Pesticidas e doenças das plantas

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Jeisiane AndradeMestranda em Agronomia – ESALQ/USP

Paulo R. C. CastroProfessor Titular ESALQ/USPprcastro@usp.br

Milho – Fotos: Shutterstock

Pesticidas, agroquímicos, defensivos agrícolas ou agrotóxicos, como é atualmente nomeado pela Legislação Brasileira, são produtos e agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, utilizados nos setores de produção, armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, pastagens, proteção de florestas, nativas ou plantadas, e de outros ecossistemas e ambientes urbanos, hídricos e industriais. Eles visam alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação dos danos de seres vivos considerados nocivos. Também são considerados agrotóxicos as substâncias e produtos empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores de crescimento (MAPA, 2019).

Para a agricultura brasileira, além dos métodos de manejo preventivo, em algumas situações se faz necessário o uso de métodos curativos, como agrotóxicos, em virtude do clima tropical que favorece a proliferação de pragas e doenças, as quais podem causar grandes prejuízos às lavouras, podendo até inviabilizar a colheita do produto final.

Visto de perto

O uso dessas moléculas é supervisionado por engenheiros agrônomos de forma a minimizar as perdas na cultura e ao mesmo tempo evitar impactos ao meio ambiente e à saúde humana.

Em contrapartida, muitos produtos de ação sistêmica usados na agricultura para controle de pragas e doenças interferem diretamente no crescimento e no sistema bioquímico das plantas. Por exemplo, há relatos na literatura de que o inseticida diosulfoton já foi detectado em cevada, milho, feijão, aveia, ervilha, arroz, centeio, soja e trigo.

Pesquisas revelaram que o Diosulfoton aumentou a produção de trigo forrageiro em alguns estudos; em outros, aumentou consistentemente a produção de forragem e diminuiu a produção de grãos. Ainda que informações relacionadas às enzimas das plantas e às ligações de alta energia não fossem demonstradas, essa premissa foi declarada.

Nesse sentido, abordando outros componentes em experimentos com maçã e cereja, a aplicação de enxofre com cal suprimiu a fotossíntese líquida (Pn). A aplicação de enxofre flotado reduziu o conteúdo de clorofila foliar, o tamanho do fruto e causou coloração inadequada dos frutos de maçãs. A calda bordalesa suprimiu a parte aérea e diminuiu temporariamente a PN.

O caso dos hormônios

Por muitos anos a discussão sobre o etileno esteve em ascensão, no sentido de conscientizar as pessoas de que ele necessita ser considerado um hormônio vegetal endógeno, que está intimamente ligado à regulação da maturação e do desenvolvimento vegetal.

Considerando para a agricultura, seu uso prático para o crescimento de plantas é restrito, por ser um gás relativamente insolúvel. Todavia, para transpor essa barreira de uso, empresas privadas sintetizaram e disponibilizaram no mercado o ácido 2-cloroetilfosfônico (ethephon), ou uma mistura do ácido e seus ésteres e anidrido, nomeado Ethrel. Comercializado na fração líquida, a pulverização desse produto libera etileno diretamente para a planta quando o pH da solução é elevado, como resultado do contato com o tecido vegetal.

Ao ser utilizado em pesquisas, observou-se que, de acordo com a concentração de Ethrel pulverizada sobre as plantas e o momento de aplicação (pré e pós-tratamentos), a quebra de dormência e a brotação das plantas foram influenciadas. Os resultados mostraram que em condições de armazenamento com altas temperaturas ou por apenas um curto período a 5°C, a germinação do gladíolo acontecia de forma precoce quando usado na concentração de 1.000 ppm, porém, quanto mais fria fosse a condição do armazenamento, menor era o efeito do Ethrel.

Já se a condição fosse a seguinte: tubérculos tratados com concentração de Ethrel mais elevada, comparada à dosagem anterior, ocorria um atraso na germinação. Entretanto, para análises experimentais em pós-colheita os resultados não sofreram interferência com o uso do biorregulador.

Gladíolos tratados com ethephon tiveram sua brotação dos tubérculos aumentada, quando armazenados a 30°C, e também houve um aumento na proporção de tubérculos produzidos. Contudo, observou-se sintomas típicos da podridão de Fusarium, estimulando o crescimento do fungo interno latente.

Resultados

Quando se adicionou ethephon aos fungicidas testados, verificou-se que a eficácia de controle sobre F. oxysporum foi aumentada. Além disso, o uso de ethephon aumentou a permeabilidade dos tubérculos ao benzoato de metiletil mercúrio, levando-se à conclusão de que o biorregulador melhora a eficiência desse fungicida e provavelmente de outros fungicidas, devido à ação de facilitar a penetração da molécula nos tubérculos de gladíolo.

Quando armazenados a 10°C, os tubérculos tratados com ethephon foram mais acometidos pelo Fusarium do que quando armazenados a 30°C. Presumivelmente, isso acontece em função do estado mais profundo de dormência a 30°C, o que resulta em menos nutrientes disponíveis para o fungo.

Em outro experimento, considerando a cultura de milho, quando submetido à aplicação de ethephon, houve aumento na granação do milho, enquanto tratamentos combinados de ethephon e ausência do fungicida aumentaram a podridão dos grãos, o que provavelmente se deve a alterações na permeabilidade do tecido, permitindo um crescimento mais vigoroso dos microrganismos.    

Mais experimentos

Adicionalmente, pesquisas na Estação de Experimentação Agrícola de Delaware (EUA) o uso de óleo em pulverização, ceras ou outros aditivos com uma aplicação de cobre, fizeram com que as plantas aparentassem uma cor verde escura e menor altura. Isso ocorria quando as plantas eram submetidas a repetidas pulverizações de cobre, ou onde certos aditivos eram usados para melhorar o desempenho bactericida das aplicações.

Em síntese, se faz necessário acompanhar os resultados de experimentos conduzidos pela comunidade acadêmica, para agregar resultados benéficos à prática,  de modo a combinar métodos preventivos e ferramentas curativas, como os agroquímicos, de forma segura, por meio de uma análise prévia criteriosa das condições sanitárias da lavoura para um manejo eficiente que atenda às necessidades da cultura e alcance a satisfação do produtor rural.

Para tanto, é essencial que as lavouras sejam monitoradas e as aplicações de fitoquímicos sejam gerenciadas por um engenheiro agrônomo.