas, dentre os quais destaca-se a otimização na nutrição da planta e a produção de precursores de hormônios vegetais endógenos.

Os bioestimulantes auxiliam no crescimento e desenvolvimento das plantas, uma vez que atuam na divisão e alongamento celular, sendo uma alternativa de grande impacto no manejo das plantas.

Entretanto, o uso desses produtos deve ser bem planejado, uma vez que a eficiência pode variar de uma cultura para a outra e também entre as espécies, visto a aplicação ocorrer em diferentes estágios de desenvolvimento. Além disso, a relação custo/benefício é outro fator a ser considerado quando se pensa no uso dos bioestimulantes.

Morango orgânico em calhas recicláveis

A agricultura vem se inovando a cada dia na busca de soluções aos frequentes entraves. Neste sentido, se faz necessário a adaptação e a criatividade dos agricultores.

O cultivo de morango nas calhas recicláveis pode ser uma técnica promissora, sobretudo na agricultura orgânica, pois, além de usar materiais que antes teriam como destino o descarte como lixo, tende a facilitar o manejo da cultura.

O sistema permite o melhor uso da água e controle de pragas e doenças, uma vez que as calhas ficam suspensas e, não menos importante, melhoram a saúde e bem-estar dos trabalhadores, pois no cultivo convencional se tende a trabalhar em posição incômoda, visto o porte das plantas e sua localização no solo.

Diante disso, o uso das calhas recicláveis é uma tendência que pode viabilizar o cultivo de morango orgânico, agregando valor e reduzindo os custos de produção.